“Pro multis”, e a desobediência dos que se dizem obedientes

Um dos frutos mais danosos do Concílio Vaticano II foi a teoria da salvação universal. Essa interpretação absurda foi facilitada por um dos textos mais ambíguos e desastrosos do malfadado Concílio:

“Por isso proclamamos a vocação altíssima do homem e afirmamos existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a essa vocação.” (Gaudium et Spes, n. 3)

Se o homem possuísse realmente uma “semente divina” dentro dele, ele seria uma parte de Deus. E como uma parte de Deus não pode ir para o inferno, nenhum homem para lá iria. Grosso modo, seria essa a teoria. Mas o tema da presença de Deus na alma do justo, em oposição à semente divina presente em todos os homens, é bem mais complexo e merece um artigo exclusivo.

Neste artigo, quero chamar a atenção apenas para a tradução da Missa Nova. Como se já não bastassem os seus defeitos denunciados pelo Cardeal Ottaviani, a sua tradução para o vernáculo ampliou muitíssimo a ambigüidade e as contradições do texto em relação à doutrina que a Igreja sempre professou. Por exemplo, durante a consagração do vinho, o termo “pro multis“, do original em latim, foi traduzido como “por todos”, em vez de “por muitos”. Assim, tem-se a impressão de que o Sacrifício de Cristo é aproveitado para a salvação de todos os homens. Em potencial, realmente ele é, Mas, de fato, nem todos os homens o aproveitam, porque Deus não obriga os homens a aceitá-Lo compulsoriamente, mas deixa aos homens a liberdade de colher ou não os frutos do Santo Sacrifício do Calvário.

O Catecismo Romano expressa a doutrina católica de forma tão clara e inequívoca, que parece até ter sido escrita para desfazer a confusão provocada pelos ímpios tradutores da missa. Na realidade, o Catecismo Romano foi escrito quatro séculos antes, e os tradutores, se tivessem a mínima intenção de se manterem fiéis à doutrina católica, não teriam desculpa alguma para cometer o erro gravíssimo que cometeram. Eis o que nos diz o maior Catecismo da Igreja (os destaques são meus::

De fato, se considerarmos sua virtude, devemos reconhecer que o Salvador derramou Seu Sangue pela salvação de todos os homens. Se atendermos, porém, ao fruto real que os homens dele auferem, não nos custa compreender que sua eficácia se não estende a todos, mas só a “muitos” homens.

Dizendo, pois, “por vós”, Nosso Senhor tinha em vista, quer as pessoas presentes, quer os eleitos dentre os Judeus, como o eram os Discípulos a quem falava, com exceção de Judas.

No entanto, ao acrescentar “por muitos”, queria aludir aos outros eleitos, fossem eles Judeus ou gentios. Houve, pois, muito acerto em não se dizer “por todos”, visto que o texto só alude aos frutos da Paixão, e esta sortiu efeito salutar unicamente para os escolhidos.

Tal é o sentido a que se referem aquelas palavras do Apóstolo: “Cristo imolou-Se uma só vez, para remover totalmente os pecados de muitos” (Hb 2,28); e as que disse Nosso Senhor no Evangelho de São João: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por estes que Vós Me destes, porque eles são Vossos.” (Jo 17,9)

Catecismo Romano, Parte II, Capítulo IV, pag. 269-270

Apesar da clareza da doutrina católica a esse respeito, os tradutores da missa introduziram um sentido que não existe no original, que afronta os ensinamentos da Igreja, como se pode constatar acima, e que induz ao erro da salvação universal.

Foi por conta desse erro de tradução gravíssimo que o Santo Padre Bento XVI determinou que fossem alteradas, no mundo todo, as palavras da consagração, em todas as traduções vernáculas, para que elas correspondessem ao “pro multis” do original em latim.

Nessa época eu ainda assistia à missa nova, e o padre (prefiro não mencionar seu nome para evitar perseguições) que sempre celebrava a missa foi muito rápido em obedecer ao Papa. Apesar de ter sido concedido um prazo de dois anos, não há razão para não se cumprir a ordem do Papa desde que se tome conhecimento da mesma, como o padre estava fazendo. No entanto, depois de duas ou três semanas de tradução correta, o padre voltou a dizer “para todos”. Ora, o que podemos concluir? Quem pode ter obrigado o padre a desobedecer o Papa? Não preciso dizer quem foi, mas podemos facilmente concluir quem poderia ter dado tal ordem ao padre (em espírito de colegialidade, outra diabólica invenção do Concílio Vaticano II). Esse foi um dos fatos que mais me decepcionaram (dentre muitos outros) e que me mostrou que eu não me encontrava “entre amigos” no meio dos conciliares.

Depois, vêm os modernistas dizendo que são os católicos tradicionais que não obedecem ao Papa. Nós sim, obedecemos a tudo o que é legitimamente católico, negando obediência somente àquilo que é frontalmente contrário à Fé. Os modernistas, por outro lado, apenas fingem obedecer ao Papa, mas fazem de tudo para desobedecê-lo.

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Um Comentário Leave a comment.

  1. Não conhecia esse trecho do Catecismo Romano. Claríssimo e objetivo. O que nos dá 2 alternativas: ou quem alterou a tradução não conhecia esse texto (seria uma lamentável ignorância) ou agiu de má-fé. Por isso é que digo, com todo o respeito que o Bispo de Roma merece, é impossível ver “continuidade” nisso tudo. Percebe-se ruptura, isso sim.
    Quanto à obediência não é preciso dizer nada mais. Esses prelados obedecem ao Papa e estão em comunhão plena com ele? Óbvio que não. Então por que acusam a Fraternidade?
    “Deixem fazer a experiência da Tradição!”


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