O brilhante apologeta católico, Padre Leonel Franca, SJ, enquanto argumentava que a existência de maus católicos não destrói a santidade da Igreja, escrevia estas palavras (os destaques são nossos):
Seus membros [da Igreja] não foram nem são todos santos: são homens. Desdobrai as páginas da sua história. Podereis apontar épocas funestas em que os vícios do mundo contaminaram largamente as suas fileiras; podereis indicar mosteiros ou instituições religiosas que, esquecidas da perfeição evangélica, decaíram ao nível das paixões vulgares; podereis numerar sacerdotes ou bispos que mancharam o santuário com o exemplo de uma vida desregrada; podereis até contar (são raros!) Ponfífices supremos que escandalizaram com os desmandos a cátedra apostólica, onde luziram as virtudes de Leão Magno, Gregório VII e Pio V. Cristo o havia profetizado. Na seara por Ele plantada, ao lado do trigo havia de crescer o joio; na pesca divina das almas, entre as malhas da rede, se haviam de encontrar peixes bons e maus. A figueira estéril cresceria ao lado da árvore frutífera, as virgens loucas se irmanariam com as prudentes, Judas maquinaria o deicídio no colégio apostólico. São estas as taras de uma sociedade divina na sua instituição mas humana nos seus membros.
Ao lado, porém, destas obscuridades que formam a sombra do quadro, que luzes, que resplendores sobre-humanos! Enumerai em vinte séculos de civilização os grandes heróis da virtude, os grandes bemfeitores da humanidade, as grandes instituições que deram ao mundo o mais belo espetáculo da abnegação, do sacrifício, do zelo e do amor: são frutos sazonados da seiva vivificadora da grande árvore católica. A tradição do heroísmo nunca se extinguiu na raça dos seus filhos. A chama da caridade nunca se apagou no seu seio. As árduas veredas da perfeição envangélica nunca deixaram de ser trilhadas pelas legiões dos seus soldados.
FRANCA, Pe Leonel; A Igreja, a Reforma e a Civilização; Ed Civilização Brasileira; Rio de Janeiro; 4 edição; 1934; pag 420
Padre Leonel Franca escreveu estas linhas, sobre os maus clérigos e, inclusive, sobre os maus papas, no mesmo livro em que dedicou várias páginas a defender a infalibilidade papal, defesa esta, aliás, feita de forma magistral e incontestável. Contradição? Invenção de “rad-trad“? De forma alguma! Que o papa é infalível em suas declarações ex-cathedra mas não é inerrante enquanto homem, isto não é questão disputada, senão ponto pacífico da doutrina católica. Tanto que o reverendo padre nem perdeu tempo justificando o que disse. A história eclesiástica o demonstra insofismavelmente.
Talvez, se ele vivesse depois do Vaticano II, neste ambiente em que os “católicos” liberais buscam de todas as maneiras alguma autoridade que corrobore suas idéias, o padre precisaria combater também neste front. Precisaria explicar que não é à sombra de um mau clérgio que se deve procurar abrigo, mas sim àquela da Santa Doutrina ensinada pela Igreja. Mas, como o livro foi escrito na década de 1930, não houve necessidade de perder tempo com o óbvio negado nestes nossos dias de apostasia. Naqueles tempos, apesar de já existirem os modernistas, eles ainda eram oficialmente os “foras da lei”, e não a “autoridade”.
Hoje, há quem queira se escorar em qualquer autoridade episcopal dizendo: “o bispo está do nosso lado, então…”. Esquecem-se de que houve bispos arianos, cuja seita foi como que uma “igreja” paralela. Esquecem-se de Miguel Cerulário, cismático que separou de Roma a igreja oriental, e que era não somente bispo mas até mesmo patriarca de Constantinopla. Os exemplos poderiam se multiplicar facilmente. Estes que bradam “habemus episcopum! igitur…“, não se dão ao trabalho de verificar se a doutrina do tal bispo é realmente a católica ou não. Como muito bem ensinou Padre Calderón, em seu livro ‘A candeia debaixo do alqueire’, este é o verdadeiro maquiavelismo que hoje toma conta da ala progressista: já não é o conhecimento da doutrina católica que determina o comportamento, mas sim as atitudes, por mais desregradas que sejam, é que moldam uma sombra de doutrina que lhes sirva de amparo “legal”.
O que os liberais fingem não entender é que existe, nos seres humanos, uma diferença entre o “dever ser” e o “ser de fato”. Os clérigos devem ser os maiores modelos de virtude cristã, não há dúvidas. Há, no entanto, alguns que não o são (e muitos, nos tempos de crise). Isto não abala nossa fé em Deus, na Santa Igreja Católica, nos Santos e nem nos desestimula a apoiar com firmeza os bons sacertodes. Mas não nos concede direito algum de apoiar os maus sacerdotes, nem de nos apoiarmos no que eles ensinam de contrário à sã doutrina ou nos seus atos que contradizem a moral católica.
Padre Leonel Franca, que viveu em uma época livre destes partidarismos, não precisou se justificar longamente. Limitou-se a citar a fonte de onde facilmente se poderiam tirar estas conclusões: a história sagrada. Ótima sugestão de leitura para os que querem defender os maus clérigos.
