Cardeal Ottaviani: hermenêutica da continuidade ou da ruptura?

Eu estava escrevendo um artigo mais extenso sobre a interpretação dos textos do Vaticano II, mas o tema está se estendendo mais do que eu esperava. Por hora, publico apenas algumas ponderações sobre uma carta do cardeal Ottaviani relacionada ao tema. Em outra oportunidade, aprofundaremos o assunto o quanto desejamos.

Algumas dúvidas não esclarecidas

A carta atribuída ao Cardeal Ottaviani teria sido escrita em 1966. No último parágrafo, o autor diz que a carta deveria permanecer em estrito segredo. No entanto, segundo o site do Vaticano a carta teria sido publicada na Acta Apostolicis Sedis (AAS) – Atos da Sé Apostólica - daquele mesmo ano. O que eu não consegui compreender ainda, é como um documento que deve ser mantido em sigilo pode ser publicado em um jornal como as AAS.

Um artigo que encontrei sobre as AAS dizem que elas contêm documentos públicos (o que seria de se imaginar para um jornal):

Contém os principais documentos públicos emitidos pelo Papa, directamente ou através dos departamentos da Cúria Romana e também listas de nomeações Romanas.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Acta_Apostolicae_Sedis

Talvez alguém possa me ajudar a compreender como um documento sigiloso pode ser publicado em um jornal públco.

No site do Vaticano, as AAS – originais em latim – estão publicadas desde Março de 2010, conforme tivemos conhecimento através de um artigo do New Liturgical Movement.

Outra dificuldade de entendimento é porque se demorou tanto tempo para se fazer uso de tal carta. No site do Vaticano, a carta pode ser lida, entre outras línguas, em italiano e espanhol. Infelizmente, eles não trazem, no texto, a data da publicação no site. Utilizando-se porém, de recurso da informática, qual seja, a visualização do código fonte da página, pudemos encontrar no código HTML informações sobre a possível data de publicação: <meta name=”date.issued” content=”2010-10-21″ />. Ou seja, a data é um pouco posterior à publição das AAS no mesmo site. A data de sua assinatura é de 24 de Julho de 1966, o que nos dá um espaço de quarenta e quatro anos até sua publicação. Algo que nos faz questionar seriamente sobre o porquê uma carta com a finalidade de defender a Fé não foi utilizada ao longo de tantas décadas.

Outros questionamentos nós faremos ao longo do presente artigo.

O conteúdo da carta

Temos, publicada na internet, a seguinte tradução para o português:

CARTA SOBRE OPINIÕES ERRÔNEAS NA INTERPRETAÇÃO DOS DECRETOS DO CONCÍLIO VATICANO II
Congregação para a Doutrina da Fé

Depois da promulgação do Concílio Ecumênico Vaticano II, concluído recentemente, sapientíssimos documentos, tanto sobre questões doutrinais, quanto disciplinares, para promover eficazmente a doutrina da Igreja, incumbem a todo o Povo de Deus a lutar com todo o empenho para que se realize tudo o que, com a inspiração do Espírito Santo, foi solenemente proposto ou decretado naquele sínodo de Bispos, presidido pelo Romano Pontífice.

Á hierarquia compete o direito e o dever de vigiar, dirigir e promover o movimento de renovação que o Concílio começou, de modo que os documentos e decretos do referido Concílio recebam uma reta interpretação e sejam levados a efeito com exatidão segundo a força e o sentido dos mesmos. Portanto, esta doutrina deve ser defendida pelos Bispos, já que, como tais, gozam do poder de ensinar com autoridade, unidos à cabeça de Pedro. É digno de elogio que muitos Pastores do Concílio já tomaram a iniciativa de explicá-la convenientemente.

Sentimos, contudo, que de diversas partes chegam notícias de como não somente pululam os abusos na interpretação da doutrina do Concílio, como também de como aqui e ali surgem opiniões estranhas e audazes, que perturbam não pouco a alma de muitos fiéis. Devemos louvar os trabalhos ou intentos que buscam penetrar mais profundamente na verdade, distinguindo retamente entre aquilo em que se deve acreditar e o que é opinião; porém, pelos documentos examinados nesta Sagrada Congregação, consta que existem não poucas sentenças que, passando por alto facilmente os limites da simples opinião, parecem afetar o mesmo dogma e os fundamentos da fé.

Convém que expressemos, como exemplo, algumas das sentenças e erros, tal como são conhecidos através da relação de doutores e das publicações escritas.

1) Primeiramente, referimo-nos à Sagrada Revelação: há quem recorra à Sagrada Escritura, deixando de lado intencionalmente a Tradição, porém restringem o âmbito e a força da inspiração e da inerrância, já que pensam equivocadamente sobre o valor dos textos históricos.

2) No que se refere à doutrina da Fé, diz-se que as fórmulas dogmáticas devem ser submetidas à evolução histórica, de tal modo que o sentido objetivo das mesmas seja exposto a mudanças.

3) Esquece-se ou subestima-se o Magistério ordinário da Igreja, principalmente do Romano Pontífice, de tal maneira que se relega ao plano das coisas opináveis.

4) Alguns quase não reconhecem a verdade objetiva absoluta, firme e imutável, expondo tudo a um certo relativismo, alegando o falaz argumento de que qualquer verdade deve seguir necessariamente o ritmo da evolução da consciência e da história.

5) Ataca-se a admirável pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando, ao refletir sobre a Cristologia, utilizam-se tais conceitos de natureza e pessoa, que apenas podem se conciliar com as definições dogmáticas. Insinua-se certo humanismo pelo qual o Cristo é reduzido à condição de simples homem, que foi adquirindo pouco a pouco consciência de sua filiação divina, Sua concepção virginal, seus milagres e sua Ressurreição são concedidos de palavra, porém frequentemente reduzem-se à mera ordem natural.

6) Igualmente, ao tratar da teologia dos sacramentos, alguns elementos são ignorados ou não se lhes presta a suficiente atenção. Sobretudo no que se refere à Santíssima Eucaristia. Não falta quem discuta sobre a presença real de Cristo sob as espécies de pão e vinho, defendendo um exacerbado simbolismo, como se pão e vinho não se convertessem no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo pela transubstanciação, mas que simplesmente fossem empregados com certa significação. Há quem insista mais no conceito de ágape, com relação à missa, do que no de Sacrifício.

7) Alguns desejam explicar o Sacramento da Penitência como um meio de reconciliação com a Igreja, sem explicar suficientemente a reconciliação com Deus ofendido. Pretendem que, ao celebrar este Sacramento, não seja necessária a confissão pessoal dos pecados, mas somente se preocupem em expressar a função social da reconciliação com a Igreja.

8) Não falta quem menospreze a doutrina do Concílio de Trento sobre o Pecado Original, ou quem a interprete obscurecendo a culpa original de Adão ou, ao menos, a transmissão do pecado.

9) Não são menores os erros que circulam no âmbito da teologia moral. Com efeito, não poucos se atrevem a refutar a razão objetiva da moralidade; outros não aceitam a lei natural e defendem, por outro lado, a legitimidade da chamada “moral de situação”. Propagam-se opiniões perniciosas sobre a moralidade e a responsabilidade em matéria sexual e matrimonial.

10) A todos estes temas, temos de acrescentar uma nota sobre o Ecumenismo. A Sé Apostólica, certamente, louva todos os que, no espírito do Decreto Conciliar sobre o ecumenismo, promovem iniciativas para fomentar a caridade com os irmãos separados e atraí-los à unidade da Igreja; porém lamenta que não falte quem, interpretando a seu modo o decreto Conciliar, exija uma ação ecumênica que vá contra a verdade, assim como contra a unidade da Fé e da Igreja, fomentando um perigoso irenismo e indiferentismo, que é totalmente alheio à mente do Concílio.

Espalhada esta classe de erros e perigos, apresentamo-los sumariamente, nesta Carta aos Ordinários do lugar, para que cada um, segundo seu cargo e ofício, cuide de refreá-los e preveni-los.

Este Sagrado Dicastério roga encarecidamente para que os Ordinários do lugar tratem disso nas reuniões de suas conferências episcopais e enviem relações à Santa Sé, aconselhando o que creem oportuno, antes da festa da Natividade de Nosso senhor Jesus Cristo do ano em curso.

Esta carta, que, por uma óbvia razão de prudência, nos impede de fazê-la de domínio público, deve ser guardada sob estrito segredo pelos Ordinários e por todos aqueles que com justa causa a ensinam. Roma, 24 de julho de 1966. A. Card. Ottaviani, Pró-prefeito.

fonte: http://cartasaprobo.blogspot.com/2011/08/carta-da-congregacao-para-doutrina-da.html

A carta e a hermenêutica da continuidade

Os três primeiros parágrafos trazem uma inegável marca da “hermenêutica da continuidade”, teoria segundo a qual os documentos do Vaticano II seriam bons e isentos de erros, e toda a confusão pós-conciliar teria sido fruto apenas da má interpretação abusiva destes textos.

Os neo-conservadores alegraram-se imensamente com a tal carta, uma vez que ela estaria a corroborar a opinião que eles têm sobre o Vaticano II. E não faltaram as costumeiras provocações baixas contra os tradicionalistas. Uma destas típicas ofensas, que demonstra o quanto os neo-conservadores não são nem um pouco moderados, e o quanto de ódio eles tem contra nós, é este:


Jucken says:
6 September 2011 at 2:43 am

E aí pseudo-tradicionalistas, vão por acaso alegar que esta carta do Cardeal Ottaviani também foi forjada? Que belo tapa na cara dos católicos de fachada que só sabem mentir e mentir e só são “tradicionalistas” por motivos políticos…

http://www.deuslovult.org/2011/09/05/sobre-opinioes-erroneas-na-interpretacao-dos-decretos-do-concilio-vaticano-ii-1966/#comment-31715

Será que a alegria demonstrada por este e outros fanáticos neo-conservadores se justifica? É isto que vamos esclarecer neste artigo.


A carta impugna as críticas tradicionalistas?

Deixemos de lado, por hora, todas as dificuldades já mencionadas e admitamos a autenticidade da carta. Será que ela demonstra o “erro” tradicionalista de que nos acusam os neo-conservadores?

Em primeiro lugar, vejamos o que nos diz a carta. Ela afirma que houve abuso na interpretação do concílio Vaticano II.

Comparemos com o que dizemos, nós, tradicionalistas: o concílio Vaticano II contém textos intencionalmente ambíguos e outros abertamente em ruptura com a Tradição da Igreja.

A duas afirmações são mutamente exclusivas? Incompatíveis entre si? Claro que não. Somente na cabeça dos neo-conservadores que não perdem uma oportunidade de nos atacar e de tentar, desesperadamente, salvar o concílio.

Se estivéssemos considerando uma única proposição, teríamos indiscutivelmente a mútua exclusão sobre sua evidente veracidade, evidente falsidade ou ambigüidade.  Apenas uma destas três opções poderia se aplicar a uma única proposição considerada. Quando consideramos, porém, um texto, ou um conjunto de textos, podemos encontrar nele(s) algumas proposições verdadeiras, outras falsas e outras ambíguas. E o concílio Vaticano II é uma extensa coleção de proposições, algumas perfeitamente católicas, outras ambíguas e outras em total ruptura com a Tradição católica. Basta ler as bem fundamentadas críticas tradicionalistas para se ter uma noção da grande quantidade de textos ambíguos e em evidente ruptura com a Tradição. O que não quer dizer que todos os erros defendidos no pós-concílio estejam baseados apenas nestes trechos.

Desta forma, torna-se fácil entender que, mesmo que se venha a confirmar a autenticidade da carta do cardeal Ottaviani, as críticas tradicionalistas ao Concílio Vaticano II permanencem intactas em sua validade. Claro, pois as nossas críticas se baseiam tanto nos textos ambíguos quanto naqueles em aberta ruptura com a Tradição da Igreja, ao passo que as críticas da carta do cardeal Ottaviani tratam de abusos dos textos legítimos. O fato de alguns erros procederem de abusos na interpretação de trechos legítimos, não exclui a possibilidade, que realmente se verifica, de que alguns dos erros estão realmente escritos em outros trechos do concílio, nem a de que haja outros trechos propositalmente ambíguos. A carta somente impugnaria a posição tradicionalista se ela dissesse que não existem, no Vaticano II, trechos ambíguos ou em ruptura com a Tradição, e que todos os erros, sem exceção, partiram de abusos. Isto ela não traz, mesmo porque seria uma mentira fácil de ser desmascarada.

É verdade que a carta chama os documentos do Vaticano II de sapientíssimos. É difícil imaginar o cardeal Ottaviani, ou qualquer outro defensor da Fé católica, chamar de “sapientíssimo documento” um lixo como a Dignitatis Humanae ou a Unitatis Redintegratio. Certo é, também, que a carta não  diz que todos os documentos do Vaticano II, sem exceção, são sapientíssimos. De qualquer modo, tais afirmações sobre o concílio, de forma genérica, não implicam a aprovação de cada um dos textos do Vaticano II, nem a absoluta inexistência de ambigüidades e erros no textos do mesmo.

O cardeal Ottaviani e a hermenêutica da ruptura

A “Carta sobre opiniões errôneas na interpretação dos decretos do concílio Vaticano II” estaria datada do dia 24 de julho de 1966.

Acontece que aproximadamente três anos depois, em 25 de setembro de 1969, o cardeal Ottaviani, juntamente com o cardeal Bacci, escreveu uma outra carta ao papa Paulo VI, esta pública, encaminhando ao Santo Padre o “Breve Estudo Crítico da Nova Ordenação da Missa” e solicitando-lhe a intervenção na questão da missa nova. Uma simples leitura desta carta demonstra que o cardeal não poupou críticas nem aos graves problemas do novo rito, nem aos erros correntes na época:

Portanto, em um momento em que a pureza da fé e a unidade da Igreja sofrem cruéis lacerações e um perigo ainda maior, diária e dolorosamente ecoado nas palavras de nosso Pai comum, nós fervorosamente rogamos a Vossa Santidade para que não nos prive da possibilidade de continuarmos a ter acesso à integridade fecunda do Missale Romanun de São Pio V, tão louvado por Sua Santidade e tão profundamente amado e venerado por todo o mundo católico. (Breve exame crítico, Carta introdutória, nº 3)

Se o cardeal Ottaviani utilizou palavras tão claras para denunciar a gravidade da situação da Igreja naquele momento, por que não haveria de publicar aquela carta de 1966? Por mais questionável que seja o sigilo do documento naquele ano pós-conciliar, em 1969 o cardeal falou abertamente dos problemas. Por que manter o sigilo? Não existem motivos. Não teria sido lógico, no mínimo, tornar público o documento a fim de melhor combater os perigos? Por que somente em 2010 esta carta é publicada? Por que, ao longo de todos estes anos, os papas e os bispos não tiveram o zelo de se utilizar desta carta para defender a Fé?

No capítulo I do Breve Exame, o cardeal Ottaviani cita um periódico dirigido aos bispos onde se pode ler uma crítica mordaz à celebração experimental de uma nova missa realizada em outubro de 1967:

“Quiseram passar uma esponja em toda a teologia da Missa. Terminou como algo muito próximo da teologia protestante que destruiu o sacrifício da Missa.”

O piedoso cardeal, portanto, não media palavras para defender a Fé católica. A frase que ele citou, “Quiseram passar uma esponja em toda a teologia da Missa”, é muito mais forte do que qualquer passagem da suposta carta de 1966. O que torna estranho o fato deste documento não ter sido publicado, pelo menos, junto com a carta de 1969.

O número 2 da carta de 1966, que denuncia o erro da evolução do dogma, também tem seu paralelo na carta de 1969. Comparemos os dois textos:

No que se refere à doutrina da Fé, diz-se que as fórmulas dogmáticas devem ser submetidas à evolução histórica, de tal modo que o sentido objetivo das mesmas seja exposto a mudanças. (Carta de 1966, nº 2)

As inovações na Novus Ordo e o fato de que tudo o que possui um valor perene encontra ali apenas um lugar secundário – se é que continua a existir – poderiam muito bem transformar em certeza as suspeitas, infelizmente já dominantes em muitos círculos, de que as verdades que sempre foram objeto de crença pelos cristãos podem ser alteradas ou ignoradas sem infidelidade ao sagrado depósito da doutrina ao qual a fé católica está para sempre ligada. (Carta introdutória ao Breve exame crítico, nº 2)

A carta de 1966 denuncia o conceito protestante da celebração eucarística:

6) Igualmente, ao tratar da teologia dos sacramentos, alguns elementos são ignorados ou não se lhes presta a suficiente atenção. Sobretudo no que se refere à Santíssima Eucaristia. Não falta quem discuta sobre a presença real de Cristo sob as espécies de pão e vinho, defendendo um exacerbado simbolismo, como se pão e vinho não se convertessem no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo pela transubstanciação, mas que simplesmente fossem empregados com certa significação. Há quem insista mais no conceito de ágape, com relação à missa, do que no de Sacrifício.

Ao comentar a herética definição de missa dada pelo número 7 da Instrução Geral do Missal Romano, de 1969, i.e., “Ceia dominical é a assembléia sagrada ou congregação do povo de Deus, reunindo- se sob a presidência do sacerdote, para celebrar a memória de Nosso Senhor”, o cardeal Ottaviani escreve:

Desta forma, a definição da Missa é reduzida a uma “ceia”, um termo que a Instrução Geral repete constantemente (nos números 8, 48, 55, 56 da Institutio 5 ). A Instrução mais adiante caracteriza esta “ceia” como uma assembléia, presidida por um padre e celebrada como o “memorial do Senhor” para recordar o que Ele fez na quinta-feira Santa.

Nada disso implica por mais mínimo que seja nem a Presença Real, nem a realidade do Sacrifício, nem a função sacramental do padre que consagra, nem o valor intrínseco do Sacrifício Eucarístico, independente da presença da “assembléia”.

Em uma palavra, a definição dada pela Instrução não implica nenhum dos valores dogmáticos que são essenciais à Missa e os quais, tomados em conjunto, fornecem a sua  verdadeira definição. A omissão, num tal lugar, desses dados dogmáticos, não pode ser senão voluntária. Semelhante omissão voluntária significa que já se consideram como obsoletos, e equivale, ao menos na prática, a negá-los. (Breve Exame, Capítulo II)

Percebemos que a denúncia pública de 1969 tem, em muitos pontos, o mesmo conteúdo que a oculta de 1966. Não há, portanto, motivos pelos quais esta deveria ter permanecido oculta e não ter sido utilizada para o combate às heresias.

Quem desejar conhecer outras palavras fortes do cardeal, tanto na condenação da missa nova como dos erros vigentes em sua época, pode ler a sua carta de 1969 na íntegra:

http://www.fsspx.com.br/exe2/breve-exame-critico-do-novus-ordo-missae

Com palavras tão claras do cardeal Ottaviani em 1969, é impossível entender porque sua suposta carta de 1966 pudesse causar tanta alegria aos neo-conservadores. Aliás, na carta de 1969, de autenticidade jamais questionada, o cardeal Ottaviani denuncia e combate a hermenêutica da ruptura. Isto é insofismável. Ele o diz com todas as letras, afirmando que o novo rito está em ruptura com a Tradição. Certamente por isto, os mesmos sites que publicam a carta oculta de 1966 não se dão ao trabalho de publicar a carta pública de 1969: ela destrói completamente a hermenêutica da continuidade, ao menos quanto à missa nova, que é a expressão litúrgica da “nova teologia” ensinada pelo Vaticano II, e que foi inventada para tentar salvar este conciliábulo.

O fiasco do Vaticano II confirmado por esta carta

O Cardeal Ottaviani era o Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, ou seja, o homem responsável, imediatamente depois do papa, por defender a Fé católica. O fato de ele ser obrigado a escrever em segredo uma carta com este conteúdo já prova o quão grave era a situação. Pior ainda, como a história demonstra, estas recomendações não foram seguidas pela maioria dos bispos.

A divulgação desta carta acaba sendo mais um tiro dos neo-conservadores que sai pela culatra. Pois, se, por um lado, as críticas tradicionalistas não são afetadas e vários textos do concílio continuam sendo reprováveis, por outro, a tal carta somente vem a confirmar o total fiasco que foi o concílio Vaticano II.

O pouquíssimo tempo, praticamente meio ano, decorrido entre o final do concílio e a carta do cardeal Ottaviani demonstra o quão ineficaz foi o concílio na defesa da Fé. Se o Vaticano II tivesse seguido o modelo dos concílios anteriores, com cânones e anátemas bem definidos, com linguagem clara e objetiva, nenhuma interpretação heterodoxa seria possível. Pois, como perguntamos em de nossos últimos artigos, qual outro concílio da Igreja foi utilizado pelos Seus inimigos para defender idéias tão contrárias à Fé católica? Esta carta vem nos provar que somente alguns meses já foram suficientes para que tais “abusos” acontecessem.

Mesmo que, por absurdo, nós não tratássemos das intecionais ambigüidades inseridas nos textos do concílio pelos modernistas, a fim de serem interpretadas de maneira herética na era pós-conciliar; mesmo que não existissem trechos do concílio em aberta ruptura com a Tradição católica, ainda assim o Vaticano II teria sido um enorme fracasso, pois não teria passado mais que alguns poucos meses até que ele estivesse sendo totalmente deturpado.

Um artigo muito esclarecedor da FSSPX, publicado em inglês no site do Seminário São Tomás de Aquino, levanta sérios questionamentos sobre a hermenêutica da continuidade.

Vejamos: a finalidade do magistério é explicar a fé de modo a dissipar as dúvidas. O Magistério é regra próxima de fé: não pode ser dúbio.

Se quarenta anos depois de ter sido encerrado o concílio, um papa vem falar que precisa lhe ser dada a correta interpretação, então o concílio falhou estrondosamente em sua finalidade.

Devemos acrescentar que o Concílio Vaticano II foi escrito em linguagem do homem moderno com a finalidade de ser facilmente compreendido. O concílio que não quis ser dogmático, mas sim pastoral, com a finalidade de ser facilmente compreendido, falhou em seu objetivo principal. Quarenta anos depois vem o papa tentar dar uma interpretação ortodoxa para o concílio que pretendia ser escrito em linguagem acessível a qualquer homem… É evidente demais que o concílio falhou estrondosamente em sua missão de ser inteligível. Somente um fanatismo extremo pode levar alguém a negar isto.

Não podemos esquecer um outro fator importantíssimo: o concílio foi interpretado pelos mesmos bispos que o escreveram. Como pode alguém interpretar errado algo que ele próprio escreveu? A carta do cardeal Ottaviani, de 1966, não menciona quem estaria interpretando o concílio de forma abusiva. Mas, nós sabemos bem que é o papa e os bispos em comunhão como ele os responsáveis pelo magistério. Se houve interpretação heterodoxa foi porque havia bispos modernistas, eles mesmos promovendo estas interpretações e ainda protegendo os padres e leigos que as promoviam. Interpretavam o que eles mesmos escreveram e impuseram ao concílio através da quadrilha do Reno, cuja história está perfeitamente desmascarada no livro “O Reno se lança no Tibre”.

Conclusões

Ainda que se prove a autenticidade da carta de 1966, ela não impugna as críticas tradicionalistas ao Concílio Vaticano II. Os textos propositalmente ambíguos e os abertamente em ruptura com a Tradição, provam que o concílio de fato contém erros e, no mínimo, não pode ser considerado igual aos demais, isto se não vier a ser totalmente anulado.

Caso se verifique a autenticidade da carta de 1966, podemos entender como uma atitude, em princípio, cautelosa do cardeal Ottaviani, mas que logo compreendeu a ruptura provocada, que foi clara e irrefutavelmente denunciada já no Breve Exame Crítico de 1969. Esta carta de 1969, por condenar de forma tão insofismável a ruptura, é mantida longe do conhecimento das pessoas, degredada. Mas, para qualquer um que tenha sincero amor pela verdade, vale a pena ler esta carta e constatar o quanto a missa nova de Paulo VI, e conseguentemente, a “nova teologia” que a inspirou, estão em total ruptura com o que sempre ensinou nossa santa religião católica.

11 comments to Cardeal Ottaviani: hermenêutica da continuidade ou da ruptura?

  1. É interessante o seu artigo. Contudo gastaria de saber a sua opinião sobre o que diz o mesmo Cardeal sobre a Missa “toda a teologia da Missa”. Esta TODA a teologia da Missa, que sem dúvida é fundamentalmente uma questão doutrinal, pode passar por mera questão disciplinar? O Summorum Pontificum trata ou não de assuntos intimamente Doutrinais sobre um ponto de vista aparentemente disciplinar?

  2. O CVII é meramente pastoral? É infalível?

    Não se pode discutir a interpretação de um concilio sem que a AUTORIDADE do mesmo esteja determinada. Tanto tradicionalistas (linha dura e linha mole) como os modernistas (conservadores e progressistas) estão neste momento a discutir a interpretação de um concílio como se ele fosse infalível?

    Se estamos realmente perante um concílio meramente pastoral não há que resolver a sua interpretação para que Roma se converta ou para que a FSSPX tenha a sua missão por terminada! Se estamos perante um concílio meramente pastoral Roma apenas terá que declarar que ele é meramente pastoral e que por isso deve ser APENAS olhado segundo a Doutrina da Igreja sempre existente! Roma terá apenas de obrigar à Doutrina e a não permitir que o CVII seja confundido com “a Doutrina da Igreja”.

    Discutir a interpretação do CVII sem tratar do problema da sua supervalorização é aceitar que o CVII é realmente doutrinal e não pastoral.

  3. Márcio disse:

    Caro Pedro, Salve Maria!

    Não creio que se possa considerar a questão apenas como disciplinar. A liturgia implica uma teologia que a sustente. A teologia por trás da missa nova é protestante, basta ler o IGMR da missa nova em sua primeira versão. A definição de missa dada pelo documento é totalmente herética.

    A Summorum Pontificum tem um tom muito mais disciplinar. Não me lembro de grandes explicações doutrinais nela, mas antes de lhe responder com mais certeza eu vou reler o documento.

    Sobre o Vaticano II, se ele fosse doutrinal e infalível não poderia estar em discussão. Deveria ser aceito e ponto final. Quem não o aceitasse deixaria de ser católico.

    O CV II é meramente pastoral. Mas nem por isso a questão está resolvida. Enquanto ele gozar de prestígio, ele será usado pelos modernistas para propagar o ecumenismo, a liberdade religiosa e a colegialidade. No mínimo, ele necessita ser corrigido nos seus pontos ambíguos e em aberta ruptura com a doutrina católica. Ou então, completamente anulado. De qualquer forma, ele precisa deixar de ser o “superdogma” em que foi transformado pelo clero modernista.

    AMDG,

    Márcio

  4. Gederson disse:

    Márcio, o que os neo-conservadores não sabem, é que o problema hermenêutico, nasceu junto com o Concílio. Veja abaixo, texto sobre o tema, que traduzi de Don Curzio Nitoglia:

    http://www.tradicaoemfoco.com/2011/10/o-velho-problema-da-hermeneutica-da.html

    O velho problema da hermenêutica da continuidade

    PAULO VI, JOÃO PAULO II
    E A HERMENÊUTICA DA CONTINUIDADE

    d. CURZIO NITOGLIA
    9 fevereiro de 2011
    http://www.doncurzionitoglia.com/paolovi_gpii_ermeneutica_continu.htm

    PAULO VI

    · PAULO VI denunciou “uma falsa e abusiva interpretação do Concílio, que seria uma ruptura com a Tradição, também doutrinal, chegando ao repúdio da Igreja pré-conciliar, e a licença de conceber uma “nova” Igreja, quase re-inventada do seu interior, na constituição, no dogma, no costume e no direito (Declaração conciliar de “6 de março de 1964”, repetida em “16 de novembro de 1964). Sempre PAULO VI, em setembro-outubro de 1964, durante o período “obscuro” – como o chamavam os inovadores – no qual a ofensiva do Coetus Internationalis Patrum e dos cardeais mais anti-modernistas da Cúria Romana se fez sentir mais fortemente, disse que a Colegialidade deveria ser lida “em conexão com o Concílio Vaticano I” (o qual ao invés, é a apoteose do Primado monárquico do Papa e portanto exatamente oposto da colegialidade episcopal), do qual o Vaticano II é “a continuação lógica”(1). Também ainda PAULO VI nesta ótica da continuidade em “18 de novembro de 1965” informou o Concílio que “seria introduzida a causa de beatificação de Pio XII e João XXIII”(2). Jan Grooaters explica que “uma das maiores preocupações” de PAULO VI “foi a preparação dos fiéis, mas sobretudo dos sacerdotes, para a recepção do Concílio: mais que os outros, ele tinha compreendido que o destino do Vaticano II seria decidido no desenvolvimento pós-conciliar. [...] Pela necessidade de reformar a Cúria Romana, de convertê-la de qualquer modo ao Concílio, mas ao mesmo tempo de reassegurar…[...]. Foi tocado a desempenhar uma tarefa de sentinela, tendo, em algumas circunstâncias relações muito estreitas com a opinião pública da Igreja que com o Concílio e a Cúria [...] para assegurar o máximo possível o contínuo pedido do pós-concílio. [...]. Prevendo no futuro causas de tensão, PAULO VI queria dar a atuação do renovamento um ritmo o quanto possível Uniforme, exortando os retardatários a apressar o passo e moderando a impaciência de quem queria estar muito a frente de seu tempo. [...]. O Papa parecia preocupado em fazer qualquer conceção a corrente minoritária [anti-modernista], para obter na votação final um resultado o mais possível vizinho a unânimidade moral [...] No começo do quarto e último período do Concílio (“setembro de 1965”), sentiu-se que a ação do Papa tinha assumido um carácter mais diretivo, paralelamente a enfraquecer como leadership da corrente majoritária. Se disse então que “os heróis estavam cansados” e que os Bispos desejavam voltar para casa. [...]. Se deve a PAULO VI o mérito de ter agido em sentido “mais progressista” do que a maioria dos Bispos conciliares. Devemos reconhecer que um dos principais méritos de Paulo VI na implementação do Vaticano II consistiu em preparar as condições para que sua atuação se prolongasse no tempo e que fosse então conciliável com o contexto e os costumes de toda a Igreja. Em conclusão, PAULO VI parece que havia sobretudo trabalhado para traduzir o evento conciliar em instituição”(3). PAULO VI no discurso ao Sacro Colégio dos Cardeais em “23 de junho de 1972” denúnciou ““uma falsa e abusiva interpretação do Concílio, que seria uma ruptura com a Tradição, também doutrinal, chegando ao repúdio da Igreja pré-conciliar, e a licença de conceber uma “nova” Igreja, quase re-inventada do seu interior, na constituição, no dogma, no costume e no direito”.
    JOÃO PAULO II
    · Um ano depois da sua eleição, na sua viagem apostólica ao México realizada a cavalo entre janeiro e fevereiro de 1979, durante a Conferência do Episcopado Latino-americano em Puebla, JOÃO PAULO II falou do Concílio, durante a homília dada em 26 de janeiro na catedral da Cidade do México. Ele sublinhou a importância de estudar os Documentos do Concílio Vaticano II, afirmou que nestes não se encontra “como pretendem alguns uma “nova Igreja”, diferente e oposta a “velha Igreja”. [...] Não seria fiel, neste sentido, aqueles que permanecem fiéis aos aspectos acidentais da Igreja, válidos no passado mas hoje superados. Assim como não são nem fiéis, aqueles que em nome de um profetismo pouco iluminado, atirando-se a uma aventurosa e utópica construção de uma “nova Igreja” assim chamada “do futuro”, desencarnada daquela “do presente”(5). No Sínodo extraordinário de novembro-dezembro em 1985 João Paulo II afirmou: “O Concílio deve ser compreendido em continuidade com a grande Tradição da Igreja [...]. A Igreja é a mesma em todos os Concílios (Ecclesia ipsa et eadem est in omnibus Conciliis)”(6). Em seu livro entrevista com Vittorio Messori “Cruzando o limiar da esperança” de 1994 (Milão, Mondatori) na página 171 escreve que é preciso “falar do Concílio, para interpretá-lo de modo adequado e defender-lo de interpretações tendenciosas”. Então durante o Julibeu de 2000 retorna ao tema e precisa a necessidade de superar “interpretações tendenciosas e parciais que tinham impedido de exprimir melhor a novidade do magistério conciliar(7). Então explícita que “o ensinamento do Vaticano II, deve ser inserido organicamente no interior do Depósito da fé, e então integrado com o ensinamento dos pontífices e de todos Concílios precedentes”(8).
    Dois prelados progressistas “peritos conciliares” em odor de continuidade pós-conciliar
    · Cardeal FRANZ KÖNIG já fim de “4 de julho de 1965”(9), durante uma peregrinação a Mariazelli, denunciou “as duas atitudes erradas diante do renovamento da Igreja: aquela daqueles que com o pretexto do renovamente colocavam em perigo a substância mesma do patrimônio da fé, e aquela daqueles que ameaçavam o renovamento da Igreja recusando-se admitir que essa é um organismo vivo que vai se desenvolvendo (ndt.: como um macaco darwiniano), e não uma peça de museu”(10). Mesmo em 1º de setembro de 1966 diante da intempestiva iniciativa litúgica König publicou no jornal diocesano um aviso contra os abusos liturgicos, referindo-se ao Concílio de Trento e a Missa de S. Pio V (cfr. Documentation catholique, nº 63, 1966, pg. 1725-1726). Alguns meses antes em uma conferência (feita sempre em Constância) König tinha comparado o renovamento conciliar ao movimento do mar onde a onda apresenta um fluxo e refluxo, assim a atual fase conciliar da história da Igreja seria sucedida de uma outra fase, a qual – atenção – não anulará a primeira mas a consolidará (11).
    · “Monsenhor CARLO COLOMBO se preocupou antes de tudo dos Bispos que pareciam muito angustiados com o perigo de um distanciamento da Tradição, e por isso teria participado de encontros com representantes da ala tradicionalista em sessão conciliar” (12). O que surpreende não é a tática típica dos modernistas de realmente inovar e ao mesmo tempo de afirmar verbalmente que tudo permanece substancialmente como antes, mas é a ingenuidade com a qual, também hoje, alguns “tradi-ecumenistas” o “teo-tradi” acreditam nas boas intenções de Bento XVI no tratamento com os anti-modernistas depois de cinquenta anos de engano e promessas não mantidas. JAN GROOTAES, professor de “Ciência religiosa” da Universidade de Louvânia, informa que a figura de Carlo Colombo era mais discreta, “mesmo esquiva [e] foi pouco conhecida do grande público do Concílio. Essa escondia porém uma fortíssima personalidade, cuja propensão a privacidade andou ulteriormente aumentando quando foi conselheiro e amigo de Mons. Montini quando tornou-se improvisadamente, em 1963, o “teólogo pessoal” – e sob certos aspectos clandestino – de Paulo VI. Um aspecto desta “clandestinidade” consistia, por exemplo, no fato que Mons. CARLO COLOMBO, diferentemente dos conselheiros da Cúria, ser recebido fora das audiências oficiais e sem nenhuma forma de publicidade”(13). A sua teologia era caracterizada por um forte orientamento ecumenista, de uma eclesiologia a colegialidade episcopal, ele era claramente contrário a escola romana e contemplava o norte da Europa, a saber a nouvelle thèologie. Durante o pontificado montiniano tornou-se oficiosamente “centrista” ou “extremista de centro” (J. Grooaters), vale dizer que antecipou a doutrina da hermenêutica da continuidade, que é tão velha quanto Paulo VI.
    Conclusão
    Como se vê a “hermenêutica da continuidade” é velha como o Concílio ao qual o jovem teólogo Joseph Ratzinger participou como perito do Card. Frings de modo totalmente inovador, basta pensar que ele mesmo admitiu ter colaborado na elaboração do discurso de Frings naquilo que diz respeito “as fontes de revelação”, Frings sustenta a teoria da única fonte (14), a qual foi votada pela maioria em 20 de novembro de 1962, cerca de um mês depois do inicío do Vaticano II (11 de outubro de 1962), com ele o purpurado alemão rejeita como inadequado o esquema preparatório do Santo Oficío sobre as “fontes da revelação”, que toma a definição dogmática, irreformável e infalível de Trento (sess. IV, DB 783) e do Vaticano I (DB1787) que admite a Tradição e a Sagrada Escritura como as duas Fontes d Revelação, ao invés Frings falava – como Lutero – di “sola scriptura” (15). Para “ a colegialidade episcopal” “eficacíssimo foi a intervenção do Cardeal Frings, para o qual é legítimo supor o contributo do seu teólogo Ratzinger. Se tratou talvez do discurso mais incisivo do ponto de vista critíco, já demolia o esquema [preparatório do S. Ofício]” (16). Histórico é o choque (8 de novembro de 1965) que Frings teve com Ottaviani sobre a colegialidade, que induzirá “Paulo VI a pedir a Jedin, Ratzinger e a Onclin algumas opiniões sobre a reforma da Cúria” (17).
    Caveamus! “Normalizar” depois de ter mudado é a típica atitude dos modernistas, os quais inovaram durante o Concílio e depois disseram que tudo permanece substancialmente imutável. Seja Montini ou Wojytila e Ratzinger, os dois primeiros que participaram como bispos e como simples perito o terceiro, introduziram, durante a sessão conciliar, a novidade da única fonte de Revelação (ndt: Sola Scriptura), da colegialidade episcopal, da liberdade das falsas religiões, da proto-reforma litúrgica, e depois disseram mas não provaram que isto está em continuidade e não em ruptura com a Tradição apostólica. Recentemente Mons. BRUNERO GHERARDINI (Concílio Ecumênico Vaticano II, Un discorso da fare, Frigento, 2009) pediu a Bento XVI para provar a afirmação ou corrigir as novidades.

    d. CURZIO NITOGLIA
    9 fevereiro 2011
    http://www.doncurzionitoglia.com/paolovi_gpii_ermeneutica_continu.htm
    [1] G. Alberigo, Breve storia del Concilio Vaticano II, Bologna, Il Mulino, 2005, p.
    (1) G. ALBERIGO, Breve história do Concílio Vaticano II, Bolonha, O moinho, 2005, pg.128.
    (2) G. ALBERIGO, Breve história do Concílio Vaticano II, Bolonha, O moinho, 2005, pg. 148
    (3) J. GROOATERS, Os protagonistas do Concílio Vaticano II, Cinisello Balsamo (cidade italiana), São Paulo (editora), 1994
    (4) Ensinamento de João Paulo II, II, 1979, (janeiro-junho), Cidade do Vaticano, LEV, pg. 151
    (5) “Discurso ao episcopado belga”, 18 de maio 1985, em “O Reino documentado”, Bolonha, Edição Dehoniana, XXX, 1985, pg. 328.
    (6) Sínodo extraordinário Ecclesia sub verbo Dei mysteria Christi celebrans pro salute mundi, Relatio finalis, in “Enchiridion Vaticanum”, Bolonha, Ed. Dehoniana, 9, 1983-1985, nr. 1785, pg. 1745
    (7) “O Reino documentado”, Bolonha, Ed. Dehoniana, XLV, 2000, pg. 232
    (8) “Sínodo da Arquidiocese de Cracóvia em 1972”, citado em G. MICCOLI, Em defesa da fé. A Igreja de João Paulo II e Bento XVI, Milão, Rizzoli, 2007, pg 25. Sobre o Sínodo de Cracóvia em 1972 cfr. B. LECOMTE, João Paulo II, Roma, A biblioteca da República, 2005, pg. 207 ss. E G. WEIGEL Testemunha da esperança. A vida de João Paulo II, Milão, Mondatori, 2005, pg. 252 ss.
    (9) Quarenta anos antes do “Discurso de Bento XVI a Cúria” de 22 de dezembro de 2005, que causou tanta surpresa aos conservadores pela sua “originalidade”, mas que é tão velho quanto o Concílio e os expoentes ultra-radicais deste. Onde não se vê qual esperança possa suscitar em ambiente anti-modernista tal teoria da hermenêutica da continuidade.
    (10) J. GROOATERS, Os protagonistas do Concílio Vaticano II, Cinisello Balsamo (cidade italiana), São Paulo (editora), 1994, pg. 154. Cfr. Documentation catholique, nº 62, 1965, pg. 1499-1502
    (11) J. GROOATERS, cit., pg 155, nota 27.
    (12) J GROOATERS, cit. Pg 87, nota5; cfr. L. BETTAZI, Uma presença interessada em opiniões e diálogos, em “Terra ambrosiana”, nº 32, 1991, pg; 17-18.
    (13) J.GROOATERS, cit. pg. 85.
    (14) A. S., vol. I, cap. 3, pg. 34-35 e 139.
    (15) J. RATZINGER – P. SEEWALD, Le sel de la terre, Le christianisme et l’Eglise catholique ou seuil du III millènaire, Parigi, Flammarion-Cerf, 1977, pg 72.
    (16) G. ALBERIGO (direto de), História do Concílio Vaticano II. A formação da consciência concliar, outubro 1962-setembro 1963, Bolonha, O Moinho, 1996 vol.II, p. 361.
    (17) H. JEDIN, História da minha vida, Brescia, 1987, pg. 314-315; J. RATZINGER, Das Konzil auf dem Weg. Rückblick auf die zweite Sitzungperiode, Köln, 1963-1966 (tr, it. 1965-1967), 4 vol., pg. 9-12 .

  5. Gederson disse:

    Caro Márcio,

    Pergunta o Pedro:

    O CVII é meramente pastoral? É infalível?

    Bom, o Concílio Vaticano II, como declararam os papas conciliares, é um Concílio Pastoral. Contudo, várias questões das quais ele trata e dá resposta pastoral, já haviam recebido respostas definitivas da Igreja, ou seja, tratavam-se de dogmas de fé. Neste sentido, cito como exemplo a questão do “Est” e do “Subsist in”. Concedamos por um instante, que possa haver conciliação entre um e outro. Mesmo concedendo, isto não explica o esvaziamento do dogma pela pastoral. Quero dizer, antes do CVII, se cria com fé divina e católica, que a Igreja Católica é o corpo de Cristo, mas depois do Concílio (concedendo a conciliação) está mesma verdade, torna-se pastoral, já não obriga por fé divina e católica, pede apenas um “religioso obséquio”. Considerando-se isto, acredito que a pergunta sobre o CVII é:

    Pode um concílio pastoral tratar de questões dogmáticas?

    Da mesma forma, o Concílio tratou a questão das fontes da revelação, da liberdade religiosa, da colegialidade, do ecumenismo, etc. Convenhamos, não faz sentido convocar um Concílio, para tratar de questões dogmáticas, como se fossem pastorais, sem desejar a mudança dos dogmas?

    Fiquem com Deus.

    Abraço

  6. Márcio disse:

    Caro Gederson, Salve Maria!

    Vou ler os textos indicados. Sobre o concílio ser pastoral, foram bem colocadas as suas observações. Se ele não era dogmático, e tudo o que ele tratou de forma “pastoral” já havia sido tratado de forma dogmática, então ele não passou de perda de tempo, de trabalho e de dinheiro. No fundo, o que os modernistas queriam era dar “nova orientação” à Igreja, ou melhor, modificar tudo o que a Igreja sempre ensinou a fim de introduzir o veneno de sua heresia. Se o concílio fosse dogmático, ele estaria protegido pela infalibilidade e os modernistas não teriam conseguido seu objetivo. Por isto a necessidade da novidade de um concílio “pastoral”.

    AMDG,

    Márcio

  7. Márcio disse:

    Renato,

    Medjugorje é defendida pelos progressistas. Já a mensagem de Fátima, tão urgente, é silenciada.

  8. Gederson disse:

    Caro Márcio,
    Salve Maria!
    Não sei se você se lembra do livro “O triunfo do modernismo na exegese católica” de autoria de Mons. Francesco Spadafora (que estava disponibilizado no antigo site da Permanência). Me lembrando está semana deste livro, pensei e refleti, chegando a várias questões, tais como:
    Ainda é válido o recurso a autoridade, na interpretação do Concílio?
    O problema do Concílio Vaticano II, é realmente um problema de hermenêutica ou mais exatamente de exegese?
    Bom, no livro, existem as seguintes palavras (em espanhol) reveladoras do Cardeal Ratzinger:
    “La confirmación del cardenal Ratzinger
    Esta separación entre la exégesis y el dogma y, por lo tanto, entre la exégesis y la teología dogmática, domina hoy, incontestada, en la «nueva» exégesis. El mismo cardenal Ratzinger, Prefecto de la Congregación para la Fe, lo atestigua en Esegesi cristiana oggi [Exégesis cristiana hoy]
    . Después de haber recordado, aunque sea de manera bastante misteriosa y poco clara, el principio dogmático fundamental de la exégesis católica: En materias de fe y costumbres que atañen a la edificación de la doctrina cristiana, ha de tenerse por verdadero sentido de la Sagrada Escritura aquel que sostuvo y sostiene la Santa Madre Iglesia, aquien toca juzgar del verdadero sentido e interpretación de las Escrituras; y, por tanto, a nadie es lícito interpretar la misma Escritura Sagrada contra este sentido ni tampoco contra el sentir unánime de los Padres prosigue: Pero este criterio teológico del método está en oposición incontestable con la orientación metodológica de fondo de la exégesis moderna; mejor dicho, es precisamente eso lo que la exégesis [moderna] trata de eliminar a toda costa. Esta concepción moderna puede describirse de la siguiente manera: o bien la interpretación es crítica, o bien se remite a la autoridad [ = al Magisterio de la Iglesia], pues las dos cosas no son posibles simultáneamente. Hacer una lectura «crítica» de la Biblia significa omitir el recurso a una autoridad en su interpretación. Cierto es que no debe excluirse totalmente la «tradición» como medio de comprensión; pero ella cuenta solamente en la medida en que sus motivaciones resistan a los métodos «críticos» [si no, es la Tradición la que debe ceder frente a la «crítica fantasista»]. En ningún caso la «tradición» puede ser criterio de interpretación. Considerada en su conjunto, la interpretación tradicional aparece como precientífica e ingenua; sólo la interpretación histórico-crítica parece capaz de desvelar verdaderamente el texto”. O triunfo do modernismo na exegese católica – 12 La demolicion da exegese católica – Mons. Francesco Spadafora http://www.statveritas.com.ar/Libros/el_triunfo_del_modernismo_sobre_la_exegesis_catolica(Francesco_Spadafora).pdf
    A leitura deste pequeno trecho, penso, coloca este livro (de Mons. Spadafora), como sendo de capital importância, para entendermos o que Bento XVI quer dizer com hermenêutica da continuidade e hermenêutica da ruptura. Repare que embora a tradição apareça como não sendo critério de interpretação para a Bíblia, ela aparece na solução hermenêutica de Bento XVI. Contudo, o seu papel dentro da hermenêutica da continuidade permanece vago, visto que, deixa em branco o papel da autoridade na interpretação do Concílio. Quero dizer, o recurso a autoridade permanece vago, pois continua a se transferir a função do magistério, para nós. Enquanto que, se é proibido a interpretação das escrituras fora do sentido dado pela Igreja, também (por analogia), é proibido interpretar os textos do Concílio, fora do sentido conferido pelo magistério. Daí surge outra pergunta:
    Qual o sentido dado pelo magistério aos textos do Concílio?
    Bom, não existe um sentido claro (preste atenção), contra o qual se haja proibição, a qualquer outro tipo de interpretação, que lhe seja antagônica. Ao se recusar se exprimir em cânones e anátemas, não se procurou proteger um sentido, para os textos conciliares, quer se fazer isto agora, 50 anos após seu encerramento? Não me parece, visto que, as próprias autoridades responsáveis pela resolução de seus problemas, são omissas. Pois, óbviamente, se o magistério pede que interpretamos o Concílio a luz da tradição, então, ele (o magistério), não tem a interpretação dos textos conciliares. Se não tem a interpretação destes textos, não pode exigir de nós o religioso obséquio da inteligência e da vontade. Diante deste
    Outra afirmação importante deste trecho, é a da separação entre o dogma e a exege. Para dar formulações pastorais, a questões dogmáticas, efetivamente, a exegese feita dos ensinamentos pré-conciliares, já estava separada do dogma….
    Vou ficando por aqui,
    Fique com Deus.
    Abraço

  9. Renato Lima disse:

    Bento XVI quer o fim da pena de morte:

    http://www.ansa.it/web/notizie/rubriche/topnews/2011/11/30/visualizza_new.html_11988950.html

    A cada dia que passa Bento XVI vai demonstrando que é contrário mesmo a veradadeira Igreja Católica, e quer criar uma nova igreja.

  10. Márcio disse:

    Caro Renato, Salve Maria!

    Que Bento XVI tenha tão nefasta intenção, eu não acredito. Mas que ele se afasta da doutrina católica, isto, infelizmente, só um alienado pode negar.

    Rezemos pelo papa, para que ele se livre do seu pensamento liberal.

    AMDG,

    Márcio

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s