A Fraternidade São Pio X deve fazer um acordo com Roma? O tema é um tanto delicado, e requer bastante prudência e discernimento da nossa parte. Dos blogs da Tradição, o único que tem discutido recentemente o assunto é o Perseverança na Fé, que, aliás, está promovendo uma enquete sobre o tema.
O meu ponto de vista é bem claro: a FSSPX não tem obrigação de fazer um acordo. Os tristes acontecimentos de 1988 (e seus antecedentes) foram causados por uma iniqüidade imensa da parte de Roma. Um clero corrompido pela heresia modernista (“os sacerdotes … tornaram-se cloacas de impureza“, como disse a Virgem Santíssima em La Salette) perseguia cruelmente a Tradição e buscava, das maneiras mais baixas, destruir a Fé Católica. A FSSPX resistiu heroicamente, e preferiu sofrer uma excomunhão injusta a abandonar a Fé. Hereges nas fileiras da Igreja, que mereciam realmente serem censurados pelo Vaticano, isso havia aos montes. Mas contra eles nada foi feito. A perseguição era somente contra quem queria defender a Fé Católica de sempre, sem inovações heréticas.
Disso resulta que, se existe uma obrigação, ela pesa sobre os ombros do Vaticano: uma obrigação de Justiça, de reparar um erro cometido por um clero corrupto. Eu tenho confiança em Sua Santidade, o Papa Bento XVI, que ele busca a Justiça. Aliás, ter confiança no papa é o estado natural do católico. Somente se admite o contrário em situações absolutamente anormais, como a apostasia pós-vaticano II.
Mas, se por um lado S.S. Bento XVI está restaurando o que os modernistas destruíram, devemos lembrar que a situação ainda está muito longe do ideal. O veneno da colegialidade ainda está ativo, e muitos bispos ainda agem como se o Papa não fosse o Cristo na terra, ao qual se deve submeter todo poder neste mundo, conforme disse S.S. o Papa Bonifácio VIII, de venerabilíssima memória, em sua célebre bula Unam Sanctam. Eu não vejo como poderia ser bom para a FSSPX sujeitar-se a determinados bispos. Vejam o caso do Instituto do Bom Pastor, já citado pelo blog Perseverança na Fé: desde Fevereiro eles solicitaram uma capela para celebrarem a Santa Missa, mas o cardeal de São Paulo não lha concedeu até agora. Os católicos tradicionais acabam não contando com ajuda nenhuma dos defensores da Vaticano II, mesmo que estejam em “comunhão formal” com Roma.
No entanto, em vez de perguntar se a FSSPX deve fazer um acordo com Roma, seria melhor fazer uma pergunta do tipo: sob quais condições deveria a FSSPX fazer um acordo com Roma? Ou talvez: poderia um acordo com Roma ser favorável à FSSPX? Essas perguntas dariam uma boa discussão, que eu estou apenas iniciando.
As minhas idéias iniciais seriam mais ou menos estas:
- A FSSPX não deve ficar subordinada às dioceses de bispos pró-vaticano II;
- A FSSPX não está, e jamais será, obrigada a celebrar a missa no rito do Novus Ordo, e nem precisará se pronunciar em seu favor, e não será impedida nem censurada se criticá-la;
- A FSSPX não deve será obrigada a aceitar o Vaticano II, e poderá criticá-lo (como já ocorre com o IBP);
- Ficam anulados os decretos de excomunhão contra Dom Marcel Lefèbvre e a FSSPX;
Esses seriam, ao meu ver, as condições mínimas necessárias para se aceitar um acordo, sempre lembrando que a FSSPX não tem obrigação de fazê-lo, e somente deve assiná-lo nas condições mais favoráveis possíveis.
Deveríamos levar em conta, também, a necessidade e a utilidade de um acordo, bem como os perigos que ele poderia trazer para a FSSPX.
Necessidade, eu não vejo nenhuma de vulto. A Tradição está crescendo (vejam a FSSPX em São Paulo); está convertendo à Fé católica pessoas de outras religiões, e não somente fazendo política, como o cardeal Kasper; está ganhando para a sua causa católicos que não a conheciam. Este foi o meu caso: criado desde pequeno no ambiente modernista, revoltado com os absurdos que via, fui procurando conhecer cada vez a história e acabei por descobrir a raiz de toda a apostasia que me deixava perplexo. Hoje estou cem por cento a favor da FSSPX. Qualquer pessoa que estude a história recente da Igreja, com imparcialidade, dará plenas razões à FSSPX.
A utilidade e os perigos de um acordo, deixo para comentar em outro artigo. A discussão promete ser longa, mesmo.