Algumas pessoas questionam a forma como eu me expresso sobre o concílio Vaticano II e a missa nova. Mesmo reconhecendo os erros de ambos, ou pelo menos de algum deles, estas pessoas manifestam o temor de que as autoridades eclesiásticas passem a agir com má vontade contra a Tradição. O que se pode responder é muito simples: os progressistas já agem de má vontade contra nós, e isto o fazem desde sempre.
Basta ver as desculpas sem lógica que são inventadas para impedir os fiéis de terem a Missa Tridentina. Tanto o motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI quanto, muitíssimo mais, a bula Quo Primum Tempore de São Pio V, não colocam nenhuma barreira para a celebração da Missa Tridentina. Muito pelo contrário, São Pio V diz com todas as letras que nenhum fiel poderia jamais, em tempo algum, ser privado deste rito:
8 – Além disso, em virtude de Nossa Autoridade Apostólica, pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura, e isto para sempre.
9 – Da mesma forma decretamos e declaramos que os Prelados, Administradores, Cônegos, Capelães e todos os outros Padres seculares, designados com qualquer denominação, ou Regulares, de qualquer Ordem, não sejam obrigados a celebrar a Missa de outro modo que o por Nós ordenado; nem sejam coagidos e forçados, por quem quer que seja, a modificar o presente Missal, e a presente Bula não poderá jamais, em tempo algum, ser revogada nem modificada, mas permanecerá sempre firme e válida, em toda a sua força.
14 – Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição.
Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo.
Apesar de toda esta clareza, existem péssimos bispos, verdadeiros traidores da Fé, que ousam negar a Missa Tridentina aos fiéis que a pedem. Dom Ranjith, recentemente feito cardeal, não hesitou em qualificar estes bispos como instrumentos do demônio.
Os direitos à Missa Tridentina, garantidos por São Pio V, valem para todas as épocas e para todos os lugares e para todas as situações. Um único católico proibido de assistir à Missa Tridentina é uma violação hedionda e inaceitável. Portanto, não é porque nós temos a oportunidade de assistir a Missa Tridentina que devemos ficar de braços cruzados enquanto muitos não a tem, tendo de suportar a missa nova.
A incoerência dos bispos que impedem a Missa Tridentina é tão grande que nem o concílio Vaticano II é por eles respeitado. De fato, o concílio ordenou aos bispos que providenciassem para que os católicos de ritos diversos pudessem ser convenientemente atendidos:
3)(…)Também para este fim, onde há fiéis de rito diverso, proveja o Bispo diocesano às necessidades particulares deles, por meio de sacerdotes ou paróquias do mesmo rito, ou por meio dum Vigário episcopal munido das convenientes faculdades e, se for necessário, revestido de carácter episcopal – ou desempenhando o Bispo diocesano por si mesmo o múnus de Ordinário de ritos diversos. Mas, se nada disto, a juízo da Sé Apostólica, se puder realizar por motivos especiais, constitua-se então uma hierarquia própria para cada rito. (Christus Dominus, 23)
É certo que o concílio se referia especialmente aos ritos orientais. Mas que razão haveria para não aplicá-lo, depois da pseudo-reforma litúrgica, também ao rito tridentino? Porque somente o rito tridentino haveria de ser proibido? Se os bispos quisessem mesmo aplicar o concílio Vaticano II na sua integridade, haveriam de não somente não combater, mas até mesmo promover a Missa Tridentina onde quer que houvesse fiéis que a desejassem (e mesmo assim, por absurdo, fazendo abstração da Bula Quo Primum Tempore, pois se a levássemos em conta, nem sequer deveria ter havido a fabricação do rito do novus ordo).
Constatamos assim – se isto ainda fosse necessário – que os bispos progressistas que dizem defender o concílio Vaticano II, somente o fazem quando isto lhes interessa, ou seja, quando servem para destruir tudo o que há de tradicional na Igreja. Por que estes bispos não se esquecem, por exemplo, de reivindicar a colegialidade? Pois bem, a colegialidade, já condenada por S.S. o papa Pio VI em 1786 através do breve Super Soliditate Petrae, é amplamente defendida por estes bispos sediciosos contra a autoridade papal. Já a Missa Tridentina, protegida para sempre de forma tão inequívoca por São Pio V, é reiteradamente negada aos fiéis. Portanto, percebe-se facilmente a diferença de tratamento dada a dois temas expostos até no mesmo documento do Vaticano II (Christus Dominus). O que é de acordo com a Tradição é combatido, o que lhe é frontalmente contrário é praticado.
Alguém ainda espera qualquer boa-vontade de bispos que agem desta maneira? Ora, não devemos nos preocupar se atraímos a ira destes maus bispos quando exigimos a Missa Tridentina. Não importa o quão educadamente peçamos o rito tradicional, eles vão nos negar. Pessoas muito moderadas, sem ligação nenhuma com grupos “rad-trads” já solicitaram a Missa e esta lhes foi negada. E vai ser sempre negada porque os bispos progressistas não podem suportar uma Missa Tradicional. Certamente que devemos ser agradecidos aos bispos que nos concedem de boa vontade a Missa Tridentina. Mas, se um bispo nos nega a Missa, nós não devemos baixar a cabeça para estes que não respeitam o direito dos fiéis. Lutemos pela Missa apesar deles.
Como se já não bastassem as tiranias individuais dos maus bispos, os progressistas agora querem colocar limites “legais” ao documento de Bento XVI sobre a Missa Tridentina. Recentes rumores sobre a instrução de aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum nos colocam em alerta para o perigo de que sejam impostas restrições a este documento do papa atual. Isto demonstra, ainda mais vez, que as autoridades progressistas não se cansam de combater a Tradição católica. Tudo o que eles puderem fazer para impedir um fiel de assistir a Missa de Sempre, eles o farão. Por isso, ainda que eu escreveria algo muito diferente, convido a assinarem a petição feita ao Sumo Pontífice para que este não permita um retrocesso no duro caminho já percorrido:
http://www.motuproprioappeal.com/p/polska.html
Não podemos deixar de lutar pela Missa de Sempre. Mas, mesmo depois de conseguir a Missa Tridentina, nem por isso devemos nos calar. A pseudo-reforma da liturgia é apenas um dos aspectos da crise atual. Não podemos nos contentar em ter a Missa Tridentina e nos esquecermos do combate doutrinal, que é a raiz de tudo. E, mesmo no campo da liturgia, devemos zelar para que a Missa Tridentina seja corretamente celebrada e que não haja infiltração de doutrinas erradas por meio dos sermões. Este foi o tema de uma exortação recente da FSSPX para os fiéis se aconselharem bem sobre a assistência às missas de indulto para que não sejam contaminados pela mentalidade modernista, assistinda à missas no rito tridentino onde haja infiltração de erros ou ambigüidades. O tema gerou conflito por causa de uma confusão maliciosa provocada por membros do IBP que quiseram enxergar contradição entre esta exortação e o pedido dos rosários da FSSPX pela liberação da Missa de Sempre. A resposta foi serena, mas não deixa dúvidas sobre a necessidade de cuidarmos da integridade da Missa Tridentina e de não abandonarmos o combate da Tradição apenas porque temos a Missa.
De fato, com um pouco de boa-vontade é fácil entender a colocação. A mudança de mentalidade não se faz de uma hora para outra. A maioria dos católicos vive atualmente num péssimo ambiente progressista. Ao se introduzir a Missa Tridentina, devemos zelar para que ela não seja impregnada dos elementos de corrupção da missa nova e dos erros modernistas. Pelo contrário, devemos zelar para que a Missa Tridentina seja parte do retorno à Tradição, sem mesclas de progressismo. E não podemos admitir que a Missa Tridentina seja defendida apenas como a opção de alguns saudosistas, quando, na realidade, ela é a verdadeira Missa do rito romano.
Portanto, devemos lutar pela Missa Tridentina sem nos preocuparmos com os lobos que uivam. Devemos lutar para que todos a tenham. Devemos lutar para que ela seja celebrada na forma correta, sem nenhuma infiltração de erros progressistas, nem na sua liturgia nem nos sermões dos padres que a celebram. E, finalmente, não podemos permitir que a Tradição seja tratada como mero saudosismo, ficando calados sobre os terríveis erros do clero modernista, em troca de uma missa de indulto.
O caminho da restauração, pelo que se pode ver, é bem longo. Mas devemos percorrê-lo.