Missa nova na paróquia dos outros é refresco?

Algumas pessoas questionam a forma como eu me expresso sobre o concílio Vaticano II e a missa nova. Mesmo reconhecendo os erros de ambos, ou pelo menos de algum deles, estas pessoas manifestam o temor de que as autoridades eclesiásticas passem a agir com má vontade contra a Tradição. O que se pode responder é muito simples: os progressistas já agem de má vontade contra nós, e isto o fazem desde sempre.

Basta ver as desculpas sem lógica que são inventadas para impedir os fiéis de terem a Missa Tridentina. Tanto o motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI quanto, muitíssimo mais, a bula Quo Primum Tempore de São Pio V, não colocam nenhuma barreira para a celebração da Missa Tridentina. Muito pelo contrário, São Pio V diz com todas as letras que nenhum fiel poderia jamais, em tempo algum, ser privado deste rito:

8 – Além disso, em virtude de Nossa Autoridade Apostólica, pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura, e isto para sempre.

9 – Da mesma forma decretamos e declaramos que os Prelados, Administradores, Cônegos, Capelães e todos os outros Padres seculares, designados com qualquer denominação, ou Regulares, de qualquer Ordem, não sejam obrigados a celebrar a Missa de outro modo que o por Nós ordenado; nem sejam coagidos e forçados, por quem quer que seja, a modificar o presente Missal, e a presente Bula não poderá jamais, em tempo algum, ser revogada nem modificada, mas permanecerá sempre firme e válida, em toda a sua força.

14 – Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição.

Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo.

Apesar de toda esta clareza, existem péssimos bispos, verdadeiros traidores da Fé, que ousam negar a Missa Tridentina aos fiéis que a pedem. Dom Ranjith, recentemente feito cardeal, não hesitou em qualificar estes bispos como instrumentos do demônio.

Os direitos à Missa Tridentina, garantidos por São Pio V, valem para todas as épocas e para todos os lugares e para todas as situações. Um único católico proibido de assistir à Missa Tridentina é uma violação hedionda e inaceitável. Portanto, não é porque nós temos a oportunidade de assistir a Missa Tridentina que devemos ficar de braços cruzados enquanto muitos não a tem, tendo de suportar a missa nova.

A incoerência dos bispos que impedem a Missa Tridentina é tão grande que nem o concílio Vaticano II é por eles respeitado. De fato, o concílio ordenou aos bispos que providenciassem para que os católicos de ritos diversos pudessem ser convenientemente atendidos:

3)(…)Também para este fim, onde há fiéis de rito diverso, proveja o Bispo diocesano às necessidades particulares deles, por meio de sacerdotes ou paróquias do mesmo rito, ou por meio dum Vigário episcopal munido das convenientes faculdades e, se for necessário, revestido de carácter episcopal – ou desempenhando o Bispo diocesano por si mesmo o múnus de Ordinário de ritos diversos. Mas, se nada disto, a juízo da Sé Apostólica, se puder realizar por motivos especiais, constitua-se então uma hierarquia própria para cada rito. (Christus Dominus, 23)

É certo que o concílio se referia especialmente aos ritos orientais. Mas que razão haveria para não aplicá-lo, depois da pseudo-reforma litúrgica, também ao rito tridentino? Porque somente o rito tridentino haveria de ser proibido? Se os bispos quisessem mesmo aplicar o concílio Vaticano II na sua integridade, haveriam de não somente não combater, mas até mesmo promover a Missa Tridentina onde quer que houvesse fiéis que a desejassem (e mesmo assim, por absurdo, fazendo abstração da Bula Quo Primum Tempore, pois se a levássemos em conta, nem sequer deveria ter havido a fabricação do rito do novus ordo).

Constatamos assim – se isto ainda fosse necessário – que os bispos progressistas que dizem defender o concílio Vaticano II, somente o fazem quando isto lhes interessa, ou seja, quando servem para destruir tudo o que há de tradicional na Igreja. Por que estes bispos não se esquecem, por exemplo, de reivindicar a colegialidade? Pois bem, a colegialidade, já condenada por S.S. o papa Pio VI em 1786 através do breve Super Soliditate Petrae, é amplamente defendida por estes bispos sediciosos contra a autoridade papal. Já a Missa Tridentina, protegida para sempre de forma tão inequívoca por São Pio V, é reiteradamente negada aos fiéis. Portanto, percebe-se facilmente a diferença de tratamento dada a dois temas expostos até no mesmo documento do Vaticano II (Christus Dominus). O que é de acordo com a Tradição é combatido, o que lhe é frontalmente contrário é praticado.

Alguém ainda espera qualquer boa-vontade de bispos que agem desta maneira? Ora, não devemos nos preocupar se atraímos a ira destes maus bispos quando exigimos a Missa Tridentina. Não importa o quão educadamente peçamos o rito tradicional, eles vão nos negar. Pessoas muito moderadas, sem ligação nenhuma com grupos “rad-trads” já solicitaram a Missa e esta lhes foi negada. E vai ser sempre negada porque os bispos progressistas não podem suportar uma Missa Tradicional. Certamente que devemos ser agradecidos aos bispos que nos concedem de boa vontade a Missa Tridentina. Mas, se um bispo nos nega a Missa, nós não devemos baixar a cabeça para estes que não respeitam o direito dos fiéis. Lutemos pela Missa apesar deles.

Como se já não bastassem as tiranias individuais dos maus bispos, os progressistas agora querem colocar limites “legais” ao documento de Bento XVI sobre a Missa Tridentina. Recentes rumores sobre a instrução de aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum nos colocam em alerta para o perigo de que sejam impostas restrições a este documento do papa atual. Isto demonstra, ainda mais vez, que as autoridades progressistas não se cansam de combater a Tradição católica. Tudo o que eles puderem fazer para impedir um fiel de assistir a Missa de Sempre, eles o farão. Por isso, ainda que eu escreveria algo muito diferente, convido a assinarem a petição feita ao Sumo Pontífice para que este não permita um retrocesso no duro caminho já percorrido:

http://www.motuproprioappeal.com/p/polska.html

Não podemos deixar de lutar pela Missa de Sempre. Mas,  mesmo depois de conseguir a Missa Tridentina, nem por isso devemos nos calar. A pseudo-reforma da liturgia é apenas um dos aspectos da crise atual. Não podemos nos contentar em ter a Missa Tridentina e nos esquecermos do combate doutrinal, que é a raiz de tudo. E, mesmo no campo da liturgia, devemos zelar para que a Missa Tridentina seja corretamente celebrada e que não haja infiltração de doutrinas erradas por meio dos sermões. Este foi o tema de uma exortação recente da FSSPX para os fiéis se aconselharem bem sobre a assistência às missas de indulto para que não sejam contaminados pela mentalidade modernista, assistinda à missas no rito tridentino onde haja infiltração de erros ou ambigüidades. O tema gerou conflito por causa de uma confusão maliciosa provocada por membros do IBP que quiseram enxergar contradição entre esta exortação e o pedido dos rosários da FSSPX pela liberação da Missa de Sempre. A resposta foi serena, mas não deixa dúvidas sobre a necessidade de cuidarmos da integridade da Missa Tridentina e de não abandonarmos o combate da Tradição apenas porque temos a Missa.

De fato, com um pouco de boa-vontade é fácil entender a colocação. A mudança de mentalidade não se faz de uma hora para outra. A maioria dos católicos vive atualmente num péssimo ambiente progressista. Ao se introduzir a Missa Tridentina, devemos zelar para que ela não seja impregnada dos elementos de corrupção da missa nova e dos erros modernistas. Pelo contrário, devemos zelar para que a Missa Tridentina seja parte do retorno à Tradição, sem mesclas de progressismo. E não podemos admitir que a Missa Tridentina seja defendida apenas como a opção de alguns saudosistas, quando, na realidade, ela é a verdadeira Missa do rito romano.

Portanto, devemos lutar pela Missa Tridentina sem nos preocuparmos com os lobos que uivam. Devemos lutar para que todos a tenham.  Devemos lutar para que ela seja celebrada na forma correta, sem nenhuma infiltração de erros progressistas, nem na sua liturgia nem nos sermões dos padres que a celebram. E, finalmente, não podemos permitir que a Tradição seja tratada como mero saudosismo, ficando calados sobre os terríveis erros do clero modernista, em troca de uma missa de indulto.

O caminho da restauração, pelo que se pode ver, é bem longo. Mas devemos percorrê-lo.

Sobre a situação atual

Por que Sua Santidade Bento XVI não toma, de uma vez, todas as atitudes necessárias para restaurar plenamente a Igreja, a autoridade papal, a Santa Missa Tridentina? Esta é a pergunta que muitos se fazem.

Na conferência proferida em São Paulo, quando da última crisma, Dom Bernard Fellay  usou a imagem de um trem, que não pode fazer uma curva muito fechada senão descarrilha. Da mesma forma, se as autoridades romanas caminharam durante tantos anos se afastando da doutrina católica, não é de se esperar que a caminhada de retorno para a plena ortodoxia seja breve. Na mensagem de Fátima, Nossa Senhora descreveu uma procissão que se afastava de Roma e que, percebendo que estavam fora da cidade, empreenderam o caminho de volta. Esta tese foi muito bem desenvolvida pelo Prof Orlando Fedeli:

“Curioso que o sol não retornou a seu lugar no alto do céu subindo diretamente. Também seu retorno foi ziguezagueante, hesitante, “cambaleante”. Não retornou em linha reta, indicando que a Igreja retornaria à situação anterior à queda em meio a hesitações. A volta à posição normal de Roma será tão longa e tão ziguezagueante como a saída da posição normal e natural. Os Papas que determinarem a volta a Roma não o farão de uma só vez.”

(…)”No auge da crise, haverá uma intervenção sobrenatural que fará um Papa tomar o caminho de volta para Roma – para as duas colunas de salvação: a Missa e a devoção a Nossa Senhora. O Papa que iniciará esse retorno parece fazê-lo de modo vacilante. Ele cambaleia, hesita, chora, vendo os estragos causados por aqueles que deram uma orientação errada ao caminho da procissão e da nau.

Fátima: um “segredo” contendo um enigma envolto em um mistério

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cadernos&subsecao=religiao&artigo=fatima3〈=bra

Se Roma se afastou, por tantos anos, da doutrina católica, não será com um único ato papal que tudo se encontrará novamente no seu devido lugar.

Pressões sobre o Papa

Repetindo a pergunta com a qual se abriu este artigo, poderíamos acrescentar mais estas: Bento XVI tem de enfrentar muitos lobos? Ele sofre grandes pressões? Há vários sinais a indicar que sim.

Na Áustria, Bento XVI aceitou a dispensa do Padre Gerhard Wagner, que fora nomeado bispo por Sua Santidade, mas que encontrou forte resistência dos modernistas, a tal ponto de fazer o padre pedir a referida dispensa.

A história da rebelião modernista agora se repete com o futuro Bispo de Guipúzcoa, Espanha. Esperamos que não se repita a atitude do papa e que ele possa, desta vez, enfrentar os lobos.

Pressionado ou não, Bento XVI continua sendo um enigma. Como, por exemplo, ao permitir a declaração das virtudes heróicas de João Paulo II.

Como entender as atitudes de Bento XVI? Não é tarefa fácil. Eu o vejo como verdadeiro Papa, legítimo sucessor de São Pedro; que, no passado, recebeu fortes influências modernistas, teve péssimas amizades com os teólogos “peritos” do concílio, do qual também tomou parte como perito; que, hoje, já se livrou parcial, mas não totalmente, destas influências; que, eu acredito, seja fortemente pressionado pelo clero modernista, tão bem descritos pelo termo “cloacas de impureza”, dito por Nossa Senhora em La Salette; e que, rezamos para isto, terá força para se livrar de todo modernismo e enfrentar estes lobos. Passar disso é fazer especulações demais.

As críticas

As apreensões de vários católicos não são desprovidas de sentido. Existem coisas terríveis que ainda ocorrem entre os conciliares, e tais fatos não podem nem devem ser escondidos. O católico é realista, enfrenta as dificuldades, por maiores que elas sejam, com ânimo forte, movido por sua fé e sua confiança em Deus. Enterrar a cabeça e fingir que tudo anda maravilhosamente bem é fugir da realidade.

Exemplo recente que demonstra a necessidade de se manter a lucidez é a encíclica Caritas in Veritate, cheia de erros. A análise feita pelo Prof. Orlando Fedeli sobre esta encíclia é muito superficial. Mesmo se se aceitar a tese do professor, não há motivos para se alegrar tanto porque encontrou alguma coisa boa em uma encíclica papal. Isto deveria ser o normal. Pior ainda é ignorar os erros graves nela contidos, e que foram apontados de forma breve, porém muito lúcida, pelo Prof. Angueth.

E as publicações de L’Osservatore Romano? Em uma edição, eles absolvem John Lenon, que se achava mais famoso que Jesus Cristo! Em outra, é a vez de recomendar os “Simpsons”. O católico mais ingênuo pode perceber que o jornal romano não é lá tão osservatore della vera religione, mas muito mais osservatore del “mondo”. Mundano mesmo, para falar o português claro.

Podemos facilmente encontrar outros exemplos absurdos. Como o congresso evolucionista dentro do Vaticano, que exlcuiu a participação de criacionistas. Ou, entre outras coisas, a falta de cuidado com as questões doutrinais, litúrgicas, canônicas, etc, para o retorno de  anglicanos à Igreja, trantado-os como se fossem tão próximos à Igreja quanto os cismáticos orientais, o que não são. Ou tantos outros fatos que poderiam ser citados.

Comparando com o pontificado anterior, estamos vivendo um momento de relativa alegria e esperança. Mas não há motivos para excessiva euforia. Se o pior da tempestade já passou, ainda não estamos em céu azul. Os fatos demonstram isso de forma inegável.

É difícil tomar uma posição definitiva. Por um lado, não vejo as coisas de forma tão pessimista como alguns a vêem, porque não acredito que a FSSPX irá assinar um acordo prático, por outro lado não deixo de dar razão àlgumas preocupações levantadas por muitos católicos, porque há muito  interesse dos modernistas em uma queda da FSSPX. O assédio existe, mais creio que a Tradição irá resistir. Por isso, prefiro seguir com cautela. Com esperança, mas não sem reservas.

Soluções intermediárias?

E o que pensar, por exemplo, das atitudes de Bento XVI a favor da Tradição, como o Motu Proprio Summorum Pontificum e o levantamento das excomunhões? Não há dúvidas de que representam um avanço em relação ao papado anterior. Mas estão muito longe de terem realizado a justiça, seja para com a Missa Tridentina, seja para com os baluartes da Fé Católica deste final de milênio. Certamente elas não podem ser aceitas como soluções definitivas. Tais atos somente podem ser admitidos como soluções intermediárias.

A missa fabricada por Bugnini com o auxílio de seis “pastores” protestantes, tão criticada pelo Cardeal Ottaviani, tão afastada do Sacrifício e tão próxima da ceia, poderia ser considerada a forma “ordinária” do Rito Romano, enquanto que a Missa Tridentina seria apenas a forma “extra-ordinária”? Claro que não. As duas “formas” são, na realidade, frutos de duas concepções opostas, uma formada pela religião de Deus, outra fabricada pela religião do homem. São duas teologias opostas, incompatíveis.

Mas, enxergando o Summorum Ponfificum como uma etapa, podemos dizer que trouxe bons avanços. Para a pessoa honesta, é necessário dizer, bastava a Bula Quo Primum Tempore. Este documento, de São Pio V, já garante, por si só, os direitos eternos da Missa Tridentina. Qualquer pessoa alfabetizada entende isso ao ler esta Bula, tal sua clareza e sua insistência nos direitos perpétuos desta liturgia. Mas, quem tinha acesso a este documento? Somente pela internet eu, e muita gente, ficamos conhecendo-o. Além disso, havia a tal afirmação, completamente sem razões, de que o tal “magistério vivo” havia mudado as suas disposições. Tal afirmação é incompatível com a doutrina católica mas, para as grandes massas, privadas de todo contato com os documentos tradicionais, poderia ser convincente. Agora, depois do Summorum Pontificum, nem mesmo este argumento absurdo pode mais ser usado. O magistério do papa atual diz com todas as letras que o fiel tem direito à Missa Tridentina. Assim, nem mesmo o absurdo argumento do “magistério vivo” pode ser usado para impedir a Missa Tridentina. Os bispos que negam a Missa Tridentina estão em clara desobediência ao Santo Padre Bento XVI. Já perderam totalmente a moral, o direito de exigirem alguma coisa dos fiéis. Este bispos são tiranos, verdadeiros intrumentos do demônio, como disse Mons Ranjith. A atitude deles contra a Santa Missa vai servir apenas para alertar os fiéis que há algo de muito errado na igreja pós-conciliar. Então, apesar dos defeitos, graves e que terão de ser corrigidos no futuro, o Motu Proprio Summorum Pontificum trouxe, sim, benefícios incalculáveis para a Igreja.

De uma outra forma, também o levantamento das excomunhões trouxe benefícios. Os bispos da FSSPX tiveram suas excomunhões levantadas sem aceitar os erros do concílio. A conclusão lógica, bastante clara, é que não é necessário aceitar incondicionalmente o concílio para estar em comunhão com a Igreja Católica. A questão da “regularização” canônica, quando for resolvida, afastará até as mínimas objeções que alguns, sem razão, ainda levantam contra a legitimidade dos sacramentos ministrados pela Fraternidade. A justiça para com Mons Lefebvre e Mons Castro Mayer ainda não foi feita, mas um dia será. Falta, ainda, o esclarecimento de que tais excomunhões foram nulas desde o princípio, nunca tiveram validade. Todos estes defeitos terríveis estão contidos no decreto de levantamento, que não pode ser aceito senão como uma vitória parcial, que ainda há de ser completada.

O que pensar sobre as conversações entre a FSSPX e o Vaticano?

O simples fato de se colocar em discussão o Vaticano II já demonstra a fragilidade deste concílio. Poderia ser posto em discussão Trento ou o Concílio Vaticano Primeiro? Claro que não. Mas o Vaticano Segundo pode, porque não foi dogmático nem infalível.

Além do mais, se Bento XVI estivesse realmente determinado a defender a posição radical do Vaticano II, ele teria escolhido os membros mais liberais do clero. E observe o caro leitor que “time” de hereges o papa não poderia ter “escalado” para defender o irenismo do Vaticano II! Mas ele não o fez. As escolhas de Bento XVI para os debates com a FSSPX esclarecem um pouco sua posição.

O mais importante de tudo, quando pensamos nas conversações, é que não há vitória sem combate. E, que combate melhor pode haver senão as discussões doutrinais? Durante longos anos a FSSPX buscou tais conversações, mas sempre lhe foram negados pelas autoridades romanas. Sempre lhes insistiam sobre o tal “acordo”, mas a Fraternidade resistiu, enquanto muitos outros tombavam no caminho, abandonando o bom combate da Tradição em troca de uma “regularização”.

Sinceramente, eu não acredito, de forma alguma, que, depois de tanto combate, a FSSPX aceitaria os erros modernos. Depois de ter visto tantos cairem pelo caminho, não seria agora que eles iriam se entregar. Não agora, depois de tantas vitórias, ainda que parciais. Houve sempre muitas pressões dos modernistas, e ainda há, para destruir a resitência da Tradição. O argumento, agora, é de que a Tradição recebeu muitas concessões e que, portanto, deveria retribuir com um “acordo”. Não creio que alguém caia nesta cilada. O que a Tradição recebeu foi o que lhe cabe por direito, e ainda não recebeu muito, dada a magnanimidade das disposições da Quo Primum Tempore, por exemplo. Sem mencionar a confusão doutrinal que ainda aflige os fiéis e que deve ser totalmente desfeita.

Faz relativamente pouco tempo que eu conheço a Tradição Católica. Como a maioria, fui descobrindo aos poucos a situação atual da Igreja, através da internet. Se eu apóio a Fraternidade, é porque ela é inteiramente católica e trava o bom combate da Fé com zelo extremo. Se Dom Fellay fizesse um acordo prático, eu não o apoiaria e, creio, muitíssima gente da Tradição também não. Mas não é diante dos homens, e sim diante de Deus, que se deve prestar contas. E, independente de qualquer pressão, eu acredito que a FSSPX irá cumprir o papel que tem cumprido tão bem durante tantas décadas: continuar sendo católica no meio de tanta apostasia. Ser “tradicionalista” é isto: simplesmente continuar sendo católico. Não é a pressão por uma “regularização” que deve nos mover, e sim a defesa da Verdade Católica face às inovações modernistas.

Seria útil uma regularização? Sim, seria para acabar com as últimas críticas daqueles que, ou ainda não se deram conta do estado de necessidade, por qualquer motivo que seja, e que não nos cabe julgar, ou então são hereges modernistas e querem ver a ruína da Tradição. Com a “regularização”, acabaria qualquer medo, qualquer receio de se frequentar a FSSPX. Acabariam as ridículas desculpas legalistas.

No entanto, mesmo havendo esta utilidade, ela é muito pequena se comparada com os riscos de um acordo apressado. É só ver o caso dos institutos que assinaram acordos práticos: acabaram na missa nova cheia de confentes e treatros e tudo o mais que não se deveria fazer durante a renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário. E quando não se participa do “festim”, ao menos ficam em silêncio diante de tanta profanação. Ou abaixam a cabeça para as “autoridades” modernistas, como fez o IBP ao abandonar o Brasil no momento em que seu apostolado crescia a vista de todos.

A FSSPX está no caminho certo: discutindo teologicamente. E que a “regularização” venha quando não houver mais riscos para a Fé e quando os graves problemas doutrinários estiverem resolvidos. Sem pressa, sem atropelos. Enquanto isso, deixem os lobos uivarem.

Conclusão

Muito tímida esta minha colocação? “Em cima do muro”? Penso que não, que ela seja apenas prudente, cautelosa. Não salto de alegria com as atitudes de Sua Santidade, muitas delas até causam sérias preocupações. Mas também não acredito na “armadilha” para a Tradição, que alguns chegam mesmo a ilustrar com uma teia de aranha. E, se ela existisse, não iríamos cair nela, porque já sabemos muito bem que os “acordos práticos” sevem apenas para abandonar o bom combate da Tradição. Prudência, penso eu, é uma das virtudes mais necessárias no momento. E além da prudência, é claro, a esperança, a confiança que um católico sempre deve ter.

A este respeito, muito apropriadas são estas palavras das Sagradas Escrituras:

Os chefes falarão, ainda, estas coisas ao povo: ‘Quem está com medo e sente amolecido o coração? Vá-se embora para sua casa e não faça desfalecer o coração dos seus irmãos, como o seu próprio coração.’ (Deu 20,8)

A versão da Bíblia Sagrada em que eu li este versículo, da Ed. Santuário e Ed. Loyola, 2003, trazia-lhe estes comentários:

“Muitos motivos psicológicos justificam essa exclusão dos covardes. Mas é certo também que os medrosos e os covardes emcabeçam a lista dos réprobos por pecarem contra a fé e a confiança em Deus.”

Devemos ter confiança em Deus. Que a Igreja é indestrutível, cabe nos ainda alguma dúvida? Depois de todo o temporal que se seguiu ao concílio, de todo o poder que os modernistas chegaram a ter, do quanto a Santa Missa Tridentina e a doutrina católica estiveram ameaçadas, seria agora, no momento em que se está retomando, ainda que aos poucos, o bom caminho, seria agora a hora de se desesperar?

As discussões teológicas são o caminho para desfazer os erros do concílio, e elas já começaram. A capitulação da FSSPX através de um acordo prático é, até agora, apenas um pesadelo, cuja concretização Deus há de impedir. Apesar de toda apreensão, devemos admitir que estamos caminhando.

A Igreja superou todas as heresias, inclusive o arianismo, e está superando o modernismo. Muito lentamente? Sim, também acho. Mas quem somos nós para exigir alguma coisa? Deus não concedeu a Moisés, depois de guiar o povo por quarenta anos no deserto, a entrada na Terra Prometida. Por que nós exigiríamos de Deus a solução imediata da crise? Quem somos nós para não nos conformarmos com os desígnios do Altíssimo? Aproveitemos a situação atual, ainda desconfortável, para aumentar a nossa confiança em Deus, a Quem cabe a vitória e toda glória. Por enquanto, apenas cumpramos nossas obrigações e rezemos com confiança. É assim que eu penso.

Como podemos nos organizar para ter a Missa Tridentina?

O blog Igreja Una fez uma excelente observação a respeito da carta escrita por Dom Vilson Dias de Oliveira, bispo de Limeira. O bispo escreveu, dentre outras coisas, o seguinte:

4 – Na Diocese de Limeira jamais se negou o direito dos fiéis leigos à Missa nos termos do Missal Romano anterior à reforma de 1970, mas sempre se exigiu que o direito fosse efetivo consoante as exigências litúrgicas e jurídicas ditadas pela própria Igreja. Por isso, o Bispo Diocesano, seguindo as orientações do Núncio Apostólico no Brasil não permitiu que essa Missa fosse realizada, porque não foram encontradas totais condições para sua efetivação.

O blog Igreja Una, percebeu muito bem o deslize do bispo: Dom Vilson falou demais e acabou “entregando” o Núncio Apostólico no Brasil. As tais “exigências” ou “condições” para se celebrar a Missa Tridentina, que não constam de forma alguma do Motu Proprio Summorum Pontificum, não nascem apenas das cabeças dos bispos modernistas isoladamente, mas, pelo que se pode ver, partem do próprio núncio Apostólico no Brasil!

Ora, se os inimigos do Rito Tridentino estão organizados, por que nós não deveríamos nos organizar para defender o nosso legítimo direito de assistir a este rito?

O próprio blog Igreja Una já se iniciou a mobilização pelo Missa de Sempre na diocese de Piracicaba:

Missa Tridentina em Piracicaba

http://igrejauna.blogspot.com/2009/03/missa-tridentina-em-piracicaba.html

Os católicos da diocese de Limeira também estão organizados:

Católicos da Diocese de Limeira apóiam o Papa
http://www.catolicoslimeira.com.br/

Para o Estado do Espírito Santo, há o site:

Missa Tridentina no Espírito Santo

http://br.geocities.com/missatridentinaes/

Creio que muitas outras iniciativas como esta podem surgir. Poderíamos, talvez, nos organizarmos por dioceses, reunindo as pessoas que desejam a Missa de Sempre. Certamente há muitas pessoas que desejam a Missa de Sempre e nem sabem que há, em sua cidade, outros interessados.

Além disso, podemos divulgar todos os sites e blogs que se dispõe a tal trabalho. Creio que esta é uma idéia que deve ser amadurecida. Da minha parte, já começarei, a partir de agora, a divulgar todos os sites que reúnem os interessados na Missa Tridentina.

Ataques e blasfêmias contra a Missa de Sempre

Em outro artigo, eu desmenti uma das muitas acusações que o Falsitatis fez contra os católicos tradicionais, a de que nós cairíamos em excomunhão ao rejeitar a missa nova. O estudo da situação, no entanto, mostra exatamente o inverso: quem rejeita a Missa de Sempre está excomungado, e a missa nova contém implicitamente uma crítica à Missa de Sempre.

Naquela oportunidade, eu falei apenas da crítica implícita que existe na missa nova. A simples atitude de se criar uma nova missa, no mínimo, queria dizer que a antiga não estava boa – o que é um absurdo, pois a Santa Missa de Sempre é perfeita, como definiu dogmaticamente o Concílio de Trento. Mas não foi nada difícil encontrar ataques abertos contra a Missa de Sempre. Os textos que vou citar abaixo, de defensores da missa nova, mostram como eles desenvolvem explicitamente a crítica à Missa de Sempre que estava velada na simples criação da missa nova.

Uma breve passada no fórum de discussões do site Paróquias, mais especificamente na discussão sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum, nos mostra como os modernistas recusam a Missa Tridentina e proferem contra ela os mais absurdos preconceitos e blasfêmias. Não somente nessa discussão, mas em muitas outras, se pode perceber qual a atitude dos defensores do Vaticano II e da missa nova contra tudo que diz respeito à Tradição católica. Os ataques deles chegam às blasfêmias, às piadas, ao mais puro ódio contra tudo o que é legitimamente católico.

Somente a discussão sobre o Motu Proprio se estende por 27 páginas, o que dificulta a análise completa da mesma. Os absurdos em matéria de doutrina precisariam de um livro para serem desmentidos. Mas algumas citações serão o bastante para mostrar o ódio modernista contra a Missa Tridentina e os católicos tradicionais (os sublinhados são meus):

3) Sobre as missas com palhaços, baldes d’água, mulheres barbadas e ursos ciclistas. Além dessas agora existirão outras atrações: as missas presididas pelos reis momos ornamentados em trajes carnavalescos de gala, repetindo palavras desconhecidas pela platéia, em número reduzido mas não menor que 30.

No lugar de lutar para elitizar o circo, os medievais fariam melhor se repensassem a sua noção de igreja. A cada dia que passa se parecem mais com fósseis vivos. Certamente que uma missa não devia se parecer com show de rock, nem com festinha de criança, nem com um flashback da idade média.

A missa é uma oração da assembléia cristã, é um encontro de iniciados, dos discípulos que se reunem para fazer memória do nascimento, vida, morte e ressurreição do Cristo. A Assembléia se encontra no evangelho e, na sua maior parte, as confusões e divisões acontecem qdo se afastam das Escrituras. Dá até calafrio qdo começam com dinâmicas de gosto duvidoso ou alguma outra coisa estranha para chamar a atenção. Qdo acham que isso é preciso então é o reconhecimento de que ali não se encontra mais a Assembléia, trata-se já de uma platéia, e o teatro já está condenado ao fracasso pq os atores são amadores e a peça é sempre a mesma. Cansa!

http://www.paroquias.org/forum/read.php?1,39400,page=2

Pobre alma a que escreveu as linhas acima! Chama a Santa Missa no rito tridentino de circo, os seus paramentos litúrgicos de “trajes carnavalescos de gala” e diz que essa Santa Missa cansa!

E esta outra crítica à Missa Tridentina, levada para o lado do subjetivismo:

O rito Tridentino é para ti mais exigente. Para mim é aborrecido de morte. O rito tridentino dá-te um sentimento de proximidade a Deus, a mim faz-me sentir desoladamente abandonado numa mecanização de movimentos estudados e repetidos à exaustão como se fosse um hábito. O rito Tridentino é belo, para mim belo é estar 2 horas no chão e participar na missa ao estilo de Taizé.

http://www.paroquias.org/forum/read.php?1,39400,page=4

Como já disse, os erros e absurdos, em relação não somente à Missa mas à toda doutrina, são tão grandes que nem vou me aventurar a citá-los e muito menos a rebatê-los. Mas os exemplos citados já demonstram como existe uma recusa da Missa Tridentina, que se enquadra perfeitamente nas excomunhões do Sagrado Concílio de Trento.

Outro ataque à Santa Missa Tidentina foi feito através de um comentário a um artigo do blog Tradição Católica. Mais uma vez, existe uma recusa dos modernistas em aceitar a Missa de Sempre. Eles acusam a Missa Tridentina, entre outras coisas, de “esvaziar a Igreja de jovens que não entendem Latim” e de “colocar Deus tão longe das pessoas que as pessoas não querem saber dele”. E a blasfêmia maior :”Esta é missa cujo sacrificio era estar lá a assistir, e não o de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Esses ataques abertos à Missa de Sempre são bastante claros e não se pode negar que se enquadrem nas excomunhões de Trento. Mas eles não são nada mais do que a explicitação de idéias – motivo de anátema – que já estavam latentes, escondidas, na própria concepção da missa nova, de que a Santa Missa no rito tridentino precisava ser mudada.

Missa Tridentina

A Missa Tridentina, ou Missa de Sempre, ou ainda Missa de São Pio V, é a verdadeira missa do rito romano da Igreja Católica. A missa nova, ou missa de Paulo VI, é uma corrupção, uma tentativa de destruir aquilo que existe de sagrado e transcendente na Santa Missa.

A Missa Tridentina foi o resultado da Tradição da Igreja desde os seus primórdios até a sua cristalização por obra do grande Santo, o Papa São Pio V. Este Papa determinou, em sua bula intitulada Quo Primum Tempore, que a Missa jamais deveria ser alterada. Com isso, ele pretendia evitar que heresias se infiltrassem na Igreja. E a Missa Tridentina é toda ela uma enorme barreira contra os erros: o sacerdote fica de frente para o altar onde é oferecido o sacrifício; a Missa é rezada em uma língua especial para a liturgia – o latim, que aliás nunca deixou de ser a língua oficial da Igreja; as palavras, os gestos, a seqüência da Missa conduzem a alma para a oração, para o sacrifício da Cruz que está sendo renovado de forma incruenta; o altar do sacrifício e as vestimentas do sacerdote e dos acólitos refletem a solenidade daquele momento; a comunhão é distribuída pelo sacerdote aos fiés que, ajoelhados, a recebem na boca; as mulheres respeitam a ordem de Deus, transmitida pelo grande apóstolo São Paulo, em sua carta aos coríntios, e se cobrem com o véu na Igreja.

E poderíamos nos alongar mais na descrição da Missa Tridentina, mas pelo que já foi dito, uma pessoa que nunca teve a oportunidade de participar desta Santa Missa, pode já compreender a beleza dela e, principalmente, a santidade que ela inspira desde seus mínimos detalhes.

A missa nova de Paulo VI, foi instituída após o Concílo Vaticano II – este mesmo já uma grande apostasia – e não respeitou a ordem de São Pio V de que a Missa não deveria ser alterada jamais. E foram tão grandes as modificações, e atingiram tanto os pontos fundamentais da Missa, que os Cardeais Ottaviani e Bacci, antes mesmo que a nova missa fosse colocada em prática, escreveram uma carta ao papa advertindo sobre a perda do sentido de sacralidade da Missa. O papa ignorou esta carta, e permitiu a aprovação da missa nova. A Missa de Sempre, embora nunca tenha sido oficialmente proibida, ficou, na prática, restrita a pequenos grupos conservadores que tiveram de enfrentar grandes perseguições por parte dos traidores da Igreja, que impiedosamente impunham a missa nova.

O triste resultado, nós já conhecemos: a missa nova se impôs de forma tirânica sobre a Igreja. E, se a missa nova, já era ruim no seu texto original em latim, piores foram as traduções feitas para as línguas dos povos.

E, como se não bastasse a missa nova ser um mal em si mesma desde sua concepção, o tempo só fez aumentarem os erros e abusos: teatrinhos, danças, piadas, “parabéns a você”, a sagrada comunhão entregue por “ministros” e “ministras” da eucaristia, padres fantasiados… a missa se tornou um palco onde cada padre faz o que quiser.

Este tema é bastante longo e complexo, e eu pretendo tratar dele muitas vezes neste blog, porque a restauração e propagação da verdadeira Missa é de fundamental importância para a restaução da própria Igreja Católica. E esta restaução ficou facilitada pelo Motu Proprio Summorum Pontificum do Papa Bento XVI que permitiu a qualquer sacerdote rezar a Missa Tridentina. Este documento, apesar de tímido, por considerar o verdadeiro rito como se fosse o extraordinário e rito falsificado como sendo o ordinário, causou grande incômodo nos hereges modernistas que não querem a restauração da Igreja. Estes tentam impor limites para a celebração desta Missa, como, por exemplo, exigir que os fiéis saibam latim. Estes limites não devem ser exigidos, qualquer fiel católico tem direito a assiti-la. O caminho está aberto, agora é necessário continuar a luta para restaurar plenamente a Santa Missa de Sempre, enfrentando todo tipo de inimigos da Igreja que tentam impedir a sua celebração, bem como aqueles que defendem a legitimidade da missa nova.

Por hora, para os leitores que ainda não têm a felicidade de poder assitir à Santa Missa no rito Tridentino, eu aconselho uma busca na internet. Busquem, por exemplo, nos sites de vídeos por Missa Tridentina, ou, em inglês, Tridentine Mass, que devolve mais resultados para sua busca. Alguns sites de vídeo interessantes são o YouTube (www.youtube.com) e o Google Video (video.google.com) Abaixo, segue um trecho de uma Missa Tridentina celebrada na igreja de St. Nicholas du Chardonnet em Paris, da FSSPX. No futuro, colocarei outros links como este.