“Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas” Mc 14,27
Não temos a impressão de que esta profecia do Santo Evangelho está acontecendo hoje em dia? Quanta desunião vemos por todas as partes, dentro mesmo da Santa Igreja. Desde o concílio Vaticano II – o 1789 da Igreja – vemos as divisões aumentarem. A perversa idéia de “liberdade” abalou o princípio da hierarquia, e a desgraçada “colegialidade” foi o ápice desta revolta contra toda autoridade. Ferido o pastor, o rebanho se dispersou.
Sobre a desunião dentro da Tradição, creio que a Magdalia já falou o principal do que devia ser dito. Por isso, vou apenas complementar.
Para evitar tal desunião devemos, primeiro, nos manter nos nossos humildes limites. Devemos nos esforçar por auxiliar a nobre causa da Tradição, e não querer ser o “salvador da pátria”. Queremos ver a ortodoxia triunfar sobre as heresias. Não somos nós ou o pequeno grupo a que pertecemos que dever sobressair. É a Verdade Católica que deve estar acima de tudo, norteando o nosso rumo. Ao lado de São Luís IX, de Godofredo de Bulhões, de Ricardo Coração de Leão, inúmeros guerreiros anônimos combateram pela Santa Igreja. Deram a vida não por uma vitória pessoal, mas pela causa maior da Cristandade. Tomemo-los por exemplo. Não importa o quão pequenos e desconhecidos sejamos, o que importa é lutar contra o verdadeiro inimigo, e não entre nós.
Depois, devemos lembrar que aquilo que nos une e nos define como católicos é que fomos validamente batizados, professamos inviolavelmente a Fé católica e nos submetemos filialmente ao governo do Santo Padre, o Cristo na Terra. E reforço o filialmente, e não estupidamente como querem alguns, que pensam cumprir o dever de obediência seguindo as opiniões do papa enquanto homem, independente da coesão com a doutrina. Basta, para desfazer este erro pernicioso, lembrarmo-nos das condições de infalibilidade papal definidas pelo concílio Vaticano I e da admoestação de São Paulo: “Mas ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu, vos anuncie um Evangelho diferente deste que ora vos anunciamos, que seja anátema! Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da recebestes, seja ele excomungado!” (Gal 1,8-9).
Opiniões todos temos as nossas, algumas erradas, outras corretas. No que se refere aos dogmas, não há liberdade para questionamentos. Mas, naquilo que não foi disciplinado pela Igreja, o importante é não nos apegarmos às nossas opiniões acima de tudo e contra toda verdade objetiva que nos demonstra de maneira certa e insofismável que nosso juízo anterior estava errado. Isto seria prova de soberba e uma forma de terrível desonestidade intelectual, e também um pecado contra o Espírito Santo, qual seja, o de negar a verdade conhecida.
Vivemos uma crise de gravidade, talvez, semelhante à ariana e cada um enxerga, de seu ponto de vista, a solução para esta crise. Exceto alguns casos de flagrante manipulação dos fatos e distorção dos argumentos, podemos crer que a maioria absoluta dos católicos que buscam uma solução para a crise age de boa fé ao defender sua posição. Alguns pautam mais pela prudência, outros pela combatividade. O que importa é que temos o mesmo objetivo: o bem da Igreja. Pode haver alguns exageros involuntários, mas nada que não possa ser corrigido fraternalmente. Não há motivos para nos digladiarmos nem criarmos sectarismos. Especialmente dentro da Tradição, não há motivos para querermos impor soluções pessoais. Até mesmo com alguns neo-conservadores podemos chegar a bons resultados. Podemos superar as pequenas diferenças com um diálogo sincero em busca da verdade.
Este tom conciliador não inclui, é claro, aqueles que agem de má fé, como os caluniadores, os hereges formais e os traidores. Não podemos aceitá-los e nem deixaremos de combatê-los. Mas é difícil saber qual a medida certa do combate. Por um lado, não queremos faltar com a caridade nem criar desavenças com aqueles que têm, involuntariamente, uma visão equivocada da situação presente. Por outro lado, não queremos, aliás, não podemos, deixar de combater o bom combate pela ortodoxia. Há tantos inimigos da Fé hoje em dia, dentro e fora da Igreja, que cruzar os braços nos faria – ao menos a mim – sentir-nos como traídores que assistem de longe uma guerra que era para ser a nossa.
Os cristãos sempre se apoiaram na oração, mas também arregaçaram as mangas e partiram para o trabalho. Prova disso são as Cruzadas. Quão alheio ao espírito do Cristianismo é a falsa idéia de que devemos apenas rezar e esperar de braços cruzados que a solução caia do céu. Agindo assim, daríamos apenas demonstração de covardia e preguiça, e não de fé e confiança em Deus. Estes que fogem à luta são os mornos, aqueles que Deus vomitará, e que em nome da “boa vizinhança” ou da “caridade” ou da “obediência”, recusam-se a combater o que sabem que está errado. Por covardia ou por comodismo buscam o caminho mais fácil. Por isso, sou partidário convicto da necessidade do combate contra o modernismo, não somente com oração, mas também com ação.
De qualquer forma, creio que devemos procurar denunciar antes os erros que atacar as pessoas, na medida em que isto for possível. Se citamos nomes aqui, é antes como defesa do que como ataque. Por exemplo, denunciamos aqueles que distorcem nossos argumentos e tentam criar uma falsa imagem de nós. Também aqueles que se negam a dialogar conosco, mas em seus blogs assumem descaradademente o desejo de calar a nossa boca. E, principalmente, nos casos graves, onde há grande perigo para a fé de muitos. Nestes casos não há como não desmacará-los publicamente.
Em outros casos, o melhor é não se manifestar senão genericamente. Por exemplo, há vários sites católicos que possuem link para o site do protestante Júlio Severo. Isto é um absurdo. Um protestante, por mais “conservador” e “moralista” que seja, jamais pode ser recomendado como modelo de religião, uma vez que não professa a Fé católica. Mas citar nominalmente as pessoas que mantêm tal link não é a solução que guarda a devida caridade para com quem erra. Nesta mentalidade liberal em que infelizmente vivemos, muitos católicos não tiveram a correta formação doutrinal. Denunciá-los publicamente seria, creio eu, faltar com a caridade. O grau de culpa de cada um, se houver, deixemos para que Deus julgue. A nós, basta, nos casos menos graves, denunciarmos o erro.
Se viver é uma arte, nestes tempos de confusão generalizada agir na medida certa se torna realmente uma obra de artista. Tudo o que posso dizer é que tenho toda boa vontade em combater o erro com energia sem faltar com a caridade. Mas a medida certa é difícil de ser encontrada.
Neste ponto seria importante abordar algo sobre o Opus Dei, mas dada a complexidade, não o farei aqui exaustivamente. Digo apenas que teria ficado extremamente agradecido a eles se me tivessem levado ao conhecimento da Missa Tridentina. Isso eu somente fui descobrir através do site da Montfort, e por isso lhes sou eternamente grato. Por mais que eu discorde da opinião absurda do Prof. Orlando Fedeli sobre os tribunais da FSSPX, eu não posso nunca deixar de reconhecer o bem incalculável que me fez ao me ensinar sobre a Missa de Sempre e os erros do concílio Vaticano II.
Devo confessar que estive tão preocupado em defender a ortodoxia que citei apenas o lado ruim que conheci no Opus Dei, esquecendo de citar o que aprendi de bom. É inegável que eles tenham uma espiritualidade muito superior à que se encontra nas paróquias, sejam aquelas dominadas pela teologia da libertação, quanto aquelas dominadas pela RC”C”. A moral também é bem mais rígida, mais fiel à moral católica, principalmente a moral sexual. Confessar-se com um padre do Opus Dei é, de certa forma, semelhante a confessar-se com um padre da Tradição. No campo político já devo confessar que senti um certo liberalismo, vi até mesmo elogio a Napoleão Bonaparte (na época eu não tinha noção do quanto nefasta é essa admiração por não saber quanto o general corso era inimigo da Igreja). Mas que há espiritualidade no Opus Dei, isso não posso negar. E também que eles não podem ser colocados no mesmo plano dos modernistas. Para ser mais justo, devo dizer que o Opus Dei é um caso à parte.
De qualquer forma, como o Opus Dei não defende a missa Tridentina contra o novus ordo, nem condena o erros do Vaticano II, o meu conselho, por hora, é não os procurar enquanto não assumirem totalmente a defesa da Tradição. Eu assistiria satisfeito à Missa Tridentina celebrada por um sacerdote do Opus Dei depois que eles se colocassem inequivocamente em defesa da Tradição e da ortodoxia contra as inovações modernistas. Quem os conhece melhor que eu, diz que eles celebram secretamente a Missa Tridentina, e publicamente a missa nova. Isso eu não consigo entender: fazer o certo às escondidas e o errado às claras. A missa nova, no estado atual, é inadmissível. Quem sabe, após a “reforma da reforma” que Bento XVI há de promover em breve, ela se torne livre dos equívocos protestantizantes que possui atualmente. Aguardemos.
Finalmente, algo que não se relaciona muito com o assunto, mas já que demos alguns esclarecimentos, há lugar para mais um. Este blog é eminentemente apologético e assim continuará sendo até quando for necessário. Logo, não é meu objetivo trarar de espiritualidade aqui, e por dois motivos. Primeiro, porque existem inúmeros escritos de espiritualidade: as Sagradas Escrituras, os escritos dos Santos Padres, dos Doutores da Igreja, dos santos, as hagiografias, etc. Segundo, eu não sou a melhor pessoa para escrever sobre espiritualidade, por falta de santidade, estudo e larga experiência, além de não ter graça de estado dos sacerdotes, aos quais cabe o ensino da nossa santa religião. Este blog se mantém nos limites estreitos das minhas capacidades: aqui somente se trata de coisas óbvias. Nada, cuja evidência uma lógica límpida não faça saltar aos olhos de qualquer ser racional, se trata aqui. O objetivo é demonstrar, àqueles que ainda não perceberam, o quanto estão afastados da dotrina e moral católicas alguns setores, “movimentos” e personalidades que com fachada de católicos se apresentam. Além, é claro, de denunciar os desvios do concílio Vaticano II e da missa nova. O mal que eles fazem à Igreja é enorme ao obscurecer a doutrina, a moral, a espiritualidade a hierarquia. Combatendo-os, pretendemos abrir o caminho para que as pessoas conheçam a Tradição, livre dos preconceitos que os modernistas levantam. Abraçamos este trabalho porque acreditamos que é necessário desfazer confusões e mentiras perversamente construídas contra a Tradição Católia durante quarenta anos.
Porém, o fato de não tratarmos aqui de espiritualidade não implica, de forma alguma, que nós a negligenciamos. A oração, a leitura espiritual, a direção espiritual, entre outras práticas piedosas, não podem faltar jamais ao católico. A apologética constitui a quase totalidade deste blog, mas não pode jamais constituir a totalidade, nem a melhor parte, da vida de um católico. Abrir mão da espiritualidade é cometer um “suicídio espiritual”.
Espero não ter divagado demais, o que é contrário ao estilo racional e objetivo deste blog, mas eu cri nescessário expor tal argumentação para juntar vozes com aqueles que desejam todos os bons católicos bem unidos e coesos e, destarte, fortes para combater os inimigos da nossa Santa Igreja. Que Nossa Senhora de Fátima, de modo especial neste 13 de Maio, possa interceder por nós nessa intenção.