Por que Sua Santidade Bento XVI não toma, de uma vez, todas as atitudes necessárias para restaurar plenamente a Igreja, a autoridade papal, a Santa Missa Tridentina? Esta é a pergunta que muitos se fazem.
Na conferência proferida em São Paulo, quando da última crisma, Dom Bernard Fellay usou a imagem de um trem, que não pode fazer uma curva muito fechada senão descarrilha. Da mesma forma, se as autoridades romanas caminharam durante tantos anos se afastando da doutrina católica, não é de se esperar que a caminhada de retorno para a plena ortodoxia seja breve. Na mensagem de Fátima, Nossa Senhora descreveu uma procissão que se afastava de Roma e que, percebendo que estavam fora da cidade, empreenderam o caminho de volta. Esta tese foi muito bem desenvolvida pelo Prof Orlando Fedeli:
“Curioso que o sol não retornou a seu lugar no alto do céu subindo diretamente. Também seu retorno foi ziguezagueante, hesitante, “cambaleante”. Não retornou em linha reta, indicando que a Igreja retornaria à situação anterior à queda em meio a hesitações. A volta à posição normal de Roma será tão longa e tão ziguezagueante como a saída da posição normal e natural. Os Papas que determinarem a volta a Roma não o farão de uma só vez.”
(…)”No auge da crise, haverá uma intervenção sobrenatural que fará um Papa tomar o caminho de volta para Roma – para as duas colunas de salvação: a Missa e a devoção a Nossa Senhora. O Papa que iniciará esse retorno parece fazê-lo de modo vacilante. Ele cambaleia, hesita, chora, vendo os estragos causados por aqueles que deram uma orientação errada ao caminho da procissão e da nau.
Fátima: um “segredo” contendo um enigma envolto em um mistério
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cadernos&subsecao=religiao&artigo=fatima3〈=bra
Se Roma se afastou, por tantos anos, da doutrina católica, não será com um único ato papal que tudo se encontrará novamente no seu devido lugar.
Pressões sobre o Papa
Repetindo a pergunta com a qual se abriu este artigo, poderíamos acrescentar mais estas: Bento XVI tem de enfrentar muitos lobos? Ele sofre grandes pressões? Há vários sinais a indicar que sim.
Na Áustria, Bento XVI aceitou a dispensa do Padre Gerhard Wagner, que fora nomeado bispo por Sua Santidade, mas que encontrou forte resistência dos modernistas, a tal ponto de fazer o padre pedir a referida dispensa.
A história da rebelião modernista agora se repete com o futuro Bispo de Guipúzcoa, Espanha. Esperamos que não se repita a atitude do papa e que ele possa, desta vez, enfrentar os lobos.
Pressionado ou não, Bento XVI continua sendo um enigma. Como, por exemplo, ao permitir a declaração das virtudes heróicas de João Paulo II.
Como entender as atitudes de Bento XVI? Não é tarefa fácil. Eu o vejo como verdadeiro Papa, legítimo sucessor de São Pedro; que, no passado, recebeu fortes influências modernistas, teve péssimas amizades com os teólogos “peritos” do concílio, do qual também tomou parte como perito; que, hoje, já se livrou parcial, mas não totalmente, destas influências; que, eu acredito, seja fortemente pressionado pelo clero modernista, tão bem descritos pelo termo “cloacas de impureza”, dito por Nossa Senhora em La Salette; e que, rezamos para isto, terá força para se livrar de todo modernismo e enfrentar estes lobos. Passar disso é fazer especulações demais.
As críticas
As apreensões de vários católicos não são desprovidas de sentido. Existem coisas terríveis que ainda ocorrem entre os conciliares, e tais fatos não podem nem devem ser escondidos. O católico é realista, enfrenta as dificuldades, por maiores que elas sejam, com ânimo forte, movido por sua fé e sua confiança em Deus. Enterrar a cabeça e fingir que tudo anda maravilhosamente bem é fugir da realidade.
Exemplo recente que demonstra a necessidade de se manter a lucidez é a encíclica Caritas in Veritate, cheia de erros. A análise feita pelo Prof. Orlando Fedeli sobre esta encíclia é muito superficial. Mesmo se se aceitar a tese do professor, não há motivos para se alegrar tanto porque encontrou alguma coisa boa em uma encíclica papal. Isto deveria ser o normal. Pior ainda é ignorar os erros graves nela contidos, e que foram apontados de forma breve, porém muito lúcida, pelo Prof. Angueth.
E as publicações de L’Osservatore Romano? Em uma edição, eles absolvem John Lenon, que se achava mais famoso que Jesus Cristo! Em outra, é a vez de recomendar os “Simpsons”. O católico mais ingênuo pode perceber que o jornal romano não é lá tão osservatore della vera religione, mas muito mais osservatore del “mondo”. Mundano mesmo, para falar o português claro.
Podemos facilmente encontrar outros exemplos absurdos. Como o congresso evolucionista dentro do Vaticano, que exlcuiu a participação de criacionistas. Ou, entre outras coisas, a falta de cuidado com as questões doutrinais, litúrgicas, canônicas, etc, para o retorno de anglicanos à Igreja, trantado-os como se fossem tão próximos à Igreja quanto os cismáticos orientais, o que não são. Ou tantos outros fatos que poderiam ser citados.
Comparando com o pontificado anterior, estamos vivendo um momento de relativa alegria e esperança. Mas não há motivos para excessiva euforia. Se o pior da tempestade já passou, ainda não estamos em céu azul. Os fatos demonstram isso de forma inegável.
É difícil tomar uma posição definitiva. Por um lado, não vejo as coisas de forma tão pessimista como alguns a vêem, porque não acredito que a FSSPX irá assinar um acordo prático, por outro lado não deixo de dar razão àlgumas preocupações levantadas por muitos católicos, porque há muito interesse dos modernistas em uma queda da FSSPX. O assédio existe, mais creio que a Tradição irá resistir. Por isso, prefiro seguir com cautela. Com esperança, mas não sem reservas.
Soluções intermediárias?
E o que pensar, por exemplo, das atitudes de Bento XVI a favor da Tradição, como o Motu Proprio Summorum Pontificum e o levantamento das excomunhões? Não há dúvidas de que representam um avanço em relação ao papado anterior. Mas estão muito longe de terem realizado a justiça, seja para com a Missa Tridentina, seja para com os baluartes da Fé Católica deste final de milênio. Certamente elas não podem ser aceitas como soluções definitivas. Tais atos somente podem ser admitidos como soluções intermediárias.
A missa fabricada por Bugnini com o auxílio de seis “pastores” protestantes, tão criticada pelo Cardeal Ottaviani, tão afastada do Sacrifício e tão próxima da ceia, poderia ser considerada a forma “ordinária” do Rito Romano, enquanto que a Missa Tridentina seria apenas a forma “extra-ordinária”? Claro que não. As duas “formas” são, na realidade, frutos de duas concepções opostas, uma formada pela religião de Deus, outra fabricada pela religião do homem. São duas teologias opostas, incompatíveis.
Mas, enxergando o Summorum Ponfificum como uma etapa, podemos dizer que trouxe bons avanços. Para a pessoa honesta, é necessário dizer, bastava a Bula Quo Primum Tempore. Este documento, de São Pio V, já garante, por si só, os direitos eternos da Missa Tridentina. Qualquer pessoa alfabetizada entende isso ao ler esta Bula, tal sua clareza e sua insistência nos direitos perpétuos desta liturgia. Mas, quem tinha acesso a este documento? Somente pela internet eu, e muita gente, ficamos conhecendo-o. Além disso, havia a tal afirmação, completamente sem razões, de que o tal “magistério vivo” havia mudado as suas disposições. Tal afirmação é incompatível com a doutrina católica mas, para as grandes massas, privadas de todo contato com os documentos tradicionais, poderia ser convincente. Agora, depois do Summorum Pontificum, nem mesmo este argumento absurdo pode mais ser usado. O magistério do papa atual diz com todas as letras que o fiel tem direito à Missa Tridentina. Assim, nem mesmo o absurdo argumento do “magistério vivo” pode ser usado para impedir a Missa Tridentina. Os bispos que negam a Missa Tridentina estão em clara desobediência ao Santo Padre Bento XVI. Já perderam totalmente a moral, o direito de exigirem alguma coisa dos fiéis. Este bispos são tiranos, verdadeiros intrumentos do demônio, como disse Mons Ranjith. A atitude deles contra a Santa Missa vai servir apenas para alertar os fiéis que há algo de muito errado na igreja pós-conciliar. Então, apesar dos defeitos, graves e que terão de ser corrigidos no futuro, o Motu Proprio Summorum Pontificum trouxe, sim, benefícios incalculáveis para a Igreja.
De uma outra forma, também o levantamento das excomunhões trouxe benefícios. Os bispos da FSSPX tiveram suas excomunhões levantadas sem aceitar os erros do concílio. A conclusão lógica, bastante clara, é que não é necessário aceitar incondicionalmente o concílio para estar em comunhão com a Igreja Católica. A questão da “regularização” canônica, quando for resolvida, afastará até as mínimas objeções que alguns, sem razão, ainda levantam contra a legitimidade dos sacramentos ministrados pela Fraternidade. A justiça para com Mons Lefebvre e Mons Castro Mayer ainda não foi feita, mas um dia será. Falta, ainda, o esclarecimento de que tais excomunhões foram nulas desde o princípio, nunca tiveram validade. Todos estes defeitos terríveis estão contidos no decreto de levantamento, que não pode ser aceito senão como uma vitória parcial, que ainda há de ser completada.
O que pensar sobre as conversações entre a FSSPX e o Vaticano?
O simples fato de se colocar em discussão o Vaticano II já demonstra a fragilidade deste concílio. Poderia ser posto em discussão Trento ou o Concílio Vaticano Primeiro? Claro que não. Mas o Vaticano Segundo pode, porque não foi dogmático nem infalível.
Além do mais, se Bento XVI estivesse realmente determinado a defender a posição radical do Vaticano II, ele teria escolhido os membros mais liberais do clero. E observe o caro leitor que “time” de hereges o papa não poderia ter “escalado” para defender o irenismo do Vaticano II! Mas ele não o fez. As escolhas de Bento XVI para os debates com a FSSPX esclarecem um pouco sua posição.
O mais importante de tudo, quando pensamos nas conversações, é que não há vitória sem combate. E, que combate melhor pode haver senão as discussões doutrinais? Durante longos anos a FSSPX buscou tais conversações, mas sempre lhe foram negados pelas autoridades romanas. Sempre lhes insistiam sobre o tal “acordo”, mas a Fraternidade resistiu, enquanto muitos outros tombavam no caminho, abandonando o bom combate da Tradição em troca de uma “regularização”.
Sinceramente, eu não acredito, de forma alguma, que, depois de tanto combate, a FSSPX aceitaria os erros modernos. Depois de ter visto tantos cairem pelo caminho, não seria agora que eles iriam se entregar. Não agora, depois de tantas vitórias, ainda que parciais. Houve sempre muitas pressões dos modernistas, e ainda há, para destruir a resitência da Tradição. O argumento, agora, é de que a Tradição recebeu muitas concessões e que, portanto, deveria retribuir com um “acordo”. Não creio que alguém caia nesta cilada. O que a Tradição recebeu foi o que lhe cabe por direito, e ainda não recebeu muito, dada a magnanimidade das disposições da Quo Primum Tempore, por exemplo. Sem mencionar a confusão doutrinal que ainda aflige os fiéis e que deve ser totalmente desfeita.
Faz relativamente pouco tempo que eu conheço a Tradição Católica. Como a maioria, fui descobrindo aos poucos a situação atual da Igreja, através da internet. Se eu apóio a Fraternidade, é porque ela é inteiramente católica e trava o bom combate da Fé com zelo extremo. Se Dom Fellay fizesse um acordo prático, eu não o apoiaria e, creio, muitíssima gente da Tradição também não. Mas não é diante dos homens, e sim diante de Deus, que se deve prestar contas. E, independente de qualquer pressão, eu acredito que a FSSPX irá cumprir o papel que tem cumprido tão bem durante tantas décadas: continuar sendo católica no meio de tanta apostasia. Ser “tradicionalista” é isto: simplesmente continuar sendo católico. Não é a pressão por uma “regularização” que deve nos mover, e sim a defesa da Verdade Católica face às inovações modernistas.
Seria útil uma regularização? Sim, seria para acabar com as últimas críticas daqueles que, ou ainda não se deram conta do estado de necessidade, por qualquer motivo que seja, e que não nos cabe julgar, ou então são hereges modernistas e querem ver a ruína da Tradição. Com a “regularização”, acabaria qualquer medo, qualquer receio de se frequentar a FSSPX. Acabariam as ridículas desculpas legalistas.
No entanto, mesmo havendo esta utilidade, ela é muito pequena se comparada com os riscos de um acordo apressado. É só ver o caso dos institutos que assinaram acordos práticos: acabaram na missa nova cheia de confentes e treatros e tudo o mais que não se deveria fazer durante a renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário. E quando não se participa do “festim”, ao menos ficam em silêncio diante de tanta profanação. Ou abaixam a cabeça para as “autoridades” modernistas, como fez o IBP ao abandonar o Brasil no momento em que seu apostolado crescia a vista de todos.
A FSSPX está no caminho certo: discutindo teologicamente. E que a “regularização” venha quando não houver mais riscos para a Fé e quando os graves problemas doutrinários estiverem resolvidos. Sem pressa, sem atropelos. Enquanto isso, deixem os lobos uivarem.
Conclusão
Muito tímida esta minha colocação? “Em cima do muro”? Penso que não, que ela seja apenas prudente, cautelosa. Não salto de alegria com as atitudes de Sua Santidade, muitas delas até causam sérias preocupações. Mas também não acredito na “armadilha” para a Tradição, que alguns chegam mesmo a ilustrar com uma teia de aranha. E, se ela existisse, não iríamos cair nela, porque já sabemos muito bem que os “acordos práticos” sevem apenas para abandonar o bom combate da Tradição. Prudência, penso eu, é uma das virtudes mais necessárias no momento. E além da prudência, é claro, a esperança, a confiança que um católico sempre deve ter.
A este respeito, muito apropriadas são estas palavras das Sagradas Escrituras:
Os chefes falarão, ainda, estas coisas ao povo: ‘Quem está com medo e sente amolecido o coração? Vá-se embora para sua casa e não faça desfalecer o coração dos seus irmãos, como o seu próprio coração.’ (Deu 20,8)
A versão da Bíblia Sagrada em que eu li este versículo, da Ed. Santuário e Ed. Loyola, 2003, trazia-lhe estes comentários:
“Muitos motivos psicológicos justificam essa exclusão dos covardes. Mas é certo também que os medrosos e os covardes emcabeçam a lista dos réprobos por pecarem contra a fé e a confiança em Deus.”
Devemos ter confiança em Deus. Que a Igreja é indestrutível, cabe nos ainda alguma dúvida? Depois de todo o temporal que se seguiu ao concílio, de todo o poder que os modernistas chegaram a ter, do quanto a Santa Missa Tridentina e a doutrina católica estiveram ameaçadas, seria agora, no momento em que se está retomando, ainda que aos poucos, o bom caminho, seria agora a hora de se desesperar?
As discussões teológicas são o caminho para desfazer os erros do concílio, e elas já começaram. A capitulação da FSSPX através de um acordo prático é, até agora, apenas um pesadelo, cuja concretização Deus há de impedir. Apesar de toda apreensão, devemos admitir que estamos caminhando.
A Igreja superou todas as heresias, inclusive o arianismo, e está superando o modernismo. Muito lentamente? Sim, também acho. Mas quem somos nós para exigir alguma coisa? Deus não concedeu a Moisés, depois de guiar o povo por quarenta anos no deserto, a entrada na Terra Prometida. Por que nós exigiríamos de Deus a solução imediata da crise? Quem somos nós para não nos conformarmos com os desígnios do Altíssimo? Aproveitemos a situação atual, ainda desconfortável, para aumentar a nossa confiança em Deus, a Quem cabe a vitória e toda glória. Por enquanto, apenas cumpramos nossas obrigações e rezemos com confiança. É assim que eu penso.