Deve haver luxo na liturgia?

Uma idéia comum de se ouvir hoje em dia, seja nos meios “católicos” liberais, seja nos meios declaradamente anti-católicos, é a de que não deve haver luxo nas templos, nem nos paramentos litúrgicos, porque a Igreja deveria ser pobre como o foi Cristo. Essa heresia da pobreza necessária da Igreja é um tema complexo. Não tendo a menor intenção de esgotar o assunto, muito pelo contrário, no presente artigo pretendemos nos restringir a responder a seguinte questão: “Será que se deve gastar tanto dinheiro com templos suntuosos e com paramentos litúrgicos?”

Essa questão, sempre acompanhada de uma sentimental lembrança da quantidade de pobres no mundo, esconde uma perversidade diabólica. Dizemos isso literalmente, e sem desejar utilizar qualquer figura de linguagem. E é simples demonstrar essa afirmação. Para quem se faz o culto? Desde a triste criação da missa nova – impiedosamente imposta pelos progressistas – a noção que se tem é a de que a missa é feita para o povo. Ela é rezada na língua local, com o padre olhando para a assembléia, que parecem estar todos ao redor de uma mesa. A participação dos leigos nas leituras, os “ministros” que distribuem a eucaristia, as infames brincadeirinhas dos padres sem graça, tudo contribui para um clima de festa, cujo objetivo seria o de agradar o povo. A missa nova parece um culto protestante: ambos parecem feitos para o homem.

Quão longe da verdade está perspectiva humanística do culto! A resposta à pergunta “Para quem se faz o culto?” é simplesmente: para Deus. O culto não é feito para o povo, o culto é feito para Deus. A assembléia assite à Missa, que é celebrada pelo sacerdote, para Deus. É por isso que, na missa católica de verdade, o padre se volta para o altar, e não para o povo, porque é sobre o altar que é oferecido o sacrifício, que é a renovação incruenta do Calvário. Daí toda a transcendência da Missa Tridentina: ela é toda centrada em Deus.

Facilmente se compreende que, se o culto é devido a Deus, não há de se medir esforços para torná-lo o mais agradável possível a Ele. Ao Deus, que nos deu a vida e tudo mais o que temos, querem os progressistas negar o culto à altura daquilo que Ele nos ensinou ser de Seu agrado. Porque a missa, instituída por Cristo, traduz a forma mais perfeita de se cultuar a Deus. Com o passar dos tempos, a Santa Missa foi se desenvolvendo, até ser cristalizada na maravilhosa missa codificada por São Pio V, bem diferente da missa nova de Paulo VI, que foi uma invenção humana.

Somente pelo que já foi exposto, já não deveria haver quem ousasse negar um culto a Deus, que fosse o mais perfeito possível, o mais pomposo e o mais sublime. Mas vamos continuar com uma citação bíblica, a do livro do Êxodo, em seu capítulo XXVIII. Esse capítulo trata, todo ele, das vestes litúrgicas que o próprio Deus determinou aos sacerdotes que utilizassem em seus ofícios. Vejamos alguns trechos:

2. Farás para teu irmão Aarão vestes sagradas em sinal de dignidade e de ornato.

4. Eis as vestes que deverão fazer: um peitoral, um efod, um manto, uma túnica bordada, um turbante e uma cintura. Tais são as vestes que farão para teu irmão Aarão e para os seus filhos, a fim de que sejam sacerdotes a meu serviço; 5. empregarão ouro, púrpura violeta e escarlate, carmesim e linho fino.
6. O efod será feito de ouro, de púrpura violeta e escarlate, de carmesim e de linho fino retorcido, artisticamente tecidos.

8. O cinto que se passará sobre o efod para fixá-lo será feito do mesmo trabalho e fará com ele uma só peça: ouro, púrpura violeta e escarlate, carmesim e linho fino retorcido.

9. Tomarás duas pedras de ônix e gravarás nelas o nome dos filhos de Israel 11. (…) e as duas pedras serão encaixadas em filigranas de ouro

15. Farás um peitoral de julgamento artisticamente trabalhado, do mesmo tecido que o efod: ouro, púrpura violeta e escarlate, carmesim e linho fino retorcido. 17. Guarnecê-lo-ás com quatro fileiras de pedrarias. Primeira fileira: um sárdio, um topázio e uma esmeralda; 18. Segunda fileira: um rubi, uma safira, um diamante; 19. terceira fileira: uma opala, uma ágata e uma ametista; 20. quarta fileira: um crisólito, um ônix e um jaspe. Serão engastadas em uma filigrana de ouro.

(…) 43. Aarão e seus filhos os levarão quando entrarem na tenda de reunião, ou quando se aproximarem do altar para fazer o serviço do santuário, sob pena de incorrerem numa falta mortal. Esta é uma lei perpétua para Aarão e sua posteridade.”

O texto aqui transcrito foi bastante resumido, mas já é suficiente para dar-nos a noção do quão belas eram as vestes que o próprio Deus determinou que os Seus sacerdotes utlizassem. E isto, sob pena de incorrerem numa falta mortal (v. 43) caso não as utilizassem.

Tudo o que nós homens podemos oferecer ao Deus Altíssimo é tão pouco comparado à Sua infinita Majestade, e ainda há perversos que querem diminuir a pompa, a elevação e o esplendor do culto. Dignum et justum est – é digno e justo glorificarmos a Deus. Que não passe por nossas cabeças defender essas perversas idéias que tentam negar a glória devida ao Deus Altíssimo, esvaziando a liturgia que Ele mesmo nos ensinou como deveria ser celebrada. E quanto aos problemas do mundo, como a pobreza, nós nos esforcemos para combatê-los com os meios apropriados, sem jamais cair na fálacia de que podemos tirar algo daquilo que é devido a Deus.