A festa de Corpus Christi e a presença real

O nome da festa de Corpus Christi descreve bem o que ela significa: a celebração da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na sagrada eucaristia. Se estamos nos preparando para celebrar essa festa, cumpri-nos falar um pouco sobre a importância da mesma.

Este é o momento, todo especial, para reforçarmos a santa doutrina da presença real de Cristo sob as aparências do pão e do vinho. Podemos começar citando as Sagradas Escrituras. Nelas encontramos provas mais do que suficientes da presença real de Cristo Nosso Senhor na Sagrada Eucaristia.

O capítulo VI do evangelho de São João descreve a oportunidade em que Nosso Senhor dá a conhecer a seus discípulos essa doutrina:

“Eu sou o pão vivo descido do Céu. Quem comer deste pão viverá para sempre, e o pão que eu lhe darei é a minha carne para salvação do mundo.  Discutiam entre si os judeus, dizendo: Como pode este dar-nos a comer sua carne? E Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida… Este é o pão que desceu do céu; não é como o pão que vossos pais comeram e, não obstante, morreram. Quem come deste pão viverá para sempre… Muitos dos seus discípulos disseram: São duras essas palavras! Quem as pode suportar? Conhecendo Jesus que os seus discípulos murmuravam por isso, disse-lhes: As palavras que Eu vos disse são espírito e vida; mas há alguns de vós que não crêem… Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e não mais os seguiam.” (Jo 6,51-67)

Não há como negar, diante de palavras tão claras, que Nosso Senhor prometeu dar sua carne em alimento aos fiéis. E essa promessa foi cumprida durante a Última Ceia:

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu a seus discípulos dizendo: “Tomai e comei, isto é meu corpo”. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo:” Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados” (Mt 26,26-28)

E muitos outros trechos das Sagradas Escrituras poderiam ser citados ainda, mas basta-nos lembrar a advertência que São Paulo fez sobre aqueles que comungam indignamente, causando sua própria condenação (1Cor 11,27-29). Se não se tratasse realmente do Corpo e Sangue de Nosso Senhor, não haveria sentido a advertência do Apóstolo.

Nesse mistério tão grandioso, Deus se dignou dar em alimento espiritual aos homens, de maneira tão distante dos sentidos, mas tão próxima pela Fé.

Mas essa Fé inabalável que nos ensina a Santa Mãe Igreja foi abandonada pelos “reformadores” do século XVI. Eles preferiram acreditar nos seus sentidos a acreditar nas promessas de Deus.

O concílio de Trento, para resguardar a Fé cristã, declarou infalivelmente a presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia:

874. Ensina primeiramente o santo Concílio e confessa aberta e simplesmente que no augusto sacramento da Santa Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, debaixo das espécies destas coisas sensíveis, se encerra Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, verdadeira, real e substancialmente [cân. l ]. Nem repugnam entre si estas coisas: que o mesmo Nosso Senhor esteja sempre sentado à mão direita do Pai no céu, conforme o seu modo natural de existir, e assim a sua substância esteja presente entre nós em muitos outros lugares sacramentalmente com aquele modo de existir, que nós apenas podemos exprimir em palavras, e com a razão iluminada pela fé podemos conhecer e devemos firmemente crer ser possível a Deus. Pelo que, todos os nossos predecessores que viveram na verdadeira Igreja de Cristo, sempre que trataram deste sacramento, reconheceram abertamente que Nosso Redentor instituiu este admirável sacramento na última ceia quando, depois de benzer o pão e o vinho, testificou com palavras distintas e claras que ele lhes dava o seu próprio corpo e sangue. Estas palavras relatadas pelos santos Evangelistas (Mt 26, 26 ss; Mc 14, 22 ss; Lc 22, 19 ss) e repetidas depois por S. Paulo (l Cor 11, 23) têm seu sentido próprio e claro, no qual também os Padres as compreenderam. Pelo que seria sem dúvida alguma detestável crime torcê-las ou levá-las a uma figura ou símbolo, como fizeram alguns homens maus e rixosos que negam a real presença do Corpo e sangue de Cristo contra o universal sentir da Igreja que, sendo coluna e base da verdade (l Tim 3, 15), detesta como satânica esta doutrina, excogitada por esses homens ímpios e, com sentimento de gratidão, reconhece este incomparável beneficio de Cristo.

Sagrado Concílio de Trento, cânon 874

No século XX, no entanto, algo de muito “estranho” aconteceu. A missa nova, de Paulo VI, foi feita com a “ajuda” de seis pastores protestantes, que não crêem na presença real de Nosso Senhor.  Isso é realmente um absurdo, um escândalo que não pode ser escondido pelos defensores da missa nova. Não foi sem motivos que o novo rito perdeu muito do caráter sacrificial e se assemelhou a um banquete, de acordo com as idéias protestantes, e em confronto com a santa doutrina católica.

Uma das mudanças mais graves nesse sentido foi permitir-se ao sacerdote ficar de costas para o altar. Nessa nova configuração, o que se vê são várias pessoas reunidas em torno de uma mesa: a assembléia de um lado, o padre do outro. Como se estivéssemos em um banquete, e não na renovação do Sacrifício da Santa Cruz.

Ah, é claro que aqueles sapientíssimos “doutores”, os que costumam inventar absurdas excomunhões para quem não aceita a missa protestantizada, dirão de peito estufado: mas a missa nova também pode ser rezada com o padre de frente para o altar!

Mas, serenamente, podemos responder-lhes, derrubando-os do pedestal em que eles se colocam: não adianta “permitir” o certo se se permite também o errado. Nenhuma lei pode ser boa se apenas “permite” o certo. Toda lei, toda regra, tem o objetivo de impedir o erro. Além do mais, o concílio vaticano II e a missa nova foram extremamente perniciosos por isso mesmo: eles abriram brechas para serem futuramente exploradas. Se os erros fossem abertamente ensinados, causariam a reação imediata. Mas justamente por se abrirem várias brechas, algumas sutis, outras nem tanto, é que puderam ser infiltrados os erros absurdos que vemos hoje em dia.

O uso do latim, por exemplo, é outro caso típico. É verdade que alguns trechos do Vaticano II até exortam a utilização do latim. Mas outros, incluindo o decreto da missa nova, permitem o uso do vernáculo. Assim, quando algum “doutor” quer defender a “ortodoxia” do concílio, ele cita os trechos em que o latim é exaltado. Na prática, porém, as brechas abertas foram mais do que suficientes para os modernistas as explorarem, utilizando-se exclusivamente do vernáculo. Aliás, muito mal traduzido, em uma tradução cujos erros não podemos atribuir senão a uma vontade deliberada de perverter a liturgia e todo seu significado.

O maior dos motivos que temos para restaurar a Santa Missa Tridentina, pois, é darmos a Deus a glória que Ele merece, em um culto que deixa inequívoco o caráter de sacrifício; a MIssa plena de respeito, de decoro e de louvor diante da presença real de Nosso Senhor; a Missa em que não fazemos barulho, mas silêncio respeitoso quando se renova, de forma incruenta, o Santo Sacrifício do Calvário. A festa de Corpus Christi deve nos lembrar que, não somente nesse dia, mas em toda Santa Missa, Cristo Nosso Senhor está real e substancialmente presente na Sagrada Eucaristia. Por isso, não devemos aceitar uma missa por que ela é “mais animada” ou “mais festiva” para o povo. Devemos desejar a Santa Missa na sua forma mais digna e que maior honra possa dar a Deus. Não é o momento de “festa” ou de “reunião de amigos”. É o momento mais sublime que podemos imaginar em nossas vidas: Deus mesmo se entrega a nós, escondido dos sentidos sob as aparências de pão e vinho, mas revelado e crido pela Fé, divina e católica.