A presença de Deus nos justos

O presente artigo não tem por finalidade esgotar o tema da presença de Deus nos mundo criado. Limitar-nos-emos a demonstrar a doutrina católica da presença de Deus nos justos, e a denunciar um grave atentado feito contra essa doutrina. Para um aprofundamento do assunto, recomendamos o artigo A Santíssima Trindade em nós – consequências práticas Garrigou-Lagrange, O. P..

Nas Sagradas Escrituras, podemos ler trechos em que fica bastante clara a doutrina de que a habitação da Santíssima Trindade em nós depende da nossa condição de justos:

Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito. Nisto é que conhecemos que estamos n’Ele e Ele em nós, por Ele nos ter dado Seu Espírito. E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou o Seu Filho como Salvador do mundo. Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. (1Jo 4,12-16)

Respondeu-lhe Jesus: “Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos a Nossa morada. (Jo 14,23)

Deus não pode habitar em uma alma ímpia, mas tão somente em uma alma justa. A doutrina católica nos ensina, também, que é através do Batismo que recebemos o Espírito Santo:

Nossa alma se enche da graça divina, pela qual nos tornamos justos, filhos de Deus, e herdeiros da eterna salvação; pois está escrito: “Quem crer e for batizado, será salvo”. O Apóstolo, por sua vez, atesta que a Igreja foi purificada no banho da água pela palavra.

Ora, o Concílio de Trento a todos propõe a crer, sob pena de excomunhão, que a graça não consiste apenas na remissão dos pecados, mas é uma qualidade divina que inere à alma, é um certo esplendor, é uma espécie de luz que destrói todas as manchas de nossas almas, e torna nossas almas mais formosas e mais brilhantes.

Isso é o que a Sagrada Escritura dá claramente a entender, quando diz que a graça é comunicada por efusão, e quando habitualmente lhe chama penhor do Espírito Santo.

Catecismo Romano, Parte II, Capítulo II, pág 237

E, a respeito da confissão, nos diz o mesmo Catecismo Romano que o mesmo é absolutamente necessário para retornarmos à amizade de Deus, caso O tenhamos ofendido pelo pecado mortal:

Deste Sacramento [da Penitência] devem eles [os párocos] tratar mais explicitamente que do Batismo, pois o Batismo é administrado uma só vez, e não pode ser reiterado, ao passo que a Penitência se impõe como obrigação, quantas vezes o homem caía em pecado, depois do Batismo. Neste sentido, declarou o Concílio de Trento que o Sacramento da Penitência não é menos necessário para quem tenha pecado depois do Batismo, do que o Batismo para a salvação dos que ainda não foram regenerados.

(Catecismo Romano, Parte II, Capítulo V, pág 298)

O terceiro [propósito da confissão] é voltar o homem às boas graças de Deus, cujo ódio e inimizade havia contraído pela torpeza do pecado.

(idem, pág 302)

Não pense alguém que Nosso Senhor instituiu a Confissão, mas sem determinar que fosse de uso obrigatório. Devem os fiéis estar certos de que toda pessoa, onerada de culpa grave, não pode reintegrar-se na vida sobrenatural, senão pelo Sacramento da Confissão.

(idem, pág 320)

O pecado mortal, portanto, é de tal gravidade que faz com que Deus abandone a alma pecadora, e somente possa a ela retornar pelo Sacramento da Penitência.

A mesma doutrina, acima exposta, a respeito da graça santificante e dos Sacramentos do Batismo e da Penitência, podemos ler no seguinte trecho, extremamente esclarecedor, do livro “A Fé Explicada”. Solicitamos ao leitor que preste atenção nos termos natural e sobrenatural, recorrentes no texto, pois serão de suma importância para a argumentação posterior:

A graça é um dom de Deus, sobrenatural e interior, que nos é concedido pelos méritos de Jesus Cristo para nossa salvação.

Uma alma, ao nascer, está às escuras e vazia, sobrenaturalmente morta. Não existe laço de união entre a alma e Deus. Não têm comunicação. Se alcançássemos o uso da razão sem o Batismo e morrêssemos sem cometer um só pecado pessoal (uma hipótese puramente imaginária, virtualmente impossível) não poderíamos ir para o céu. Entraríamos num estado de felicidade natural a que, por falta de outra palavra melhor chamamos limbo. Mas nunca veríamos Deus face a face, como Ele é realmente.

E este ponto merece ser repetido: por natureza, nós, seres humanos, não temos direito à visão direta de Deus. que é a felicidade essencial do Céu. Nem sequer Adão e Eva, antes da sua queda, tinham direito algum à glória. De fato, a alma humana, no estado que poderíamos chamar de puramente natural, não tem o poder de ver a Deus; simplesmente, não tem capacidade para uma união íntima e pessoal com Deus.

Mas Deus não deixou o homem em seu estado puramente natural. Quando criou Adão, dotou-o de tudo o que é próprio de um ser humano. Mas foi mais longe, e deu também à alma de Adão certa qualidade ou poder que lhe permitia viver em íntima (ainda que invisível) união com Ele nesta vida. Esta qualidade especial da alma – este poder de união e intercomunicação com Deus – está acima dos poderes naturais da alma, e por esta razão chamamos à graça uma qualidade sobrenatural da alma, um dom sobrenatural.

O modo que Deus teve de comunicar esta qualidade ou poder especial à alma de Adão foi a sua própria habitação nela. De uma maneira maravilhosa, que será para nós um mistério até o dia do Juízo, Deus “fixou morada” na alma de Adão. E, assim como o sol comunica luz e calor à atmosfera, Deus comunicava à alma de Adão esta qualidade sobrenatural que é nada menos que a participação, até certo ponto, na própria vida divina. A luz solar não é o sol, mas é o resultado da sua presença. A qualidade sobrenatural de que falamos é distinta de Deus, mas flui d’Ele e é resultado da sua presença na alma.

Esta qualidade sobrenatural da alma produz outro efeito. Não só nos torna capazes de ter uma união e comunicação íntima com Deus nesta vida, como também prepara a alma para outro dom que Deus lhe acrescentará após a morte: o dom da visão sobrenatural, o poder de ver Deus face a face, tal como Ele é realmente.

O leitor já terá reconhecido neta “qualidade sobrenatural da alma”, de que venho falando, o dom de Deus a que os teólogos chamam “graça santificante”. Descrevi-a antes de nomeá-la, na esperança de que o nome tivesse mais plena significação quando chegássemos a ele. E o dom acrescentado da visão sobrenatural a morte é aquele a que os teólogos chamam em latim lumen gloriae, isto é, “luz da glória”. A graça santificante é a preparação necessária, um pré-requisito desta luz da glória. Como uma lâmpada elétrica se tornaria inútil se não houvesse uma tomada onde ligá-la, assim a a luz da glória não poderia aplicar-se à alma que não possuísse a graça santificante.

Mencionei atrás a graça santificante referida a Adão. Deus, no mesmo ato em que o criou, colocou-o acima do simples nível natural, elevou-o a um destino sobrenatural conferindo-lhe a graça santificante. Pelo pecado original, Adão perdeu esta graça para si e para nós. Jesus Cristo, por Sua morte na Cruz, transpôs o abismo que separava o homem de Deus. O destino sobrenatural do homem foi restaurado. A graça santificante é comunicada a cada homem individualmente no sacramento do Batismo.

Quando nos batizamos, recebemos a graça santificante pela primeira vez. Deus (o Espírito Santo por “apropriação”) estabelece a sua morada em nós. Com sua presença, comunica à alma essa qualidade sobrenatural que faz com que Deus – de uma maneira grande e misteriosa – se veja em nós e, consequentemente, no ame. E posto que esta graça santificante nos foi ganha por Jesus Cristo, por ela estamos unidos a Ele, compartilhamo-la com Cristo – e Deus, por conseguinte nos vê como a seu Filho – e cada um de nós se torna filho de Deus.

(TRESE, Leo J.; A Fé Explicada; Ed. Quadrante; 5a. edição; 1990; pág. 81-82)

Após o Batismo, a Santíssima Trindade habitará em nós enquanto nos mantivermos em estado de graça santificante. Se nos acontecesse a maior desgraça desta vida, ou seja, se ofendêssemos o Deus Altíssimo de maneira grave, através do pecado mortal, expulsa-lo-íamos de nossa alma, e se tornaria para nós de máxima urgência que o recebêssemos de volta através do Sacramento da Confissão:

Uma vez recebida a graça santificante no Batismo, é questão de vida ou morte que conservemos este dom até o fim. E se nos ferisse essa catástrofe voluntária que é o pecado mortal, seria de uma terrível urgência recuperarmos o precioso dom que o pecado nos arrebatou, o dom da vida espiritual que é a graça santificante e que teríamos matado em nossa alma. (TRESE, Leo J.; A Fé Explicada; Ed. Quadrante; 5a. edição; 1990; pág. 83)

A habitação das Pessoas Divinas no homem está condicionada, portanto, ao fato de o homem viver na graça de Deus, adquirida pelo Batismo, e recuperada pela Confissão, caso o mesmo venha a perdê-la pelo pecado mortal. Essa habitação é um fato absolutamente sobrenatural, ao qual o homem jamais teria direito por natureza. Essa é, em resumo a Santa Doutrina Católica.

Apesar da clareza da doutrina, um dos textos mais polêmicos do Concílio Vaticano II afirmava a existência de uma semente divina no homem, sem lhe impor condição alguma. Do texto, transcrito a seguir, entende-se claramente que a existência da tal semente divina no homem seria uma condição natural, e não sobrenatural, dependente do Batismo e da Penitência:

“Por isso, proclamando a vocação altíssima do homem e afirmando existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a essa vocação.” (Gaudium et Spes, n. 3)

Para evitar qualquer dúvida quanto ao texto, colocamos a referência a um site que defende o Vaticano II e que transcreve todo o documento Gaudium et Spes:
http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=CONCILIO&id=con1080

Há quem possa preferir chamar o que se lê acima de ambigüidade ou de imprecisão. Fosse esse o caso, ainda o seria de enorme gravidade, pois um magistério não pode ser ambíguo ou impreciso, sob pena de nada ensinar, senão apenas confundir. Nós, porém, não conseguimos enxergar outra coisa senão um erro grave contra a Fé, uma heresia, para usar a palavra devida. O fato se torna tão mais grave quando se lembra que existe, na mais condescendente das visões, uma semelhança perigosa com a heresia gnóstica. Mas, acreditamos realmente, que não devemos usar de tanta vênia e, sim, dizer que existe uma verdadeira apologia à Gnose no texto do Concílio. Da forma como está escrito, sem impor condição à existência da semente divina no homem, e sem a menor menção aos Sacramentos do Batismo e da Penitência, o texto do concílio é absolutamente incompatível com a Fé Católica.

A Santa Madre Igreja sempre condenou o erro com palavras bem claras. Basta que se leia os anátemas dos outros Concílios, para se perceber a diferença. Da leitura destes, já não sobra ao leitor qualquer dúvida sobre o que a Igreja ensina e sobre o que Ela condena. O Vaticano II, por sua vez, se recusou a condenar os erros. Mas, aqui, no texto supracitado, já não se vê algo senão a descrição exata da pior das heresias, raiz de todas as outras. E mais do que a simples descrição, vê-se a sua exaltação, à qual o concílio atribui a dignidade do homem. Essa é a soberba do homem que se quer fazer deus. Afinal, se existe, por natureza, uma semente divina no homem, então qual a diferença entre este e o verdadeiro Deus? Nesse erro fundamental, encontram-se, em potencial, todos os outros erros antropocêntricos que causaram a enorme crise pós-conciliar.

Já não podemos, diante de tantas evidências, procurar desculpas para esse escândalo. Que rasguem as vestes os farisáicos modernistas e filo-modernistas, mas isto deve ser dito: O concílio Vaticano II ensinou o erro! Por ter sido, pastoral, não dogmático, ele não goza do carisma da infalibilidade e pode ter ensinado, como de fato ensinou, o erro. Que todos os católicos sinceros possam reconhecer a verdadeira face do último concílio e, sem respeitos humanos ou medo das perseguições modernistas, defender a Tradição Católica e a Fé que a Santa Igreja recebeu de Nosso Senhor e ensinou em dois mil anos de existência.

Um comentário em “A presença de Deus nos justos

  1. […] A letra do concílio, e não somente seu espírito, teve a ousadia de nos apresentar uma tese gnóstica, a de que haveria uma semente divina no homem. Em outra oportunidade, já pudemos demonstrar a enorme diferença que existe entre esta suposta seme…. […]

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