Verdade e fato na História

A História é um ramo do conhecimento fascinante. Mas, uma das formas mais utilizadas para atacar a Igreja Católica é inventar as mais absurdas histórias, sem qualquer fundamento e sem qualquer prova. Quando estudamos sobre Filosofia crítica da História, percebemos que os caminhos percorridos pelo historiador são bastante complexos, exigindo paciência, inúmeras pesquisas, imparcialidade, honestidade. Do contrário, na melhor das hipóteses, a história perde sua credibilidade. Na pior, a “história” acaba sendo apenas uma propaganda ideológica.

Assim, creio que seja interessante ter uma noção das dificuldades envolvidas no trabalho do historiador para podermos ter um olhar crítico sobre os textos ideologicamente construídos sem qualquer seriedade. No presente artigo, transcrevo algo sobre “Verdade e fato na História”:

Essas questões sobre o satus do pensamento histórico e sua relação com outros estudos, acreditamos, devem ser considerados autênticos pelos filósofos de todas as escolas. E o mesmo podemos dizer do segundo grupo de problemas pertinentes à filosofia crítica da histórica, que se centralizam em torno das concepções de verdade e fato na história. Aqui, como no problema da objetividade histórica, que discutiremos a seguir, temos questões que surgem na teoria do conhecimento em geral, mas dotadas de certas características especiais quando as consideramos em relação com a esfera da história.

Essas características são bastante óbvias quando perguntamos o que é um fato histórico, ou ainda quais os critérios para considerar as afirmações dos historiadores verdadeiras ou falsas. Podemos supor que os fatos em qualquer ramo do conhecimento devem, de certa forma, ser passíveis de inspeção direta, e que as afirmações dos especialistas em cada ramo podem ser verificadas pela sua conformidade com esses fatos. Mas, quaisquer que sejam as virtudes dessa teoria sob outros aspectos, ela não se pode aplicar com plausibilidade ao campo da história.

O que há de mais notável na história é que os fatos por ela descritos são passados, e fatos passados já não são acessíveis à inspeção direta. Em suma, não podemos testar a exatidão de afirmações simplesmente verificando se correspondem a uma realidade conhecida independentemente. Como, então, podemos testá-las? A resposta que qualquer historiador praticante de sua matéria daria a essa questão seria a de que podemos testá-las referindo-se à evidência histórica. Embora o passado não nos seja acessível à inspeção direta, ele deixou amplos traços de si mesmo no presente, na forma de documentos, edifícios, moedas, instituições, processos e assim por diante. É sobre isso que qualquer historiador que se respeite edifica sua reconstrução do passado: toda afirmativa que o historiador faz deve ser confirmada por alguma forma de evidência, direta ou indireta. As chamadas exposições históricas que se fundamentam em qualquer outra base (por exemplo, a imaginação pura e simples do historiador) não são dignas de crédito. São, no máximo, suposições inspiradas; no pior dos casos, serão simples ficção.

Isso certamente nos proporciona uma teoria prática inteligível da verdade histórica, mas que não satisfaz todos os escrúpulos filosóficos. Se refletirmos sobre o caráter da prova histórica em si, podemos perceber isso. Os traços do passado, existentes no presente, incluem como já dissemos, documentos, moedas, processos, e assim por diante. Mas quando pensamos sobre isso, tais coisas não encerram na sua aparência seu verdadeiro significado, nem sua autenticidade. Assim, quando o historiador lê uma declaração numa ou outra das “fontes originais”, para o período em estudo, não a aceita automaticamente. Sua atitude para com ela, se conhece bem sua tarefa, é sempre crítica: ele deve decidir se deve ou não acreditar nela, ou ainda em que partes dela pode acreditar. A história propriamente dita, como Collingwood nunca se cansou de observar, não pode ser considerada uma questão de tesoura e cola: ela não se faz com um historiador extraindo pedaços de informação fidedigna de uma ou de toda uma série de “autoridades”. Os fatos históricos têm, em todos os casos, de ser comprovados: eles não são simplesmente dados. E isso se aplica não só aos produtos acabados do pensamento do historiador, mas também às declarações das quais ele parte. Isso, porém, não impossibilita o reconhecimento de que algumas dessas declarações sejam consideradas por ele como muito mais fidedignas do que outras.

Podemos resumir dizendo que o dever do historiador não é apenas basear todas as suas afirmações em provas existentes, mas decidir também quais são as provas. A evidência histórica, em outras palavras, não constitui um dado final a que possamos recorrer para comprovar a verdade de juízos históricos. Mas isso, como será óbvio, reabre toda a questão do fato e da verdade na história.

(WALSH, W.H.; Introdução à Filosofia da História; Zahar editores; Rio de Janeiro; 1978; pág 18 ss)

Existem outras questões fundamentais sobre a filosofia crítica da história, que serão publicadas depois. Mas essa é especialmente importante para se ter uma noção do longo trabalho do historiador até se chegar na verdade histórica. Assim, sempre que ouvirmos algo semelhante a propaganda, devemos nos questionar como se chegou a tal conclusão. Veremos que as “legendas negras” contra a Igreja Católica não passam de invenção.