A Gaudium et Spes contraria a Unam Sanctam

Antes de entrar no assunto principal deste artigo, gostaria de lembrar um fato bastante corriqueiro nos meios católicos pós-conciliares, relacionado ao tema. É bastante comum, entre os católicos modernos, ouvir comentários sobre o anti-Cristo e o governo mundial, dos quais se fala sempre com muito medo. Eu, pelo menos, já ouvi as mais absurdas teorias sobre o assunto, sempre conexo com o outro tema do “fim do mundo”. Sinceramente, muito pouco crédito pode ser dado a essas histórias sensacionalistas. Não tanto pela referência ao tal governo centralizado, que certamente seria mal, mas pelo seu tom apocalíptico e pretensão de prever a data do fim do mundo. Mas, o que estes católicos que ficam amedrontados com tal perspectiva não sabem, é que o concílio Vaticano II, defendido por muitos deles, escreveu com todas as letras a necessidade de criação de uma autoridade pública mundial! (leiam, depois, a citação abaixo). Ou seja, os católicos modernos têm medo de um governo mundial do anti-Cristo, mas defendem o concílio que pregou a necessidade de uma autoridade mundial à qual todos devem se submeter. Haja contradição entre os pós-conciliares!

Deixando de lado os devaneios e “profecias” apocalípticas, vamos demonstrar o quanto, mais uma vez, o concílio Vaticano II se mostra incompatível com a doutrina católica de sempre. Vejamos o absurdo que foi escrito na constituição pastoral Gaudium et Spes, uma das mais polêmicas do concílio:

82. É, portanto, claro, que nos devemos esforçar por todos os meios por preparar os tempos em que, por comum acordo das nações, se possa interditar absolutamente qualquer espécie de guerra. Isto exige, certamente, a criação duma autoridade pública mundial, por todos reconhecida e com poder suficiente para que fiquem garantidos a todos a segurança, o cumprimento da justiça e o respeito dos direitos. Porém, antes que esta desejável autoridade possa ser instituída, é necessário que os supremos organismos internacionais se dediquem com toda a energia a buscar os meios mais aptos para conseguir a segurança comum. Já que a paz deve antes nascer da confiança mútua do que ser imposta pelo terror das armas, todos devem trabalhar por que se ponha, finalmente, um termo à corrida aos armamentos e por que se inicie progressivamente e com garantias reais e eficazes, a redução dos mesmos armamentos, não unilateral evidentemente, mas simultânea e segundo o que for estatuído.
(Constituição pastoral Gaudium et Spes, Papa Paulo VI, 7 de Dezembro de 1965)
http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html

Para o concílio Vaticano II, portanto, não é Cristo que garante a paz, mas sim um “organismo internacional”, reconhecido por todas as nações e ao qual todas se submetam. Em outras palavras, pregou-se a “paz da ONU”, e não a paz de Cristo.

Quando nos remetemos à doutrina católica, percebemos o quanto é perversa essa idéia lançada pelo concílio Vaticano II. De fato, na bula Unam Sanctam, S.S. o Papa Bonifácio VIII já havia ensinado:

O poder espiritual deve superar em dignidade e nobreza toda espécie de poder terrestre. Devemos reconhecer isso quando mais nitidamente percebemos que as coisas espirituais sobrepujam as temporais. A verdade o atesta: o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será julgado pelo poder espiritual.
(Bula Unam Sanctam, Papa Bonifácio VIII,18 de Novembro de 1302)
http://www.geocities.com/apologeticacatolica/unam.html

Ora, se o poder espiritual tem autoridade para julgar o poder terrestre quando este se desvia, que necessidade temos de criar um “organismo público internacional” para tal fim? A proposta do concílio Vaticano II é tão absurda que considera que o controle do poder temporal deve ser realizado por uma entidade superior do poder temporal, e não pelo poder espiritual. É a tentativa de se resolver tudo no plano material, e afastar o sagrado de tudo, e despojar a Igreja de toda sua autoridade. Isso é a negação, implícita mas facilmente dedutível, do ensinamento da Unam Sanctam. Na realidade, essa doutrina é apenas mais uma conseqüência do imanentismo, do laicismo e do naturalismo característicos da heresia modernista, que foi o próprio “espírito (nefasto) do Concílio”, já condenado por S.S. o papa Bento XVI.

Este é o “ensinamento” do Vaticano II: queremos um autoridade internacional, à qual todos se submetam, a fim de garantir a paz.

Este é o ensinamento do Magistério da Igreja: o poder espiritual é o responsável por julgar os desvios do poder temporal.

Finalmente, este é o desejo de todo bom católico, em oposição ao Vaticano II e em consonância com o Magistério da Igreja: queremos que Cristo reine!

Viva o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo!