O ecumenismo modernista, a Virgem Maria e os hereges

Comprei, há pouco tempo, o famoso livro “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís Maria Grignon de Montfort. Sem dúvida, um dos maiores livros de piedade mariana que já foram escritos. No entanto, a edição que adquiri, de 1979, posterior ao Vaticano II, trazia uns pequenos comentários ao livro, “um pouco” distoantes do que o autor ensinava.

Logo na apresentação, lemos a seguinte advertência:

Encontram-se, às vezes, nas obras de Montfort trechos que já não soam bem aos nossos ouvidos, porque provêm duma mentalidade muito própria do seu tempo e ambiente. Por exemplo, naquela época os hereges eram facilmente considerados como pessoas de má vontade ou, pelo menos, como tal foram tratados. Ora, estamos hoje numa era de pleno Ecumenismo, quer dizer, numa era em que todos os cristãos tentam compreender-se e reunir-se. Desde que não haja razões em contrário, devemos supor a boa fé nas pessoas que vivem na heresia ou no cisma; por isso, é absolutamente injusto chamar indiscriminadamente “réprobos” a todos os hereges e cismáticos.

O comentário nega claramente o dogma de fé de que fora da Igreja não há salvação. A salvação fora da Igreja somente é possível aos que não a conhecem por ignorância invencível. Caso a conhecessem, abraçariam a Verdadeira Fé. Este não é o caso daqueles que desprezam a Igreja e a perseguem, sem se dar ao trabalho sequer de estudar sua doutrina.

Mas isto foi somente a introdução. Para citar apenas um exemplo da qualidade dos comentários encontrados ao longo de livro, vejamos o seguinte trecho original do livro de São Luís (os grifos são meus):

Como na geração corporal há um pai e uma mãe, assim também na geração espiritual há um pai, que é Deus, e uma mãe, que é Maria. Todos os verdadeiros filhos de Deus e predestinados têm a Deus por pai e a Maria por mãe; e quem não a tem por mãe; não tem Deus por pai. Eis porque os réprobos, como os heréticos, os cismáticos, etc… que odeiam ou olham com desprezo ou indiferença a Santíssima Virgem, não têm Deus por pai, ainda que disso se gloriem, porque não têm Maria por mãe. Pois se a tivessem por mãe, honrá-la-iam e amá-la-iam como um verdadeiro e bom filho ama e honra naturalmente sua mãe, que lhe deu a vida.
O sinal mais infalível e indubitável para distinguir um herético, um homem de má doutrina, um réprobo de um predestinado, é que o herético e o réprobo não têm senão desprezo e indiferença pela Santíssima Virgem. Com suas palavras e exemplos, abertamente ou às ocultas, esforçam-se por lhe diminuir o culto e o amor, e isso por vezes sob belos pretextos. Ah! Deus Pai não disse a Maria para ir habitar com eles, porque são Esaús.

São Luís de Montfort; Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem; Ed. Santuário; 1979; no. 30

Logo abaixo desse belo e verdadeiro texto de São Luís de Montfort, foi acrescentado pelo editor o seguinte comentário (o grifo é meu):

Deus é pai e Nossa Senhora é mãe de todos os homens, mesmo se estes não os querem reconhecer como tais. No entanto, a verdade é que Deus pode exercer a sua paternidade e Maria sua maternidade dum modo mais belo, completo e eficaz nas pessoas que mais se lhe entregam.

Basta ter uma escolaridade básica, pouco acima do semi-analfabetismo, para perceber que o comentário contradiz frontalmente o que disse o grande santo. Mas o ecumenismo anti-católico do Vaticano II cega de tal maneria seus seguidores, que eles chegam a se prestar ao ridículo acima, desmentindo o que disse o santo cujo livro eles se dispuseram a editar. Aliás, elogios ao Vaticano II podem ser encontrados em outros comentários do livro.

Ah! Os fanáticos defensores do concílio Vaticano II devem estar furiosos dizendo que tudo isso é exagero meu e que o Vaticano II não tem nada a ver com esse ecumenismo suicida, não é verdade? Vamos provar que não.

No livro O Reno deságua no Tibre, que eu arriscaria classificar como quase indispensável para se entender a crise gerada pelo Vaticano II, podemos ler, à página 96, o seguinte protesto do padre Rahner (liberal) contra o esquema sobre a Virgem Maria:

Afirmava ele [Padre Rahner] que, sob o ponto de vista ecumênico, se aquele texto conciliar fosse aprovado “causaria um mal incalculável, em relação tanto aos Orientais como aos Protestantes”. Não havia exagero em dizer “que todos os resultados conquistados no domínio do ecumenismo, graças ao Concílio e em relação ao Concíliio, seriam reduzidos a nada com a aprovação do esquema na forma em que estava.”

Quer dizer, para os padres conciliares liberais era mais importante agradar aos hereges e cismáticos do que honrar a Santíssima Virgem Maria! E os defensores do concílio Vaticano II ainda querem nos fazer acreditar que era o Espírito Santo que assistia estes padres conciliares!

Na página 62 do mesmo livro podemos ler o resumo do protesto de um bom bispo católico contra os excessos do concílio:

O último orador foi Mons. Carli, bispo de Segni. Ele declarou que os padres conciliares tinham levado ao excesso as próprias preocupações ecumênicas. Não se podia mais falar de Nossa Senhora; ninguém mais podia ser considerado herege; ninguém podia usar a expressão “Igreja militante”; não era mais conveniente chamar a atenção para os poderes inerentes à Igreja Católica.

Portanto, os comentários absurdos que eu li no livro editado em 1979 não são mais do que a continuação das idéias ecumênicas e anti-católicas que os bispos liberais impuseram ao Vaticano II. E esta observação se estende a todas as outras heresias encontradas hoje. Quando o falsitatis splendor, o prof. Felipe Aquino ou qualquer outro defensor do Vaticano II alegam sua inocência, dizendo que houve apenas abusos e más interpretações por parte de pessoas mal-intencionadas, eles escondem a história negra deste concílio. As sementes dos males que a Igreja vive hoje foram plantadas, em grande parte, durante o concílio. A semelhança entre as citações feitas no presente artigo o demonstram bem: as mesmas heresias e impiedades encontradas no pós-concílio já eram defendidas pela corrente liberal, que, através das mais baixas artimanhas e jogos sujos, impôs sua vontade ao concílio.

O tema certamente merece ser retomado em outros artigos.

9 comentários em “O ecumenismo modernista, a Virgem Maria e os hereges

  1. Marcos Tosini disse:

    Prezado amigo,
    Adquiri recentemente o mesmo livro – Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem – só que da Editora Vozes. Felizmente nessa edição não encontramos nenhum comentário modernista, inclusive há duas introduções feitas por bispos de “antigamente” (acho que uma é da década de 30 e a outra do final do séc. 19). Portanto recomendo essa edição da Vozes.
    Infelizmente hoje em dia nem mesmo grande parte dos escritos dos santos são mantidos em sua íntegra, enganando as pessoas de boa fé que procuram por leituras católicas.
    Um forte abraço. Fique com Deus e Nossa Senhora.
    Marcos

  2. Márcio disse:

    Prezado Marcos,

    Salve Maria!

    Obrigado pela colaboração. A situação atual é tão terrível que é difícil encontrar bons livros católicos, sem nenhum erro, sem nenhuma heresia furtivamente introduzida.

  3. Márcio disse:

    Prezado Marcos,

    Salve Maria!

    Obrigado pelo contribuição. Hoje em dia é realmente difícil encontrar um bom livro, no qual não tenha sido introduzida furtivamente nenhuma heresia.

  4. Que coisa triste! n li esse livro ainda.
    Está uma mansa idéia espalhada na sociedade de que tudo pode, tudo é normal.

    Nós vamos viver isolados ou em grupos reduzidos,pq n tem como mais negar essa sufocante situação!

    Já reduzi em 80% minhas postagens em comus “católicas” do orkut, cansei de ser expulsa por “ministros” da eucaristia, possuídos pelo ecumenismo, imbecis bestiais defensores de hereges.

    O que mais me irrita é ver a tolerância com herege, compaixão e desculpa com o erro.

    Pax Domini

  5. Márcio disse:

    Este isolamento é o que sofrem os católicos tradicionais desde o Vaticano II. Os modernistas toleram tudo, menos a verdade católica. Não é mero acidente, mas sim o resultado de uma vontade pervertida e petrificada no mal: a vontade de destruir a Igreja. É a isto que se prestam os hereges modernistas, contando com o auxílio da maioria dos católicos, os mornos defensores do pastoral e falível Vaticano II, que não entendem nada sobre a crise atual, mas acabam sendo inocentes úteis.

    AMDG

  6. Márcio disse:

    Seria interessante esclarecer que o texto original de São Luís de Montfort permanece inalterado. Apenas os comentários “explicativos” acrescentados pelo editor contrariam frontalmente o texto original. Não se deixando levar pelos comentários modernistas, o livro pode ser lido sem problemas.

  7. Gustavo disse:

    Amigo da Verdadeira Fé, Marcio.
    Salve Maria Santíssima!!!

    “devemos supor a boa fé nas pessoas que vivem na heresia ou no cisma; por isso, é absolutamente injusto chamar indiscriminadamente “réprobos” a todos os hereges e cismáticos.”

    De acordo com o vaticano II, vamos encontrar o aposentado do Lúcifer,na fila do INSS.Ele está bem “velhinho” por isso o autor do texto acima, educadamente permitiu que satanás ocupasse um lugar mais a frente na fila.Ser herege ou cismático,provoncando confusão nas almas, agora não é REPROVÁVEL?
    Como este autor é educado,prestativo e amigo do erro!!!! Será que depois disso ,ele foi convidado para um roda de café intelectual junto com os maçons e comunistas?

    Em tempo: “Devemos SUPOR a boa fé nas pessoas que VIVEM na heresia”
    Com esta, ele pode ser artista de circo e se equilibar na corda bamba. o verbo “supor”,”achar”, “opinar” e etc, depois do vaticano II é um DEVER CATÓLICO!!!!!

    PARABÉNS PELO ÓTIMO BLOG.
    AMDG
    Gustavo.

  8. José Reus Santos disse:

    Aceitar o ecumenismo é aceitar outras “verdades” ou filosofias como verdadeiras, questão que, evidentemente, é uma contradição à ÚNICA VERDADE implementada por Jesus Cristo.
    Aceitar outras “verdades” como verdadeiras é nós acharmos que o budismo, judaismo etc (que não cultuam Jesus Cristo), levariam ao próprio Jesus Cristo.
    Ou seja, o ecumenismo é uma contradição, um engodo para o católico.

  9. Márcio disse:

    Caro José, Salve Maria!

    O ecumenismo, que tem sido a orientação “oficial” desde o CV II, não tem realmente nenhuma coerência. A Verdade é única, e idéias contraditórias não podem provir de um mesmo Deus sapientíssimo. Logo, não é possível que todas as religiões sejam verdadeiras, mas somente uma, que a apologética prova ser a católica.

    AMDG,

    Márcio

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