A apostasia de Heinrich Himmler

Uma vez que o prosseguimento do processo de canonização de Pio XII têm feito ressurgirem as mais absurdas e infundadas acusações de omissão deste Papa em condenar o Nazismo, creio que seja interessante dedicar alguns artigos para demonstrar a agressividade sem limites com que esta ideologia neo-pagã perseguiu a Igreja Católica.

Para começar, gostaria de transcrever o trecho de um livro que narra a apostasia de Heinrich Himmler, Reichsführer SS, organização à qual estava confiada, entre outras atribuições, o comando dos campos de concentração, e a quem estava subordinada a terrível Gestapo:

“Heinrich enfrenta também suas próprias convicções religiosas. Católico ardoroso, nunca falta à missa de domingo. Anota em seu diário todas as cerimônias religiosas a que comparece. São freqüentes citações deste tipo: ‘Nesta igreja, sinto-me bem‘. Sobre uma jovem por que alimenta discreta paixão, vem a saber que comunga cotidianamente; e anota em seu diário: ‘Foi a maior alegria que tive nestes últimos dias’.
A entrada na Burschenschaft estudantil obscurece suas relações com a Igreja. A ruptura não é imediata. Decidido inicialmente a não enfrentar suas convicções religiosas, é afinal arrastado pelo desejo de sucesso social. ‘Creio’, escreve Himmler em 15 de dezembro de 1919,’ que entrei em conflito com minha religião‘. E acrescenta – ele, o mesmo homem que mais tarde levaria milhares de SS a romper com a Igreja e que falava de entregar o Papa ao carrasco: ‘De qualquer maneira, aconteça o que acontecer, sempre amarei a Deus e ficarei fiel à Igreja Católica, ainda que ela me exclua de seu seio’.”
HÖHNE, Heinz; SS, A Ordem Negra; Bibliex e Laudes Editora; p. 38-39

Triste e impressionante relato de uma alma que abandonou o bom caminho para se tornar nada menos do que um genocida. Diante de tão estrondosa apostasia, como não bendizer os cuidados maternos que a Santa Igreja sempre teve ao proteger seus filhos das influências e leituras perigosas? Que visão límpida e que energia benfazeja a daqueles que instituíram e mantiveram por séculos o Index Librorum Prohibitorum! Quantas almas jovens poderiam ter se perdido por ler maus livros, de cujo conteúdo maléfico a sua inexperiência da vida não lhes seria capaz de alertar. Que solicitude a dos inquisidores que, afastando as almas do perigo das heresias, não somente lhes salvavam do abismo eterno, mas impediam que a peste da mentira se alastrasse. Muito ao contrário do que a propaganda anti-católica proclama, a Inquisção foi sim uma obra de caridade, que salvou não somente almas, mas também vidas. A Inquisição, não aquela da legenda negra inventada pelos inimigos da Verdade, mas sim aquela histórica, verdadeira, fundada e governada pela Igreja Católica, esta instituição foi extremamente pacificadora e protetora de seus filhos. E, quando a energia da inquisição não era necessária, os anátemas eram eficazes para separar dos fiéis os disseminadores do erro.  Ou, pelo menos, se manifestava com clareza o magistério para condenar o erro, de forma que qualquer fiel pudesse saber com certeza que tal doutrina é perniciosa. Por outro lado, quão desditosos aqueles que, como Himmler, não tiveram o braço forte que lhes apartasse do perigo!

Em outro trecho do supracitado livro, é dada uma noção do número de homens que Himmler, descumprindo sua promessa que lemos no final da citação anterior, afastou da Igreja:

“Seu ensino tende a fazer de cada soldado um nacional-socialista fanático, incapaz de discutir uma ordem, ainda que ela contrarie a moral tradicional. Esse ensino é acompanhado de uma forte propaganda anticristã. Seguindo-os, a VT se transformará em breve em uma fortaleza do ateísmo nazista. No fim de 1938, 53,6 % da VT abandonaram a Igreja. Só uma formação SS atinge percentagem mais alta: os Totenkopfverbände (69 %).” (op. cit.,pag 240)

O livro nos narra, ainda, alguns assassinatos de católicos cometidos pela SS: o Padre Berhard Stempfle (pag 89); Klausener, chefe de gabinete do Ministério dos Transportes e presidente da Ação Católica (pag 91); o chanceler austríaco Engelebert Dollfuss, católico de direita, que colocara o NSDAP fora da lei na Áustria (pag 161).

Vejam também o que diz um relatório do SD (Serviço de Segurança, orgão subordinado à SS) sobre a ação da Igreja contra o Nazismo:

A situação do nacional-socialismo nesta região (Colônia) tornou-se problemática em conseqüência da influência preponderante da Igreja Católica. É uma região-teste, que demonstrará se a revolução nacional-socialista tem possibilidades de impor-se ou não.” (op.cit.,pag 139)

Nada mal, para uma Igreja que é acusada de cumplicidade, não é mesmo?

Mas, e a atitude dos militares italianos, de grande maioria católica, qual terá sido diante dos judeus? Eis uma descrição:

Mas os representantes de uma potência militar da qual muitas vezes a Alemanha nazista zomba vão dar aos autores do genocídio uma lição de honra militar e de humanidade. Resolutamente, os oficiais do Exército Italiano, que ocupa desde novembro os departamentos do Sul da França, vão fazer fracassar a máquina de morte nazista. Já na Grécia e na Croácia, os homens do Duce se haviam recusado a tomar qualquer medida contra os judeus. O comandante do Estado-Maior italiano havia declarado ao chefe da organização Todt que os ‘excessos contra os judeus não estão de acordo com a honra do Exército Italiano’. Na Grécia, o General Geloso, comandante do II Exército Italiano, recusou-se a obrigar os judeus de seu território a usarem a cruz amarela e tomou medidas severas para proteger os judeus contra os anti-semitas gregos. Em Salônica, ocupada pelos alemães, o consulado italiano salva a vida de centenas de judeus, concendo-lhes nacionalidade italiana.
A atitude dos militares italianos na França apenas confirma uma posição tradicional. Em feveriro de 1943, o chefe de polícia de Lyon prende 300 judeus que serão deportados para Auschwitz. Um general italiano consegue a sua imediata liberação. No início de março, a polícia francesa prende numerosos judeus na zona de ocupação italiana; os militares italianos impedem a sua deportação. Em Annecy, cercam os quartéis da polícia e obtêm, à força, a liberação dos judeus que estavam presos.
Mas a capitulação do Duce, em 1943, vai privar os judeus franceses de seus protetores. A oposição italiana à obra de Eichmann já havia entretanto contribuído para a salvação da maioria deles: 80% dos judeus residentes na França haviam escapado às macabras fábricas nazistas. Por outro lado, essa oposição marca uma reviravolta na atividade dos finalistas: ela coincide com dois acontecimentos que levam a uma redução no ritmo dessa caçada sórdida: Adolf Hitler está perdendo sua velocidade e o Vaticano divulga certas revelações sobre a natureza das atividades de Eichmann na Polônia.” (op. cit., pag 214-215)

Ah! Como eu gosto dos livros antigos! Este livro, que eu comprei em um sebo (alfarrábio), foi impresso, em sua tradução portuguesa, em 1970. O que significa que o original, em alemão, é mais antigo ainda. E como é bom ler estes livros amarelados em suas páginas, mas livres da nigérrima manipulação anti-católica! Os livrecos “politicamente corretos” de hoje não são capazes de dar tão belos e claros depoimentos da atuação da Igreja contra o Nazismo.

Continuarei com este assunto em outro artigo, transcrevendo e comentando extratos de um outro livro.