As discussões e as votações no Concílio Vaticano I e no Concílio Vaticano II

Lendo um dos excelentes livros do Pe Leonel Franca, encontrei a seguinte descrição das discussões e das votações no Concílio Vaticano Primeiro:

A proposta da infalibilidade foi discutida de dois modos; em geral, na Constituição dogmática “De Ecclesia” de que fazia parte, e em particular separadamente dos outros capítulos da mesma constituição. O primeiro debate prolongou-se por 14 congregações, e nele falaram, além do relator, 64, oradores; só foi encerrado por votação da maioria. A discussão particular sobre o capítulo 4 (da infalibilidade) durou 11 dias inteiros, durante os quais usaram da palavra 57 Padres. Só quando todos os oradores inscritos terminaram as suas considerações e nenhum outro pediu a palavra, se pôs termo ao debate. Que assembléia permite maior liberdade de discussão?

FRANCA, Pe Leonel; A Igreja, a Reforma e a Civilização; Ed Civilização Brasileira; Rio de Janeiro; 4 edição; 1934; pag 178

Quanto amor à verdade e quanta diligência com respeito à nossa Santa Religião podemos perceber nesta egrégia assembléia. Quanto empenho dos veneráveis Padres Conciliares em trazer aos escritos do Concílio a melhor forma de se expor a Santa Doutrina.

E no Concílio Vaticano Segundo, passou-se tudo da mesma forma que no Vaticano Primeiro? Pelo Regimento Interno aprovado por João XXIII, até teria sido. No entanto, o padre Ralph Wiltgen S.V.D., testemunha dos fatos do Concílio como jornalista, nos apresenta um cenário muito diferente:

Na reunião seguinte, em 26 de junho, a Comissão de Coordenação tomou novas medidas visando apressar os trabalhos do Concílio. Ele [Cardeal Döpfner] decidiu, entre outras coisas, fazer, no Regimento Interno, emendas que foram aprovados pelo Sumo Pontífice no dia 2 de julho. A partir daí, todos os Cardeais e Padres Conciliares que quisessem tomar a palavra deviam submeter ao Secretário Geral um resumo escrito da intervenção que tinham intenção de fazer, “ao menos cinco dias antes de ser aberta a discussão sobre o assunto”. Deste modo, qualquer refutação era praticamente impossível, ao passo que, conforme o Regimento Interno aprovado por João XXIII, todo Padre Conciliar que quisesse refutar uma declaração podia informar ao Secretário Geral seu desejo de tomar a palavra; e ela lhe era concedida tão logo terminava a lista de oradores. Durante a segunda sessão, um requerimento para isso precisava ser assinado por cinco padres; de agora em diante, em virtude de uma nova cláusula acrescentada ao Regimento, precisava-se ter, pelo menos, 70 assinaturas. Como era de esperar, esse número era de natureza a desencorajar qualquer um que não pertencesse a um grupo bem organizado; de fato, assim se conseguiu reduzir ao silêncio os pontos de vista das minorias.

WILTGEN, Pe Ralph S.V.D.; O Reno se lança no Tibre; Editora Permanência; Rio de Janeiro; 2007; pg 151

Que maravilha, não? Os grandes “defensores da liberdade” simplesmente a negaram aos conservadores! Reduziram ao silêncio os que não estavam, como eles, organizados e com objetivos bem determinados. Quanta diferença entre o Concílio Vaticano Primeiro e o Concílio Vaticano Segundo! Quem é o católico que, em sã consciência, há de defender a atitude dos modernistas? E quem não enxerga aí o porquê de textos tão ambígos e defeituosos? Ora, os conservadores tinham dificuldade até de tomar a palavra para refutar os esquemas escritos pelas comissões concilares, compostas de modernistas. Não é nem um pouco difícil entender porque há textos concilares tão defeituosos.

Terrível golpe contra os conservadores, limitar-lhes a liberdade de refutar os esquemas escritos pelas comissões modernistas. Mas os ardis não pararam por aí. O livro de Pe Wiltgen está repleto de exemplos da conduta nada louvável daqueles que conduziram o concílio.

Vejamos este. Além de limitar as discussões e as capacidades de apresentar refutações, os modernistas tentaram até mesmo limitar o tempo disponível para os Padres Conciliares analisarem o esquema sobre a liberdade religiosa! Este esquema já havia sido discutido na aula conciliar quando, dois dias antes da votação, modificações enormes foram neles introduzidas, praticamente reescrevendo-o:

A brochura continha, além do esquema corrigido, um relatório de Mons Smedt, Bispo de Bruges, que deveria ser lido na quinta-feira e começava por estas palavras: “O texto que nós submetemos hoje à vossa aprovação difere grandemente do texto que foi discutido na aula”. O Coetus Internationalis Patrum, reunido em seu encontro semanal, estudou o esquema revisto e chegou a certo número de conclusões surpreendentes. Primeiro, enquanto o primeiro texto se compunha de 271 linhas, o novo tinha 566. Segundo, dessas 566 linhas, apenas 75 eram tomadas da versão precedente. Terceiro, a etrutura da argumentação era direrente, a apresentação da questão tinha sido modificada, bem como os princípios básicos e algumas das alíneas mais importantes dos artigos 2,3,8,12 e 14, que eram inteiramente novos.
Em conseqüência disto, o Coetus Internationalis Patrum considerou que de fato se tratava de uma novo esquema e que o procedimento a seguir era aquele que estava previsto no artigo 30 do parágrafo 2 do Regimento Interno, sob cujos termos os esquemas “deviam ser distribuídos de tal modo que os Padres Conciliares dispusessem do tempo necessário para se aconselharem, formar um juízo suficientemente amadurecido e decidir como votar”. Como devia haver Congregação Geral naquela quinta-feira, não se dispunha de tempo suficiente para examinar, de modo honesto e completo, um esquema que era praticamente novo. Ademais, os Padres Conciliares já estavam sobrecarregados naquela semana em que tinham que discutir os esquemas sobre a formação dos seminários, sobre a educação cristã e sobre o matrimônio, e se pronunciar, em dez escrutínios importantes, quanto aos esquemas sobre a Igreja, sobre as Igrejas Orientais Católicas e sobre o ecumenismo. (op. cit., pg 238)

O Coetus Internationalis Patrum escreveu, então, à Presidência do Concílio a fim de adiar a votação deste esquema, sendo que a petição recebeu mais de cem assinaturas. E esta não foi a única petição. Diante disto, o cardeal Tisserant resolveu fazer uma votação para decidir se o esquema deveria ser votado ainda naquela sessão ou adiado para a próxima. Mons. Carli, do Coetus Internationalis Patrum, apelou desta decisão absurda “porque não se pode pedir à Assembléia que decida se os artigos precisos de um Regimento Interno estabelecido pelo Sumo Pontífice devem ou não ser observados. Ou a petição dos cento e poucos padres não tem fundamento – e neste caso a Presidência do Concílio deve declará-la inadimissível, expondo as razões; ou tem fundamento, e assim ninguém, exceto o Sumo Pontífice, tem autoridade para descartá-la” (op. cit.,pag 239). O cardeal Tisserant se viu obrigado a adiar a votação.

Foi, então a vez dos modernistas redigirem sua petição, dirigida ao Papa, para que a votação se realizasse ainda naquela sessão. Quanta audácia! Pedir ao Papa para alterar as regras do jogo a fim de não dar tempo aos conservadores para analisar o esquema modificado na calada da noite! Felizmente, Paulo VI não se pronunciou, e a votação se realizou apenas na sessão seguinte do concílio. Mesmo não tendo alcançado seu objetivo, esta atitude dos modernistas é extremamente reveladora da má fé com que eles agiam para manipular o concílio. E citamos apenas um exemplo dentre tantos outros que são descritos em “O Reno se lança no Tibre”.

Quanta diferença entre as votações do Concílio Vaticano Primeiro e do Concílio Vaticano Segundo! E ainda há aqueles que, sem se darem ao mínimo trabalho de estudar a história dos Concílios, assumem com firmeza a postura de defender o Vaticano II como idêntico aos demais. Aí, então, escutamos as frases do tipo “quem aceita Trento aceita o Vaticano II”, “o bom católico não pode criticar um concílio da Igreja”, etc. Ah! Se ao menos se dessem ao trabalho de estudar o que foi o Vaticano II… O livro citado é um bom começo para entender o que se passou.

Um comentário em “As discussões e as votações no Concílio Vaticano I e no Concílio Vaticano II

  1. […] Já tivemos a oportunidade de levantar o tema do silêncio a que foram reduzidos os bispos que defen…. […]

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