Respirar pelos dois pulmões?

João Paulo II costumava dizer que, por causa do cisma das igrejas orientais, a Igreja estaria respirando por um só pulmão e que, a fim de voltar a respirar pelos dois, seria mister a comunhão entre as igrejas do Ociente e do Oriente (por exemplo, Ut unum sint, 54, e Redemptoris Mater, 34). Agora, nós nos perguntamos: tal comparação é justa?

A metáfora traz escondida um erro contra a Fé: como não há diferença entre os dois pulmões de um ser, dizer que a Igreja tem dois pulmões, um sendo a Igreja do Oriente e outro a Igreja do Ocidente, é igualar todas as Igrejas. Sabemos, pela sã doutrina, que a Igreja de Roma, por ser a Sé do Sumo Pontífice, sucessor de São Pedro e príncipe dos Apóstolos, é a cabeça de toda a Igreja Universal.

Com muita propriedade, Cristo Nosso Senhor, disse que Ele era a videira e nós, os ramos. Por analogia, o Seu sucessor legítimo, o Santo Padre, é o tronco ao qual todos devemos estar ligados para pertencermos a Cristo. Quem se desliga voluntariamente do Papa e, assim, da Igreja de Roma, é como o galho que se separa do tronco. A árvore permanece em seu pleno vigor, mas o galho lascado seca e morre. Assim, não somente o indivíduo, mas todo grupo que se separa de Roma, é um galho separado da árvore. Esta metáfora significa algo muito diferente do que aquela dos dois pulmões. As palavras de Sua Santidade, o Papa Bonifácio VIII, de venerabilíssima memória, em sua bula Unam Sanctam só vêm confirmar o que afirmamos: “Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice.”

Não quer dizer que não sentimos profundo pesar pela divisão das igrejas orientais cismáticas. Certamente que queremos não somente a salvação de cada um dos que pertencem a tais igrejas como também a plena incorporação das mesmas na Igreja Católica, tal como já ocorre com as igrejas orientais que retornaram do cisma ao longo da história. Eu, pessoalmente, sou grande admirador da cultura oriental, de sua liturgia, de sua arquitetura, etc. Lembro-me do quanto fiquei encantado com a catedral de São Basílio desde a primeira vez que a vi. Que maravilhoso seria assistir a Divina Liturgia, nessa esplêndida catedral, no coração de Moscou, e em comunhão com Roma!

Todos os óbvios benefícios da comunhão de todas as igrejas que hoje estão no cisma não podem, porém, justificar que se lhes compare a um dos pulmões da Igreja de Cristo. A Igreja de Cristo é a Igreja Católica. A instituição que Nosso Senhor fundou com a finalidade de conduzir os homens à salvação eterna não é um doente, que passou metade da sua história bimelenar gravemente debilitada, respirando por um único pulmão. Ainda que seja doloroso todo cisma entre os cristãos, a Igreja de Cristo continua em pleno vigor, não subsistindo, mas sim se identificando plenamente com a Igreja Católica.

A metáfora dos dois pulmões, usada por João Paulo II, parece bem ser uma interpretação equivocada das palavras ambíguas do malfadado concílio: “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”. Não! A Igreja de Cristo não subsiste, ela é a Igreja Católica, e não é um doente grave. É a força motriz benfazeja de toda a história. E, por mais que esteja eclipsada desde o latrocínio Vaticano II, a Igreja Católica é e sempre será a Igreja de Cristo e o único caminho de salvação.