A salvação universal nos textos do concílio

Um dos dogmas da Igreja é a existência do inferno. E, desde os primórdios da revelação, é ensinado aos homens que os bons receberão o descanso eterno, enquanto que os maus sofrerão o castigo eterno. “Vinde benditos de meu Pai…”, “ide malditos para o fogo eterno…”, são palavras de Nosso Senhor. As parábolas sobre o inferno são claríssimas e não deixam margem para dúvidas a respeito desta terrível realidade. Também a lembrança dos nossos novíssimos foi prática piedosa não somente ao longo dos séculos da Igreja, mas muito antes da encarnação de Nosso Senhor. E que efeito salutar sempre teve sobre os cristãos a meditação do fim último do homem!

Há menos de um século, um grandioso milagre do sol confirmou a importância das aparições em Fátima. Na ocasião, Nossa Senhora mostrou a três crianças uma visão do inferno. No mar de fogo estavam mergulhados demônios e seres humanos. Certamente que a Mãe de Deus estava alertando sobre o maior de todos os perigos que corremos: o de sermos preciptados no inferno. Ela mostrou uma imagem real, terrível, para relembrar a existência do abismo.

Depois de tanta perseverança de nossa santa religião em nos alertar sobre os perigos de se cair no inferno, ainda assim houve quem se insurgisse para negar a existência do inferno ou, ao menos, para afirmar que o mesmo encontrar-se-ia vazio.

Tal tese não tem fundamentos católicos. Pelo contrário, é a gnose que afirma que o homem é um ser divino aprisionado na matéria. Para se livrar desta prisão, deste mundo material que, para eles seria mal, o homem precisa do conhecimento – da gnose. Os que não alcançassem esta libertação teriam de reencarnar e se manter presos à escravidão da matéria. Mas não haveria uma condenação eterna pois, possuindo o homem uma partícula divina, esta não poderia ser sofrer tal condenadação. O homem, um ser divino, seria antes de tudo uma vítima, aprisionado na matéria por um “deus” mau. Esta é a inversão da doutrina cristã, segundo a qual o gênero humano sofre por sua própria culpa, contraída pelos nossos primeiros pais.

Tal heresia, tão contrária ao dogma cristão, teve um inacreditável suporte no texto do Concílio Vaticano II:

“Por isso proclamamos a vocação altíssima do homem e afirmamos existir nele uma semente divina, o Sacrossanto Concílio oferece ao gênero humano a colaboração sincera da Igreja para o estabelecimento de uma fraternidade universal que corresponda a essa vocação.” (Gaudium et Spes, 3)

A letra do concílio, e não somente seu espírito, teve a ousadia de nos apresentar uma tese gnóstica, a de que haveria uma semente divina no homem. Em outra oportunidade, já pudemos demonstrar a enorme diferença que existe entre esta suposta semente divina e a verdadeira presença de Deus na alma do justo infundida por obra do batismo e recuperada pela confissão sacramental.

Mas a perversidade do concílio não acaba aqui. Não somente tiveram a ousadia de expor esta tese gnóstica, como tiraram dela a conclusão do salvação universal, por ela exigida.

Comecemos por um texto apenas ambíguo:

“De resto, como a Igreja sempre ensinou e ensina, Cristo sofreu, voluntariamente e com imenso amor, a Sua paixão e morte, pelos pecados de todos os homens, para que todos alcancem a salvação.” (Nostra Aetate, 4)

Seria melhor ter escrito: “para que todos pudessem alcançar a salvação”. Mas relevemos este texto, e passemos para o próximo (todos os destaques neste artigo são nossos):

“A igualdade fundamental entre todos os homens deve ser cada vez mais reconhecida, uma vez que, dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos têm a mesma natureza e origem; e, remidos por Cristo, todos têm a mesma vocação e destino divinos.” (Gaudium et Spes, 29)

Agora já temos diante dos olhos um texto bem mais acintoso, que sugere com muito mais força a salvação universal. De fato, se todos os homens foram remidos por Cristo e têm um destino divino, como poderia alguém ir para o inferno? O texto deveria explicar que a Redenção tem valor objetivo para todos os homens, mas sua aplicação a cada ser humano depende de sua correspondência à graça divina. Desta forma, o destino para o qual Deus criou o homem, não é atingido por aqueles que rejeitem Seus desígnios e perseverem no mal até o último instante.

Mas, não somente de textos mal redigidos ou ambíguos vive o concílio. Passemos a textos ainda mais explicitamente contrários à Fé de sempre:

“O Filho do Homem não veio para que o servissem, mas para ser ele a servir e para dar até a sua vida em redenção por muitos, isto é, por todos” (Ad Gentes, 3)

A expressão “muitos” não implica necessariamente “todos”. Dizer que muitos estudam Direito, não implica que todos estudem Direito. Dizer que muitos alemães são loiros, não quer dizer todos  o sejam. Esta é uma verdade tão evidente, tão óbvia, tão simples que não é necessário sequer ser alfabetizado para entender. Mesmo assim, o concílio tentou nos fazer engolir o contrário.

Mas há algo ainda pior do que abusar da inteligência dos fiéis. O texto do concílio fez, neste ponto, uma referência às Sagradas Escrituras. Porém, o fez de forma nada católica, adulterando a citação bíblica. De fato, o texto do Evangelho de São Marcos, capítulo 10, versículo 45, nos traz apenas a expressão “por muitos”. O “por todos” é adulteração inserida pelo Concílio Vaticano II. E ainda há quem queira defender a infalibilidade do concílio e a assistência divina ao mesmo? Será que o Espírito Santo seria o responsável por essa citação bíblica adulterada? A única forma de se defender o concílio é escondendo seus erros, jogando a sujeira debaixo do tapete.

Não bastassem estas incoerências, seja com a razão, seja com a Bíblia, o texto do concílio é desmentido também pelo Catecismo Romano, que esclarece perfeitamente o motivo pelo qual a salvação não atinge todos os homens, mas apenas muitos deles:

De fato, se considerarmos sua virtude, devemos reconhecer que o Salvador derramou Seu Sangue pela salvação de todos os homens. Se atendermos, porém, ao fruto real que os homens dele auferem, não nos custa compreender que sua eficácia se não estende a todos, mas só a “muitos” homens.

Dizendo, pois, “por vós”, Nosso Senhor tinha em vista, quer as pessoas presentes, quer os eleitos dentre os Judeus, como o eram os Discípulos a quem falava, com exceção de Judas.

No entanto, ao acrescentar “por muitos”, queria aludir aos outros eleitos, fossem eles Judeus ou gentios. Houve, pois, muito acerto em não se dizer “por todos”, visto que o texto só alude aos frutos da Paixão, e esta sortiu efeito salutar unicamente para os escolhidos.

Tal é o sentido a que se referem aquelas palavras do Apóstolo: “Cristo imolou-Se uma só vez, para remover totalmente os pecados de muitos” (Hb 9,28); e as que disse Nosso Senhor no Evangelho de São João: “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por estes que Vós Me destes, porque eles são Vossos.” (Jo 17,9)

Catecismo Romano, Parte II, Capítulo IV, pag. 269-270

O concílio sai completamente derrotado, portanto, por um texto escrito quatrocentos anos antes. De onde se percebe, mais uma vez, o quanto ele rompeu com a Tradição.

Lembramo-nos do caso da tradução de “pro multis” na missa nova, que o papa Bento XVI ordenou que se traduzisse corretamente através da expressão “por muitos”, mas que o clero modernista insiste em desobedecer ao papa e mantém a expressão “por todos”. Esta turma da “plena comunhão” é, de maneira vergonhosa, desobediente e rebelde ao papa, ao mesmo tempo em que não tem como argumentar nada diante da clareza do Catecismo Romano, que somente podem manter longe do conhecimento dos fiéis. Mas, esta mesma turma que está contra o papa e contra a Tradição, está também muito coerente com o “sacrossanto” e “imaculado” Concílio Vaticano II.

Mas ainda há alguns outros textos conciliares que também expõem explicitamente a doutrina da salvação universal:

“Aquilo que uma vez foi pregado pelo Senhor ou aquilo que n’Ele se operou para salvação do género humano, deve ser proclamado e espalhado até aos confins da terra, começando por Jerusalém, de modo que tudo quanto foi feito uma vez por todas, pela salvação dos homens, alcance o seu efeito em todos, no decurso dos tempos.” (Ad Gentes 3)

De acordo com a letra do concílio a salvação do gênero humano deverá alcançar seu efeito em todos. Não em muitos, mas em todos. Novamente se reforça, portanto, a doutrina da salvação universal. O texto ainda acrescenta “no decurso dos tempos”. Que poderia significar que a salvação dos homens deveria alcançar seu efeito em todos no decurso dos tempos? Seria uma forma velada de defender a reencarnação? Estaria bem coerente, inclusive, com as teses gnósticas da semente divina aprisionada na matéria que mencionamos acima.

Antes que alguns fanáticos defensores do Concílio Vaticano II nos acusem de “pirotecnias”, devemos lembrar que os textos deste concílio foram intencionalmente escritos de forma ambígua, a fim de permitir uma leitura diferente da ortodoxa. E isto quem admitiu foram os próprios modernistas que manipularam todo o desenrolar do Vaticano II.

E esta interpretação me parece ser a única capaz de explicar como “a salvação dos homens poderia alcançar seu efeito em todos no decurso dos tempos”. Alguém consegue apresentar alguma solução ortodoxa? Sem esquecer que ela deve estar em harmonia com todos os outros trechos do vaticano II destacados aqui, obviamente.

Se tudo o que foi dito ainda não convenceu os fanáticos defensores da suposta ortodoxia do Vaticano II, vejamos ainda mais um texto escandaloso:

“Finalmente, quando todos os que participam da natureza humana, uma vez regenerados em Cristo pelo Espírito Santo e já na visão unânime da glória de Deus Pai, puderem dizer: «Pai nosso», então se há-de realizar deveras o intento do Criador ao fazer o homem à Sua imagem e semelhança.” (Ad Gentes, 7)

Portanto, segundo a letra do concílio, todos os que participam da natureza humana serão regenerados e terão a visão da glória de Deus! Precisamos mais de que para convencer os neo-conservadores de que o Vaticano II rompeu com a Tradição da Igreja? O concílio não reforçou a doutrina tradicional da existência do inferno e do grande perigo da condenação eterna. Muito pelo contrário, manifestou-se claramente pela salvação universal. Para o “sacrossanto” concílio, o inferno estaria vazio! Bem como queria Urs von Balthasar.

É certo que em alguns trechos o concílio trata da necessidade da Igreja Católica para salvação. E o fez inclusive no mesmo parágrafo sétimo do decreto Ad Gentes citado acima! Mas, como já denunciava Sua Santidade o papa São Pio X na sua encíclica Pascendi, é tática modernista negar em uma página o que disse na anterior. E, com o concílio que foi uma obra prima dos modernistas, não poderia ser diferente. Dele se pode tirar tanto uma doutrina ortodoxa, quanto as maiores aberrações doutrinais. Vai do gosto do freguês.

E quando o freguês é um bispo ou padre modernista, quanto estrago ele não consegue fazer citando textos que, supostamente, estariam imbuídos de autoridade magisterial! A situação de decadência moral dos fiéis que caíram nas teias modernistas é uma prova clara do mal que o relativismo causou. Mas, como impedir o povo de cair no relativismo se se defende uma doutrina absurda da salvação universal? Se todos alcançariam um dia a salvação, então por que fazer, por exemplo, esforços heróicos para viver em castidade em mundo tão depravado como o atual? Por pregar o Evangelho, ou porque ser martirizado, ou defender a verdadeira religião contra uma massa de incrédulos ou mesmo hostis? A massa, após o concílio, vive de que forma, senão de acordo com esta doutrina da salvação universal, ainda que não a professe abertamente?

Queríamos exigir de todos que se abstivessem do pecado por puro amor a Deus, como se não houvesse prêmio ou castigo? Sim, este é o ideal, o que as grandes almas santas alcançam. Mas, a teologia ascética e mística nos ensina claramente que existem três vias no caminho da perfeição. E a primeira delas é a via purgativa, na qual se abstém do pecado pelo medo do castigo. Como se pode chegar às vias superiores sem passar pela primeira? E acaso não lemos nas Escrituras Sagradas que o temor de Deus é o princípio da Sabedoria? Se há tantos que vivem má vida, não nos surpreende que seja porque nunca trilharam os primeiros passos. E como poderiam se lembrar de seus novíssimos, em plena festa da “primavera conciliar”?

Finalmente, a dissolução moral do mundo não há de justificar a má vida de tantos batizados. A Igreja é guardiã da moral, e sempre lutou contra a corrupção do mundo. Mas, se hoje os membros da hierarquia eclesiástica, seja em suas vidas, em seus sermões ou mesmo nas confissões, dão testemunho de um mundo cor-de-rosa, de uma “primavera conciliar”, em que tudo pode, nada é proibido, como podemos esperar que os fiéis lutem contra a depravação do mundo? E pior de tudo, se, por absurdo, admitíssimos alguma autoridade magisterial no Concílio Vaticano II, este clero podre teria até suporte do “magistério” da Igreja para defender este mundo sem regras morais, uma vez que todos acabariam salvos um dia.

Porque temos amor a Deus e esperamos salvar nossas almas seguindo o caminho estreito da salvação, visto que largo é o da perdição, é que ficamos com a Tradição e rejeitamos o Vaticano II e todas suas novidades.

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PS: a discussão sobre os elementos do clero que difundiram a doutrina da salvação universal fica para outro artigo, pois este já vai muito longo.

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Um comentário em “A salvação universal nos textos do concílio

  1. […] Se vários documentos do concílio ensinam a salvação universal do gênero humano, enquanto que to… é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio. […]

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