A “reforma da reforma” e a tentativa de salvar o concílio a qualquer custo

O Cardeal Antonio Cañizares, Prefeito da Congregação para o culto divino, em recente entrevista, afirmou a necessidade de um novo movimento litúrgico, que promova maior silêncio, meditação e sacralidade no rito da Santa Missa.

O principal ponto positivo da entrevista foi o cardeal ter admitido os problemas da “reforma” litúrgica promovida com a introdução da missa nova. Primeiro o cardeal admite a pressa com que foi realizada a “reforma”:

A reforma litúrgica foi realizada com muita pressa. Havia ótimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação. Não se deu tempo e espaço suficiente para acolher e interiorizar os ensinamentos do Concílio; de repente, mudou-se o modo de celebrar.

Depois, admite até mesmo que a renovação foi entendida como ruptura e não como desenvolvimento natural da tradição:

A renovação conciliar foi entendida como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição.

Por um lado, é bom que o assunto seja tratado assim, tão explicitamente,  por um cardeal. Mas nem tudo vai tão bem. Apesar de reconhecer a pressa e a ruptura, o cardeal as entende apenas como uma má aplicação do concílio. Seria a famosa hermenêutica da continuidade: o concílio bom teria sido desvirtuado posteriormente.

Analisemos algumas críticas do próprio cardeal Cañizares e constatemos se elas se aplicam apenas ao pós-concílio ou não.

Primeiramente, o cardeal critica a criatividade e as investigações de laboratório a que foi submetida a liturgia:

A renovação litúrgica foi vista como uma investigação de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade, a palavra mágica de então.

Ora, foi o “sacrossanto” concílio Vaticano II quem concedeu a possibilidade de se fazer experiências com a liturgia:

2) Para se fazer a adaptação com a devida cautela, a Sé Apostólica poderá dar, se for necessário, à mesma autoridade eclesiástica territorial a faculdade de permitir e dirigir as experiências prévias que forem precisas, em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado. (SC 40)

Como pode o cardeal, com razão, reclamar das “investigações de laboratório” a que foi submetida a liturgia e ainda querer isentar de culpa o concílio, que as propôs?

Posteriormente, o cardeal também critica a secularização que atingiu a liturgia:

(…) a liturgia, isso é fato, foi “ferida” por deformações arbitrárias, provocadas também pela secularização que desgraçadamente atinge também dentro da Igreja.

Mas não foi o concílio Vaticano II quem propôs a inculturação da liturgia, “adaptando-a às várias regiões e povos” (SC 38, 65)? Escrevemos há pouco tempo um artigo sobre este tema. Ora, como poderíamos promover uma ampla inculturação, que deveria adaptar a liturgia às várias regiões e povos, sem que houvesse uma secularização desta liturgia?

Finalmente, o cardeal critica as celebrações que colocam o homem como seu centro, e não mais Deus, e também o papel principal dado à assembléia:

Consequentemente, em muitas celebrações já não se coloca Deus no centro, mas o homem e seu protagonismo, sua ação criativa, o papel principal é dado à assembléia.

Com respeito ao papel da assembléia, o documento Sacrossanctum Concilium, sobre a liturgia, insistiu muito sobre a participação ativa dos fiéis (SC 11, 14, 19, 21, 26, 30, 41, 48, 50, 79, 113, 114, 121, 124). Depois de tanta insistência para que os fiéis participassem ativamente da liturgia, como se surpreender que a assembléia assumisse,  abusivamente, um papel principal?

Ora, este papel central do homem, que o cardeal corretamente condena, também pode encontrar sua apologia explícita no texto do concílio:

Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes. (Gaudium et spes, n. 12)

Se tudo o que existe sobre a terra deveria ser ordenado em função homem, porque a Santa Missa também não o seria? A missa nova, que se afasta tanto da Missa Tridentina, o faz sempre no sentido do antropocentrismo. Não apenas alguns aspectos insignificantes, mas tudo o que foi mudado, o foi exatamente no sentido de se aproximar do homem, afastando-se da sacralidade do Rito Tridentino. É impossível negar que a missa nova não seja fruto do “espírito” e da letra antropocêntricos do Concílio. Ela está em continuidade com o concílio, porém ambos estão em ruptura com a Tradição.

Por isso é perda de tempo querer salvar a integridade do concílio e a missa nova. Façamos o caminho mais curto e seguro, simplesmente retornando à Tradição. Fazer valer o direito de todos os fiéis à Missa Tridentina seria um ótimo começo para o pretendido movimento litúrgico. Além de satisfazer a todos os que desejam a Missa de Sempre e não a têm, ainda seria a oportunidade de muitos conhecerem o verdadeiro rito romano.