Aproveitando o tempo da Páscoa para o arrependimento

A época da Páscoa é uma ótima oportunidade para conversão. Durante todo o período da Quaresma, fomos chamados à penitência e à reflexão. Alguns, no entanto, aproveitaram este tempo para gerar intrigas contra irmãos na fé, que buscam o bem da Igreja. Eu disse que não iria mais comentar os ataques da Montfort contra a FSSPX para evitar conturbações neste período da Páscoa. No entanto, seguindo um bom conselho de um amigo, vou aproveitar este tempo propício para convidar os fautores da discórdia para repensarem sua atitude. Sem alimentar mais polêmicas, mas tão somente chamando-os para uma reflexão de seus atos.

Vamos relembrar os acontecimentos da última semana, que levaram a confusão ao seu ápice.

Quando o padre Leonardo Holtz decidiu entrar para a FSSPX, houve quem discordasse de sua atitude. O problema é que não somente discordaram, mas também utilizaram a oportunidade para dizer coisas que não eram verdadeiras. Frei Tiago teve uma carta sua publicada no site da Montfort na qual acusava a FSSPX de não estar em comunhão com a Igreja e estar em estado de cisma:

Nada justifica deixar a comunhão da Igreja Católica!

Estes Cismas não colaboram senão para sangrar ainda mais as feridas do Corpo Místico de Cristo.

http://www.montfort.org.br/index.php/blog/noticias-comentarios-analises/ainda-nao-classificado/que-seu-exemplo-nao-seja-seguido-frei-tiago-a-proposito-do-padre-leonardo-holtz/

Mentira. A FSSPX não é cismática. Assim o reconheceu até mesmo o Cardeal Dario Castrillón Hoyos, responsável pela comissão Ecclesia Dei. A FSSPX nunca abandonou a comunhão da Igreja Católica, e somente agiu dentro do estado de necessidade. Somente a absurda “sentença”, decretada pelo prof. Orlando Fedeli, sem ter nenhuma autoridade para isto, é que mantém a posição da Montfort nestes termos. E que eles não cansam de repetir.

Não contente com esta acusação sem fundamento, o artigo publicado pela Montfort ainda chama os membros da FSSPX de hipócritas e os compara com os modernistas, inimigos da Igreja:

pois eles são muito bons para criticar, mas na hora de ajudar mesmo, são tão hipócritas quanto os piores modernistas!

Milhares e milhares de fiéis ao redor de todo o mundo dão um testemunho oposto ao do frei Tiago. Muitos aguardam ansiosos a visita de um padre da FSSPX em missão. Muitos desejariam ter um priorado próximo de sua residência. Como pode este frei ignorar o bem que a FSSPX tem feito a todos estes católicos? E ainda os chamar de hipócritas como os piores modernistas?

Frei Tiago critica a atitude do Pe. Leornardo com base em sua própria experiência. Sem dúvida que frei Tiago enfrentou muitas dificuldades para poder celebrar o rito tridentino. Qualquer padre que o queira sofre as mais injustas perseguições, porque o inferno não pode suportar a verdadeira Missa católica. Agora, frei Tiago vive em um mosteiro, de uma certa forma isolado do clero modernista e podre. O padre Leonardo deveria conviver no meio da arquidicocese com todos os elementos modernistas. Como comparar uma situação com a outra? Se o padre refletiu e decidiu partir para onde seu apostolado teria mais frutos, quem tem o direito de se intrometer em sua vida? Ainda mais acusando-o de ter abandonado a comunhão da Igreja!

Estes mesmo erros sobre a comunhão são várias vezes reafirmados ao longo do artigo (o destaque é do original):

Entretanto não deixo de estar na comunhão com a Igreja!

E tenho certeza de que Deus está com aqueles que, rejeitando toda a profanação e secularismo, lutam pela renovação da Igreja de Cristo sem traí-la, nem abandoná-la, sob qualquer pretexto…

Qualquer um que fosse acusado de algo que não cometeu, buscaria a retratação daquele que proferiu aquilo que não corresponde à verdade. Foi assim que um padre da  FSSPX respeitosamente procurou junto ao frei Tiago as explicações sobre sua atitude.

Para espanto geral, a Montfort publicou um artigo no qual o frei declarava estar sendo ameaçado pelo padre. Inclusive declarando temer até agressões físicas! Para corroborar o que diziam, colocaram a foto de um texto impresso, que seria o e-mail enviado pelo padre. O envio do e-mail ameaçador, que aliás não continha nenhuma ameaça de agressão, foi desmentido pelo padre.

O fato é gravíssimo porque, uma história tão surreal como esta, fere a caridade cristã. O mínimo que se esperaria é que se confirmasse o que o padre queria dizer com o e-mail antes de se publicar qualquer coisa na internet. Se fizesse isto, saberia que o padre não era sequer o autor do e-mail.

Em vez de tomar este cuidado, a Montfort logo se apressou em publicar um artigo acusando o padre de crime de ameaça. E, o que eu achei o cúmulo da safadeza, publicaram até a foto do padre no artigo. Tudo faz parecer que o que eles queriam era denegrir ao máximo a imagem do santo sacerdote, que não tinha culpa de nada.

Pois bem, depois de todo este exemplo do que não se deve fazer, não caberia, no mínimo, um pedido de desculpas e uma retratação públicos?

Não houve, até o momento, nenhum pedido de desculpas. O que houve foi a publicação, pela Montfort, de uma artigo onde o frei Tiago repete o erro sobre a condição da FSSPX:

NÃO SE PODE REFORMAR A IGREJA FORA DELA!

http://www.montfort.org.br/index.php/blog/noticias-comentarios-analises/temas/missa-antiga/carta-aberta-a-todos-os-catolicos-tradicionais

Ou seja, frei Tiago continua insinuando que a FSSPX não está na Igreja. Os “argumentos” utilizados são os mesmos que dos neo-conservadores e somente demonstram a superficialidade com que a questão é tratada por eles.  Chega mesmo a falar em “sede-vacantismo prático”. Em outra ocasião lhes refutaremos, pois a intenção agora não é entrar em combate apologético às vésperas da Páscoa.

Este último artigo publicado pela Montfort é uma carta aberta a todos os católicos tradicionais, chamando-os a reconciliação e ao respeito. Não acho que, depois de tudo o que disseram e fizeram, a Montfort ainda tenha moral para fazer um pedido destes. Muito menos sem antes se retratar.

Apelemos para o que eles mesmos publicaram. Uma coisa frei Tiago disse que todos sabemos: “a verdadeira causa da crise da Igreja são os próprios pecados do povo cristão!”

Sim, sem dúvida, pois foi isto que Nossa Senhora veio advertir em Fátima. Só que o frei, que ironicamente chamou de “teólogos” entre aspas aqueles que o criticaram, não percebeu a gravidade e o escândalo do pecado cometido por ele e pela Montfort ao atacarem publicamente a imagem de um sacerdote inocente. E sem direito sequer a um pedido de desculpas.

E Nossa Senhora de Fátima também advertiu sobre o perigo de se alterar a Fé, a liturgia e o espírito da Igreja, como disse o cardeal Pacelli, futuro Pio XII. O que está publicado no próprio site da Montfort. E a FSSPX, que luta contra estas mudanças, é acusada de cismática por conta de seu combate contra os inimigos infiltrados na Igreja que promoveram estas mudanças que constituem uma  verdadeira traição à Igreja.

Não percebeu o frei que os “teólogos” entre aspas estão em concordância com todas as avertências de Nossa Senhora, desde La Salette até Fátima. E que a posição dos tradicionalistas não contraria o fato de serem nossos pecados a causa da crise atual. Acontece que, se os pecados do povo cristão são a causa formal da crise, o Concílio Vaticano II e a missa nova são a causa instrumental.

E aí que está a contradição de frei Tiago: faz eco aos inimigos da FSSPX que a acusam falsamente de cismática exatamente porque ela combate as causas instrumentais da crise. Mas, ao mesmo tempo, o frei quer combater esta crise.

Vê-se, portanto, que o frei não tinha motivos para chamar de “teólogos” entre aspas aqueles que lutam contra os instrumentos utilizados pelos inimigos da Igreja para propagar a crise atual. Muito pelo contrário, somente combatendo os instrumentos da crise é que podemos superá-la.

Frei Tiago e a Montfort mantêm sua posição equivocada sobre o “cisma” que não existe. Mas, já que reconheceram que o pecado do povo cristão é a causa da crise, poderiam pelo menos se retratar do pecado enorme que cometeram ao atacar publicamente a imagem de um sacerdote inocente. Seria o mínimo de coerência com suas próprias palavras. Fica o convite para que eles aproveitem o tempo Pascal para um exercício de humildade e uma reparação da injustiça que cometeram.

40 comentários em “Aproveitando o tempo da Páscoa para o arrependimento

  1. Mateus G. M. F. Tibúrcio disse:

    Prezado Márcio

    Salve Maria

    Nesta confusão entre Montfort e FSSPX, eu gostaria de saber qual fim tomou a FSSJ. A “excomunhão” – Pois nós sabemos que não houve excomunhão nenhuma – deles já foi revertida? E eu gostaria de saber também de qual irmandade a TFP recebe sacramentos, pois eles são tradicionalistas, mas não sei vinculados a quem – De modo semelhante à Montfort, mas não igual.
    Aproveito para desejar Feliz páscoa em Cristo Ressucitado!

    Dominus Tecum

    Mateus G. M. F. Tibúrcio

  2. Rodrigo disse:

    Amigo, por quê vc não começa dando o bom exemplo e silencia sobre esse assunto que já feriu muita gente boa? Não seria melhor deixar que o mal se desfaça pelo desprezo que se deveria dar a ele? “Iesus autem tacebat”.
    O grande mal de tantos amigos da Tradição é justamente criarem mais partidos e contendas entre si, fomentarem discórdias e até mesmo fofocas e calúnias que em nada ajudam no combate da ortodoxia.
    Foi só um conselho que me atrevo a dar, sem maiores pretensões.
    Uma feliz Páscoa in Christo et Matre!

  3. Márcio disse:

    Caro Mateus, a FSSJ eu nem conheço. A TFP eu não a que padres recorre. No site da revista catolicismo eu já vi que tem padres que escrevem nela, mas não sei de onde são.

    Caro Rodrigo, já estou terminando o assunto. Não que a Montfort não merecesse ser questionada sobre as sua irresponsabilidade. Porque foram eles que fomentaram toda esta discórdia. Mas, a menos que retornem a falar besteiras, pretendo partir para enfrentar outros inimigos.

    Feliz Páscoa a todos.

  4. Lázaro Laert disse:

    Sempre usei da ‘tolerancia’, para lida com o pessoal da montfort, apesar de descordar de alguns assuntos relacionado a FSSPX.

    Mas está ultima polemica, para mim foi o fim.

    Não tenho como mais apoiar este grupo.

    Lázaro Laert

  5. Márcio disse:

    Caro Lázaro, Salve Maria!

    A minha posição sobre o assunto é igual à sua. Esperei muito tempo que eles mudassem, mas só pioraram. Nesta última polêmica eles ultrapassaram todos os limites toleráveis, perderam toda a moral que ainda tinham. Não tem mais como apoiar este grupo. Invejaram tanto o sucesso da FSSPX que agora eles mesmos provocaram a própria ruína.

    AMDG,

    Márcio

  6. Br. Pius V disse:

    Faço as palavras dos amigos acima as minhas!!!

    É impressionante a que nível os ataques da Montfort á FSSPX chegaram ….

    Inaceitável, basta!

    Contra-atacar, por vezes, se faz necessário:
    http://stdominic3order.blogspot.com/2011/04/alice-no-pais-da-montfort.html

    JMJ

    Ps: Parabéns pela coerência e clareza de sempre, Márcio.

  7. Márcio disse:

    Caro Br. Pius, Salve Maria!

    Obrigado pelas generosas palavras. Também concordo plenamente com o que você escreveu, a Montfort ultrapassou todos os níveis toleráveis.

    Aproveito a oportunidade para parabenizá-lo por seu trabalho. Aliás, tentei colocar um comentário no seu artigo, mas tive problema com o meu “open ID” do WordPress. Deve ter sido alguma burrice minha, mas não descobri o que fiz de errado.

    AMDG,

    Márcio

  8. Renato Salles disse:

    Coloco aqui o mesmo comentário que fiz na página do BR. Pius:
    Parabéns pelo artigo!
    Já de muito que notei que a Montfort modificou bastante seu discurso… talvez, pelo receio de serem chamados de “sedevacantistas práticos”. Certa vez, houve um debate entre eles e o site Veritatis e este os chamou de sedevacantistas.
    Assim, no afã de mostrar que está junto ao Papa, parece que a Montfort, por não se submeter a nenhuma autoridade eclasiástica, inventou um papa ficticio ao qual seus membros se submetem completamente (como se a hierarquia fosse: Papa e logo em seguida Montfort…).
    Assim eles se calam para qualquer coisa de mal que o Papa fale, faça ou escreva, mas exaltam qualquer minimo que possa ser intepretado benevolamente.
    Deixo aqui uma repreensão de São Pio X que poderia ser muito bem aplicada a Montfort:
    “8. Se suas doutrinas fossem isentas de erro, já teria sido uma falta muito grave à disciplina católica o subtrair-se obstinadamente à direção daqueles que receberam do céu a missão de guiar os indivíduos e as sociedades no reto caminho da verdade e do bem.” (São Pio X,Notre Charge Apostolique)

  9. Márcio disse:

    Caro Renato, Salve Maria!

    Não há dúvidas que existe uma forte pressão contra os católicos tradicionais. E a Montfort não resistiu. Estão, desde algum tempo, muito “politicamente corretos”, procurando a via mais pacífica quando estamos no meio da batalha.

    Devemos, pois, continuar o bom combate independente de opiniões de neo-cons.

    AMDG.

    Márcio

  10. Uno-me aos comentários acima. Nunca fui partidário de uma defenestração da Montfort, pois aos trancos e barrancos ela fez muito bem às almas. Mas a própria associação força a todos os que hesitavam a tomar um partido contra ela.
    Ela tem incentivado abertamente que se aproveite o pretexto Leonardo Holtz para se bater na FSSPX; foi por meio da mesma Montfort que cheguei à conclusão de que a FSSPX não era cismática, pois eles mesmo divulgavam o que dizia D. Dario Castrillon, como na entrevista em que o mesmo dizia “Não estamos diante de um cisma nem de uma heresia” e mais adiante “os frutos são bons, logo o Espírito Santo está lá (na FSSPX)”.

    Mesmo diante dessas evidências a Montfort não se permitiu chegar à conclusão lógica: de que a FSSPX é católica e não é cismática.

    A primeira carta do frei Thiago já foi deplorável. Antes de tudo, que faz um eremita acessando internet? É para polemizar que ele se refugiou em um eremitério? É para se ligar ao burburinho do mundo – por mais grave que seja a questão – que este frei se isolou?
    Assim até eu daria um eremita, acessando internet…

    E além de repetir o mesmo lugar-comum de que a FSSPX é cismática, no meio das suas acusações gratuitas de que ninguém na FSSPX presta, que Écône tem escândalos (ele acusou isso mas não mostrou nenhuma evidência, só acusou!!!!), sem querer mostrou que fez a mesma coisa que o padre Leonardo (e que agora ele condena como pecado de cisma): dirigiu-se à FSSPX.

    Está sub-entendido: ele resolveu “cismar” com a Igreja e recorreu à FSSPX; lá chegando, desiludiu-se com os padres por algum motivo – o que justifica talvez dizer que eles seriam bons só para falar, mas na prática seriam piores que os modernistas – e passou então a atacá-los como cismáticos e etc.

    Ele mesmo talvez seria agora um “cismático”, se não tivesse se aborrecido com os mesmos padres. Mas como tal coisa não aconteceu, então ele agora critica o Padre Leonardo por fazer algo que ele mesmo fez no passado, e só não levou até o fim porque alguma coisa obstou o caminho…

    Lamentável. E infelizmente eles prolongaram esse papelão até essas cartas com denúncias de ameaças, etc.
    A montfort desmoralizou-se gratuitamente com isso…

  11. Márcio disse:

    Caro Bruno, ótimas observações.

  12. AJBF disse:

    A palavra de Castrillón Hoyos não deve se sobrepôr aos fatos.

    O problema é que as ordenações episcopais sem mandato apostólico de Mons. Lefebvre e de Mons. De Castro Mayer, scricto sensu, não se justificam senão com uma elástica aplicação do estado de necessidade (isso, claro, tendo em mente determinados pressupostos específicos admitidos como ponto pacífico pelo senso comum interno à FSSPX).

    Embora eu acredite que não houve cisma por parte da FSSPX, acho que isso só não se deu em razão de questões subjetivas, putativas.

    Objetivamente, creio que agiram, sim, de modo que legalmente seria considerado um ato cismático, segundo o Código de Direito Canônico de 1983 (vide cânone 1382). Segundo o Código de 1917, seria um ato punido ‘ipso iure’ com imediata suspensão de ordens.

    Vou apimentar o debate de vocês com mais duas referências sobre a questão do “cisma”.

    Primeiramente, o estudo do estudante de direito canônico, ex integrante da FSSPX por mais de 20 anos, Peter Vere. Eis o link:

    http://sspx.agenda.tripod.com/id8.html

    Alguém conhecendo refutação adequada e já pronta desse estudo, que apresente-a por favor.

    Em segundo lugar, apresento uma comparação interessante que o Fr. Noël Barbara faz (no intuito de argumentar em favor da compreensão de que houve atitude cismática da Fraternidade ao ordenar os 4 bispos), comparando-a com as consagrações igualmente sem mandato apostólico de Mons. Thuc (arcebispo vietnamita que defende a posição sedevacantista). Embora eu não concorde de todo a perspectiva metodológica pela qual o Fr. Barbara chega às suas conclusões, acho importante considerar essa opinião para modular a discussão com mais realismo. Eis o link, logo abaixo, apresentando o texto dele.

    http://www.essan.org/Thuc%20Consecrations/Thuc/Thuc%20Archbishop/barbara2.html

    Minha opinião pessoal: a Montfort, em sua análise da situação da FSSPX, acerta no alvo certo (no verdadeiro “Calcanhar de Aquiles”), mas o faz por uma acusação esdrúxula e completamente equivocada.

    É como alguém que consegue uma conclusão verdadeira com base em duas premissas completamente falsas – algo puramente acidental.

  13. AJBF disse:

    Santo Agostinho e São Jerônimo sobre cisma:

    “Between heresy and schism”, explains St. Jerome, “there is this difference, that heresy perverts dogma, while schism, by rebellion against the bishop, separates from the Church. Nevertheless there is no schism which does not trump up a heresy to justify its departure from the Church (In Ep. ad Tit., iii, 10).

    And St. Augustine: “By false doctrines concerning God heretics wound faith, by iniquitous dissensions schismatics deviate from fraternal charity, although they believe what we believe” (On Faith and the Creed 9).


    (Fonte: verbete Schism, da Catholic Encyclopedia – http://www.newadvent.org/cathen/13529a.htm)

  14. Márcio disse:

    É exatamente quando analisamos os fatos e todas as circunstâncias que verificamos o quanto existia realmente o estado de necessidade alegado.

    Dom Marcel Lefebvre estava ficando idoso, e precisava de bispos que continuassem a luta da Tradição. Se ele não consagrasse bispos, não haveria esperança que os bispos modernistas teriam boa-vontade de consagrar sacerdotes fiéis à Tradição. O combate contra o modernismo morreria junto com Dom Lefebvre. Depois de solicitar várias vezes a Roma a sagração de bispos e não ter sido atendido, não houve outra saída senão ordená-los sem o mandato. Foi a única saída para não ver a FSSPX amordaçada como hoje estão os institutos Ecclesia Dei.

    A situação fica mais clara quando analisamos todos os absurdos que muitos fizeram e não sofreram qualquer pena, por mais leve que fosse. Os piores hereges, profanadores, liberais, vivem tranqüilamente na igreja conciliar. Por outro lado, qualquer um que defendesse a Fé, era perseguido. Você sabia, por exemplo, que o padre Nicholas Gruner, que não é da FSSPX, foi ameaçado de excomunhão no ano 2000? Que fez o padre de tão errado? Simplesmente contestava o encobrimento de Fátima que as autoridades eclesiásticas promoviam… (este fato está descrito no capítulo 8, página 115 do livro ‘O derradeiro combate do demônio’).

    Não dá para levar à sério qualquer atitude das autoridades modernistas. Não se pode confiar neles. Os bispos modernistas querem destruir a Tradição. O estado de necessidade é evidente demais para que se possa negá-lo. Somente um legalismo suicida ousaria criticar a atitude de Dom Lefebvre.

    PS: Primeiro você disse que acredita não ter havido cisma por parte da FSSPX e depois disse que a Montfort acerta no alvo. Mas a Montfort acusa a FSSPX de cisma. Não entendi sua posição.

  15. Márcio disse:

    Sobre as citações:

    São Jerônimo, ao definir o cisma, fala de rebelião contra o bispo. Santo Agostinho fala de iníquas dissensões.

    Ora, defender o patrimônio da Tradição contra autoridades modernistas não é nem rebelião nem dissensão iníqua.

  16. Br. Pius V disse:

    “PS: Primeiro você disse que acredita não ter havido cisma por parte da FSSPX e depois disse que a Montfort acerta no alvo. Mas a Montfort acusa a FSSPX de cisma. Não entendi sua posição.”

  17. Alan Ramalho disse:

    Amigos, Salve Maria!

    Creio que muito tenho aprendido com a Montfort e é um prazer estar conhecendo este blog (Graças a Deus!)… e só consigo pensar no porquê ainda não escreveram pro blog da Montfort tentando fazê-los perceber o erro em que estão se metendo. E que é por caridade que deveriam rever essa questão contra a FSSPX.
    De fato, independente de serem orgulhosos ou maus ouvintes, as pessoas deveriam SIM estar lotando aquele blog de perguntas, comentários, fazendo enxergar o que vocês já enxergam.
    Não pensem que seria perda de tempo. Isso certamente enriqueceria ainda mais a luta pela verdade. Existem pessoas sedentas de unidade, de única verdade.
    Também seria por caridade que estariam fazendo isso.
    Ora, um irmão quer o bem de outro irmão. E não se deve acreditar que tal atitude seria em vão.
    Se a verdade é tão valiosa, deve-se lutar por ela.
    Eu ainda tenho muito a aprender… e me regozijo com a sabedoria, capacidade analítica e disposição de vocês, do pessoal da Montfort, do Reconquistabr. Procurar estabelecer uma comunhão de potências como vocês só engrandeceria a Santa Igreja.
    Não sei se vou ser levado em consideração. Amo muito a Santa Fé e humildemente reconheço que entender toda essa história da FSSPX, a posição da Montfort e outras questões, infelizmente, ainda é um tanto dificultoso pra mim..
    Mas quero entender e tenho certeza que outros também querem… e seria importantíssimo essa conversa entre já estar sendo namorada.
    Quero parabenizar pelo trabalho e que Deus nos ilumine sempre.
    Fica meu apelo.

    E minhas orações.
    Alan Ramalho

  18. Márcio disse:

    Caro Alan, Salve Maria!

    Seja bem-vindo, e obrigado pela visita e pelo apoio. Os sites indicados ao lado direito também possuem muito material interessante e vale a pena visitá-los.

    Eu também aprendi muito com o site da Montfort, mas infelizmente eles têm tomado uma direção muito perigosa. O cúmulo foi o que fizeram na semana passada.

    Todos queremos o fim da crise, e a boa convivência, mas a questão não é tão simples. A Montfort insiste no parecer dado pelo seu fundador, o finado professor Orlando, sobre os tribunais da FSSPX. A última palavra dada na discussão foi o artigo do padre Joël Danjou, que ainda não foi respondido. Se o pessoal da Montfort lesse o artigo sem idéias pré-concebidas, poderiam ver que a FSSPX está com a razão e o caminho estaria aberto para um entendimento. Porém, enquanto eles se mantiverem endurecidos na posição que assumiram, seria difícil qualquer entendimento. O que não deixa de ser um prejuízo para a causa católica.

    ADMG,

    Márcio

  19. Ricardo disse:

    Caro Márcio,

    Venho aqui por meio deste espaço também manifestar meu repúdio às acusações e intrigas do site Montfort contra a FSSPX. É lamentável que uma dita associação católica esteja mais preocupada com suas polêmicas difamatórias(que entendem como “tradição da Igreja”) do que com a verdade.

    Deu-me vontade até de “ressuscitar” o meu blogue para escrever um artigo contra eles. Que lástima!

    Pude observar um comentário em uma postagem anterior que questionava se a “senhora de um grupo de São Paulo” que acusou o Sidney Silveira do blogue Contra Impugnantes de articular a saída do Padre Holtz para a FSSPX, era ligada a Montfort. Posso dizer com segurança que sim, essa senhora é a Lúcia Zucchi, esposa do atual Presidente da Montfort.

    Um abraço Márcio,

    ps: peço orações a você e a todos os leitores de bom coração do blogue.

  20. AJBF disse:

    1-) A Montfort acerta no alvo, porque acusa a Fraternidade de Cisma, mas não acerta em MODULAR essa acusação. Eles acreditam que um ato objetivo de Cisma é, por si mesmo, prova da disposição subjetiva rebelde à autoridade para realizar o PECADO e o CRIME CANÔNICO de Cisma.

    Este é o erro da Montfort. E é nesse erro de não compreender essa distinção, tão sutil quanto seja, que eles ficam patinando desde a morte do Ofídio Cambucínico, e criando desnecessárias distensões (que por sinal Jerônimo e Agostinho muito bem classificaram como… cisma! Ou seja: os próprios acusadores estão em vias de concretizar o próprio crime acusado, e não percebem o que estão fazendo!?).

    2-) Tanto Gruner como Lefebvre não apresentam nem apresentaram um desejo de cometer cisma, creio. Não obstante isso, o estado de necessidade proposto por Lefebvre deve ser ponderado juntamente com os seus atos de insubordinação “de facto”. Sabendo que a autorização para se ordenar um bispo conforme sua própria indicação já havia saído por parte de Roma, e dado que fariam isso dentro de circunstâncias legítimas e válidas, dentro dos parâmetros propostos pelo próprio Mons. Lefebvre, a atitude dele de ordenar 4 bispos no lugar de um (e tendo em mente que nas negociações com Roma, sequer tinha-se colocado uma proposta de ordenar 4 bispos!) é francamente desafiadora.

    Tal insubmissão não se justifica pelo caso de necessidade, dado que JÁ ESTAVA AUTORIZADA a ordenação episcopal válida e lícita*. A insubordinação factual de Mons. Lefebvre, por bons efeitos que teve para a integridade e multiplicação da Fraternidade, ainda sim não pode ser justificada sob a édige do Estado de Necessidade. Pois O SACERDÓCIO CATÓLICO NÃO ESTAVA* EM PERIGO, nem a substância da organização da Fraternidade.

    3-) Dissenções iníquas e rebelião não se dão apenas em palavras, mas também em atos. O fato de Mons. Lefebvre e da FSSPX assumirem-se como guardiães da Tradição Católica ADMITINDO UMA AUTORIDADE SUPERIOR EM MATÉRIA DE FÉ e não se subordinando factualmente a ela é, sem sombra de dúvida, um ato objetivamente cismático.

    A questão é que as ordenações episcopais dos quatro bispos foram um ato objetivamente cismático, mas subjetivamente, putativamente, tal evento pode ter se apresentado como absolutamente necessário na mente dos sagrantes. Daí eu não considerar a Fraternidade como culpada de Cisma (falta o elemento fundamental).

    Mas que, sinceramente, compreendo que o estado de necessidade foi alargado nesse caso das sagrações, mesmo fazendo um esforço para estar dentro das disposições subjetivas de um integrante da SSPX, isso é um fato. A mim, tal ato só se justificaria com a declaração da sé vacante (coisa, aliás, que muitos tradicionalistas pensaram que aconteceria quando Lefebvre e Mayer fizesse as sagrações; na ocasião, aliás, Mayer, perguntado por um repórter europeu sobre o que ele achava da excomunhão levantada contra ele por JPII, disse: “Não tem valor nenhum a excomunhão de quem está excomungado!”).

    Espero que com isso que fique um pouco mais claro meu parecer sobre essas infelizes – porém necessárias – distensões. Presumamos a bondade de nossos interlocutores até, no mínimo, adquirirmos certeza moral em contrário.

    A propósito, o link do texto de Fr. Barbara parece não funcionar, então envio novamente:

    http://www.essan.org/Thuc%20Consecrations/Thuc/Thuc%20Archbishop/barbara2.html

    * Conforme a compreensão do “mainstream” da FSSPX, e não a minha. Eu discordo das questões nas quais coloquei o asterisco.

  21. AJBF disse:

    Se ainda sim o link não funcionar, experimentem procurar o seguinte texto:

    “EPISCOPAL CONSECRATIONS WITHOUT PAPAL MANDATE & THE EPISCOPAL CONSECRATIONS CONFERRED BY HIS EXCELLENCY ARCHBISHOP PETER-MARTIN NGO DINH THUC” (1993) – Father Noel BARBARA (Revista ‘Fortes in Fide’ nº12)

  22. AJBF disse:

    Que me perdoe o Márcio, mas porque algumas pessoas me procuraram e disseram que o link não está funcionando, resolvi deixar outra fonte desse mesmo artigo que citei antes. Quem quiser, poderá baixá-lo no seguinte link:

    http://www.the-pope.com/fif3-12.zip

  23. Márcio disse:

    Caro Ricardo, obrigado por confirmar a informação.

    Estará em nossas orações.

    AMDG,

    Márcio

  24. Márcio disse:

    Aruan, a contradição permanece. Primeiro você disse que acredita não ter havido cisma:

    “Embora eu acredite que não houve cisma por parte da FSSPX, acho que isso só não se deu em razão de questões subjetivas, putativas.”

    Depois você diz que a Montfort acerta ao acusar a FSSPX de cisma:

    “1-) A Montfort acerta no alvo, porque acusa a Fraternidade de Cisma, mas não acerta em MODULAR essa acusação. Eles acreditam que um ato objetivo de Cisma é, por si mesmo, prova da disposição subjetiva rebelde à autoridade para realizar o PECADO e o CRIME CANÔNICO de Cisma.”

    Eu entendi que você disse que não houve cisma por questões subjetivas (embora eu enxergue com clareza a questão objetiva do estado de necessidade). Mas, se não houve cisma por qualquer motivo que seja, então a Montfort errou.

    Depois eu desenvolvo melhor a questão. Amanhã não poderei acessar o blog.

  25. Márcio disse:

    Estava esquecendo de dizer que, embora eu discorde radicalmente do Prof. Orlando, não vejo motivo para insultá-lo como “Ofídio Cambucínico”. Não posso deixar de condenar a confusão que ele criou com seu “julgamento” da FSSPX, mas também não esqueço do bem que fez particularmente.

  26. AJBF disse:

    Respondendo…

    Como eu já disse: creio que seja justo acusar a Fraternidade de ter atitudes objetivamente cismáticas, mas disso não decorre que eles estejam em cisma. Quando eu me referi ao “acerto” da Montfort, evidentemente esse acerto devia ter em consideração aquilo que eu já havia dito antes, ou seja, daquilo que eu considero justo pode acusar – ato objetivamente cismático.

    Então, ao dizer que “A Montfort acerta no alvo, porque acusa a Fraternidade de Cisma, mas não acerta em MODULAR essa acusação”, era exatamente isso que eu tinha em mente, ou seja, modular a acusação dos atos objetivos conforme a disposição subjetiva – coisa que aniquilaria o Cisma num sentido próprio de pecado e crime canônico, e que só admitiríamos o termo Cisma num sentido sociológico do termo (dado que nesse sentido, inegavelmente, houve uma separação clara – se não da SSPX com Roma, pelo menos de Roma com a SSPX).

    Em suma: pode-se acusar a SSPX de ato objetivamente cismático. Mas inferir daí que há um pecado/crime canônico de cisma consumado é um erro – isso foi o que eu quis dizer, em última instância.

    Esperando que as dúvidas estejam esclarecidas, despeço-me.

    PS: Ofídio Cambucínico era um apelido engraçadinho de Orlando Fedeli que seu antigo vizinho de quarto dos idos tempos de ‘irmão’ da TFP me ensinou – coisa não muito diferente do que o próprio Fedeli se permitia em privado contra muitas autoridades da Igreja e até mesmo contra Padre Pio de Pieltrecina.

    Entenda o apelido apenas uma brincadeira, sem hardfeelings. Porque, senão, serei obrigado também a discordar do comentário jocoso de nosso colega, Br.Pius V – coisa que não estou disposto a fazer senão a contragosto; afinal, gostei da imagem!!

  27. AJBF disse:

    PS2: Para mais informações que correspondem quase que integralmente aos meus pareceres sobre a questão do “cisma”, vide: http://aciesordinata.wordpress.com/2009/05/10/textos-essenciais-em-traducao-inedita-iv/

  28. Br. Pius V disse:

    Os sedevacantistas nada mais são do que o outro lado da moeda dos católicos liberais/conservadores, infelizmente.

    Tomam qualquer palavra do Papa, ou até mesmo de pessoas sem nenhum crédito, i.e Peter J. Vere(!), que saiem do anonimato de suas seitas protestantes (e depois da SSPX, aonde, como leigos, não poderiam avançar adiante com suas agendas) para virarem “pop star” no púlpito neo-conservador e do canal não menos neo-conservador americano (EWTN), com venda de livrecos do naipe de “More Catholic than the Pope”… Ts!

    Antes de citarem esses queridinhos da EWTN (Peter Vere, Patrick Madrid, Marcus Grodi, etc.), deveriam ler “EWTN A Network Gone Wrong”. Talvez, assim, pensariam duas vezes antes de usarem-os como grande referência, especialmente no campo de direito canônico.

    E outra, que deixe-se de lado, então, a lei do escancarado “estado de necessidade”!!! Ainda assim o Arcebispo não estaria, segundo o novo CDC (1323 §4), sujeito a pena. Basta ele ter “pensado” existir tal necessidade, ainda que por sua própria culpa. (1323, 7* -1324,§3; §1 8*)

    Outra mais, nenhuma pena de excomunhão pode jamais ser aplicada sem que se cometa um pecado mortal subjetivo (1321 §1, 1323 7*). E todos sabem que o Arcebispo declarou e agiu de acordo com sua consciência para continuar com as ordenações católicas, obedecendo assim á Deus e indo em frente com as consagrações. Logo, ainda que ele estivesse errado, não haveria o pecado subjetivo.

    E o mais importante, a lei positiva está á serviço da lei eterna e natural; a lei eclesiástica está á serviço da lei divina. Nenhuma “autoridade” pode forçar um bispo a comprometer a Fé Católica ou a administração dos sacramentos em seus ensinos. Nenhuma “lei” pode forcá-lo a cooperar na destruição da Igreja.

    Sem Roma dar garantias de que a tradição Católica seria preservada, Arcebispo Lefebvre teve que usar seus poderes episcopais dados por Deus para garantir tal preservação, era seu dever como Bispo.

    Deo Gratias por isso!!!

  29. Br. Pius V disse:

    *saem do anonimato

  30. Márcio disse:

    Se o apelido era aceito pelo prof. então tudo bem.

  31. Márcio disse:

    Br. Pius V, Salve Maria!

    Ótimas colocacões. Salus animarum lex suprema est – a salvação das almas é a lei suprema. As quase duas décadas de perseguições à FSSPX, os adiamentos das consagrações, a imposição do CV II, etc, fizeram Mons. Lefebvre recear o pior de um acordo. A triste história dos acordistas demonstram a sabedoria do Arcebispo.

    Podemos ler um histórico muito bom destas discussões no trabalho de Dom Lourenço Fleichman sobre as disussões entre a FSSPX e o Vaticano:

    HISTÓRICO – TRADIÇÃO VERSUS VATICANO (links ao final da página abaixo indicada):

    http://www.capela.org.br/indicecrise.htm

    AMDG,

    Márcio

  32. AJBF disse:

    “Os sedevacantistas nada mais são do que o outro lado da moeda dos católicos liberais/conservadores, infelizmente.” = Mito muito bem propagado, primeiramente, por Abbé de Nantes (que, aliás, aplicava-o aos senhores tradicionalistas sedeplenistas também…), depois por Richard Williamson (em pelo menos duas cartas aos colaboradores do seminário da FSSPX nos EUA e um artigo público), e depois virou mantra da Montfort e suas viúvas (vide aquela imagem ridícula de uma pessoa de duas caras), aplicada tanto aos modernistas como aos sedevacantistas, ecoando até hoje nos corações e mentes dos que infelizmente… ignoram a realidade concreta da Igreja Católica.

    Em primeiríssimo lugar: eu não sei se o sr. ‘Br. Pius V’ percebeu, mas eu disse praticamente a mesma coisa que ele, porém sem a escancarada parcialidade com relação à FSSPX. Modos distintos, mas conteúdo quase idêntico. Nossa divergência se dá quanto ao fato da justificação ou não do referido “estado de necessidade”, uma instituição admitida pelo próprio direito canônico – em todo resto, no que se refere ao assunto comentado, somos concordes.

    Em segundo lugar, eu não disse que concordava inteiramente com o canonista (ele tem, teoricamente, mais background do que nós dois juntos para tratar desse tema) Peter Vere. Eu coloquei o texto dele para apreciação de terceiros, porque sei que seria de bastante utilidade conhecer a visão dos que enxergam os fatos doutro modo, e não somente conforme a visão dos que incensam tudo que parte de Écône. Pois se todos se dizem católicos, todos dizem guardar a fé e todos pretendem defender a verdadeira tradição católica… em qual deles crer? Nada mais justo – durante um escrutínio analítico visando peneirar o que é mau e agregar o que é bom – do que termos a oportunidade de conhecer todos os lados da controvérsia.

    Eu mesmo não acredito que as excomunhões foram válidas. Como eu disse antes: “Tanto Gruner como Lefebvre não apresentam nem apresentaram um desejo de cometer cisma, creio”.

    Mas porque creio nisso?

    Primeiramente, dado que compartilho da verdade contida na afirmação de Mons. de Castro Mayer: “Não pode me excomungar quem já está excomungado”. Ou seja: a “autoridade” que excomungou Lefebvre/Mayer tanto podia fazê-lo como pode um coelho mudar a órbita de Júpiter – de nenhum modo.

    Em segundo lugar porque considero que Mons. Lefebvre agia sob pressão, subjetivamente notando a necessidade de seguir em frente com tais sagrações como algo inadiável para a manutenção do seu front de resistência. Esse estado de necessidade, porém, não se justifica (objetivamente) para alguém que ainda – consciente, insistente e reiteradamente – se submete à autoridade superior daquela pessoa a quem você está desobedecendo positivamente no próprio ato dito “legitimado por estado de necessidade”.

    Aliás, aproveitando que estamos falando já do estado de necessidade e sua justificação canônica, me permitam uma digressão rápida: todas as citações do CIC 1983 que fizeram possuem brechas para argüição contrária (vide, para não multiplicarmos desnecessariamente as referências, o próprio Peter J. Vere nesse artigo: http://www.catholicculture.org/culture/library/view.cfm?recnum=1220), mas não vou entrar no mérito dessa questão agora, pois, a mim, basta reiterar o que eu já tenho dito: não houve nem o pecado nem o crime canônico de cisma, muito embora o ato fosse objetivamente (se preferir um termo mais técnico, “materialmente”) cismático, dado não ter existido íntegra disposição subjetiva de rebeldia. Ou seja: em última instância, não me interessa tanto se você acha que houve ou não estado de necessidade – o fato que é nem Lefebvre/Mayer e nem a FSSPX podem ser considerados como formalmente cismáticos.

    Mas agora, mudando um pouco de assunto sem deixar de lado a leveza: é, realmente, muita pretensão de alguém (ou de algum grupo) se arrogar guardião da Tradição Católica e ao mesmo tempo estar afastado da submissão habitual à maior autoridade ‘teândrica’ da Igreja Militante, ou seja, o Papa. No mínimo, essa posição é exótica e sem quaisquer precedentes históricos (nem mesmo razoavelmente análogos). E falo isso com bastante segurança: todos os exemplos históricos de insubordinação de inferiores contra superiores que podem que serem lembrados são restritos à circunstâncias pontuais certamente inaplicáveis aos fatos hodiernos, ineficazes na finalidade para a qual tais exemplos são aduzidos pelos tradicionalistas sedeplenistas. Vocês – se quiserem, é claro – poderiam citar aqui toda aquela miríade de exemplos de insubordinação histórica: em minutos eu refutaria todos e mostraria porque não são passíveis de serem considerados como transponíveis ao peculiar relacionamento da FSSPX com Roma.

    Você acerta, caro Br.Pius V, quando diz que a lei eclesiástica está submissa à lei divina. Mas erra ao considerar que um ato de insubordinação do gênero daquele que Marcel Lefebvre/Castro Mayer cometeram não é uma perturbação a uma lei divina: a da subordinação hierárquica. O problema não é nem o da excomunhão ou não-excomunhão, é do erro subjetivo da parte de Lefebvre/Mayer na consideração da gravidade do presumido estado de necessidade (e também numa aplicação inadequada do princípio da equidade/”epikeia”). Claro, digo isso tendo em mente as circunstâncias limitadoras do (presumido) estado de necessidade, mesmo sabendo que vocês ainda acreditam este justificar-se inteiramente.

    Márcio, caberia a sugestão de se estudar um pouco melhor melhor o “estado de necessidade” alegado, talvez num artigo futuro, não acha?

    Fraternalmente,
    Em JMJ,

    Aruan J.B. de Freitas

  33. Márcio disse:

    Posso até apresentar melhor o estado de necessidade, apesar de ser ele extremamente óbvio.

    Dom Marcel não cometeu nenhum erro subjetivo. O que aconteceu com todos os acordistas demonstra de forma irrefutável que a FSSPX fez muito bem em não assinar um acordo prático.

    Sobre o canonista, ele teria mais condições de avaliar a situação se não estivesse sob a parcialidade neo-con. Aliás, outros canonistas muitíssimo mais conceituados isentam a FSSPX de qualquer cisma (vide o artigo de Dom Lourenço Fleichman, citado em outro comentário meu).

    Muito pretensioso da sua parte refutar em alguns minutos todas as citações de insubordinação no passado. Ora, devemos resistir à autoridade iníqua na medida em que ela se afasta da Verdade. Se, no passado, os devios da autoridade eram menores, e mesmo pontuais, a resistência deveria ser menor. Se hoje vivemos uma apostasia sem precedentes, a resistência é maior e mesmo continuada. Mas não deixa de ser uma resistência à autoridade iníqua, na medida do que as circunstâncias exigem.

  34. AJBF disse:

    Certamente, caro Márcio, eu não chamaria de “resistência menor” a condenação à excomunhão post mortem de um papa como herege confirmada por três concílios ecumênicos.

    Não posso ver senão com um sorriso no rosto a sua consideração crítica ao sr. Peter Vere: quer dizer então que um neo-con está sob o viés da desconfiança pelo mero fato de ser neo-con? No mínimo, da sua parte, esse comportamento é exagerado e mostra a seu partidarismo tipo “X disse; X não é do meu grupo, logo, provavelmente X está errado”.

    Se todos pensarem assim, nunca ninguém abrir-se-á aos fatos: só vão prestar atenção nas “versões” de um ou de outro. Será a morte da análise objetiva, mas o advento de uma “frutuosa” era sectária!

    É irrelevante dizer que a FSSPX não está em cisma, pois eu mesmo já disse isso e a própria Roma hodierna o admite. É irrelevante, também, dizer que Lefebvre não cometeu um ato cismático, pois igualmente admito isso.

    O verdadeiro problema é que boa parte dos mesmos canonistas que consideraram a FSSPX como não sendo uma entidade cismática consideram, ao mesmo tempo, que o ato de Lefebvre/Mayer foi sim um ato cismático. Há distinção muito clara entre os bispos sagrantes, entre os 4 bispos que ali foram sagrados (cuja disposição e comportamento posterior permitiu o levantamento* das excomunhões*) e a entidade jurídica que é a FSSPX. A acusação de Cisma recaiu apenas sobre seis pessoas, mas não sobre a FSSPX.

    E é por isso que citei o de Peter Vere, que procura refutar exatamente a utilização dos cânones 1323 e 1324, fundamentos da apelação canônica feita por Mons. Lefebvre contra a sentença* de excomunhão*.

    Creio que é de fundamental importância dar visibilidade a essas visões distintas sobre o mesmo fato, a fim de que as pessoas tenham como julgar qual delas é a mais procedente com a realidade dos fatos. Por ser uma disputa contemporânea candente, das mais interessantes, escutar os dois lados é fundamental.

    De fato, é pretensioso se você entender isso com exatidão lógica. Mas, considerando aquilo que eu disse apenas como um excesso retórico, a pretensão é modulada, sendo compreendida em sua devida extensão.

    Ainda pode parecer igualmente pretensioso o que vou falar agora mas… depois de ler muitos artigos sobre esse tema (de quase todos os periódicos relevantes – tanto da Fraternidade quanto de outros grupos, sejam eles neo-conservadores, sedevacantistas ou mesmo filo-modernistas), ainda sim não pude deixar de considerar que nenhum dos exemplos por mim conhecidos podem ser interpretados de forma favorável à insubordinação habitual que a FSSPX possui com a Roma hodierna.

    A FSSPX é cismática? Não, não é – todos admitimos isso (por motivos distintos, talvez). Mas os atos dos seus líderes, atos esses considerados em si mesmos, seriam tidos por cismáticos. É por isso que arrisco uma hipótese audaz, mas somente para o caso de eu não ler refutação suficientemente sólida contra a análise de Peter J. Vere: não seria, então, a hora de se pensar se o que vos salva do Cisma já são mais as circunstâncias do que as justificativas racionais?

    Fica aí a sugestão: refutem o texto do peão neo-con!

    Fraternalmente,
    Em JMJ,
    AJBF

    * A utilização de tais termos não corresponde com a minha compreensão efetiva de como tais realidades descritas são/se dão.

  35. Márcio disse:

    Aruan, eu não disse que não iria ler o artigo do Peter Vere só porque ele é neo-con. Mas que os neo-cons são, eles sim, extremamente parciais, isto não há dúvidas. Além do mais, o estado de necessidade é óbvio demais para alguém negá-lo. Somente com uma cegueira voluntária alguém poderia exigir outra solução diferente daquela que Dom Lefevre executou. De qualquer forma, li por cima o texto do neo-con, e creio que ele já está refutado pelo trabalho de Dom Lourenço cujo link eu deixei acima. Mais tarde – isto não é uma prioridade para mim – posso estender-me sobre o assunto.

    Sobre a desobediência e o cisma, vale repetir algumas citações do trabalho mencionado:

    “Não basta uma desobediência, por mais obstinada que seja, para constituir um cisma; é necessário, além disso, uma revolta contra a função do Papa e da Igreja” (Cardeal Charles Journet, teólogo suiço, amigo de Paulo VI, L’Eglise du Verbe Incarné)

    “O ato de consagrar um bispo, sem autorização do Papa, não é, de si, um ato cismático” (logo não pode ser punido com excomunhão) (Cardeal Castillo Lara, presidente da Pontifícia Comissão para a Autêntica Interpretação do Código. In La Republica, 7/10/1988)

    “Os teólogos medievais, pelo menos os dos séculos XIV, XV e XVI, tiveram o cuidado de notar que o cisma é uma separação ilegítima da unidade da Igreja, pois, dizem eles, poderia haver uma separação legítima, como, por exemplo, se alguém recusasse a obediência ao Papa que ordenasse uma coisa má ou indevida” (Torquemada, Summa De Ecclesia, citado em DTC, col.1302)

    http://www.capela.org.br/Crise/protocolo3.htm

  36. AJBF disse:

    Peter Vere admite que Lefebvre foi excomungado* por DOIS motivos, não por um só. Um deles é o ato de ter sagrado um bispo – mas não é por ter sagrado um bispo sem mandato apostólico que ele teria entrado em cisma*, senão pelo fato de que insubordinou-se conscientemente, pertinazmente e com pleno aviso canônico emitido pelas autoridades competentes*.

    Pelo que eu pude ver do artigo postado sobre as sagrações episcopais, a tese levantada esbarra na ordem jurídica* da Igreja e – mesmo apelando para o estado de necessidade – não se resolve quando defrontada pelo CIC de 1983*.

    O ato cismático* não teria sido a ordenação episcopal sem mandato apostólico em si, mas antes a insubordinação consciente, livre e propriamente entendida, por meio da rejeição autônoma de Lefebvre a obedecer a ordem dos seus superiores*.

    Enfim, no ato em questão não se pode dizer que Roma estivesse em 100% de má vontade. Supondo que Lefebvre esperasse até 15 de agosto e AÍ as sagrações episcopais não acontecessem (conforme a promessa de Roma), o ato dele seria bem mais justificável.

    Enfim, boa parte dos tradicionalistas acredita que já houve o levantamento* “discreto” das excomunhões* de Lefebvre e de Mayer no próprio decreto* de levantamento* das excomunhões* dos 4 bispos da FSSPX.

    Discorrer sobre a natureza desse ato é importante, mas acho que a mim já basta por enquanto. Dado que não vi refutações do texto de Vere ainda, vou considerá-lo com mais atenção quando no futuro eu voltar a estudar essa controvérsia.

    Fraternalmente,
    Em JMJ,
    AJBF

  37. O momento é propício – embora pareça o contrário – para um bom relacionamento mútuo entre FSSPX e Montfort…De vez em quando eu paro de procurar culpados. É quando tomo um cafezinho na casa de quem discutiu comigo!

  38. Márcio disse:

    Prezado e Reverendo Pe. Marcelo, Salve Maria!

    O relacionamento deveria ser bom entre todos os católicos que amam sua Igreja. Infelizmente, alguns colocam uma causa particular acima da causa comum católica. E este é o caso da Montfort, que não desiste da idéia errado do Prof. Orlando sobre a FSSPX.

    Depois de todo o mal exemplo que eles deram, não há como tomar um cafezinho antes de, pelo menos, um pedido público de desculpas, uma retificação de intenções e a volta ao bom combate da Tradição contra os progressistas.

    Invocando sua benção,

    AMDG,

    Márcio

  39. Mateus G. M. F. Tibúrcio disse:

    Prezado Márcio,

    Salve Maria

    Qual a sua opinião sobre a restauração da Casa de Bragança no Brasil? Eu li este excelente artigo do Tradição em Foco:

    http://www.tradicaoemfoco.com/2011/05/proposito-da-politica-contemporanea-nem.html#more

    E também vi textos do Prof. Fedeli em que ele tratava sobre D. Bertrand et caterva. Merece isto credibilidade?
    Sobre a morte de D. Pedro Luiz, será que isto, em conformidade com a Maldição de Bragança, não seria um sinal do retorno?
    Qual a sua opinião sobre Jacques Bossuet? Eu já pedi ajuda a todos os entendidos e nada.

    Dominus Tecum

    Mateus G. M. F. Tibúrcio

  40. Márcio disse:

    Caro Mateus, Salve Maria!

    Obrigado pela indicação do texto.

    Sem dúvida que a maçonaria teve muita influência sobre os imperadores brasileiros, que eram liberais. Dizem que Dom Pedro I era maçom. No segundo reinado tivemos como péssimo exemplo do comportamento do governo na questão do bispo Dom Vital. Enfim, a casa de Bragança não é o ideal da monarquia católica.

    Sobre as opiniões do Prof. Orlando, elas tem bastante influência da sua aversão à TFP. Mas se o seu testemunho estiver correto, é outro ponto forte contra a dinastia brasileira, que estaria fortemente influenciada por uma doutrina gnóstica.

    Eu apóio sim a monarquia. A casa de Bragança também? Não com toda convicção, mas apenas como solução melhor que a demo(nio)cracia atual. A democracia liberal é esta porcaria imunda que qualquer um pode constatar facilmente. Por isto, ainda que não seja um entusiasta da casa de Bragança, eu acredito que seria melhor que a bandalheira atual.

    Agora, é importante notar que uma restauração da monarquia não resolveria o grande problema da completa ausência de uma nobreza católica no nosso país. A elite atual não é uma elite moral e religiosa, mas tão somente rica. São dissolutos e venais. Não dariam apoio nenhum a uma legítima monarquia.

    A crise atual é muito mais religiosa do que política, e esta é a principal razão porque que este blog não trata de questões políticas. Se não resolvermos o problema religiosos grave que nos aflige desde o maldito conciliábulo do Vaticano II, de nada adiantará a militância política. Para mim, atualmente, esta somente tem o objetivo de combater o avanço da revolução.

    Sobre Bossuet, sinto não poder ajudar porque não conheço a fundo sua vida e seu pensamento.

    AMDG,

    Márcio

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