Um concílio ecumênico não pode ter erros, logo…

Um concílio ecumênico pode ter erros? Não, não pode. “Então o concílio Vaticano II não tem erros”! Esta é a “brilhante” conclusão a que chegam alguns aguerridos defensores do concílio.

Na realidade, o que eles se utilizam largamente é de uma petição de princípio. Eles tomam como verdade a seguinte afirmação: “o CV II é um concílio idêntico aos demais,  gozando da mesma autoridade que todos os outros”. A partir de então, eles desenvolvem o seguinte raciocínio:

Um concílio ecumênico não pode conter erros graves contra a Fé

o concílio Vaticano II é um concílio idêntico aos demais

Logo, o concílio Vaticano II não pode conter erros contra a Fé

A forma do raciocínio está correta. A premissa maior é verdadeira. Para a conclusão ser verdadeira, basta que a premissa menor também o seja. Mas será que isto se verifica?

À primeira vista, poderia alguém ingenuamente imaginar que sim. Mas, depois de algum estudo sério, já é impossível continuar sustentando esta afirmação. A ninguém é lícito negar as evidências. Pois bem, se encontramos erros graves contra a Fé nos textos do concílio Vaticano II, podemos ter a certeza de que, no mínimo, ele tem algo de diferente dos demais. Conhecendo seus erros, já não temos mais o direito de fingir que não há nada de mal com o concílio. Constatando que os textos do concílio contradizem os ensinamentos anteriores, já não podemos colocar a culpa em um posterior abuso de interpretação. E, que o concílio possui erros em seus textos, isto já ficou provado por diversos trabalhos como, por exemplo, a sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II.

A partir desta constatação, somos obrigados a raciocinar de outra forma:

Um concílio ecumênico não pode conter erros graves contra a Fé

O concílio Vaticano II contém erros graves contra a Fé

Logo, o concílio Vaticano II não pode ser um concílio ecumênico idêntico aos demais

A fim de não alongar demais e perder o foco, não vou entrar, neste artigo, na discussão sobre a validade do Vaticano II, nem sobre a utilidade de ser ele completamente anulado. Deixemos estes pontos para futura discussão. Vamos nos limitar, por enquanto, apenas ao que há de mais evidente: por conter erros graves contra a Fé, o concílio Vaticano II não pode, de forma alguma, ser considerado igual aos demais, nem tem a mesma autoridade que eles. Esta é a conclusão a que ninguém, depois de ter lido os textos do Vaticano II e os comparado com a doutrina católica, pode se furtar.

Estudemos uma situação do mundo natural para com ela fazermos uma comparação. Sabemos que o isopor flutua na água. Se lançamos algo que parece um pedaço de isopor na água e ele afunda, podemos ter certeza absoluta de que não se trata apenas de isopor. Algum material de elevada densidade, com certeza, está presente dentro daquilo que lançamos na água e que, visualmente, aparentava ser apenas isopor. Ninguém, em sã consciência, continuaria a afirmar que se trata apenas de isopor o material que não flutuou.

De forma análoga, o Vaticano II tem todas as aparências de um concílio ecumênico como os demais. Mas, desde que constatamos que muitos de seus textos estão em frontal discordância com o ensinamento anterior da Igreja, já não nos é lícito querer impor ao católico a mesma obediência ao Vaticano II que se deve aos demais concílios ecumênicos. Do mesmo modo que um objeto que afunda na água não pode ser feito de puro isopor, um concílio que contém erros em seus textos não pode ser igual aos demais, não pode gozar da mesma autoridade que os outros. Ele é, na melhor das hipóteses, um concílio com autoridade menor que a dos demais.

O grande problema é que, ao contrário da experiência do material que afundava na água, aqui as paixões se levantam contra a razão. Todos os que, de uma forma ou de outra, se beneficiaram (aparentemente) com o concílio, hão de fazer a sua defesa apaixonada. Ou mesmo aqueles que nunca leram o concílio, mas se acham no direito de discutir o assunto como sábios, não fazem outra coisa senão sustentar um raciocínio falso, baseado em uma petição de princípio.

No caso do fiel que nunca leu as críticas ao concílio, é muito natural que o aceite, pois a boa índole do católico lhe conduz sempre à obediência sadia àquilo que a Santa Madre Igreja lhe apresenta. Pode estar no erro ao seguir as determinações do Vaticano II, mas estará de boa fé, sem malícia nem culpa própria, porque ainda não lhe foi dada a oportunidade de conhecer os seus erros.

Muito diferente é o caso daquele que já leu as críticas ao concílio e ainda assim age como se não houvesse erros no mesmo. Tão frontais são as contradições entre o concílio e o Magistério anterior, que não se pode conceber alguém que não compreenda a sua mútua incompatibilidade. Tanto que não se atrevem a entrar no mérito da questão e argumentar contra as críticas ao concílio. Com um mínimo de boa vontade em se comparar o que ficou escrito no concílio e o que a Igreja sempre ensinou, é impossível manter-se no erro de boa fé, ou seja, sem negar a verdade conhecida. Vejamos alguns exemplos.

Se a Unitatis Redintegratio diz que devemos orar com os hereges e cismáticos, e as Sagradas Escrituras, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino dizem que não devemos nos associar em oração com aqueles que estão fora da Igreja, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Orientalium Ecclesiarum permite até que católicos compartilhem sacramentos com hereges e cismáticos, enquanto que o Código de Direito Canônico e o Santo Ofício o proíbem, exceto em casos graves e urgentes, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Sacrossanctum Concilium diz que devemos fazer “experiências” com a liturgia, enquanto que os papas anteriores impediam qualquer mudança sem sua prévia autorização, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Gaudium et Spes ensina que se deve trabalhar para alcançar uma fraternidade universal, algo completamente liberal, utópico, equanto que a Igreja sempre ensinou que existem dois campos inimigos, tão bem explicado por Santo Agostinho em suas duas cidades, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se vários documentos do concílio ensinam a salvação universal do gênero humano, enquanto que toda a doutrina católica sempre ensinou que existem homens que se salvam e homens que se perdem eternamente, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Todos estes exemplos, e muitíssimos outros, são evidentes demais para que alguém, de boa fé, possa negar a ruptura com tudo o que a Igreja sempre ensinou até então.

Assim, o combate em defesa do concílio Vaticano II se torna muito mais objeto de paixão do que de razão. Os seus fanáticos defensores não entram no mérito da questão.  E nunca vão fazer isto, pois é derrota certa. Não dão resposta alguma às críticas católicas contra os erros do concílio. O mais comum é que chamem para seu lado a “autoridade”. Somente não diferenciam os altos cargos no Vaticano daqueles que defendem o concílio e a Autoridade divina da Igreja, que o papa e os bispos podem exercer (podem exercer, mas não necessariamente exercem a todo momento). Qualquer opinião de qualquer prelado da Igreja passa a ser “autoridade” à qual se deve obedecer cegamente, por mais absurda que seja.

Outra evidência clara de que os defensores do concílio se apóiam muito mais em suas paixões do que na razão são as suas constantes ofensas contra os católicos tradicionais. Na incapacidade de argumentar contra as  evidentes contradições entre o concílio e a doutrina de sempre da Igreja, o caminho que os conciliares seguem é o de acusar os católicos tradicionais de desobediência, insubordinação ou até mesmo cisma. Em alguns casos o nível dos defensores do concílio, até dos mais “moderados”, ditos neo-conservadores, chegam às ofensas pessoais e às palavras nada edificantes. Alguns ultrapassam o nível da animalidade em sua furiosa guerra contra os católicos tradicionais, utilizando-se do mais baixo nível moral, dando demonstração, assim, do quanto o concílio é “eficaz” na santificação de suas almas. Todos estes argumentos ad hominem somente mostram a incapacidade de argumentar contra as evidentes rupturas do concílio com a Tradição. Tudo o que eles podem fazer é repetir, ad nauseam, a petição de princípio de que o Vaticano II é um concílio com a mesma autoridade dos demais.

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PS: este é apenas o primeiro artigo da série sobre a credibilidade do concílio Vaticano II. Com este artigo isolado não temos nenhuma pretensão de responder a todas as objeções que se possam fazer em defesa do concílio.  Muitas outras argumentações ainda serão apresentadas. Pedimos a paciência dos opositores até que cheguemos ao final da série.

Um comentário em “Um concílio ecumênico não pode ter erros, logo…

  1. […] A segunda afirmação é verdadeira, como já dissemos acima. A primeira, no entanto, é falsa e fruto da idéia pré-concebida a respeito do Vaticano II. Toma-se… […]

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