É necessário haver liberdade de discussão em um concílio ecumênico?

É necessário haver liberdade de discussão em um concílio ecumênico? Quero com isso dizer: seria legítimo um concílio que negasse a um determinado grupo de bispos legítimos tomar parte nas discussões deste concílio?

Se um determinado grupo de bispos fosse proibido de participar de um concílio, certamente ele não seria ecumênico. E se em algum concílio, para o qual tenham sido convocados todos os bispos do mundo, passasse a ocorrer o silenciamento de um grupo de bispos, que não sejam hereges, continuaria ele sendo legítimo?

Já tivemos a oportunidade de levantar o tema do silêncio a que foram reduzidos os bispos que defendiam a doutrina tradicional da Igreja durante o Vaticano II, e o fizemos em comparação com as extensas discussões do Vaticano I. E, na oportunidade, chamamos a atenção para o fato de que o concílio que propôs com tanta veemência o diálogo, foi exatamente o mesmo que se mostrou autoritário ao extremo, silenciando os bons bispos católicos que se viam, pelas absurdas regras do concílio, impedidos de fazer a refutação aos textos apresentados pelos modernistas, que detinham a presidência do concílio.

Concluímos, então, que não é possível comparar o Vaticano Segundo ao Vaticano Primeiro quanto à liberdade de discussão. A que se pareceria melhor, então, o Vaticano II?

Estudando a história da Igreja, sabemos que o papa São Leão Magno, escreveu uma epístola dogmática onde condenava a heresia do monofisitismo. A reação dos hereges foi convencer o imperador a convocar um concílio, que se pretendia ecumênico, a ser celebrado na cidade de Éfeso, no ano de 449. O papa enviou seus legados. Tínhamos tudo para ser mais um concílio ecumênico. No entanto, leiamos de duas fontes distintas o que se passou naquela ocasião:

496. a. No entanto, a pedido de Êutiques e seus sectários, Teodósio II convocou um sínodo para Éfeso (449), confiando a presidência a Dióscoro, desde muito sectário do monofisitismo e rival de Flaviano. Leão I, só de mau grado, enviou os seus legados para presidirem o sínodo. Dióscoro, não querendo entregar-lhes a presidência, desde o princípio violou todas as formalidades e, apoiado por seus 200 monges que consigo trouxera, fez sentir bruscamente a Flaviano a sua vingança.
b. As cartas do papa nem sequer foram lidas. Concedeu-se a palavra a Êutiques, mas não a seus adversários. Êutiques foi, como era de prever-se, declarado ortodoxo, porque afirmava admitir as definições do niceno e do efesino. Flaviano e Eusébio foram depostos. A mesma sorte coube a outros bispos que tinham pronunciado contra Êutiques, ou passavam por nestorianos, como Teodoreto de Ciro, Ibas de Edessa e Domno de Antioquia. Dos 135 conciliares que se achavam presentes, muitos assinaram a sentença, outros foram maltratados, outros se esconderam. Flaviano, em breve, veio a falecer em conseqüência das violências que sofreu. Os legados pontifícios levantaram em protesto a sua voz; mas em vão. Só pela fuga escaparam dos tormentos. Teodósio confirmou as atas do sínodo. Mas o papa condenou a assembléia, chamando-a de “latrocínio” (Ep. 95,2). Dióscoro, por sua vez, excluiu o papa da comunhão eclesiástica.

(Frei Dagoberto Romag, OFM; Compêndio de História da Igreja; Volume I; 2a. Edição; Petrópolis; 1948; pg 214-215)

O que se passou neste sínodo foi uma contínua violência do começo ao fim. A presidência foi tomada por Dióscoro por imposição do imperador. Ao seu lado estava o fanático abade Bársumas, acompanhado de grande número de monges, que mais pareciam forças de assalto. Os delegados do imperador colocaram-se desde o princípio às ordens do presidente. Em troca, o lado oposto, que era o do Papa, chefe da Cristandade, e seus legados, não podia dizer nem uma palavra. A Teodoreto de Crito e Eusébio de Doriléia nem sequer se lhes permitiu assistir. A Flaviano se lhe tratou desde o princípio como vítima de suas iras.

Estes fatos constituem o primeiro ato do sínodo. Foi uma rebelião manifesta; mas, como não permitiram oposição nenhuma, não houve altercados nem violências. Mas então se passou para o segundo, que terminou com uma verdadeira tragédia e com sangue de matírio.

(Llorca, García, Montalban; Historia de la Iglesia Católica; Madrid; 1955; Tomo I; pg 576)

No “latrocínio” de Éfeso, como o chamara o papa Leão I, não houve oportunidade para que os legados pontifícios falassem. Foram silenciados do começo ao fim. Na segunda fase do sínodo, foi utilizada inclusive a força para impedir-lhes de defender a doutrina católica. No concílio Vaticano II os métodos foram mais sutis, mas nem por isso deixaram os hereges de alcançar seus objetivos, pois os bons bispos católicos não tinham liberdade para impugnar o que aqueles propunham para a assembléia conciliar.

Mas as coincidências entre os dois sínodos não terminam aqui. A outra, tão escandalosa como a primeira, é que a presidência de ambos concílios foi entregue aos hereges. Paulo VI, por seu liberalismo, não interveio no concílio como deveria, permitindo que os hereges modernistas o dominassem, como extensamente descreve o Pe. Ralph Wiltgen, repórter no concílio e testemunha dos fatos, em seu livro “O Reno se lança no Tibre”.

Outro ponto a destacar em nossa comparação é que, em Éfeso, as cartas do papa São Leão Magno não foram nem lidas. E, no Vaticano II, todos os esquemas preparatórios, que defendiam perfeitamente a doutrina católica, foram completamente desprezados. Anos de trabalho da cúria romana foram jogados no lixo pelos hereges que presidiam o concílio. Ambos sínodos afastaram de si previamente o que havia de católico sobre os assuntos que seriam discutidos. Ou melhor, que seriam expostos pelos hereges sem oportunidade de uma válida oposição da parte dos que guardavam a ortodoxia.

Finalmente, é notório que ambos sínodos viram o triunfo de doutrinas já condenadas pela Igreja, respectivamente, o monofisitismo e o modernismo. A diferença é que São Leão Magno logo anulou o conciliábulo de Éfeso, enquanto que Paulo VI, de formação liberal, nada condenou dos absurdos do Vaticano II. Se Paulo VI fizesse uso de sua autoridade papal como fez Leão I, jamais teríamos visto escândalos como a liberdade religiosa, o ecumenismo e a colegialidade – doutrinas já condenadas pela Igreja – nos textos do Vaticano II.

Para reforçar o que temos dito, vejamos o que escreveu um cardeal, cerca de oitenta anos antes do Vaticano II, em um livro de teologia dogmática, sobre um concílio onde não houvesse liberdade para os padres conciliares:

1020. Em terceiro lugar, é necessário, para a ecumenicidade de um concílio, que todas as deliberações sejam livres. Uma assembléia onde tudo se faça  sob a impressão do medo, onde os sufrágios são arrancados pela violência ou pela ameaça, não pode mais ser vista como uma assembléia deliberante: deixando de ser livre, um concílio deixa de existir, ou não existe mais que de nome.

(Cardeal Gousset, Théologie Dogmatique, Tomo I, Paris, 1884, pág 620)

O Cardeal trata da situação em que as votações não seriam livres por conta do uso da força e da ameaça. No Vaticano II, ao contrário do latrocínio de Éfeso, não houve violência física. Mas nem por isso houve a liberdade que se necessita em concílio ecumênico, pois as votações versavam sobre temas que os presidentes do concílios, que eram modernistas, apresentavam para a assembléia sem que os padres conciliares que defendiam a ortodoxia católica pudessem impugná-los. A forma como os “piratas do Reno”, os modernistas, conduziram as discussões e as votações do Vaticano foram mais sutis do que a força bruta de Éfeso, mas não deixaram de ter influência profunda no resultado do concílio, cuja assembléia não pode deliberar livremente.

Estes fatos não poderão ser desconsiderados quando o concílio Vaticano II, sob um papa que não seja influenciado pelo liberalismo, venha a ser julgado. A ausência de liberdade deliberativa é um fator que pode, segundo nosso entendimento, pesar muito em uma declaração de ilegitimidade do Concílio Vaticano II. Ou, no mínimo, em um séria revisão de todos seus textos.

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PS: Este artigo faz parte da série sobre a credibilidade do Concílio Vaticano II. Os comentários serão abertos quando a série estiver encerrada.

Encontramos, em nossas pesquisas, um artigo de neo-conservadores que tentam disfarçar as semelhanças entre o CV II e o latrocínio de Éfeso. Refutá-lo-emos em um próximo artigo nos pontos em que não foram tocados no presente.