É impossível não se decepcionar com os elementos da “plena comunhão”

Os seguidores do Vaticano II não cansam mesmo de nos decepcionar. Até mesmo os que defendem a lei natural, destacando-se assim da multidão de covardes traidores, não conseguem fugir da correnteza irenista desencadeada pelo desastroso concílio.

Dom Bergonsini, em recente conferência sobre o aborto, expõe de maneira muito falha a possibilidade de salvação fora da Igreja. Primeiro, afirma que existem sementes de Verdade nas falsas religiões, para as quais, aliás, ele não utiliza este termo que é o que melhor adverte os católicos sobre o perigo de apostatar da Fé verdadeira. O bispo menciona as “pessoas que vivem corretamente, pessoas que praticam a caridade, pessoas que são justas” e chama a isto Sementes do Evangelho, que existiriam em todas as religiões. Na realidade, todos os seres humanos possuem a razão e a voz da consciência que os fazem conhecer o caminho correto a seguir. São Paulo trata deste tema em sua carta aos Romanos, e explica assim como aqueles a quem o Evangelho não foi pregado poderiam, pelo que a Igreja chamou posteriormente de batismo de desejo, chegar a salvação eterna.

Estas tais “sementes do Verbo” que poderiam ser encontradas em todas as religiões não passam de mais uma aberração inventada pelo Vaticano II, em seu decreto Ad Gentes. Bento XVI já se pronunciou contra este erro, esclarecendo que tais sementes do Verbo, segundo os apologistas católicos dos primeiros séculos, encontram-se na filosofia, e jamais nas falsas religiões. Os bispos que se julgam “em plena comunhão”, por que será que não ensinam o mesmo que Sua Santidade?

A sã filosofia sistematiza e expõe mais claramente em sua moral a lei natural, da qual falava São Paulo, além de oferecer provas irrefutáveis da existência de Deus, sua unicidade, sua onipotência, esmagando as loucuras do paganismo que deformava os conceitos religiosos.  As verdades filosóficas não se comparam de forma alguma à religião revelada, mas contra a insanidade e desvarios das falsas religiões, não deixam de ser valioso corretivo. Assim é que se pode entender o que diziam os apologetas, o que, aliás,  depõe contra o que disse o Vaticano II sobre as sementes do Verbo. Para os que militam fora da Igreja Católica, sem culpa própria, a lei natural é o peso com que serão medidos, e a sã filosofia que reforça as verdades fundamentais lhes será sempre um auxílio. Já uma falsa religião será sempre um caminho de perdição, porque junto a algumas verdades, ensinam uma multidão de erros graves, e a salvação de alguma alma que tenha vivido nesta crença somente se dá por ignorância invencível, e a pessoa se salva apesar da falsa religião que professava e não por causa dela. Não existe, portanto, motivo nenhum para confundir as coisas. Apresentar a questão da salvação fora da Igreja sem mencionar a necessidade de ignorância invencível para que tal ocorra, é induzir os fiéis ao erro. No mínimo é uma falha grave na exposição de verdade tão crucial. Isto se não for pior, havendo negação do dogma. Se não se explicar claramente que a possibilidade de salvação dos não católicos se dá por ignorância invencível, é melhor nem tocar no assunto, para não gerar confusão e não se levantar a mínima sombra de dúvida sobre o dogma de que fora da Igreja não há salvação.

Continuando a confusão, o bispo fala de não católicos que são “exemplos na moral, no comportamento” (16’40”). Faltou acrescentar que de nada adianta um comportamento exemplar do ponto de vista natural se não se possui a caridade. “Se não possuir a caridade, nada sou”, dizia o grande apóstolo São Paulo em uma das mais belas passagens de suas cartas. E a caridade, virtude sobrenatural, somente pode existir nas almas que se encontram em estado de graça. Todo o bem natural feito pelo homem em estado de pecado mortal não passa de mera filantropia, e não lhe traz mérito nenhum para a vida eterna. Assim, o bem feito pelos não católicos pode apenas nos envergonhar do bem que nós, dentro da Igreja, não fazemos. Mas jamais pode a simples filantropia servir de modelo, pois jamais poderá ela ser comparada à caridade.

Faltou também ao bispo citar a absoluta necessidade de guardarmos a integridade da Fé Católica. “Pois, se alguém não a professar, integral e inviolavelmente, é certo que se perderá por toda a eternidade”, como nos diz o símbolo atanasiano. Se alguém, como disse o bispo, é exemplo “na moral, no comportamento” mas, conhecendo a Fé católica, a rejeita, isto de nada lhe vale, pois filantropia não salva o homem da condenação eterna.

Mas os erros do bispo não param por aqui. Segue-se uma seqüência horrível de erros sobre as relações entre a Igreja e o Estado, que eu até parei de assistir ao vídeo em determinado momento. O cúmulo dos absurdos foi quando o bispo se mostrou feliz com o fato de o Estado brasileiro não honrar ao único e verdadeiro Deus: “O Brasil, graças a Deus, é um estado laico” (16’52”). Santo Deus! Será que não há bispo “em plena comunhão” que reconhece os direitos do Deus Altíssimo de receber a submissão de toda sua criação, inclusive dos Estados? Será que não há, dentro os prelados atuais, quem defenda a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Antes disto já pudemos ouvir uma confusão do bispo sobre a verdadeira doutrina da Igreja a respeito das relações entre Igreja e Estado. O bispo opõe laicismo, que ele chama de “nada de religião, nenhuma religião”, a um simples estado laico, que “significa que a pessoa tem direito de escolher a sua fé”. Laicista seria um Estado que persegue a religião, enquanto que laico seria aquele que permite todas igualmente. E o bispo, que corretamente condena o primeiro, erroneamente elogia o segundo.

Para esclarecer a confusão do prelado, devemos primeiro corrigir a definição que ele deu de Estado laico. A possibilidade (e não o direito) de cada pessoa escolher sua fé, pode existir mesmo em um Estado confessional. Definir Estado laico como “aquele em que a pessoa tem direito de escolher a sua fé”, induziria a pensar erroneamente que em um Estado confessional isto não ocorreria. Na época do Império do Brasil, que era confessional católico, havia a possibilidade, garantida pela constituição, de a pessoa ter qualquer religião, desde que respeitasse a religião católica e não ofendesse a moral pública. Isto está de acordo com a doutrina católica e se chama tolerância religiosa.

A liberdade religiosa pregada pelo liberalismo, em oposição à tolerância religiosa, seria não somente a possibilidade (como erroneamente expôs o bispo), mas sim o direito reconhecido como tal, de o indivíduo professar qualquer crença que quisesse e a impossibilidade do Estado de se declarar confessional. Isto é contrário à doutrina católica, pois ninguém tem verdadeiro direito de professar o erro. O Estado pode apenas tolerar o erro, mas não o reconhecer com os mesmos direitos da verdade.

Assim, tanto está errada a concepção que o bispo faz do Estado laico, enxergando-o como algo positivo por permitir a liberdade religiosa, que leva ao indiferentismo, como está errada sua concepção sobre o Estado confessional, pois este não implica falta de tolerância religiosa, com conseqüentes conversões forçadas ao catolicismo, como daria a entender erroneamente a fala do bispo. E principalmente, o Estado confessional, ao contrário do Estado laico que o prelado desgraçadamente defende, é aquele que reconhece a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo, preta-lhe o devido culto, e não induz a população a um nefasto indiferentismo religioso.

Talvez o prelado, lutando contra o aborto, quisesse não se indispor com outras pessoas que se dizem religiosas e que também são contra o aborto. Mas, devemos antes de tudo nos esforçarmos por não nos indispormos contra Deus. E, defender, ainda que praticamente, um relativismo dos dogmas certamente não é a solução para crise nenhuma, senão, muito pelo contrário, um agravamento da mesma e um escândalo nefasto.

Não nos basta seguir a lei natural. Todos nós que tivemos a dádiva de sermos instruídos na revelação divina temos a obrigação de professar inviolavelmente todas as verdades pelas quais nossos antepassados derramaram seu suor e seu sangue para as defender e para no-las transmitir. Infelizmente o indiferentismo é a regra dos que seguem o Vaticano II. É nesta “comunhão” de indiferentistas que querem nos ver metidos? Eu estou, sempre estive e sempre estarei em perfeita comunhão com a Igreja Católica, na integridade de seus dogmas e de sua doutrina. Estou em comunhão com aqueles que querem não que Cristo seja mais um no meio de um panteão enorme de “deuses”, mas sim que Ele seja, com justiça, reconhecido como único Senhor, diante do qual todo joelho se há de dobrar nos Céus, na Terra e nos infernos. Os que não O reconhecem assim, sejam tolerados porque a Fé não pode ser imposta, mas sejam também advertidos, através do nosso testemunho, do mal que fazem e do perigo de condenação que correm, e diante deles professemos a Fé integral e os convidemos a se converter, sem jamais qualquer sombra de indiferentismo.