Cardeal Ottaviani: hermenêutica da continuidade ou da ruptura?

Eu estava escrevendo um artigo mais extenso sobre a interpretação dos textos do Vaticano II, mas o tema está se estendendo mais do que eu esperava. Por hora, publico apenas algumas ponderações sobre uma carta do cardeal Ottaviani relacionada ao tema. Em outra oportunidade, aprofundaremos o assunto o quanto desejamos.

Algumas dúvidas não esclarecidas

A carta atribuída ao Cardeal Ottaviani teria sido escrita em 1966. No último parágrafo, o autor diz que a carta deveria permanecer em estrito segredo. No entanto, segundo o site do Vaticano a carta teria sido publicada na Acta Apostolicis Sedis (AAS) – Atos da Sé Apostólica – daquele mesmo ano. O que eu não consegui compreender ainda, é como um documento que deve ser mantido em sigilo pode ser publicado em um jornal como as AAS.

Um artigo que encontrei sobre as AAS dizem que elas contêm documentos públicos (o que seria de se imaginar para um jornal):

Contém os principais documentos públicos emitidos pelo Papa, directamente ou através dos departamentos da Cúria Romana e também listas de nomeações Romanas.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Acta_Apostolicae_Sedis

Talvez alguém possa me ajudar a compreender como um documento sigiloso pode ser publicado em um jornal públco.

No site do Vaticano, as AAS – originais em latim – estão publicadas desde Março de 2010, conforme tivemos conhecimento através de um artigo do New Liturgical Movement.

Outra dificuldade de entendimento é porque se demorou tanto tempo para se fazer uso de tal carta. No site do Vaticano, a carta pode ser lida, entre outras línguas, em italiano e espanhol. Infelizmente, eles não trazem, no texto, a data da publicação no site. Utilizando-se porém, de recurso da informática, qual seja, a visualização do código fonte da página, pudemos encontrar no código HTML informações sobre a possível data de publicação: <meta name=”date.issued” content=”2010-10-21″ />. Ou seja, a data é um pouco posterior à publição das AAS no mesmo site. A data de sua assinatura é de 24 de Julho de 1966, o que nos dá um espaço de quarenta e quatro anos até sua publicação. Algo que nos faz questionar seriamente sobre o porquê uma carta com a finalidade de defender a Fé não foi utilizada ao longo de tantas décadas.

Outros questionamentos nós faremos ao longo do presente artigo.

O conteúdo da carta

Temos, publicada na internet, a seguinte tradução para o português:

CARTA SOBRE OPINIÕES ERRÔNEAS NA INTERPRETAÇÃO DOS DECRETOS DO CONCÍLIO VATICANO II
Congregação para a Doutrina da Fé

Depois da promulgação do Concílio Ecumênico Vaticano II, concluído recentemente, sapientíssimos documentos, tanto sobre questões doutrinais, quanto disciplinares, para promover eficazmente a doutrina da Igreja, incumbem a todo o Povo de Deus a lutar com todo o empenho para que se realize tudo o que, com a inspiração do Espírito Santo, foi solenemente proposto ou decretado naquele sínodo de Bispos, presidido pelo Romano Pontífice.

Á hierarquia compete o direito e o dever de vigiar, dirigir e promover o movimento de renovação que o Concílio começou, de modo que os documentos e decretos do referido Concílio recebam uma reta interpretação e sejam levados a efeito com exatidão segundo a força e o sentido dos mesmos. Portanto, esta doutrina deve ser defendida pelos Bispos, já que, como tais, gozam do poder de ensinar com autoridade, unidos à cabeça de Pedro. É digno de elogio que muitos Pastores do Concílio já tomaram a iniciativa de explicá-la convenientemente.

Sentimos, contudo, que de diversas partes chegam notícias de como não somente pululam os abusos na interpretação da doutrina do Concílio, como também de como aqui e ali surgem opiniões estranhas e audazes, que perturbam não pouco a alma de muitos fiéis. Devemos louvar os trabalhos ou intentos que buscam penetrar mais profundamente na verdade, distinguindo retamente entre aquilo em que se deve acreditar e o que é opinião; porém, pelos documentos examinados nesta Sagrada Congregação, consta que existem não poucas sentenças que, passando por alto facilmente os limites da simples opinião, parecem afetar o mesmo dogma e os fundamentos da fé.

Convém que expressemos, como exemplo, algumas das sentenças e erros, tal como são conhecidos através da relação de doutores e das publicações escritas.

1) Primeiramente, referimo-nos à Sagrada Revelação: há quem recorra à Sagrada Escritura, deixando de lado intencionalmente a Tradição, porém restringem o âmbito e a força da inspiração e da inerrância, já que pensam equivocadamente sobre o valor dos textos históricos.

2) No que se refere à doutrina da Fé, diz-se que as fórmulas dogmáticas devem ser submetidas à evolução histórica, de tal modo que o sentido objetivo das mesmas seja exposto a mudanças.

3) Esquece-se ou subestima-se o Magistério ordinário da Igreja, principalmente do Romano Pontífice, de tal maneira que se relega ao plano das coisas opináveis.

4) Alguns quase não reconhecem a verdade objetiva absoluta, firme e imutável, expondo tudo a um certo relativismo, alegando o falaz argumento de que qualquer verdade deve seguir necessariamente o ritmo da evolução da consciência e da história.

5) Ataca-se a admirável pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando, ao refletir sobre a Cristologia, utilizam-se tais conceitos de natureza e pessoa, que apenas podem se conciliar com as definições dogmáticas. Insinua-se certo humanismo pelo qual o Cristo é reduzido à condição de simples homem, que foi adquirindo pouco a pouco consciência de sua filiação divina, Sua concepção virginal, seus milagres e sua Ressurreição são concedidos de palavra, porém frequentemente reduzem-se à mera ordem natural.

6) Igualmente, ao tratar da teologia dos sacramentos, alguns elementos são ignorados ou não se lhes presta a suficiente atenção. Sobretudo no que se refere à Santíssima Eucaristia. Não falta quem discuta sobre a presença real de Cristo sob as espécies de pão e vinho, defendendo um exacerbado simbolismo, como se pão e vinho não se convertessem no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo pela transubstanciação, mas que simplesmente fossem empregados com certa significação. Há quem insista mais no conceito de ágape, com relação à missa, do que no de Sacrifício.

7) Alguns desejam explicar o Sacramento da Penitência como um meio de reconciliação com a Igreja, sem explicar suficientemente a reconciliação com Deus ofendido. Pretendem que, ao celebrar este Sacramento, não seja necessária a confissão pessoal dos pecados, mas somente se preocupem em expressar a função social da reconciliação com a Igreja.

8) Não falta quem menospreze a doutrina do Concílio de Trento sobre o Pecado Original, ou quem a interprete obscurecendo a culpa original de Adão ou, ao menos, a transmissão do pecado.

9) Não são menores os erros que circulam no âmbito da teologia moral. Com efeito, não poucos se atrevem a refutar a razão objetiva da moralidade; outros não aceitam a lei natural e defendem, por outro lado, a legitimidade da chamada “moral de situação”. Propagam-se opiniões perniciosas sobre a moralidade e a responsabilidade em matéria sexual e matrimonial.

10) A todos estes temas, temos de acrescentar uma nota sobre o Ecumenismo. A Sé Apostólica, certamente, louva todos os que, no espírito do Decreto Conciliar sobre o ecumenismo, promovem iniciativas para fomentar a caridade com os irmãos separados e atraí-los à unidade da Igreja; porém lamenta que não falte quem, interpretando a seu modo o decreto Conciliar, exija uma ação ecumênica que vá contra a verdade, assim como contra a unidade da Fé e da Igreja, fomentando um perigoso irenismo e indiferentismo, que é totalmente alheio à mente do Concílio.

Espalhada esta classe de erros e perigos, apresentamo-los sumariamente, nesta Carta aos Ordinários do lugar, para que cada um, segundo seu cargo e ofício, cuide de refreá-los e preveni-los.

Este Sagrado Dicastério roga encarecidamente para que os Ordinários do lugar tratem disso nas reuniões de suas conferências episcopais e enviem relações à Santa Sé, aconselhando o que creem oportuno, antes da festa da Natividade de Nosso senhor Jesus Cristo do ano em curso.

Esta carta, que, por uma óbvia razão de prudência, nos impede de fazê-la de domínio público, deve ser guardada sob estrito segredo pelos Ordinários e por todos aqueles que com justa causa a ensinam. Roma, 24 de julho de 1966. A. Card. Ottaviani, Pró-prefeito.

fonte: http://cartasaprobo.blogspot.com/2011/08/carta-da-congregacao-para-doutrina-da.html

A carta e a hermenêutica da continuidade

Os três primeiros parágrafos trazem uma inegável marca da “hermenêutica da continuidade”, teoria segundo a qual os documentos do Vaticano II seriam bons e isentos de erros, e toda a confusão pós-conciliar teria sido fruto apenas da má interpretação abusiva destes textos.

Os neo-conservadores alegraram-se imensamente com a tal carta, uma vez que ela estaria a corroborar a opinião que eles têm sobre o Vaticano II. E não faltaram as costumeiras provocações baixas contra os tradicionalistas. Uma destas típicas ofensas, que demonstra o quanto os neo-conservadores não são nem um pouco moderados, e o quanto de ódio eles tem contra nós, é este:


Jucken says:
6 September 2011 at 2:43 am

E aí pseudo-tradicionalistas, vão por acaso alegar que esta carta do Cardeal Ottaviani também foi forjada? Que belo tapa na cara dos católicos de fachada que só sabem mentir e mentir e só são “tradicionalistas” por motivos políticos…

http://www.deuslovult.org/2011/09/05/sobre-opinioes-erroneas-na-interpretacao-dos-decretos-do-concilio-vaticano-ii-1966/#comment-31715

Será que a alegria demonstrada por este e outros fanáticos neo-conservadores se justifica? É isto que vamos esclarecer neste artigo.


A carta impugna as críticas tradicionalistas?

Deixemos de lado, por hora, todas as dificuldades já mencionadas e admitamos a autenticidade da carta. Será que ela demonstra o “erro” tradicionalista de que nos acusam os neo-conservadores?

Em primeiro lugar, vejamos o que nos diz a carta. Ela afirma que houve abuso na interpretação do concílio Vaticano II.

Comparemos com o que dizemos, nós, tradicionalistas: o concílio Vaticano II contém textos intencionalmente ambíguos e outros abertamente em ruptura com a Tradição da Igreja.

A duas afirmações são mutamente exclusivas? Incompatíveis entre si? Claro que não. Somente na cabeça dos neo-conservadores que não perdem uma oportunidade de nos atacar e de tentar, desesperadamente, salvar o concílio.

Se estivéssemos considerando uma única proposição, teríamos indiscutivelmente a mútua exclusão sobre sua evidente veracidade, evidente falsidade ou ambigüidade.  Apenas uma destas três opções poderia se aplicar a uma única proposição considerada. Quando consideramos, porém, um texto, ou um conjunto de textos, podemos encontrar nele(s) algumas proposições verdadeiras, outras falsas e outras ambíguas. E o concílio Vaticano II é uma extensa coleção de proposições, algumas perfeitamente católicas, outras ambíguas e outras em total ruptura com a Tradição católica. Basta ler as bem fundamentadas críticas tradicionalistas para se ter uma noção da grande quantidade de textos ambíguos e em evidente ruptura com a Tradição. O que não quer dizer que todos os erros defendidos no pós-concílio estejam baseados apenas nestes trechos.

Desta forma, torna-se fácil entender que, mesmo que se venha a confirmar a autenticidade da carta do cardeal Ottaviani, as críticas tradicionalistas ao Concílio Vaticano II permanencem intactas em sua validade. Claro, pois as nossas críticas se baseiam tanto nos textos ambíguos quanto naqueles em aberta ruptura com a Tradição da Igreja, ao passo que as críticas da carta do cardeal Ottaviani tratam de abusos dos textos legítimos. O fato de alguns erros procederem de abusos na interpretação de trechos legítimos, não exclui a possibilidade, que realmente se verifica, de que alguns dos erros estão realmente escritos em outros trechos do concílio, nem a de que haja outros trechos propositalmente ambíguos. A carta somente impugnaria a posição tradicionalista se ela dissesse que não existem, no Vaticano II, trechos ambíguos ou em ruptura com a Tradição, e que todos os erros, sem exceção, partiram de abusos. Isto ela não traz, mesmo porque seria uma mentira fácil de ser desmascarada.

É verdade que a carta chama os documentos do Vaticano II de sapientíssimos. É difícil imaginar o cardeal Ottaviani, ou qualquer outro defensor da Fé católica, chamar de “sapientíssimo documento” um lixo como a Dignitatis Humanae ou a Unitatis Redintegratio. Certo é, também, que a carta não  diz que todos os documentos do Vaticano II, sem exceção, são sapientíssimos. De qualquer modo, tais afirmações sobre o concílio, de forma genérica, não implicam a aprovação de cada um dos textos do Vaticano II, nem a absoluta inexistência de ambigüidades e erros no textos do mesmo.

O cardeal Ottaviani e a hermenêutica da ruptura

A “Carta sobre opiniões errôneas na interpretação dos decretos do concílio Vaticano II” estaria datada do dia 24 de julho de 1966.

Acontece que aproximadamente três anos depois, em 25 de setembro de 1969, o cardeal Ottaviani, juntamente com o cardeal Bacci, escreveu uma outra carta ao papa Paulo VI, esta pública, encaminhando ao Santo Padre o “Breve Estudo Crítico da Nova Ordenação da Missa” e solicitando-lhe a intervenção na questão da missa nova. Uma simples leitura desta carta demonstra que o cardeal não poupou críticas nem aos graves problemas do novo rito, nem aos erros correntes na época:

Portanto, em um momento em que a pureza da fé e a unidade da Igreja sofrem cruéis lacerações e um perigo ainda maior, diária e dolorosamente ecoado nas palavras de nosso Pai comum, nós fervorosamente rogamos a Vossa Santidade para que não nos prive da possibilidade de continuarmos a ter acesso à integridade fecunda do Missale Romanun de São Pio V, tão louvado por Sua Santidade e tão profundamente amado e venerado por todo o mundo católico. (Breve exame crítico, Carta introdutória, nº 3)

Se o cardeal Ottaviani utilizou palavras tão claras para denunciar a gravidade da situação da Igreja naquele momento, por que não haveria de publicar aquela carta de 1966? Por mais questionável que seja o sigilo do documento naquele ano pós-conciliar, em 1969 o cardeal falou abertamente dos problemas. Por que manter o sigilo? Não existem motivos. Não teria sido lógico, no mínimo, tornar público o documento a fim de melhor combater os perigos? Por que somente em 2010 esta carta é publicada? Por que, ao longo de todos estes anos, os papas e os bispos não tiveram o zelo de se utilizar desta carta para defender a Fé?

No capítulo I do Breve Exame, o cardeal Ottaviani cita um periódico dirigido aos bispos onde se pode ler uma crítica mordaz à celebração experimental de uma nova missa realizada em outubro de 1967:

“Quiseram passar uma esponja em toda a teologia da Missa. Terminou como algo muito próximo da teologia protestante que destruiu o sacrifício da Missa.”

O piedoso cardeal, portanto, não media palavras para defender a Fé católica. A frase que ele citou, “Quiseram passar uma esponja em toda a teologia da Missa”, é muito mais forte do que qualquer passagem da suposta carta de 1966. O que torna estranho o fato deste documento não ter sido publicado, pelo menos, junto com a carta de 1969.

O número 2 da carta de 1966, que denuncia o erro da evolução do dogma, também tem seu paralelo na carta de 1969. Comparemos os dois textos:

No que se refere à doutrina da Fé, diz-se que as fórmulas dogmáticas devem ser submetidas à evolução histórica, de tal modo que o sentido objetivo das mesmas seja exposto a mudanças. (Carta de 1966, nº 2)

As inovações na Novus Ordo e o fato de que tudo o que possui um valor perene encontra ali apenas um lugar secundário – se é que continua a existir – poderiam muito bem transformar em certeza as suspeitas, infelizmente já dominantes em muitos círculos, de que as verdades que sempre foram objeto de crença pelos cristãos podem ser alteradas ou ignoradas sem infidelidade ao sagrado depósito da doutrina ao qual a fé católica está para sempre ligada. (Carta introdutória ao Breve exame crítico, nº 2)

A carta de 1966 denuncia o conceito protestante da celebração eucarística:

6) Igualmente, ao tratar da teologia dos sacramentos, alguns elementos são ignorados ou não se lhes presta a suficiente atenção. Sobretudo no que se refere à Santíssima Eucaristia. Não falta quem discuta sobre a presença real de Cristo sob as espécies de pão e vinho, defendendo um exacerbado simbolismo, como se pão e vinho não se convertessem no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo pela transubstanciação, mas que simplesmente fossem empregados com certa significação. Há quem insista mais no conceito de ágape, com relação à missa, do que no de Sacrifício.

Ao comentar a herética definição de missa dada pelo número 7 da Instrução Geral do Missal Romano, de 1969, i.e., “Ceia dominical é a assembléia sagrada ou congregação do povo de Deus, reunindo- se sob a presidência do sacerdote, para celebrar a memória de Nosso Senhor”, o cardeal Ottaviani escreve:

Desta forma, a definição da Missa é reduzida a uma “ceia”, um termo que a Instrução Geral repete constantemente (nos números 8, 48, 55, 56 da Institutio 5 ). A Instrução mais adiante caracteriza esta “ceia” como uma assembléia, presidida por um padre e celebrada como o “memorial do Senhor” para recordar o que Ele fez na quinta-feira Santa.

Nada disso implica por mais mínimo que seja nem a Presença Real, nem a realidade do Sacrifício, nem a função sacramental do padre que consagra, nem o valor intrínseco do Sacrifício Eucarístico, independente da presença da “assembléia”.

Em uma palavra, a definição dada pela Instrução não implica nenhum dos valores dogmáticos que são essenciais à Missa e os quais, tomados em conjunto, fornecem a sua  verdadeira definição. A omissão, num tal lugar, desses dados dogmáticos, não pode ser senão voluntária. Semelhante omissão voluntária significa que já se consideram como obsoletos, e equivale, ao menos na prática, a negá-los. (Breve Exame, Capítulo II)

Percebemos que a denúncia pública de 1969 tem, em muitos pontos, o mesmo conteúdo que a oculta de 1966. Não há, portanto, motivos pelos quais esta deveria ter permanecido oculta e não ter sido utilizada para o combate às heresias.

Quem desejar conhecer outras palavras fortes do cardeal, tanto na condenação da missa nova como dos erros vigentes em sua época, pode ler a sua carta de 1969 na íntegra:

http://www.fsspx.com.br/exe2/breve-exame-critico-do-novus-ordo-missae

Com palavras tão claras do cardeal Ottaviani em 1969, é impossível entender porque sua suposta carta de 1966 pudesse causar tanta alegria aos neo-conservadores. Aliás, na carta de 1969, de autenticidade jamais questionada, o cardeal Ottaviani denuncia e combate a hermenêutica da ruptura. Isto é insofismável. Ele o diz com todas as letras, afirmando que o novo rito está em ruptura com a Tradição. Certamente por isto, os mesmos sites que publicam a carta oculta de 1966 não se dão ao trabalho de publicar a carta pública de 1969: ela destrói completamente a hermenêutica da continuidade, ao menos quanto à missa nova, que é a expressão litúrgica da “nova teologia” ensinada pelo Vaticano II, e que foi inventada para tentar salvar este conciliábulo.

O fiasco do Vaticano II confirmado por esta carta

O Cardeal Ottaviani era o Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, ou seja, o homem responsável, imediatamente depois do papa, por defender a Fé católica. O fato de ele ser obrigado a escrever em segredo uma carta com este conteúdo já prova o quão grave era a situação. Pior ainda, como a história demonstra, estas recomendações não foram seguidas pela maioria dos bispos.

A divulgação desta carta acaba sendo mais um tiro dos neo-conservadores que sai pela culatra. Pois, se, por um lado, as críticas tradicionalistas não são afetadas e vários textos do concílio continuam sendo reprováveis, por outro, a tal carta somente vem a confirmar o total fiasco que foi o concílio Vaticano II.

O pouquíssimo tempo, praticamente meio ano, decorrido entre o final do concílio e a carta do cardeal Ottaviani demonstra o quão ineficaz foi o concílio na defesa da Fé. Se o Vaticano II tivesse seguido o modelo dos concílios anteriores, com cânones e anátemas bem definidos, com linguagem clara e objetiva, nenhuma interpretação heterodoxa seria possível. Pois, como perguntamos em de nossos últimos artigos, qual outro concílio da Igreja foi utilizado pelos Seus inimigos para defender idéias tão contrárias à Fé católica? Esta carta vem nos provar que somente alguns meses já foram suficientes para que tais “abusos” acontecessem.

Mesmo que, por absurdo, nós não tratássemos das intecionais ambigüidades inseridas nos textos do concílio pelos modernistas, a fim de serem interpretadas de maneira herética na era pós-conciliar; mesmo que não existissem trechos do concílio em aberta ruptura com a Tradição católica, ainda assim o Vaticano II teria sido um enorme fracasso, pois não teria passado mais que alguns poucos meses até que ele estivesse sendo totalmente deturpado.

Um artigo muito esclarecedor da FSSPX, publicado em inglês no site do Seminário São Tomás de Aquino, levanta sérios questionamentos sobre a hermenêutica da continuidade.

Vejamos: a finalidade do magistério é explicar a fé de modo a dissipar as dúvidas. O Magistério é regra próxima de fé: não pode ser dúbio.

Se quarenta anos depois de ter sido encerrado o concílio, um papa vem falar que precisa lhe ser dada a correta interpretação, então o concílio falhou estrondosamente em sua finalidade.

Devemos acrescentar que o Concílio Vaticano II foi escrito em linguagem do homem moderno com a finalidade de ser facilmente compreendido. O concílio que não quis ser dogmático, mas sim pastoral, com a finalidade de ser facilmente compreendido, falhou em seu objetivo principal. Quarenta anos depois vem o papa tentar dar uma interpretação ortodoxa para o concílio que pretendia ser escrito em linguagem acessível a qualquer homem… É evidente demais que o concílio falhou estrondosamente em sua missão de ser inteligível. Somente um fanatismo extremo pode levar alguém a negar isto.

Não podemos esquecer um outro fator importantíssimo: o concílio foi interpretado pelos mesmos bispos que o escreveram. Como pode alguém interpretar errado algo que ele próprio escreveu? A carta do cardeal Ottaviani, de 1966, não menciona quem estaria interpretando o concílio de forma abusiva. Mas, nós sabemos bem que é o papa e os bispos em comunhão como ele os responsáveis pelo magistério. Se houve interpretação heterodoxa foi porque havia bispos modernistas, eles mesmos promovendo estas interpretações e ainda protegendo os padres e leigos que as promoviam. Interpretavam o que eles mesmos escreveram e impuseram ao concílio através da quadrilha do Reno, cuja história está perfeitamente desmascarada no livro “O Reno se lança no Tibre”.

Conclusões

Ainda que se prove a autenticidade da carta de 1966, ela não impugna as críticas tradicionalistas ao Concílio Vaticano II. Os textos propositalmente ambíguos e os abertamente em ruptura com a Tradição, provam que o concílio de fato contém erros e, no mínimo, não pode ser considerado igual aos demais, isto se não vier a ser totalmente anulado.

Caso se verifique a autenticidade da carta de 1966, podemos entender como uma atitude, em princípio, cautelosa do cardeal Ottaviani, mas que logo compreendeu a ruptura provocada, que foi clara e irrefutavelmente denunciada já no Breve Exame Crítico de 1969. Esta carta de 1969, por condenar de forma tão insofismável a ruptura, é mantida longe do conhecimento das pessoas, degredada. Mas, para qualquer um que tenha sincero amor pela verdade, vale a pena ler esta carta e constatar o quanto a missa nova de Paulo VI, e conseguentemente, a “nova teologia” que a inspirou, estão em total ruptura com o que sempre ensinou nossa santa religião católica.