Cidade eterna, promessas passageiras.

Existem algumas pessoas que se encantam diante das promessas que estão sendo feitas atualmente à FSSPX. No entanto, o histórico das promessas feitas pelo Vaticano aos tradicionalistas e não cumpridas já é bastante longo.

No já distante ano de 2001, Dom Lourenço Fleichman, testemunha de todos estes fatos, escreveu com detalhes a história da queda da Fraternidade Sacerdotal São Pedro (FSSP) e de outros grupos menores esmagados pela ditadura dos defensores do concílio. Para quem ainda não conhece a história de tropeços e quedas daqueles que se entregaram à Ecclesia Dei, aconselho vivamente a leitura do relato de Dom Lourenço:

http://www.capela.org.br/Crise/protocolo4.htm

Destaco alguns pontos. Para os que acreditam que as atuais ofertas de Roma são irrecusáveis, que eles nos oferecem tudo sem pedir nada, então é bom ler o que Dom Lourenço escreveu há mais de dez anos (os destaques são meus):

O que marca esta fundação, assim como o acordo firmado com o mosteiro do Barroux, é a ilusão dos signatários de que não havia e não haveria contrapartida doutrinária. Ou seja, eles continuariam a celebrar a Missa de São Pio V, eles não teriam obrigação de celebrar a Missa de Paulo VI, eles poderiam pregar contra os erros de Vaticano II. Enfim, tudo como antes… Quando eu ainda estava no mosteiro do Barroux, Dom Gérard me passou um bilhete onde dizia: “Não se preocupe, Dom Lourenço, com a malícia de nossos adversários, pois a finis operis aniquilará a detestável finis operantis dos prelados conciliares“. A finalidade do acordo (finis operis) aniquilaria a má intenção (finis operantis) dos prelados do Vaticano que assinavam o acordo. Uma verdadeira brincadeira com a Fé. Uma experiência em laboratório com o que há de mais precioso para nossa salvação. E foi assim que o Prior do Barroux aconselhou e ajudou aos padres da Fraternidade São Pio X a abandonarem a Mgr. Lefebvre. Não foi preciso muito tempo para Dom Gérard dizer que os prelados de Roma eram paternais e bem intencionados. Pouco depois ele concelebrava com o Papa numa Missa de Paulo VI.

Dom Gérard Calvet começou com um discurso vitorioso e terminou celebrando a missa de Paulo VI. Acreditava, como os ingênuos de hoje, que não haveria nenhuma contrapartida, que continuariam a luta pela Tradição estando subordinados a autoridades modernistas. No entanto…

Os beneditinos de Dom Augustin, em Flavigny, França, também eram auxiliados por Dom Lefebvre. No entanto:

Um dia, creio que em 1985 ou 1986, Dom Augustin fez um acordo com Roma. Prometeram a ele a manutenção de tudo. E ele afastou-se de Mgr. Lefebvre. Em pouco tempo Roma exigiu que a missa conventual (missa assistida por todos os monges) fosse a de Paulo VI. Alguns padres abandonaram, então, o mosteiro.

Portanto, mais um iludido que acreditou nas promessas de modernistas. E assim se seguiu com todos os outros que acreditaram nas autoridades modernistas. Inclusive com aqueles que fizeram acordos posteriores a 2001, ano em que Dom Lourenço escreveu o texto acima citado.

Não podemos deixar de comentar, também, a falsidade das autoridades modernistas que trocaram o superior da FSSP, contra as regras e contra todas as promessas. Para que servem acordos com quem rasga os papéis quando não lhes interessa mais? Contra fato não há argumento. E os fatos são insofismáveis. Só com uma cegueira voluntária não se enxerga o que aconteceu à FSSP.

Finalmente, outro ponto do artigo de dom Lourenço que merece todo destaque são as palavras do próprio Mons. Lefebvre relatando sobre nove seminaristas que foram instigados a abandonar Ecône:

Formidável! Uma oportunidade única! Se lhes prometerem maravilhas, haverá outros que os seguirão… Ele disse-o explicitamente. O Cardeal Ratzinger disse: “Estou feliz por alguns terem deixado Ecône e espero bem que haja outros que sigam os primeiros.”

Como bem sabeis, fizeram o famoso seminário “Mater Ecclesiae”, dirigido por um cardeal, o Cardeal Innocenti, com o Cardeal Garrone e um terceiro cardeal, o Cardeal Ratzinger, aprovado oficialmente pelo Papa no “Osservatore Romano”. Um acontecimento mundial! Todos os jornais do mundo falaram desse seminário tradicional feito com os noves fugidos de Ecône e que também iria reunir outros seminaristas que tivessem a mesma “sensibilidade”.

Eles partiram e, ao todo, lá se encontraram cerca de vinte seminaristas.

Garanto que vale a pena ler a carta que acaba de nos enviar o P. …, que foi o instigador da saída daqueles seminaristas. Ele escreveu: “LAMENTO”, em letras garrafais na sua carta. “LAMENTO, perdemos tudo, não cumpriram nenhuma das promessas. Somos uns miseráveis; já nem mesmo sabemos onde ir

Este trecho é importante não somente porque é o relato de mais uma traição, entre tantas outras, da Roma modernista. Ele merece todo o destaque por dois motivos. O primeiro é que são palavras do próprio Mons. Lefebvre. Depois, porque cita o nome de alguém que se alegrou com esta derrota da Tradição: o então cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI, que alguns querem acreditar que seja o grande restaurador da Igreja.

Coisas do passado?

Algumas pessoas sustentam, contra toda evidência, que a situação atual é diferente daquela de 1988, que já não estaríamos mais no estado de necessidade daquela época. Será mesmo que os fatos lembrados acima são realmente o último ataque modernista contra a Tradição, acontecidos ainda em outro papado, em uma era de tristes memórias que ficaram para trás?

Seria muito bom para todos os católicos se assim fosse. No entanto, os fatos atualíssimos rasgam qualquer cortina de otimismo ingênuo que pudesse cobrir a crua realidade.

Antes de analisarmos a situação atual, voltemos um pouco no tempo, até o ano de 2006. O padre Laguérie, superior do Instituto do Bom Pastor, expressava assim sua alegria quando Roma criou o referido instituto:

É formidável. É formidável e exaltante. Nós realmente agradecemos às autoridades que nos permitiram realizar isto. Você me dirá… mas houve compromissos? Não, você vê bem: sobre a liturgia, nenhum compromisso, sobre a doutrina, nenhum e ainda menos, se eu posso dizer.

[C’est formidable. C’est formidable et exaltant. Nous remercions vraiment les autorités qui nous ont permis de réaliser cela. Vous me direz… mais il y a eu des compromissions ? Eh bien non, vous avez bien vu : sur la liturgie, aucune, sur la doctrine, aucune et encore moins, si je puis dire.]

http://archives.leforumcatholique.org/consulte/message.php?arch=2&num=213967

Foram momentos de alegria não só para o Pe. Laguérie. Finalmente Roma havia aprovado um Instituto cujos membros não somente não aceitavam os erros do Vaticano II como até mesmo receberam a missão de realizar uma crítica construtiva do mesmo, e tinham não somente o direito como o dever de celebrar a Missa Tridentina. Parecia que Bento XVI estava realmente interessado em retornar à Tradição.

No entanto… (mais uma vez eu uso esta expressão; mas o que poderíamos querer, em um artigo que trata de promessas descumpridas?) Apesar de tudo… as últimas notícias dão nota de que o golpe no IBP, semelhante ao que foi dado na FSSP, já está pronto para ser desferido.

Há poucas semanas, Mons. Guido Pozzo escreveu uma carta ao Pe. Laguérie incitando-o a aceitar tudo aquilo para o que o IBP teria sido criado para combater:

http://stdominic3order.blogspot.com.br/2012/04/se-ainda-restam-duvidas-sobre-intencao.html

O primeiro ponto que merece ser destacado, é a afirmação de que não deve haver exclusividade do rito tridentino. Ou seja, um instituto criado em 2006 com a missão de celebrar exclusivamente o rito tridentino é obrigado a ouvir agora, em 2012, que a celebração deste não pode ser feita com a exclusão do antigo.

Segundo ponto, é a exigência de que o IBP integre nos ensinamentos de seu seminário o Concílio Vaticano II e o magistério pós-conciliar. Segue-se a afirmação gratuita de que houve continuidade entre o concílio e o magistério anterior. Esta ordem foi dada ao instituto erigido, supostamente, com o intuito de criticar os textos do concílio. Ora, se o concílio estivesse em continuidade com a Tradição, não seria lícito criticá-lo, ainda que positivamente, pois ele seria parte legítima do Magistério, ao qual se deve submissão. A crítica que o IBP deveria fazer é lícita justamente porque o concílio rompeu com a Tradição, e não pode, portanto, ser simplesmente integrado no ensinamento de um legítimo seminário católico sem que seja expurgado de seus erros.

Finalmente, vem a sugestão de Mons. Guido Pozzo de integrar mais o IBP com a “vida” da Igreja e da diocese. Vida que é o que menos se vê nesta primavera conciliar, onde o modernismo provocou a morte da fé na maioria das pessoas.

Se relermos a homilia do Pe. Laguérie de 2006, constatamos que este discurso de Mons. Guido Pozzo derrubou com um só tiro as três alegrias do padre tradicionalista. A liturgia e a doutrina, sobre as quais se tinha feito nenhuma concessão (naquela época), já devem ser aggiornate (atualizadas). E o agradecimento às autoridades que permitiram fundar o IBP, se transforma em que, quando a maior autoridade da comissão Ecclesia Dei ordena que sejam traídos os princípios da fundação do instituto?

Complô contra o papa?

O ataque ao IBP é claríssimo e insofismável. Já estão querendo subjugá-lo como fizeram com os outros institutos tradicionais que assinaram acordos. Mas, para algumas pessoas que vivem em um mundo encantado, cheio de fantasias, o papa Bento XVI estaria sendo traído por Mons. Guido Pozzo:

Ora, é fato que existe uma parte da cúria romana que é inimiga dos acordos com a FSSPX e da exclusividade do IBP, e quem garante que as palavras escritas pelo monsenhor Pozzo é a vontade do Papa?

(…)

A vontade do Monsenhor Pozzo não é a vontade do Papa, ele só está jogando verde para ver se colhe maduro, como outrora fez o cardial Bertoni, é jogo político da cúria, senhores, só quem viveu lá conhece como funciona.

http://www.montfort.org.br/index.php/secoes/cartas/comentario-tratativas-acordo-fsspx/

Antes de acusar Mons. Guido Pozzo de agir contra a vontade do papa, seria interessante nos perguntarmos quem ele é. Vejamos:

Em primeiro lugar devemos observar que as ideias de Mons. Guido Pozzo estão muito bem alinhadas com a “hermenêutica da continuidade” de Bento XVI.

Depois, devemos recordar que Mons. Guido Pozzo entrou para a Congregação para a Doutrina da Fé em 1987 sendo, portanto, muito bem conhecido por Bento XVI. Como resultado desta confiança, ele foi nomeado em 2009, pelo próprio Bento XVI, como secretário da comissão Ecclesia Dei, que é a responsável por tratar o assunto dos tradicionalistas. E foi exatamente na condição de secretário desta comissão que Mons. Guido Pozzo se dirigiu ao Pe. Laguérie. Finalmente, Mons. Guido Pozzo fez parte da comissão do Vaticano durante as conversações teológicas com a FSSPX. Teria sido colocado nesta comissão, escolhida pelo papa para representar o Vaticano, alguém que não fosse de sua inteira confiança, alguém que não estivesse com as ideias extremamente alinhadas com as suas?

Então, para quem não vive no mundo da fantasia, como o pessoal da Montfort, fica fácil entender que Mons. Guido Pozzo é homem de confiança de Bento XVI. Do contrário, o papa não o colocaria em funções tão importantes. Ou, pelo menos o teria tirado depois de tais afirmações que ameaçam o IBP.

Em última hipótese, na qual não acreditamos, se o papa não tivesse força nem para escolher os cargos de confiança, então o tiro no pé dos acordistas teria sido dado por eles mesmos. Afinal, que garantias teria a FSSPX em um acordo se o papa não tem o menor poder de defender os católicos tradicionais? Por tudo isso é que as ideias lunáticas da Montfort não se sustentam.

Mas as promessas atuais são muito boas!”

É claro que as promessas atuais são boas. As do passado, que já foram quebradas, também eram. E não poderiam ser diferentes, do contrário não enganariam ninguém.

Afinal de contas, o que poderíamos querer? Por acaso o sequestrador explica para a criança tudo o que pretende fazer a fim de convencê-la a se deixar raptar? Ou, antes, esconde ao máximo suas intenções, promete-lhe algum brinquedo ou um pirulito colorido a fim de convencê-la a acompanhá-lo?

Não importa o quanto uma promessa seja boa se quem a faz já demonstrou que não cumpre o que promete. Acreditar em mentirosos públicos e contumazes é loucura, imprudência, suicídio.

Conclusão

Como podemos constatar, através de vários exemplos, antigos e atuais, as promessas da Roma modernista mudam com as fases da Lua (ou seria com o vento?). As promessas das autoridades modernistas são, como escreveu o poeta Vinícius de Morais, “eternas enquanto duram”. Ou melhor, são eternas enquanto lhes interessa para enganar os tradicionalistas ingênuos. Depois, quando eles já caíram na teia da aranha, as promessas perdem o valor e são lançadas ao cesto de lixo. Como confiar nestas pessoas? Já esmagaram as resistências no passado e estão fazendo isto no presente. Vão parar de fazer no futuro? Nada indica isto.

Nunca na vida eu tive tanta vontade de estar errado como agora. Será ótimo se, passados alguns anos, constatarmos que nossas apreensões eram vãs. Mas nada indica isto. A prudência está sendo pisoteada. Na década de sessenta o otimismo cego de João XXIII conduziu à tragédia do Vaticano II. Hoje, os “profetas de desgraças” são mais uma vez silenciados. Sabemos que a vitória final será da Igreja, mas por que provações teremos que passar! Kyrie Eleison!