Algumas perguntas aos acordistas

Este artigo não deixa de ser uma continuação do anterior, em que expusemos alguns motivos para sermos contrários a um acordo. Vamos apenas mudar o método.

Os acordistas, há algum tempo, fizeram um série de dez perguntas provocativas endereçadas aos que são contrários ao suicídio, quer dizer, acordo prático. Estas já foram devidamente respondidas. Pois bem, agora é a nossa vez de fazermos dez perguntas aos acordistas. Não é que não existam outras, mas estas nos pareceram mais interessantes.

Com a finalidade de evitar respostas prontas, fáceis de se escaparem pela tangente, as perguntas vão acompanhadas de argumentação que fundamente os nossos questionamentos.

Primeira pergunta

Por que os acordistas insistem tanto que os contrários ao acordo devem recorrer somente à oração e não agir de forma alguma, não manifestar suas legítimas preocupações, não exigir explicações daqueles que colocam em risco a maior obra da resistência tradicionalista?

Se fosse mesmo verdade que a oração dispensasse a ação, por que eles não dão o exemplo? Por que eles querem um acordo que vai nos sujeitar aos mesmos riscos de todas as comunidades Ecclesia Dei que foram engolidas pelo monstro conciliar? Não seria mais coerente com o que eles pregam se eles recorressem somente à oração para resolver o problema do modernismo?

Será que eles acham as pessoas idiotas ao ponto de acreditarem que são obrigadas a ficar quietas enquanto eles agem livremente?

(Nota: não estamos, de forma alguma, desvalorizando a oração. Estamos apenas apontando a hipocrisia daqueles que nos mandam apenas rezar sem agir contra o acordismo, ao mesmo tempo em que eles agem livremente no sentido contrário.)

Segunda pergunta

Por que os acordistas fazem tanta menção à graça de estado das autoridades? Será que Ário, Nestório,  Miguel Cerulário, Lutero, e outros não possuíam graça de estado? E Chardin, Rahner, Chenu, Congar, von Balthasar, Kasper,  Müller, não têm/tinham graça de estado?

É tão difícil entender que a graça de estado é um auxílio especial que Deus concede aos clérigos para cumprirem sua missão de pastores de almas, mas que pode ser rejeitada pelo homem? Não fosse assim, jamais se teria visto um religioso trair sua missão. A história prova o contrário com abundância de exemplos.

Terceira pergunta

Por que se agradece tanto a Bento XVI pelos “presentes” recebidos, a saber, o motu proprio, o levantamento das excomunhões e as discussões doutrinais?

Vejamos primeiro o motu proprio Summorum Pontificum. Através dele, a missa bastarda, simulação de uma ceia, fabricada pelo maçom Bugnini com a ajuda de protestantes, duramente criticada pelo zeloso cardeal Ottaviani, tornou-se a “forma ordinária” do rito romano, enquanto que a verdadeira Missa, a Missa Tridentina, tornou-se a “forma extra-ordinária”. Desde quando a esposa deve ficar feliz por ser apenas admitida em casa enquanto que a concubina ocupa seu lugar?

O levantamento das “excomunhões” significaria que elas eram válidas. O que deveria ter ocorrido é a declaração de nulidade, desde o princípio, de todo o simulacro de excomunhão, pois somente assim se faria justiça aos grandes bispos que salvaram a Tradição. E esta justiça jamais poderia ser feita sem citar, explicitamente, a inocência de Dom Lefebvre e de Dom Antônio. Façamos uma comparação. Uma casa estava em chamas, e dentro dela crianças gritavam por socorro. Um homem que passava pela rua, arromba a porta e salva as crianças. Em vez de ser condecorado, ele é processado por invasão de domicílio. Muito tempo depois, uma autoridade resolve “perdoá-lo” por ter invadido a casa. Ora, ele jamais deveria ter sido levado a julgamento. Mas, uma vez que este absurdo foi cometido, a única sentença justa seria a absolvição por estado de necessidade. O exemplo é bem tosco, reconheço, mas a história das “excomunhões” dos bispos tradicionalistas não é menos surreal.

E as discussões teológicas, serviram para que, senão para provar o quanto não há concordância doutrinal entre a Tradição Católica e os seguidores da nova religião do Vaticano II. A bem da verdade, concedo que, para quem lê as entrelinhas, o simples fato de se colocar o Vaticano II em discussão já prova que o mesmo não tem o valor de magistério eclesiástico. Jamais se admitiria colocar em discussão um legítimo concílio da Igreja. No entanto, do que adianta condenar o concílio nas entrelinhas e idolatrá-lo através dos megafones? Além do mais, as pessoas que se dão ao trabalho de entender o que representa colocar o Vaticano II em discussão são as mesmas que se dão ao trabalho de estudar os textos críticos que provam, através da razão iluminada pela fé, que o Vaticano II rompeu gravemente com a doutrina católica. A grande massa que é manipulada pelos modernistas continua no mesmo transe, com ou sem discussões doutrinais.

Portanto, no fundo, estes presentes romanos são verdadeiros “presentes de grego”.

Quarta pergunta

Por que Dom Fellay utilizou-se da parábola do joio no meio do trigo em sua carta aos outros três bispos? Entende-se facilmente que ela não se aplica ao caso do acordo. Grosso modo, esta parábola nos ensina que não devemos realizar justiça por conta própria, porque poderíamos cometer um erro e condenar um inocente. Mas ela não diz que se deve procurar conviver com pessoas que não possuem a Fé verdadeira. Muito menos estar subordinado a estas pessoas.

Pelo contrário, é outro trecho da Sagrada Escritura que deve ser lembrado: “se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em casa. Digo-o, não o recebais em casa e nem o cumprimenteis, pois quem o faz toma parte em suas obras más” (2Jo 1,10). A igreja conciliar está repleta de prelados sem fé, de homens que apostataram e que não somente não trazem consigo a doutrina católica, mas a combatem abertamente. É com eles que os acordistas querem estar em comunhão? A situação, como se vê, é muitíssimo diferente daquela parábola sofisticamente evocada por Dom Fellay.

Quinta pergunta

Se é para citar as Sagradas Escrituras, então por que não nos lembramos deste versículo: “quem ama o perigo nele perecerá” (Ecli 3,27)? Todos os que fizeram acordos com a roma conciliar foram traídos e destroçados. Querem perigo maior do que este? Por que os acordistas não se lembram deste trecho?

Sexta pergunta

Por que os acordistas insistem no fato de que a entrevista de Dom Fellay ao Catholic News Service, foi editada? Por acaso, frases como “o concílio apresenta a liberdade religiosa como muito, muito limitada. Muito limitada.”, ou “muitos dos erros que nós atribuíamos ao concílio, na realidade não são do concílio, mas sim do entendimento comum do concílio” não foram ditas por Dom Fellay durante esta entrevista?

Sim, estas frases foram ditas inteiras, não foram montadas, e são claramente contrárias à verdade. São nada mais do que os slogans neo-conservadores que foram repetidos por Dom Fellay. Por mais que a entrevista tenha sido recortada, estas frases foram ditas inteiras por Dom Fellay. O que os acordistas vão dizer? Que elas foram tiradas do contexto? Ora, qual seria o contexto que as tornaria corretas? Nenhum! A estratégia deles já está se aproximando da carismática: quando falam uma enorme besteira, a culpa é sempre de quem  retirou a frase do contexto.

Sétima pergunta

A propaganda acordista afirma que a FSSPX “regularizada” poderia desempenhar um apostolado eficaz entre as pessoas que estão sendo enganadas pelos modernistas. Pois bem, vamos sair do mundo da fantasia e voltar para o mundo real. Quais são, concretamente, as atividades que se pretenderia desenvolver dentro de uma diocese tomada pelo modernismo? Não vale usar termos genéricos. Vamos descrever o passo a passo. Poderia a FSSPX “regularizada” entrar em uma igreja modernista e pregar a verdadeira doutrina da Igreja? Poderiam eles condenar os erros modernos em tal igreja? E ensinar a moral católica, condenando os erros que o próprio pároco daquela igreja ensina? A resposta, obviamente, é não. Então, por que há lunáticos que insistem que o apostolado da FSSPX “regularizada” seria eficaz? A verdade é bem o contrário: a “regularização” somente serviria para silenciar a FSSPX, como já comprovou o nosso grande herói, Dom Fellay, ao admitir que não seria permitido abrir novas capelas sem autorização do bispo local.

Oitava pergunta

Dom Müller é um bispo, digamos, “pouco ortodoxo”. E também detesta a FSSPX. Quem foi que nomeou Dom Müller para prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé?

Esta é a pergunta mais difícil de todas. Não porque não se conheça a resposta. Mas, para os acordistas que não querem enxergar a realidade, respondê-la seria admitir a enorme enganação que se está promovendo atualmente contra os católicos tradicionais.

Nona pergunta

Se os modernistas que odeiam a FSSPX são tão favorecidos por Bento XVI, então, como contrapartida, pelo menos os mais conservadores devem ser amigos da FSSPX, certo? Só se forem “amigos da onça”, como se diz na linguagem popular. Vejamos Dom Di Nóia, vice-prefeito da Comissão Ecclesia Dei. O mesmo reconhece que os tradicionalistas não admitiriam, de imediato, o pensamento conciliar e, por isso, deve haver paciência para conseguir convencê-los. Traduzindo: seja descaradamente, como Dom Müller, ou dissimuladamente, como Dom Di Nóia, o objetivo deles sempre é o mesmo, sempre o de fazer os católicos tradicionais abraçarem os erros do concílio.

Décima pergunta 

Finalmente, mas não menos importante, o que os acordistas têm a dizer sobre a mensagem de Nossa Senhora de La Salette: “Roma perderá a Fé e se tornará a sede do anticristo”? 

O cumprimento desta profecia é evidentíssimo. Então, por que há tanta insistência em acusar de sedevacantista, de cismático ou até mesmo de protestante, aqueles que não se tornaram cegos voluntários e, assim, percebem o quanto as autoridades eclesiásticas estão afastada da verdadeira fé? Não sabem que é pecar grave levantar falsa acusação? Os acordistas não percebem que estão tomando o mesmo caminho dos neo-conservadores?