Onde é que tudo isto vai parar?

O título deste artigo poderia muito bem se aplicar a uma infinidade de questões atuais. Mas vou centrar o foco em apenas duas bem recentes.

A primeira é a forma como o Cristianismo tem sido perseguido no mundo atual. Depois que a maravilhosa primavera inaugurada pelo Vaticano II doutrinou os católicos a não mais enxergarem no “mundo” um de nossos inimigos, ao lado do demônio e da carne, só aumenta a passividade com que os filhos da Igreja veem sua Mãe atacada e não fazem nada para defendê-la. Veem Deus ser insultado e continuam no conforto sem dizer uma palavra em defesa d’Aquele a Quem tudo devem.

Por que os seguidores das falsas religiões respondem tão prontamente a qualquer coisa que se diga contra eles, mesmo que seja a mais pura verdade, e os seguidores da verdadeira religião já não mais se importam com ela? É claro que não devemos imitar as atrocidades dos selvagens que matam aqueles que discordam deles, mas também não devemos nos calar quando a verdadeira e santa religião é atacada.

Os ataques ao Cristianismo são inúmeros ao redor do mundo. Nas terras dos infiéis, os cristãos são massacrados. Nas terras do ocidente, outrora cristão, o Cristianismo é atacado por meio de leis iníquas, afrontas públicas e pela impressa dita imparcial.

O episódio de desrespeito mais recente foi a publicação de uma revista em que uma imagem de Cristo crucificado foi editada com a foto de um jogador. Ninguém precisa sair por aí matando, como fazem os selvagens. Mas, civilizadamente, podemos e devemos nos opor a todo vilipêndio contra a nossa religião. E meios para isto não faltam, desde a publicação  de nosso repúdio nos blogs, até a assinatura de uma petição pública contra este ato blasfemo e de profundo desrespeito: http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N29501

Se não fizermos nada agora, o que poderemos esperar do futuro? E, muito mais que isto, como seremos recebidos na hora da nossa morte por Aquele a quem vimos ser ultrajado e permanecemos em um silêncio cúmplice?

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Enquanto o mundo nos ataca, como sempre fez, aqueles que deveriam defender a Tradição Católica continuam nos decepcionando e fazendo o jogo dos inimigos infiltrados.

A Tradição estava recuperando espaço, progredindo, tornando-se conhecida dos jovens, até que Dom Fellay teve a brilhante ideia de achar que Bento XVI quer a restauração da Igreja. Confesso que, por inexperiência e por ser induzido pela Montfort, também cheguei a acreditar nisto. Porém, basta analisar as atitudes e palavras de Bento XVI, de hoje e de todo seu passado, para entender que ele não vai restaurar a Igreja.

Dom Fellay errou, sem dúvida nenhuma. Ele quer se corrigir? Ótimo, que se corrija de todos os erros e que desfaça o mal que fez. Este é o único caminho para apaziguar os ânimos e nos dar alguma segurança. Agora, O que nós não podemos aceitar é que venham nos dizer que em nenhum momento Dom Fellay esteve prestes a assinar um acordo. As provas são várias. Por exemplo, ele mesmo escreveu, com todas as letras, que Dom Lefebvre assinaria o acordo nas atuais circunstâncias. Já expusemos muitas outras palavras que eles escreveram ou disseram e que demonstram o quanto estavam prontos para assinar. Então ninguém, com simples afirmações, vai nos convencer do contrário.

E, pior do que achar que somos idiotas, é atacar aqueles que se opuseram publicamente a Dom Fellay. E foi exatamente isto o que Dom Lourenço Fleichmann fez em seu último artigo.

Vamos ler exatamente o que Dom Lourenço escreveu em acusação a Mons. Williamson:

Em seu Comentário Eléison 268, Dom Williamson deturpa o texto dessas condições. Para o leitor distraído, o bispo parece ter razão, pois os verbos usados por ele, junto com suas explicações, tornam o texto das condições inaceitáveis.

No longer “Rome must convert because Truth is absolute”, but now merely “The SSPX demands freedom for itself to tell the Truth.” Instead of attacking the Conciliar treachery, the SSPX now wants the traitors to give it permission to tell the Truth ? “O, what a fall was there !”

O advérbio “merely” obriga a tradução de “demands”  por “pede”. Isso porque, se a tradução de Mons. Williamson fosse “exige”, não caberia dizer que a Fraternidade “apenas” exige.  Isso vem confirmado pelo “wants the traitors”.  Em português, ficaria assim:

Já não é mais “Roma que deve converter-se porque a Verdade é absoluta”. Mas agora apenas a Fraternidade pede a liberdade para ela mesma dizer a Verdade. Em vez de atacar a traição Conciliar, a Fraternidade SPX solicita agora aos traidores que deem permissão de dizer a Verdade. Ah! Que queda foi essa?”

Ora, o texto francês da carta não diz isso! É diferente dizer “s´impose… reclame”, de dizer “pede, solicita”. Francamente, o pior cego é o que não quer ver.  A malícia do texto é patente!

A conclusão de Dom Lourenço é clara: ele acusa abertamente Mons. Williamson de malícia patente e de deturpar o texto que analisava. O “pequeno” problema é que a deturpação quem fez foi Dom Lourenço.

Tudo gira em torna da tradução que ele escolheu para o verbo “to demand”. Para Dom Lourenço, este verbo deveria ser traduzido por “pedir”, porque alguém pode “apenas pedir”, mas não pode “apenas exigir”. E, como o texto original, em francês, usava o equivalente a “exigir”, logo, Mons. Williamson seria um falsificador, deturpador, rebelde que induz as pessoas com o inocente superior geral.

Este foi o esboço de raciocínio que Dom Lourenço tentou fazer. Vamos mostrar onde está o erro dele.

Quem lê o texto todo de Mons. Williamson, percebe que ele está confrontado a visão de Dom Lefebvre com a atual de Dom Fellay. Por isto, ele coloca entre aspas os textos de cada um deles. Dom Lourenço conseguiu, em sua interpretação, colocar o advérbio “merely” dentro da segunda frase, o que não estava no texto original. Ora, o texto de Mons. Wiliamson só pode ser entendido com a comparação entre as duas frases: “Roma deve se converter porque a Verdade é absoluta” e “A FSSPX exige liberdade para ela mesma dizer a Verdade”. Fica claríssimo, para qualquer pessoa com o mínimo de boa vontade, que a primeira frase é muito mais exigente que a segunda. Os destaques, que existem no texto de Mons. Williamson mas que foram retirados da citação feita por Dom Lourenço, enfatizam este contraste. Antes se lutava para que as autoridade romanas se convertessem mas, agora, Dom Fellay “exige apenas”, como condição para um acordo, que a própria FSSPX possa dizer a verdade. Como se percebe, o verbo usado por Mons. Williamson continua sendo “exigir”, tal como o texto que cita e, portanto, não houve nenhuma falsificação da parte dele. Será que Dom Lourenço não consegue entender que alguém pode exigir muita coisa ou “exigir apenas” um pouco? E que diferença faz a posição do advérbio. O joguinho de palavras que ele fez é tão ridículo que um aluno de ensino médio consegue desmascarar. E o pior é que foi usado para insultar um nobre e digno defensor da Fé.

 Tudo o que ficou dito fica claro ao se ler o parágrafo todo em que Mons. Williamson compara a posição de Dom Lefebvre e a Dom Fellay:

The first “essential requirement” is freedom for the Society to teach the unchanging truth of Catholic Tradition, and to criticize those responsible for the errors of modernism, liberalism and Vatican II. Well and good. But notice how the Chapter’s vision has changed from that of Archbishop Lefebvre. No longer “Rome must convert because Truth is absolute”, but now merely “The SSPX demands freedom for itself to tell the Truth.” Instead of attacking the Conciliar treachery, the SSPX now wants the traitors to give it permission to tell the Truth ? “O, what a fall was there !”

Existem outras coisas que poderíamos refutar no artigo. Talvez eu o faça. Mas, para não alongar ainda mais esta discussão, acho que o que ficou dito já demonstra a má vontade de Dom Lourenço para com Mons. Williamson. E a própria linguagem do texto, cheias de ofensas, já prova quem está dividindo a Tradição. Queremos a paz, sim. Queremos a Tradição unida, sim. Mas isto não pode ser feito às custas da verdade.

Em vez de ocultar os erros dos superiores, vamos trabalhar para corrigi-los e para trazer verdadeira paz e concórdia para a Tradição. Todos estamos cansados desta confusão, desta luta fratricida, e queremos voltar ao combate contra os verdadeiros inimigos. Mas, se continuarmos fingindo que o acordo, tal como foi desejado, não é uma ameaça, se não desfizermos todos os erros do acordismo e se não retomarmos o caminho que estávamos antes de toda esta história, podemos perguntar: onde é que tudo isto vai parar?