Jamais podemos criticar um sacerdote?

Um trecho do livro “O diálogo”, de Santa Catarina de Sena, muitas vezes é utilizado para se propagar a ideia de que nenhuma crítica pode ser feita aos sacerdotes. A seguir, reproduzimos as partes mais relevantes o referido trecho (os destaques são nossos):

28.3 – O RESPEITO DEVIDO AOS SACERDOTES

Filha querida, ao manifestar-te a grande virtude daqueles pastores, quero colocar em evidência a dignidade dos meus ministros. (…)

28.3.1 – VISÃO SOBRE O PAPA
Na terra, quem possui a chave do sangue é o Cristo-na-terra[1]. Certa vez eu te manifestei essa verdade numa visão, para indicar o grande respeito que os leigos devem ter pelos ministros, bons ou maus que eles sejam, e quanto Me desagrada que alguém os ofenda. Pus diante de ti a hierarquia da Igreja sob a figura de uma despensa contendo o sangue de Meu Filho. No sangue estava a virtude de todos os sacramentos e a vida dos fiéis.
À porta daquela despensa, vias o Cristo-na-terra, encarregado de distribuir o sangue e fazer-se ajudar por outros no serviço de toda a santa Igreja. Quem ele escolhia e ungia logo se tornava ministro. Dele procedia toda a ordem clerical; ele dava a cada um sua função no ministério do glorioso sangue. E como dispunha dos seus auxiliares, possuía a força de corrigi-los nos seus defeitos.
De fato, é assim que eu quero que aconteça. Pela dignidade e autoridade confiada a meus ministros, retirei-os de qualquer sujeição aos poderes civis. A lei civil não tem poder legal para puni-los; somente o possui aquele que foi posto como senhor e ministro da lei divina.

28.3.2 – NÃO PERSEGUIR OS SACERDOTES
Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: “Não toqueis nos meus cristos” (Sl 105, 15). Quem os punir cairá na maior infelicidade. Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a Mim.
Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros; não por eles mesmos, mas pelo poder que lhes dei. Se recusardes fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. A reverência é dada a Mim e a Meu Filho encarnado, que somos uma só coisa pela união da natureza divina com a humana. Mas também o desrespeito.
Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a Mim ofende. Disto a proibição: “Não quero que mãos humanas toquem meus cristos!” Nem poderá alguém escusar-se, dizendo: “Eu não ofendo a santa Igreja, nem me revolto contra ela; apenas sou contra os defeitos dos maus pastores!” Tal pessoa mente sobre a própria cabeça. O egoísmo a cegou e não vê. Aliás, vê; mas finge não enxergar, para abafar a voz da consciência.
Ela compreende muito bem que está perseguindo o sangue do Meu Filho e não os pastores. Nestas coisas, injúria ou ato de reverência dirigem-se a Mim. Qualquer injúria: caçoadas, traições, afrontas. Já disse e repito: não quero que Meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros. No entanto, homens ímpios continuam a revelar a irreverência que têm pelo sangue de Cristo, o pouco apreço que possuem pelo amado tesouro que deixei para a vida e santificação de suas almas. Não poderíeis ter recebido maior presente que o todo-Deus e todo-Homem como alimento. Cada vez que o conceito relativo aos meus ministros não coloca em Mim sua principal justificativa, torna-se inconsistente e a pessoa neles vê somente muitos defeitos e pecados. De tais defeitos falarei em outro lugar (28.6).
Mas quando o respeito se fundamenta em Mim, jamais desaparece, mesmo diante de defeitos nos ministros; como disse (28.2.1), a grandeza da eucaristia não é diminuída por causa dos pecados. A veneração pelos sacerdotes não pode cessar; se tal coisa acontecer, sinto-me ofendido.

28.3.3 – O GRANDE PECADO DOS PERSEGUIDORES
São muitas as razões que fazem desta ofensa a mais grave. Vou lembrar apenas três.
A primeira é porque os perseguidores agem contra Mim em tudo o que fazem em oposição aos meus ministros.
A segunda é porque desobedecem àquela ordem pela qual proibi que meus sacerdotes fossem tocados. Ao persegui-los, os homens desprezam a riqueza do sangue de Cristo recebida no batismo. Desrespeitando o sangue de Jesus e perseguindo os ministros, rebelam-se e tornam-se membros apodrecidos, separados da hierarquia eclesiástica.
(…)
A terceira razão pela qual este pecado é o mais grave está no seguinte: é uma falta maldosa e deliberada. Os perseguidores têm consciência de que o não devem cometer, sabem que vão pecar; cometem um ato de orgulho, em que não entram atrações sensíveis, muito pelo contrário.
(…)
Já no pecado de perseguição contra a santa Igreja, Sou ofendido diretamente. Os outros vícios possuem uma justificativa, uma razão intermediária. Já afirmei que todo pecado e virtude são feitos no próximo (2.6). O pecado é ausência de amor por Mim e pelos homens; a virtude é amor caritativo.
Neste pecado, os maus perseguem o próprio sangue de Cristo ao se investirem contra meus ministros, e privam-se de sua riqueza espiritual.
(…)
Falei-te de tudo isso para dar-te motivo de maior preocupação, seja por causa do pecado com que me ofendem, seja pela condenação eterna dos infelizes perseguidores. (…)
Filha querida, chora profundamente diante dessa cegueira e miséria. São homens que, como tu, foram lavados no sangue; que se nutriram no sangue; que cresceram no seio da santa Igreja. Agora, revoltados, abandonaram-na, sob pretexto de corrigir os defeitos dos meus ministros. Eu já proibira tal comportamento, dizendo: “Não quero que meus ministros sejam ofendidos”. Autêntico terror deveria apossar-se de ti e dos demais servidores meus, quando ouvis falar de semelhantes alianças. Tua linguagem é insuficiente para referir quanto as abomino.
O pior é que tais pessoas procuram encobrir seus defeitos sob o manto dos defeitos dos meus ministros. (…)
Arruinaram-se, vivem nas trevas, perseguindo cegamente a Cristo.
Em suma, ninguém deveria perseguir meus sacerdotes por causa de defeitos seus!

Lendo estes escritos, percebemos claramente o enorme crime daqueles que perseguem os sacerdotes.

Mas, quando nos deparamos com sacerdotes tão depravados, tão heréticos, que causam tanto mal à Igreja, não podemos deixar de levantar a questão: somos obrigados a manter silêncio respeitoso quanto a eles? Podem estes destruir impunemente a obra dos bons católicos e tudo o que nós podemos fazer é ficar assistindo e rezando? Uma leitura apressada do livro de santa Catarina poderia nos conduzir a pensar assim, mas um estudo mais atento nos mostrará o contrário.

O primeiro ponto que devemos destacar é que o texto condena a perseguição à Igreja de Cristo. A perseguição aos sacerdotes católicos não é mais do que resultado do ódio ao próprio Cristo. Percebam no texto o quanto são enfatizados os termos perseguidores e perseguição. As condenações são lançadas contra aqueles que perseguem os sacerdotes.

Acima de tudo, deve-se notar que o texto condena aquelas pessoas que perseguem os sacerdotes baseados em seus defeitos.  E esta é outra palavra recorrente no texto. Certamente que devemos concordar com tal condenação. Pois não cabe ao inferior julgar o superior, nem ofendê-lo, nem caçoar dele. Também não cabe ao inferior corrigir os erros do superior. São os superiores dele que o devem fazer.

Não cabe ao leigo comentar os defeitos pessoais dos sacerdotes. Se se deve respeito ao pai biológico, tanto mais se deve ao pai espiritual. Que importa se um sacerdote tem o vício da embriaguez, ou da preguiça, ou da maledicência, ou da intemperança? Não serão as críticas dos leigos que o farão se corrigir. Pelo contrário, somente se levanta escândalo ao se murmurar tais defeitos.

Além disto, grande deve ser a nossa consideração e gratidão com os sacerdotes que nos dão os sacramentos e nos ensinam a sã doutrina. Eles abandonaram prazer, riqueza, família para estar ao nosso serviço. E o que recebem em troca? Críticas mesquinhas por seus defeitos pessoais?

Aqui, neste ponto, fazemos a pergunta que dá título a este artigo: então, jamais podemos criticar um sacerdote?

Pelo que se lê claramente no texto de Santa Catarina, a condenação se dirige àquelas pessoas que criticam e perseguem os sacerdotes por conta de seus defeitos. A última frase do texto sintetiza todo seu conteúdo: “Em suma, ninguém deveria perseguir meus sacerdotes por causa de defeitos seus!” No entanto, algo muito diferente de defeitos, aos quais todos os seres humanos estão sujeitos, é a heresia e a apostasia da fé. Em nenhuma parte do texto se diz que não se pode combater o herege e o apóstata.

E nem poderia haver, pois os ensinamentos dos doutores e teólogos, corroborados pela história da Igreja, demonstram claramente o contrário. Em todas as épocas, os hereges foram combatidos, independente de qual dignidade sacerdotal estivessem revestidos.

E não nos é nada difícil trazer citações que provem estas afirmações. Vejamos algumas.

Comecemos por Santo Tomás de Aquino, o qual ensina com toda clareza:

“Havendo perigo próximo para a fé, os prelados devem ser argüidos, até mesmo publicamente, pelos súditos” (Sum. Teol. II-II.ª, XXXIII, IV, ad2).

É muito fácil perceber, destas palavras, que nós temos a obrigação de defender a Fé, chegando mesmo a contestar publicamente as autoridades eclesiásticas que colocarem a Fé em perigo.

Vejamos agora o que disse o Papa Adriano II:

”Honório foi anatematizado pelos Orientais; mas deve-se recordar que foi acusado de heresia, único crime que torna legítima a resistência dos inferiores aos superiores, bem como a rejeição de suas doutrinas perniciosas’‘ ( Alloc. III, lect. in Conc. VIII, act. VII – citado por Billot, Tract. ” De Ecclesia Christi”, tom. I, p. 619).

Tal é a natureza da heresia, crime tão grande contra a Fé, que em nada se assemelha a simples defeitos, tornando legítima a resistência dos inferiores contra os superiores.

E de tal modo é se deve defender a Igreja, que até mesmo um papa que atentasse contra ela deveria ser combatido. Tal é o ensinamento de outros grandes teólogos da Igreja:

São Roberto Belarmino: ”… Assim como é lícito resistir ao Pontífice que agride o corpo, assim também é lícito resistir ao que agride as almas, ou que perturba a ordem civil, ou, sobretudo, aquele que tentasse destruir a Igreja. Digo que é lícito resistir-lhe não fazendo o que ordena e impedindo a execução de sua vontade” (De Romano Pontifice, Lib. II c. 29).

Caetano: ”Deve-se resistir em face ao Papa que publicamente destrói a Igreja”. ” A razão é que ele não tem poder para destruir a Igreja; portanto, se o faz, é lícito resistir-lhe.” ( citado por Vitória – Obras de Francisco Vitória, pp. 486-487).

Na época em que foram escritos estes textos, tratava-se apenas de uma hipótese teológica. Mas, depois do Vaticano II, assistimos a estes tristes episódios de desolação promovidos até mesmo por pontífices. Quem, sendo católico, pode omitir-se do dever de resistir-lhes?

Tão grande é o dever de defender a Igreja de qualquer autoridade que abuse de seu poder, que Deus quis que ficasse registrado nas próprias Escrituras Sagradas o exemplo de São Paulo resistindo a São Pedro. O Apóstolo dos gentios não temeu repreender publicamente o primeiro papa quando este deu motivo de escândalo para os fiéis. “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe em face, porque era censurável” (Gal 2,11). O que São Pedro fizera, se comparado com o que tantos sacerdotes fizeram e fazem, não era nada. Mas, por haver risco de escândalo, São Paulo não deixou de censurá-lo. E ainda há quem queira nos convencer de que devemos silenciar diante das verdadeiras traições que tantos sacerdotes cometem?

Portanto, uma abissal diferença existe entre criticar levianamente os defeitos pessoais de um sacerdote e opor-se aos erros contra a Fé promovidos por alguém, ainda que consagrado. A situação se inverte completamente. A crítica leviana aos defeitos dos sacerdotes é um pecado enorme, e bem fazemos ao nos calarmos quanto a eles. Já quando denunciamos e combatemos um herege, defendemos a Fé e, aqui, calar é que seria o pecado.

O defeito que um ser humano possua, ainda que sacerdote, deve ser corrigido em espírito de caridade por seu superior. O inferior, que se cale e reze. Zombar dos defeitos alheios e espalhar difamações contra alguém, além de ser crime na lei dos homens, é um pecado grave, multiplicado ainda mais em gravidade se a vítima se reveste da dignidade sacerdotal.

A heresia, que leva à condenação eterna, é um pecado de muito maior gravidade que qualquer defeito pessoal, e deve ser sempre combatida. Que não temamos denunciar publicamente o herege, por mais alta que seja a dignidade da qual ele tenha sido revestido. Certo é que são as autoridades eclesiásticas responsáveis primeiras por zelar pela ortodoxia. No entanto, falhando estas, é a todo e qualquer fiel que cabe defender a Fé contra o erro. Quando é a Igreja que está sendo atacada, já não nos é lícito silenciar o crime dos grandes sob a desculpa de nossa pequenez.

Conclusão

Tendo bem em vista esta diferença, não tenhamos medo de defender a ortodoxia quando esta for atacada, ainda que seja por sacerdotes.

Certamente que preferiríamos sempre receber pacificamente a doutrina e os sacramentos dos sacerdotes, tê-los sempre como pais espirituais, e nos mantermos em silêncio. Mas, como em todas as épocas, há sacerdotes que se desviam da sã doutrina e, especialmente na atual confusão, em que a alta hierarquia não combate, antes incentiva o erro, nós somos chamados a defender a Fé verdadeira.

Esta Fé, sem a qual  ninguém se salva, está acima de qualquer autoridade e de qualquer dignidade sacerdotal. Se estes sacerdotes, que deveriam ser guardiões da Fé, acabam se tornando seus inimigos, o que nos resta senão defender a nossa santa religião contra aqueles dignitários que a traíram?

Um comentário em “Jamais podemos criticar um sacerdote?

  1. […] luanhenriquepo janeiro 17, 2013 0 Postado por: Luan Henrique Compartilhado por: Pe. José Carlos Pereira de Carvalho Fonte: https://intribulationepatientes.wordpress.com/2013/01/13/jamais-podemos-criticar-um-sacerdote/ […]

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