O golpe de mestre de satanás

Dom Marcel Lefebvre, em seu livro “O golpe de mestre de Satanás”, desmascarou com grande realismo a estratégia modernista para perversão da Igreja. E o golpe de mestre não foi outro senão o de fazer os católicos seguirem uma autoridade corrompida através de uma obediência cega. Este livro merece ser lido na íntegra, pois desmonta toda falácia daqueles que se dizem tradicionais e ainda querem nos fazer crer que devemos obedecer cegamente as autoridades corrompidas. De qualquer forma, gostaria de fazer algumas longas citações do livro (os destaques são meus):

É preciso reconhecer que a trapaça foi bem feita e que a mentira de Satanás foi utilizada maravilhosamente. A Igreja vai destruir a si mesma por via da obediência. A Igreja vai se converter ao mundo herege, judeu, pagão, pela obediência, mediante uma Liturgia equívoca, um catecismo ambíguo e cheio de omissões e de novas instituições baseadas sobre princípios democráticos.

As ordens, as contra-ordens, as circulares, as constituições, as cartas pastorais serão tão bem manipuladas, tão bem orquestradas, mantidas pela onipotência dos meios de comunicação social, pelo que resta dos movimentos da Ação Católica, todos marxizados, que todos os fiéis honrados e os bons sacerdotes repetirão com o coração quebrado mas consentindo: Temos que obedecer! A quem, a que? Não se sabe exatamente: à Santa Sé, ao Concílio, às Comissões, às Conferências Episcopais? Qualquer um aqui se perde como nos livros litúrgicos, nos ordos diocesanos, na emaranhada bagunça dos catecismos, das orações do tempo atual, etcétera. Temos que obedecer, com perigo de se tornar protestante, marxista, ateu, budista, indiferente, pouco importa! temos que obedecer através das negações dos sacerdotes, da inoperância dos Bispos, salvo para condenar àqueles que querem conservar a Fé, através do matrimônio dos consagrados a Deus, da comunhão aos divorciados, da inter-comunhão com os hereges, etc. Temos que obedecer! Os seminários se esvaziam e são vendidos como os noviciados, as casas religiosas e as escolas; se saqueiam os tesouros da Igreja, os sacerdotes se secularizam e se profanam em sua vestimenta, em sua linguagem, em sua alma!… temos que obedecer. Roma, as Conferências Episcopais, o Sínodo presbiterial o querem. É o que todos os ecos das Igrejas, dos jornais, das revistas repetem: aggiornamento, abertura ao mundo. Desgraçado seja aquele que não consente. Tem direito a ser pisoteado, caluniado, privado de tudo o que lhe permitiria viver. É um herege, é um cismático, que merece unicamente a morte. (…)

Já é tempo de encontrar novamente o senso comum da fé, de reencontrar a verdadeira obediência à verdadeira Igreja, oculta sob essa falsa máscara do equívoco e da mentira. (…)

Que não nos tachem de rebeldes ou orgulhosos, porque não somos nós os que julgamos, senão que Pedro mesmo quem como Sucessor de Pedro condena o que ele por outro lado fomenta, é a Roma eterna a que condena a Roma temporal. Nós preferimos obedecer a eterna. (…)

Somos incriminados porque escolhemos a suposta via da desobediência. Mas trata-se de entender precisamente sobre o que é a via da desobediência. Penso que podemos em verdade dizer que se escolhemos a via da desobediência aparente, elegemos a via da obediência real. (…)

Porque não se pode dizer que se obedece hoje à autoridade desobedecendo a toda a Tradição. O sinal de nossa obediência é precisamente seguir a Tradição, esse é o sinal de nossa obediência: “Iesus Christus heri, hodie et in saecula”. Jesus Cristo ontem, hoje e por todos os séculos. (…)

Estimamos nulos todos os esforços, todos os atos, todas as contrariedades que nos vêm dele para obrigar-nos a seguir ao Paulo VI liberal e destruidor de nossa Fé; aceitamos, ao contrário, todos os atos tendentes a manter nossa Fé católica, porque na Igreja, por vontade de seu Fundador e pela natureza mesma da Igreja, tudo está ordenado à Fé, garantia da vida eterna; todos os poderes, todas as leis estão ordenadas a esse fim. Utilizar esses poderes e essas leis para a ruína da Fé e das instituições da Igreja é um evidente abuso de poder e uma aberta desobediência a Nosso Senhor. Colaborar com essa ruína, submetendo-se a um mandamento imoral, é contribuir à desobediência a Nosso Senhor.

Lefebvre, Dom Marcel; “O golpe de mestre de Satanás”.

Estas citações são suficientes para desmascarar aqueles que se dizem seguidores de Dom Lefebvre mas querem nos submeter à obediência cega. Mas, vamos nos dar ao trabalho de responder a um questionamento dos partidários de Dom Fellay:

Mas a FSSPX continua combatendo os erros modernos! Os anti-acordo erram ao dizer que a FSSPX já caiu!

Sem dúvida, grande parte da FSSPX continua combatendo os erros modernos. Nunca dissemos que o combate cessou totalmente, embora alguns membros já demonstrem claramente sua simpatia pelas ideias neo-conservadoras. Se estamos lutando tanto, é para que a FSSPX não seja silenciada por um acordo prático. Se estamos dedicando tanto do nosso tempo a este assunto é porque estamos defendendo algo que realmente merece ser defendido.

Muito embora a FSSPX, ao menos em grande parte, esteja de fato combatendo os erros modernos, não podemos nos esquecer que as comunidades Ecclesia Dei também combatiam com vigor estes erros até pouco tempo antes de suas quedas nas mãos da Roma modernista.

Vejamos o exemplo dos padres de Campos:

Em que ano foi publicado o informe doutrinário “Católicos Apostólicos Romanos”, assinado por todos os clérigos da União Sacerdotal São João Maria Vianney? Foi em 1999.

Em que ano foi publicado o livro “Quer agrade, quer desagrade”, do Padre Rifan? Também em 1999.

Em que ano foi assinado o acordo com Roma, a partir do qual todo o passado foi sistematicamente silenciado em Campos? Em 2002. Quem imaginaria que, em menos de três anos, as palavras mudariam tanto?

E o que dizer, então, da grande maioria dos bispos e padres da Igreja que se submeteram às autoridades modernistas durante e após o Vaticano II? Não havia bons bispos e padres, pastores zelosos, teólogos tradicionais, verdadeiros curas de almas, pessoas que realmente amavam a Santa Igreja? Certo que havia. Estava todo o clero corrompido? Claro que não. No entanto, sabemos o que aconteceu e a que caos chegamos.

Mas por quê? A resposta não é outra senão o falso entendimento da obediência. Em nome da obediência, muito mal compreendida, permitiu-se que os hereges e apóstatas tomassem conta da Igreja. E é sob este mesmo falso argumento que desejam o nosso silêncio a respeito da situação atual da FSSPX. Mas não terão a nossa cumplicidade! Jamais! Já aprendemos muito com os erros dos outros para cairmos nós mesmos nesta mesma armadilha da obediência cega.

E, aproveitando a menção feita ao fato de que a absoluta maioria dos bons clérigos da Igreja foi silenciada após o Vaticano II, podemos refutar outro sofisma dos acordistas. Pois houve quem defendesse o acordo prático sob o pretexto de que a FSSPX não é pequena como os outros grupos Ecclesia Dei que foram devorados pelo monstro conciliar. Simplesmente ridículo, pois o que são 550 sacerdotes perto de toda a Igreja que se silenciou há umas quatro décadas? Através da obediência cega uma autoridade corrompida foi capaz silenciar milhares e milhares de cardeais, bispos e padres. O mesmo princípio poderia ser utilizado facilmente para silenciar umas centenas deles, caso abandonassem a resistência à autoridade corrompida ao se submeter voluntariamente a ela.

De fato, o sucesso de todo apostolado tradicional no pós-concílio se deveu à resistência contra a autoridade corrompida. O fim desta resistência provocou o silenciamento de todos os que acreditaram ser possível se submeter a uma autoridade que não professa a Fé católica integralmente.

Alguns sintomas de que há quem deseje mudar os rumos da FSSPX já foram claramente demonstrados por Dom Fellay, em suas atenuações dos erros do concílio, e por seus colaboradores mais imediatos.

Os bons padres que, por exemplo, discordam de que “a liberdade religiosa defendida na Dignitatis Humanae é muito, muito limitada” podem seguir cegamente alguém que diz um disparate destes?

Para que a FSSPX continue lutando contra os inimigos da Igreja é necessário que ela não caia nesta grande armadilha da obediência cega. Rezemos para que os bons padres que ainda combatem os graves erros do Vaticano II e da missa nova não sejam arrastados ao silenciamento por meio deste falso conceito de obediência.