Dom Fellay e a demagogia do mau político

Lendo a recente entrevista que Dom Fellay concedeu à revista do distrito norte-americano da FSSPX, não há como não se lembrar dos maus políticos. A ousadia nas mentiras é a mesma. Haveria muito o que comentar da entrevista, mas o auge foi a seguinte resposta (os destaques são nossos):

Pergunta: O que o senhor diria àqueles que lhe acusam de querer – ou de ter querido – comprometer os princípios da Fraternidade relativos ao Concílio e à Igreja pós-conciliar?

Reposta de Dom Fellay: Isso é propaganda pura e simples espalhada por aqueles que querem dividir a Fraternidade. Não sei de onde eles tiraram estas ideias. Certamente, eles se aproveitaram da situação delicadíssima do ano passado para acusar o Superior de coisas que ele nunca fez e que nunca teve a intenção de fazer. Nunca tive a intenção de comprometer os princípios da Fraternidade.

Independente do que seja, façam a pergunta: para quem seria útil uma divisão da Fraternidade, senão aos seus inimigos? Estes que dividem a Fraternidade por sua dialética, deveriam refletir nos motivos de suas ações. Por estes, quero dizer Dom Williamson e os padres que o seguem.

Trecho extraído do site do Apostolado Católico Arauto da Verdade©, disponível no link: http://arautoveritatis.com/2013/06/d-bernard-fellay-fala-a-respeito-do-aniversario-de-sua-sagracao/#ixzz2VkzzoXSu
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Respondam-me com toda sinceridade: que diferença existe entre este discurso de Dom Fellay e o de um político do pior tipo? O político é filmado recebendo muitas propinas, ele enriqueceu da noite para o dia, existem diversas provas materiais e testemunhais contra ele, a sua culpa está mais do que provada e, no entanto, ele vem dizer com a maior calma, e até com fingida indignação, que é inocente e que as acusações contra ele não passam de manobra dos partidos adversários. Dom Fellay age de maneira idêntica ao negar as acusações de acordismo. “Tudo intriga da oposição!”…

Quanta demagogia! Como pode Dom Fellay ter a ousadia de dizer “não sei de onde eles tiraram estas ideias”? Pois eu lhe respondo, seu engraçadinho, de onde nós tiramos estas ideias: das palavras que o senhor mesmo escreveu ou pronunciou! É isto que temos feito há mais de um ano sem que jamais os seus partidários ousassem entrar no mérito da questão e nos refutar. Não, Dom Fellay, não é pelo testemunho de outros, senão pelo seu próprio discurso que nós nos convencemos da traição aos princípios de Dom Lefebvre. Afinal, quem foi que escreveu a carta aos outros três bispos que estavam preocupados com a direção que estava tomando a FSSPX? Quem enviou o preâmbulo doutrinal para Roma (o qual desmente com toda clareza e de forma irrefutável a frase da entrevista que diz “nunca tive a intenção de comprometer os princípios da Fraternidade”)? Quem concedeu a entrevista à rede de televisão da conferência nacional dos bispos dos Estados Unidos dizendo, entre outras coisas, que a liberdade religiosa no Vaticano II é muito, muito limitada? Quem fez tudo isto?

Poderíamos ir longe nestas perguntas, mas não vou ficar repetindo tudo o que Dom Fellay e seus assistentes disseram. Isto é público, é inegável. Na presente entrevista do superior geral, igual a todas as outras, não se fazem as perguntas que deveriam ser feitas. Dom Fellay jamais se permitiria responder a uma entrevista conduzida por quem não segue a linha do partido, por quem não está sob seu comando. Ele não tem repostas para dar. Por isso ele faz estas pseudo-entrevistas em que não se tratam as causas profundas da crise, e nem se cogita em mencionar as provas contra ele. Só mesmo assim para Dom Fellay conseguir se apresentar como vítima. 

Depois, para tentar desqualificar a justa reação contra sua desastrada política, Dom Fellay tenta colocar a culpa em Dom Williamson e nos padres da resistência. Esqueceu de mencionar o bom número de fiéis que também não se calaram. Será que nós queremos ver a FSSPX dividida? Claro que a divisão é ruim, mas pior seria se toda a FSSPX se submetesse às autoridades apóstatas. Seria um grande triunfo dos modernistas ver a FSSPX transformada em mais uma comunidade Ecclesia Dei. É para que isto não aconteça que nós nos opomos com todo vigor à política de Dom Fellay, expressa em seus atos e palavras, tanto os que ele, de livre e espontânea vontade, realizou em público como aqueles que ele tentou esconder de nosso conhecimento.

Nós também confiávamos em Dom Fellay, antes de que todas estas provas viessem ao conhecimento público. Confiávamos sim. E não foram as palavras de Dom Williamson que nos convenceram das mentiras do superior geral. Se hoje temos todo este repúdio a Dom Fellay, o único e grande culpado disto é ele mesmo, por tudo o que ele escreveu e falou e, principalmente, por continuar mentindo como se não tivesse feito nada contra os princípios de Dom Lefebvre. Errar é humano, perseverar no erro é diabólico. Se nós temos alguma culpa, é a de termos demorado para reagir. Antes de estourar toda esta confusão no início de 2012, já havíamos ouvido as críticas da Rádio Cristiandad contra Dom Fellay. Mas, ainda havia dúvidas e o silêncio foi mantido. Foi somente depois da carta aos três bispos que a traição se tornou absolutamente inegável e, então, muito tardiamente, começamos a agir. De lá para cá as provas contra Dom Fellay, inclusive as produzidas por ele mesmo, somente se acumulam mais e mais.

Nós somos obrigados a perdoar quem se arrepende. Isto inclui até Dom Fellay. No entanto, por mais que ele um dia volte atrás, todas estas mentiras que ele tem contado, até o presente momento, são tão numerosas, são tão escandalosamente contrárias às provas que têm vindo a público desde o ano passado, que jamais será possível confiar novamente neste homem. Jamais algum fiel ou padre com um mínimo senso, com um mínimo de juízo, colocará novamente o destino eterno de sua alma sob a direção de um bispo tão mentiroso. Se Dom Fellay ainda quer fazer algum bem para a FSSPX, não existe outra saída senão renunciar a seu cargo de superior general, o qual ele provou ser totalmente incapaz de exercer.