Palavras de Dom Lefebvre, de 1988 até sua morte, sobre as conversações com Roma

No último artigo, reunimos uma longa série de frases absurdas proferidas por Dom Fellay nos últimos anos, desde de 2001 até 2013. Para evidenciar o quanto ele está em ruptura com Dom Lefebvre, vamos publicar agora frases deste grande arcebispo. Dada a quantidade de fontes e os longos anos de luta do arcebispo para salvar a Tradição, parece-nos mais útil publicarmos em várias etapas. Para iniciar, transcrevemos abaixo um artigo do SPES com várias citações de Dom Lefebvre, todas elas ditas depois de 1988, ou seja, depois que o arcebispo escapou da armadilha do acordo prático. Portanto, estas palavras têm o peso da experiência de um bispo que tentou até o último momento uma conversa com Roma, mas percebeu que seria impossível qualquer acordo sem a prévia conversão das autoridades romanas.

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Palavras de Dom Lefebvre, de 1988 até sua morte, sobre as conversações com Roma

fonte: http://spessantotomas.blogspot.com.br/2012/04/palavras-de-dom-lefebvre-de-1988-ate.html

Carta a João Paulo II, de 02 de junho de 1988, onde Monsenhor Lefebvre põe fim às conversações:

Os colóquios e encontros com o Cardeal Ratzinger e com os seus colaboradores, embora tenham decorrido numa atmosfera de cortesia e de caridade, convenceram-nos de que o momento de uma colaboração franca e eficaz ainda não tinha chegado (…). Tendo em conta a recusa em considerar os nossos pedidos, e sendo evidente que o objetivo desta reconciliação não é em absoluto o mesmo para a Santa Sé e para nós, julgamos preferível esperar tempos mais propícios ao regresso de Roma à Tradição. É por isso que nos dotaremos dos meios para prosseguir a Obra que a Providência nos confiou (…). Continuaremos a rezar para que a Roma moderna, infestada de modernismo, torne a ser a Roma católica e reencontre a sua Tradição bimilenar. Então, o problema da reconciliação deixará de ter a razão de ser, e a Igreja encontrará uma nova juventude.

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Declaração pública sobre o motivo das Sagrações Episcopais de 30 de junho de 1988:

(…) Para salvaguardar o sacerdócio católico, para que continue a Igreja católica, e não uma Igreja adúltera, há necessidade de Bispos católicos. Por causa da invasão do espírito modernista no clero, que chega até os mais altos cumes dentro da Igreja, nos vemos obrigados a chegar à sagração de Bispos (…). No dia em que o Vaticano for libertado desta ocupação modernista, e retornar ao caminho seguido pela Igreja até o Vaticano II, nossos Bispos estarão inteiramente nas mãos do Sumo Pontífice, aceitando a eventualidade de não seguir exercendo suas funções episcopais.

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O Mandato Apostólico lido por Mons. Lefebvre na cerimônia das Sagrações Episcopais de 30 de junho de 1988:

Esse mandato, temo-lo da Igreja Romana, sempre fiel à Santa Tradição que recebeu dos Apóstolos. Essa Santa Tradição é o depósito da Fé, que a Igreja nos manda transmitir fielmente a todos os homens, para a salvação das almas.
Desde o Concílio Vaticano II até hoje, as autoridades da Igreja Romana estão animadas do espírito do modernismo; agiram contrariamente à Santa Tradição: “Já não suportarão a sã doutrina (…). Hão de afastar os ouvidos da verdade, aplicando-os a fábulas”, como diz S. Paulo na segunda epístola a Timóteo (IV, 3-5). É por isso que consideramos sem nenhum valor todas as sanções e todas as censuras dessas autoridades.
Quanto a mim, quando “já me ofereci em sacrifício e já chegou o momento da minha partida”, ouço o apelo dessas almas que pedem que lhes seja dado o Pão de Vida que é Jesus Cristo. Tenho pena dessa multidão. Constitui, pois, para mim uma grave obrigação transmitir a graça do meu episcopado aos caros padres que aqui estão, para que possam, por sua vez, conferir a graça sacerdotal a outros clérigos, numerosos e santos, instruídos segundo as santas tradições da Igreja Católica.
É em virtude desse mandato da Santa Igreja Romana, sempre fiel, que escolhemos para o Episcopado na Santa Igreja Romana os padres aqui presentes, como auxiliares da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

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Sermão do dia das Sagrações Episcopais, 30 de junho de 1988:

Encontramo-nos diante de um caso de necessidade. Fizemos todo o possível para fazer com que Roma compreenda a necessidade de voltar à atitude do venerado Pio XII e de todos os seus predecessores. Temos escrito. Temos ido a Roma. Temos falado. Enviamos cartas, Mons. de Castro Mayer e eu mesmo, muitas vezes a Roma. Tentamos, com esses colóquios, com todos os meios, de fazer compreender a Roma que do Concilio pra cá, desde este “aggiornamento”, esta mudança produzida na Igreja não é católica, não está conforme a doutrina de sempre. Este ecumenismo e todos estes erros, esta colegialidade, tudo isso é contrário à Fé da Igreja e está destruindo a Igreja. É por isso que nós estamos persuadidos de que, fazendo estas sagrações hoje, obedecemos ao apelo destes Papas e, consequentemente, ao apelo de Deus, porque eles representam Nosso Senhor Jesus Cristo na Igreja.
“E por que monsenhor – me dizem – interrompeu estes colóquios que pareciam, todavia, ter certo sucesso?” porque (…) nos colocaríamos em suas mãos e, por consequência, nas mãos daqueles que querem nos reconduzir ao espírito do Concílio e ao espírito de Assis: isto não era possível. É por isso que enviei uma carta ao Papa dizendo-lhe claramente: ‘não podemos; apesar de todos os desejos que temos de estar em plena comunhão conVosco. Visto este espírito que reina agora em Roma e visto que quereis comunicá-lo a nós, preferimos continuar na Tradição, guardar a Tradição, esperando que esta Tradição reencontre seu lugar entre as autoridades romanas, no espírito das autoridades romanas.
Este estado de coisas durará o tempo que o Bom Deus o previu, não cabe a mim saber quando a Tradição reencontrará seus direito em Roma, mas penso que é meu dever dar os meios para fazer aquela que chamarei operação sobrevivência, operação sobrevivência da Tradição. Hoje, neste dia, se realiza a operação sobrevivência. E se eu tivesse feito esta operação com Roma, continuando os acordos que tínhamos firmado e seguindo a execução desses acordos, eu teria realizado a operação suicídio.

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Da Entrevista concedida a Fideliter Nº 66, novembro-dezembro de 1988:

Não temos a mesma maneira de conceber a reconciliação. O Cardeal Ratzinger a vê no sentido de nos reduzir, de levar-nos ao Vaticano II. Nós a vemos como um retorno de Roma à Tradição. Não nos entendemos. É um diálogo de surdos.
Não posso falar muito do futuro, já que o meu está atrás de mim. Porém, se vivo um pouco ainda e supondo que daqui a determinado tempo Roma nos chame, que queira voltar a ver-nos, retomar o diálogo, nesse momento seria eu quem imporia condições. Já não aceitarei estar na situação em que nos encontramos durante os colóquios. Isso terminou.
Eu apresentaria a questão no plano doutrinal: Estais de acordo com as grandes encíclicas de todos os papas que vos precederam? Estais de acordo com a Quanta Cura de Pio IX, com a Immortale Dei e a Libertas de Leão XIII, com a Pascendi de Pio X, com a Quas Primas de Pio XI, com a Humani Generis de Pio XII? Estais em plena comunhão com estes papas e com suas afirmações? Aceitais ainda o juramento antimodernista? Sois a favor do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo?
Se não aceitais a doutrina de seus antecessores, é inútil falarmos. Enquanto não tiverdes aceitado reformar o Concílio considerando a doutrina destes papas que vos precederam, não há diálogo possível. É inútil.
As posições ficariam, assim, mais claras.
Não é algo pequeno o que nos opõe. Não basta que nos seja dito: podem rezar a missa antiga, mas é necessário aceitar isto. Não, não é somente isso o que nos opõe, é a doutrina. Está claro.

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Homilia de 19 de novembro de 1989 (60º Aniversário de Ordenação):

(…) Portanto, nesta situação, está certo que, para nós, é impossível manter contatos regulares com Roma, porque até o presente momento, Roma pede que, se recebermos algo, qualquer indulto para a Santa Missa, a liturgia, para os seminários, devemos fazer a nova Profissão de Fé redigida pelo Cardeal Ratzinger, no último fevereiro. Ela contém a aceitação explícita do Concílio e de suas conseqüências.
É preciso saber o que queremos.
Foi o Concilio, e suas seqüelas, que destruiu a Santa Missa, destruiu a nossa Fé, destruiu os catecismos e o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo na sociedade civil. Como podemos aceitá-lo?
Diante desta situação, meus queridos irmãos, o que faremos?
Devemos manter a fé católica, para protegê-la com todos os meios.

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A última reportagem realizada com Monsenhor Lefebvre, publicada em janeiro de 1991, Fideliter N° 79:

Fideliter: Desde as sagrações não há mais contatos com Roma; porém, como foi dito, o Cardeal Oddi o chamou ao telefone dizendo-lhe: “É necessário consertar as coisas. Peça um pequeno perdão ao Papa, e ele está disposto a acolhê-los”. Então, porque não tentar esta última abordagem e porque lhe parece impossível?

Monsenhor Lefebvre: É absolutamente impossível no clima atual de Roma, que se torna cada vez pior. Não devemos ter ilusões. Os princípios que dirigem agora a Igreja conciliar são cada vez mais abertamente contrários à doutrina católica. Todas as idéias falsas do Concilio continuam se desenvolvendo, se reafirmam cada vez com mais clareza. Ocultam-se cada vez menos. É, pois, absolutamente inconcebível que se possa colaborar com semelhante hierarquia.

Fideliter: Pensa que a situação se deteriorou mais depois das conversações que terminaram com a redação do protocolo de 5 de maio de 1988, antes das sagrações?

Monsenhor Lefebvre: Certamente! Por exemplo, o fato da Profissão de Fé, que agora é exigida pelo Cardeal Ratzinger desde o começo do ano de 1989. É um fato muito grave. Pois pede, a todos os que se uniram ou que poderiam fazê-lo, para fazer uma Profissão de Fé nos documentos do Concilio e nas reformas pós-conciliares. Para nós, é impossível.
Será necessário continuar a esperar antes de prever uma perspectiva de acordo. De minha parte, creio que apenas o Bom Deus pode intervir, visto que humanamente não se veem possibilidade Roma modificar o curso.
Durante quinze anos dialogamos para tentar devolver a Tradição a seu lugar de honra, no lugar que lhe corresponde na Igreja. Chocamo-nos com a contínua negação. O que agora Roma concede em favor da Tradição só é um gesto puramente político, diplomático para forçar as adesões. Mas não é uma convicção em benefício da Tradição.
Tudo que se concedeu aos que aderiram, só foi feito com o objetivo de procurar que todos os que aderem ou estão vinculados à Fraternidade se mudem e se submetam a Roma.

Fideliter: O que pode dizer aos fieis que esperam sempre na possibilidade de um acordo com Roma?

Monsenhor Lefebvre: Nossos verdadeiros fieis, os que compreenderam o problema e que justamente têm nos ajudado a seguir a línea reta e firme da Tradição e da fé, temiam as negociações que eu fiz em Roma. Diziam-me que era perigoso e que perdia tempo.
Sim, claro, eu esperei até o último minuto que em Roma testemunhassem um pouco de lealdade. Não podem me cobrar por não ter feito o máximo que podia.
Por isso, agora, aos que vêm me dizer: É necessário que você se entenda com Roma, creio que posso lhes dizer que eu fui mais longe do que poderia ter ido.