A inculturação da liturgia promovida pelo Vaticano II

Mesmo com a toda a opressão modernista, com todo o silêncio a que a parte podre do clero reduziu a Tradição, grande parte dos católicos inocentes que estão nas mãos dos conciliares repudia as inovações litúrgicas mais abusivas. Muitas vezes, como já aconteceu mesmo comigo, os católicos buscam uma missa onde não haja barulho, músicas impróprias, danças, teatros e encenações. Quantos católicos, com um mínimo de noção de nossa santa religião, aprovam as missas inculturadas, isto é, aquelas profundamente modificadas para “refletir a cultura local”? Missas adaptadas às diversas culturas e regiões dividem a Igreja, abrem brechas para profanações, tiram o sentido do sagrado, pois demonstram que a sua preocupação é o homem, e não Deus.

Vejamos o que nos diz São Pio V:

(…) é soberanamente oportuno que, na Igreja de Deus, haja uma só maneira de salmodiar e um só rito para celebrar a Missa. (Quo Primum Tempore, 3)

O Concílio Vaticano II, conforme dizem seus aguerridos defensores, não teria rompido com a Tradição. Será que isto corresponde à realidade? Já tivemos a oportunidade de demonstrar, em diversas ocasiões, que a resposta é negativa. Lendo a afirmação de São Pio V, destacada acima, e comparando-a ao texto do concílio, podemos constatar mais uma oposição:

Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na Liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida, mas respeitar e procurar desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos. A Igreja considera com benevolência tudo o que nos seus costumes não está indissolùvelmente ligado a superstições e erros, e, quando é possível, mantem-no inalterável, por vezes chega a aceitá-lo na Liturgia, se se harmoniza com o verdadeiro e autêntico espírito litúrgico. (Sacrossanctum Concilium, 37)

Para São Pio V, é útil que haja um só rito para a Santa Missa na Igreja de Deus. Para o concílio Vaticano II, não há desejo de impor “uma forma única e rígida nem mesmo em liturgia”. Ó cegos defensores do concílio, respondei-me: São Pio V estava errado ao impor uma forma única e rígida para a Santa Missa?

Mais uma contradição entre o “sacrossanto” concílio e a Tradição. E o Vaticano II não queria apenas algumas adaptações, mas sim “desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos“.

Quando vemos, portanto, uma missa “crioula”, ou uma missa “afro” (esta outra em plena Basílica de Nossa Senhora Aparecida – imaginem se alguém pedisse para celebrar a Missa Tridentina!) , ou uma missa “cowboy”, ou qualquer outro desvio da missa para se adaptar às culturas, podemos perguntar se não tem grande culpa o concílio por ter aberto a brecha para a inculturação.

O concílio reconhece que a Sé Apostólica deve dar seu consentimento para a introdução das adaptações litúrgicas (SC 40.1). Mas, será que isto isentaria a culpa do concílio pelos abusos que vemos por toda parte? Cremos que não, e apresentaremos nossos motivos para assim pensar.

Primeiro, o concílio não deveria jamais propor algo que é contrário ao bem da Igreja e que abre a porta para muitos abusos, como é o caso das adaptações regionais. Pois, como disse São Pio V, é necessário que haja, na Igreja Romana, um só rito para celebrar a Missa. O concílio deveria ter reforçado a necessidade da unidade de rito da Igreja, e não ter proposto a inculturação.

Depois, Paulo VI era um liberal, o que implica que ele não tinha pulso firme para conter os bispos rebeldes. Veja-se o caso exemplar, relatado pelo Pe Ralph Wiltgen em “O Reno se lança no Tibre”, que o papa chorou quando percebeu que fora enganado pelos bispos modernistas, mas não tomou nenhuma atitude contra eles. De acordo com o mesmo texto do concílio, a Sé Apostólica deveria apenas autorizar ou não as modificações, cuja competência para elaboração pertencia às Conferências espiscopais (SC 22.2, 39, 40.1, 40.2)! Ora, conferências episcopais dominadas por bispos modernistas, fazendo pressão sobre um papa fraco (na melhor das hipóteses), poderia acabar em que, senão nas mais variadas formas de inculturação?

Por conta deste liberalismo, depois de ter aberto a brecha para as modificações regionalizadas da liturgia, a reserva da Sé Apostólica acabava sendo letra morta frente à agitação dos espíritos pseudo-reformadores. Somente uma ação enérgica da Santa Sé poderia conter o estrago provocado pelo estímulo de liberdade concedido pelo concílio. Mas o liberalismo dos papas pós-conciliares os impediu de qualquer atitude. O resultado todos nós conhecemos.

Vamos ler alguns trechos da Sacrossanctum Concilium para reforçar o que dissemos nos parágrafos anteriores:

Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o art. 22 § 2, determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição. (SC 39)

1) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2, considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspecto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia. Proponham-se à Sé Apostólica as adaptações julgadas úteis ou necessárias, para serem introduzidas com o seu consentimento. (SC 40)

2) Para se fazer a adaptação com a devida cautela, a Sé Apostólica poderá dar, se for necessário, à mesma autoridade eclesiástica territorial a faculdade de permitir e dirigir as experiências [sic] prévias que forem precisas, em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado. (SC 40)

Segundo o concílio, portanto, a iniciativa para propor as adaptações caberia às Conferências Episcopais – dominadas pelos modernistas, nunca é demais lembrar-, e à Santa Sé caberia dar ou não seu consentimento. Pior do que isso, o concílio abriu a possibilidade de se transformar a Liturgia da Igreja em “laboratório” onde se realizam experiências para poder determinar melhor como se deveria fazer a adaptação desta liturgia às tradições e gênio de cada povo… Tudo sem romper com Tradição bi-milenar da Igreja, claro! Ou você iria cometer o sacrilégio de supor que o imaculado super-concílio poderia romper com a Tradição?

Devemos considerar, também, a razão pela qual o concílio se propunha a fazer tais adaptações. E não é difícil entender que a causa final de tal reforma era servir ao homem, em pleno acordo com a blasfema e odiosa declaração da Gaudium et spes:

Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes. (Gaudium et spes, n. 12)

Se tudo deve ser ordenado em função do homem, e não mais de Deus, nada mais lógico do que adaptar a liturgia à situação de cada cultura e região, para melhor servir ao homem.

Não nos custa nada encontrar ensinamentos papais contrários ao Vaticano II. De fato, S.S. Gregório XVI, em sua bula Inter Gravissimas, de 3 de fevereiro de 1832, dirigida aos católicos armênios, já dizia que qualquer inovação a ser introduzida no rito armênio necessitava de autorização prévia da Santa Sé:

Occorre pertanto attenersi scrupolosamente alla prassi che vieta di introdurre qualsiasi innovazione nei riti della sacra liturgia senza avere interpellato la Sede Apostolica. Anche quando si trattasse di dar vita a cerimonie che sembrano meglio rispondere alle direttive liturgiche approvate dalla stessa Sede, è permesso solo per gravissimi motivi e dopo avere ottenuto la doverosa autorizzazione della Sede Apostolica. Vi è inoltre un motivo specifico per attenersi coscienziosamente, presso gli Armeni cattolici, a questa prassi, poiché nell’antica normativa Armena relativa al culto era permessa la celebrazione della Messa solenne soltanto secondo le prescritte cerimonie.

[É necessário, portanto, ater-se escrupulosamente à praxe que proíbe introduzir qualquer inovação nos ritos da sagrada liturgia sem ter interpelado a Sé Apostólica. Também quando se tratasse de dar vida a cerimônias que parecem melhor responder às diretivas litúrgicas aprovadas pela mesma Sé, é permitido apenas por gravíssimos motivos e depois de ter obtido a necessária autorização da Sé Apostólica. Além de que, a Vós, há um motivo específico para ater-se conscenciosamente, junto aos católicos armênios, a esta praxe, uma vez que na antiga normativa Armênia relativa ao culto era permitida a celebração da Missa solene apenas segundo as cerimônias prescritas.]

http://www.totustuustools.net/magistero/g16integ.htm

Vamos recapitular: antes do Concílio Vaticano II era necessária uma autorização prévia da Santa Sé para introduzir qualquer inovação nos ritos. A partir do concílio, fica aberta até mesmo a possibilidade de se conceder às Conferências Espiscopais a faculdade de realizar “experiências” no campo litúrgico. Tudo sem ruptura com a Tradição, claro. Acredite piamente nisso ou se prepare para ser chamado de rad trad, cismático, sede-vacantista prático, etc.

Vários outros trechos do mesmo documento conciliar repetem a autorização para introduzir adaptações regionais em diversos pontos da liturgia:

Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas. (SC 38)

Seja lícito admitir nas terras de Missão, ao lado dos elementos próprios da tradição cristã, os elementos de iniciação usados por cada um desses povos, na medida em que puderem integrar-se no rito cristão, segundo os art.s 37-40 desta Constituição. (SC 65)

Concede-se à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2 desta Constituição, a faculdade de preparar um rito próprio de acordo com o uso dos vários lugares e povos, devendo, porém, o sacerdote que assiste pedir e receber o consentimento dos nubentes. (SC 77)

As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã. Adapte-se mais o rito às condições e tradições das várias regiões,  mesmo na cor litúrgica. (SC 81)

Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas acções sagradas. (SC 119)

Assim, com bastante insistência, o concílio concedeu um grande estímulo para a inculturação do rito católico.

Todo o potencial destrutivo destas concessões conciliares fica mais evidente quando confrontados com a heresia do modernismo. De fato, S.S. São Pio X em sua memorável encíclica Pascendi, ao nos descrever o modernismo como o entende o crente, escrevia:

Esta comunicação da experiência às vezes lança raízes e vive; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles é a mesma coisa. E daqui, mais uma vez, se infere que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam. (Pascendi, 2)

Para os modernistas, portanto, vida e verdade se confundem. O que existe é verdadeiro, morre aquilo que é falso. Uma vez que as formas adaptadas dos ritos já estivessem em pleno uso, ainda que “experimental”, já se poderiam considerar bons e legítimos, segundo o modernismo. A mesma justificativa dos modernistas para afirmar que todas as religiões existentes são boas, pode ser aplicada também para afirmar que todas as formas litúrgicas existentes são boas.

Assim, não importava para a estratégia modernista que alguns trechos do concílio,  contendo reservas sobre a necessidade de estarem os ritos reformados de acordo com a regras da liturgia, pudessem ser lidos de forma ortodoxa. O que importava é que, na prática, após as formas adaptadas do novo rito estarem sendo celebradas, estarem “vivas”,  a leitura modernista destes fatos já seria suficiente para qualificá-las como legítimas. E que papa liberal teria força para fazer valer a autoridade de Roma? A triste história pós-conciliar nos confirma que nenhum deles agiu com firmeza contra estes abusos.

Depois de todas estas considerações, resta-nos apenas rebater um argumento muito repetido pelos neo-conservadores: o de que já havia abusos litúrgicos antes do Concílio Vaticano II e que, portanto, os atuais abusos não são culpa deste concílio. A primeira coisa a observar é que os abusos litúrgicos eram cometidos contra a autoridade da Igreja, cujos documentos eram firmes em ensinar a dignidade dos ritos. Com o concílio, em vez de se reforçar a rigidez dos ritos, abriu-se um enorme campo para inovações e adaptações às diversas culturas e povos, com direito até a executar experiências prévias – um convite irrecusável para deformar o rito romano. Ora, o concílio deixou por escrito aquilo que os modernistas queriam, e que souberam aproveitar muito bem. Além disso, a natureza e gravidade dos abusos litúrgicos depois do concílio não se comparam de forma alguma aos anteriores. O que se vê na igreja pós-conciliar são sacrilégios horríveis, cometidos até pela alta hierarquia da Igreja. Atitude enérgica de Roma? Não. Excomunhão mesmo, só para quem queria a Santa Missa de sempre e fez o que foi necessário para conservá-la.

A reforma litúrgica imposta pelo Concílio Vaticano II

Começamos, com este artigo, a análise e a crítica da constituição Sacrossanctum Concilium, que dispôs sobre a Sagrada Liturgia, no Vaticano II. Concentraremos, no presente, as atenções apenas sobre a reforma litúrgica imposta pelo concílio, deixando outros aspectos para serem tratados posteriormente. Como veremos, já é assunto para um artigo longo, e para muito mal-estar provocado pela forma como a letra do concílio se dirigiu à Igreja e sua liturgia.

Em 1570, Sua Santidade o Papa Pio V, de venerabilíssima memória, escreveu a bula “Quo Primum Tempore“, na qual, de maneira clara, objetiva e inquestionável, definiu a forma do rito romano como ela deveria permanecer para sempre, sem jamais ser alterada (os destaques, nestas e em outras citações, são nossos):

6 – E a fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por Nós, em todas as Igrejas. (…)

7 – Quanto a todas as outras sobreditas Igrejas, por Nossa presente Constituição, que será válida para sempre, Nós decretamos e ordenamos, sob pena de nossa indignação, que o uso de seus missais próprios seja supresso e sejam eles radical e totalmente rejeitados; e, quanto ao Nosso presente Missal recentemente publicado, nada jamais lhe deverá ser acrescentado, nem supresso, nem modificado. (…)

(…)

Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bemaventurados Apóstolos Pedro e Paulo.

As palavras de SS São Pio V não deixam a menor margem para dúvidas: o missal por ele aprovado terá validade para sempre, e jamais poderá ser modificado. Ninguém, que deseje permanecer fiel à Tradição e ao Magistério infalível da Igreja, pode, portanto, afirmar que haja qualquer brecha para se alterar a liturgia romana.

O cardeal Pacelli, futuro papa Pio XII, comentou sobre a mensagem de Fátima, onde Nossa Senhora advertia sobre o risco de uma mudança na liturgia:

Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora diante do perigo que ameaça a Igreja, é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, em sua liturgia, sua teologia e sua alma”.(…)

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=pacelli_3segredo

Apesar de tão claras palavras de São Pio V, e da admoestação de Nossa Senhora em Fátima, comentada pelo então cardeal Pacelli, o concílio Vaticano II propôs um ampla reforma litúrgica:

A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia.

Nesta reforma, proceda-se quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam com mais clareza as coisas santas que significam, e, quanto possível, o povo cristão possa mais fàcilmente apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária. (Sacrossanctum Concilium, 21)

Em outro artigo, já tivemos a oportunidade de apresentar os argumentos de que, se a Missa Tritendina não contém erros, como de fato não contém, não haveria motivos para ser modificada. Afinal, que motivo poderia ser alegado para se fazer uma reforma geral na liturgia sem admitir, implicitamente, que a atual continha muitos defeitos? O texto que destacamos acima traz implícitas estas acusações. De fato, ao afirmar que a reforma litúrgica haveria de “permitir ao povo cristão um ascesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém” e que “os textos e ritos reformados deveriam exprimir com maior clareza as coisas santas que significam”, a letra do concílio está implicitamente negando estas qualidades a Liturgia pré-conciliar.

O Concílio de Trento, dogmático e infalível, ensinou que a Missa não contém erros:

“Cân. 6. Se alguém disser que o cânon da Missa contém erros e, portanto, deve ser ab-rogado: seja anátema”.

“Cân. 7. Se alguém disser que as cerimônias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade: seja excomungado”.

Podemos, então, perguntar aos defensores da missa nova: se a Missa Tridentina não contém erros, por que haveria de ser reformada? E, aliás, amplamente reformada, como desejava o Concílio Vaticano II? Como responder a esta pergunta sem cair no anátema de Trento?

O concílio admite abertamente a introdução de inovações na liturgia:

Finalmente, não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes. (SC 23)

A ressalva de que as novas formas devessem surgir das já existentes não justifica as inovações, para sempre interditadas por São Pio V. Pelo contrário, somente causa estranheza como se poderia conciliar uma inovação com um simples desenvolvimento de formas já existentes. O resultado final, a missa nova, conteve muitas inovações a ponto de se poder dizer que foi “fabricada”, e não foi, de forma alguma, um desenvolvimento da Missa Tridentina.

Não menos estranha é a pressa do concílio em se fazer a revisão dos livros litúrgicos:

Faça-se o mais depressa possível a revisão dos livros litúrgicos, utilizando o trabalho de pessoas competentes e consultando Bispos de diversos países do mundo. (SC 25)

Somente se age com toda pressa possível quando se está em uma situação crítica, desesperadora. Será que o concílio assim considerava a liturgia da Igreja naquele momento? Estava tão errada ou tão inadequada que necessitava de ser revisada com toda a pressa possível?

Mas o trecho mais terrível deste documento conciliar é o seguinte:

O interesse pelo incremento e renovação da Liturgia é justamente considerado como um sinal dos desígnios providenciais de Deus sobre o nosso tempo, como uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja, e imprime uma nota distintiva à própria vida da Igreja, a todo o modo religioso de sentir e de agir do nosso tempo. (SC 43)

Muito pior que o aggiornamento, o concílio afirma que naquele momento estava havendo “uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja”… E eu que pensava que o Espírito Santo sempre e em todo o momento conduzia a Igreja, agora, por meio do “sacrossanto”, “imaculado” e “intocável” super-concílio, fiquei sabendo que a terceira pessoa da Santíssima Trindade estava fazendo apenas uma passagem pela Igreja naquela década de 1960… O texto conciliar é uma blasfêmia contra a ininterrupta assitência do Espírito Santo à sua Igreja. Se, por absurdo, admitíssemos qualquer grau de autoridade no Vaticano II, como poderíamos censurar os “movimentos” pós-conciliares que afirmam algo como um “renovamento” do Espírito a partir do concílio?

Respiremos fundo a fim de superar a nossa indignação contra o “sacrossanto” concílio e prossigamos a análise, pois ainda há muitos absurdos neste mesmo documento conciliar.

Afrontando desavergonhadamente a ordem de São Pio V de jamais se alterar o Missal, o concílio deu ordem de revisar o Ordinário:

50. O Ordinário da missa deve ser revisto, de modo que se manifeste mais claramente a estrutura de cada uma das suas partes bem como a sua mútua conexão, para facilitar uma participação piedosa e activa dos fiéis. Que os ritos se simplifiquem, bem respeitados na sua estrutura essencial; sejam omitidos todos os que, com o andar do tempo, se duplicaram ou menos ùtilmente se acrescentaram; restaurem-se, porém, se parecer oportuno ou necessário e segundo a antiga tradição dos Santos Padres, alguns que desapareceram com o tempo.

Como se colocou em destaque, o concílio não somente ordenou a revisão do Ordinário da Missa, como declarou a finalidade: “manifestar mais claramente a estrutura de cada uma de suas partes bem como sua mútua conexão”. Somos, então, obrigados a fazer a pergunta: o Ordinário antigo não possuía a clareza necessária? Era obscuro a tal ponto de exigir o pronunciamento de um concílio ecumênico para declarar a necessidade de tal revisão?

Os rituais dos sacramentos e sacramentais, à época do concílio, também não seriam suficientemente claros quanto à natureza e fim… Por isso, seria necessário aggiornarli:

Tendo-se introduzido, com o decorrer do tempo, no ritual dos sacramentos e sacramentais, elementos que tornam hoje menos claros a sua natureza e fim, e devendo por isso fazer-se algumas adaptações às necessidades do nosso tempo, o sagrado Concílio decretou o seguinte em ordem à sua revisão. (SC 62)

Em que as necessidades do nosso tempo diferiam dos tempos passados, isto o concílio não esclareceu. E nem poderia fazê-lo, pois as necessidades espirituais do homem, que são aquelas às quais os sacramentos e sacramentais atendem, são sempre as mesmas em todas as épocas, independentes das necessidades materiais. Mas a ânsia devoradora do aggiornamento, imbuída de filosofia evolucionista, não pode fazer estas considerações da filosofia perene, tão católicas.

O rito do batismo, seja o dos adultos como o das crianças, também deveria ser revisto:

Revejam-se tanto o rito simples do Baptismo de adultos, como o mais solene, tendo em conta a restauração do catecumenado, e insira-se no Missal romano a missa própria «para a administração do Baptismo». (SC 66)

Reveja-se o rito do Baptismo de crianças e adapte-se à sua real condição. Dê-se maior realce, no rito, à parte e aos deveres dos pais e padrinhos. (SC 67)

O rito da Confirmção também precisava ser revisto porque “a íntima união deste sacramento com toda a iniciação cristã” não estava bastante ressaltada:

Para fazer ressaltar a íntima união do sacramento da Confirmação com toda a iniciação cristã, reveja-se o rito deste sacramento; pela mesma razão, é muito conveniente, antes de o receber, fazer a renovação das promessas do Baptismo. (SC 71)

E o rito da Penitência? Segundo o concílio, também ele precisa ser revisto para ter mais clareza:

Revejam-se o rito e as fórmulas da Penitência de modo que exprimam com mais clareza a natureza e o efeito do sacramento. (SC 72)

A Unção dos Enfermos escaparia das reformas? Claro que não:

O número das unções deve regular-se segundo a oportunidade. Revejam-se as orações do rito da Unção dos enfermos, de modo que correspondam às diversas condições dos que recebem este sacramento. (SC 75)

O rito da Ordenações também não poderia escapar da fúria reformadora:

Faça-se a revisão do texto e das cerimónias do rito das Ordenações. As alocuções do Bispo, no início da ordenação ou sagração, podem ser em vernáculo. (SC 76)

Para não deixar de fora nenhum sacramento, reforme-se finalmente o rito do matrimônio, mas não sem perder a oportunidade de clamar por mais “clareza”:

A fim de indicar mais claramente a graça do sacramento e inculcar os deveres dos cônjuges, reveja-se e enriqueça-se o rito do Matrimónio que vem no Ritual romano. (SC 77)

As exéquias também precisam de reforma, pois as atuais não exprimem de maneira suficiente o sentido de passagem da morte cristã:

As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã.(SC 81)

Faça-se a revisão do rito de sepultura das crianças e dê-se-lhe missa própria. (SC 82)

O leitor já está cansado e indignado? Eu também estou. Mas vamos respirar fundo para suportar mais esta aberração do concílio:

Restaurem-se os hinos, segundo convenha, na sua forma original, tirando ou mudando tudo o que tenha ressaibos mitológicos ou for menos conforme com a piedade cristã. Se convier, admitam-se também outros que se encontram nas colecções hinológicas. (SC 93)

A Igreja, antes do concílio, estava permitido hinos com “rassaibos mitológicos e com elementos menos conformes com a piedade cristã”, julgando-se o concílio no dever de corrigir este grave desvio… Não vou nem comentar.

Para encerrar as citações:

Revejam-se o mais depressa possível, juntamente com os livros litúrgicos, conforme dispõe o art. 25, os cânones e determinações eclesiásticas atinentes ao conjunto das coisas externas que se referem ao culto, sobretudo quanto a uma construção funcional e digna dos edifícios sagrados, erecção e forma dos altares, nobreza, disposição e segurança dos sacrários, dignidade e funcionalidade do baptistério, conveniente disposição das imagens, decoração e ornamentos. Corrijam-se ou desapareçam as normas que parecem menos de acordo com a reforma da liturgia; mantenham-se e introduzam-se as que forem julgadas aptas a promovê-la. (SC 128)

Mais uma vez nos deparamos com a inexplicável pressa do concílio em reformar, como se estivesse a liturgia pré-conciliar da Igreja em uma situação de calamidade. Afinal de contas, que necessidade havia de se rever a construção dos edifícios sagrados, a forma dos altares, a disposição dos sacrários, etc? Se observarmos bem o que o concílio mandou rever, perceberemos que a pseudo-reforma do pós-concílio somente destruiu tudo o que havia de belo, de santo, de profundamente católico na liturgia da Igreja e em tudo o que se relaciona a ela.

As reformas continuam: o rito da consagração das Virgens (80), o Ofício divino (87-89), o ano litúrgico (107)… Tudo, tudo precisa ser mudado! Tudo precisa de mais clareza, precisa se expressar melhor, precisa corresponder melhor ao mundo de hoje… Não sobra pedra sobre pedra! Tudo está errado ou, na melhor da hipósteses, inadequado!

Seria ingenuidade demais não enxergar a mão dos hereges modernistas escrevendo a letra do concílio, desprovida de respeito por tudo aquilo que a piedade católica conservava na liturgia. Muito mais do que a crítica implícita nos textos que pedem a reforma geral – pois não se ordena a mudança daquilo que está perfeito-, a Sacrossanctum Concilium abriu aos modernistas a brecha para destruir a liturgia da Igreja. E, a história pós-conciliar prova, de maneira irrefutável, que os modernistas souberam aproveitar a oportunidade que eles mesmos criaram.

Ao ler a Sacrossanctum Concilium, com as imposições de alterações em todas as áreas da liturgia da Igreja, não é possível ficar com outra impressão senão a de que se insinua que tudo estaria errado, ou ao menos ultrapassado nesta matéria. A Igreja estaria dormindo, permitindo que toda sua liturgia se tornasse, em todos as áreas, inadequada para os tempos modernos. É a fúria do aggiornamento, esta nota tão característica do “espírito” do concílio, já condenado por Bento XVI, que ataca com toda sua violência. E a ferocidade desta revolução que tudo pretende renovar, como se caduco estivesse, ficou consignada na letra do concílio para perpétua – e infeliz – memória.

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PS: – todos os textos citados da Sacrossanctum Concilium foram retirados do site do Vaticano;

– há muitos outros aspectos a serem analisados na SC, trabalho que será feito em outros artigos.

Um ano sem missa nova!

Permitam-me compartilhar a minha alegria. Hoje faz um ano que eu não assisto mais a missa nova. Parece que faz já tanto tempo. Estou tão acostumado com a paz, a reflexão, a espiritualidade da Missa Tridentina, que já nem me lembro da barulheira, da gritaria, das danças, dos teatrinhos da missa nova. É tão bom ouvir o canto gregoriano, em vez das músicas barulhentas e sentimentalistas.

É tão bom não ter que ficar procurando uma missa decente, fugindo da baderna modernista. Nos tempos de novus ordo, eu precisava procurar um padre que rezasse a missa com o mínimo de respeito. Muitas pessoas faziam (e ainda fazem) isso, fugindo da avalanche carismática. Estes não perguntam se as pessoas gostam da barulheira. Simplesmente começam a fazê-la, e os incomodados que se retirem. Eu também já sofri bastante com isso.

Lutemos cada vez mais pela preservação de nossas riquíssimas tradições e pela plena restauração da Missa Tridentina e da Igreja. Se ficarmos de braços cruzados, a minoria barulhenta vai continuar afugentando os fiéis piedosos, porém tímidos, que desejam uma missa cheia de paz, de reverência e de respeito pelo Nosso Salvador. Nós temos a obrigação de lutar pelo retorno pleno da Missa de Sempre, pois quem prefere o barulho ao silêncio, na hora da missa, não tem a menor ideia do que é religião, do que é paz, do que é adorar ao Deus Altíssimo no Santo Sacrifício da Missa, renovação incruenta do Calvário.

Pode o homem mudar a liturgia?

Pode o homem mudar a liturgia por sua própria iniciativa? Nestes nossos dias de trevas, em que a Santa Missa é profanada pelos próprios sacerdotes e pelos leigos que se acham, todos, no direito de inventar uma nova liturgia, essa questão é mais do que pertinente. É uma verdadeira angústia, que acredito seja compartilhada por todos os fiéis que se indagam, perplexos, como chegamos a este ponto, onde o Santo Sacrifício da Missa foi transformado em espetáculo profano.

Uma resposta bem clara para essa pergunta pode ser encontrada nas Sagradas Escrituras:

Os filhos de Aarão, Nadab e Abiú, tomaram cada um o seu turíbulo, puseram neles fogo e incenso e ofereceram ao Senhor um fogo estranho, que não lhes tinha sido ordenado. Saiu, então, um fogo de diante do Senhor que os devorou, e morreram diante do Senhor. (Lv 10,1-2)

É Deus, e não os homens, Quem determina a forma como Ele deve ser adorado. A liturgia da Igreja Católica, vêm dos tempos mais antigos do Cristianismo, porque foi por Deus mesmo ensinada, e representa a própria a vontade d’Ele, a forma como Ele quer ser adorado.

A liturgia é o nosso culto prestado ao Deus Altíssimo, Àquele que, por Sua infinita majestade, merece o culto mais perfeito que Lhe possamos oferecer. E que não pode ser outro senão aquele que o próprio Deus nos ensinou.

Como pode ser o homem prepotente ao ponto de imaginar que pode “inventar” a liturgia da missa? Que grau de malícia e de impiedade não estão por trás das modificações aplicadas à Santa Missa, renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário! O que os modernistas fazem vai muito além de alterações, são verdadeiramente profanações, infinitamente piores do que o fogo estranho, que não tinha sido ordenado por Deus, oferecido pelos filhos de Aarão. Não foi sem os mais graves motivos que Nossa Senhora disse aquelas palavras severas nas aparições de La Salette e de Fátima. Palavras essas que não foram proferidas somente por conta dos pecados do “mundo”, mas também – que triste escrever isso – pelos pecados cometidos por aqueles que pertencem à Igreja.

E a nossa geração, até quando vai assistir ao “show” de profanações? Quanto tempo ainda permaneceremos na nossa lassidão, na nossa tibieza, assistindo de longe a todos esses abusos?

Devemos, também, acrescentar que não somente os abusos, mas a própria essência da missa nova é má, porque esconde o verdadeiro caráter de renovação do Sacrifício oferecido por Nosso Senhor Jesus Cristo. A carta do Cardeal Ottaviani o prova com abundância de argumentos e de exemplos. E esse documento não perdeu nada de seu valor. Podemos ler e reler a carta e comparar com a missa nova que conhecemos hoje em dia, mesmo aquela – raríssima – sem os abusos e improvisos, e veremos como essa missa é exatamente aquilo que o piedoso cardeal denunciou. Além disso, a missa nova corresponde à teologia da década de 1960, enquanto que a Missa de Sempre corresponde à teologia que foi eterna na Igreja Católica.

Que a Santa Missa Tridentina, culto perfeito oferecido ao Deus Altíssimo, possa se tornar cada vez mais conhecida e celebrada!

Teria o Cardeal Ottaviani aceitado a missa nova?

Alguns desesperados defensores da missa nova têm utilizado o argumento de que o cardeal Ottaviani teria se retratado de sua carta escrita ao papa Paulo VI que apontava os erros da missa nova. Foi isso o que escreveu o Alessandro Lima, na data de hoje, no site do Falsistatis. O mesmo argumento já havia sido apresentado pelo bispo Dom Rifan, aquele que traiu a obra de Dom Castro Mayer.

Segundo essa hipótese, o cardeal Ottaviani teria escrito uma carta a Dom Lafond, da ordem dos cavaleiros de Notre-Dame, dizendo que estava satisfeito com as correções feitas pelo [anti]papa Paulo VI na nova versão do novo Ordo Missae. Assim, depois da carta do cardeal, o [anti]papa teria eliminado os defeitos do novo ordo, e a sua nova versão seria plenamente aceitável.

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Deve haver luxo na liturgia?

Uma idéia comum de se ouvir hoje em dia, seja nos meios “católicos” liberais, seja nos meios declaradamente anti-católicos, é a de que não deve haver luxo nas templos, nem nos paramentos litúrgicos, porque a Igreja deveria ser pobre como o foi Cristo. Essa heresia da pobreza necessária da Igreja é um tema complexo. Não tendo a menor intenção de esgotar o assunto, muito pelo contrário, no presente artigo pretendemos nos restringir a responder a seguinte questão: “Será que se deve gastar dinheiro com a ornamentação dos templos e com paramentos litúrgicos?”  Continuar lendo