Cardeal Ottaviani: hermenêutica da continuidade ou da ruptura?

Eu estava escrevendo um artigo mais extenso sobre a interpretação dos textos do Vaticano II, mas o tema está se estendendo mais do que eu esperava. Por hora, publico apenas algumas ponderações sobre uma carta do cardeal Ottaviani relacionada ao tema. Em outra oportunidade, aprofundaremos o assunto o quanto desejamos.

Algumas dúvidas não esclarecidas

A carta atribuída ao Cardeal Ottaviani teria sido escrita em 1966. No último parágrafo, o autor diz que a carta deveria permanecer em estrito segredo. No entanto, segundo o site do Vaticano a carta teria sido publicada na Acta Apostolicis Sedis (AAS) – Atos da Sé Apostólica – daquele mesmo ano. O que eu não consegui compreender ainda, é como um documento que deve ser mantido em sigilo pode ser publicado em um jornal como as AAS.

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O concílio Vaticano II e os inimigos da Igreja

Pretendemos, com este artigo, estudar brevemente a forma como os inimigos da Igreja reagiram e ainda hoje reagem diante do Vaticano II.

Os inimigos da Igreja se rejubilaram com o Vaticano II

Todos os concílios ecumênicos da Igreja, de Nicéia até o Vaticano I, foram convocados para resolver problemas doutrinários e disciplinares da Igreja. E, tendo de fato condenado os erros, jamais foram amados pelos inimigos da Igreja. O Vaticano II, porém, tal como o desejou João XXIII, não condenou os erros de seu tempo, nem a heresia modernista, nem o laicismo, nem o comunismo (aliás, protegido pelo traidor e vil pacto de Metz). Esta nada honrosa peculiaridade do Vaticano II foi a causa outra: este é o único concílio da Igreja que provocou a alegria de seus inimigos.

O imprescindível livro “O derradeiro combate do demônio”, por exemplo, descreve vários exemplos de maçons e comunistas que se exultaram com o Concílio Vaticano II (http://www.devilsfinalbattle.com/port/ch6.htm).

Quando, em toda a história da Igreja, já se viu os seus inimigos se alegrarem com um concílio ecumênico? Por acaso os arianos se alegraram com os concílios de Nicéia e Constantinopla? Os nestorianos se alegraram com o concílio de Éfeso? Os monofisitas se alegraram com o concílio de Calcedônia? Os protestantes se alegraram com o concílio de Trento? Os liberais se alegraram com o concílio do Vaticano (Primeiro)? Poderíamos estender estas perguntas a todos os legítimos concílios da Igreja. Obviamente, a resposta seria negativa, pois todos os legítimos concílios da Igreja condenaram os erros ensinados pelos inimigos de Cristo.

Se o concílio Vaticano II provocou a alegria dos inimigos da Igreja, então algo de muito errado e de muito diferente dos demais, ele certamente possui. Como João XXIII declarou na sua abertura, o concílio Vaticano II não intencionava condenar nenhum erro. E não somente não condenou os erros, como se fez porta-voz do liberalismo ao defender a colegialidade, a liberdade religiosa e o ecumenismo.

Vamos tentar ajudar os idólatras do concílio a entender a questão. Suponhamos que temos dois times de futebol, entre os quais existe uma extrema rivalidade, e que estes estão se enfrentando em uma final de campeonato. Se um jogador de um dos times causa uma grande alegria para a torcida adversária, então podemos concluir que ele está jogando muito bem ou muito mal? Óbvio que está jogando mal. Quiçá tenha marcado um gol contra. De outra forma, se tivesse marcado um gol para seu próprio time, teria feito a tristeza da torcida adversária.

É óbvio demais para alguém se furtar da conclusão: se a polícia fizesse a alegria dos bandidos, não estaria cumprindo sua obrigação; se um professor é amado pelos alunos mais vagabundos, então não os está cobrando como deveria; se um fiscal for amado pelos sonegadores, então não está realizando corretamente seu trabalho. Se um concílio da Igreja faz a alegria de seus inimigos, então… É tão difícil chegar à conclusão deste raciocínio? Claro que não. Somente a paixão que cega os idólatras do Vaticano II é que os impede de entender isto.

Os inimigos da Igreja reconhecem que o Vaticano II rompeu com a Tradição

Os aguerridos defensores do Vaticano II negam, contra toda evidência, que ele tenha rompido com a Tradição da Igreja. Na maioria das vezes, estes defensores do concílio não se dão ao menor trabalho de argumentar, escondendo-se sempre atrás do falso conceito de autoridade que eles inventaram, como se pudesse existir legítima autoridade capaz de subsistir contra a verdade.

O que negam estes defensores do concílio, que se declaram católicos e gabam-se de serem os “bons mocinhos”, reconhecem até mesmo os inimigos da Igreja. O herege Hans Küng, por exemplo, reconhece que o Vaticano II introduziu um modelo protestante na Igreja Católica. A protestantização a que foram submetidos os católicos que seguem a (des)orientação conciliar é tão grande, tão inegável que até um herege do nível de Küng é obrigado a admiti-lo. O professor Orlando Fedeli, autor do artigo que destacamos, faz a pergunta: “quando até os hereges enxergam, por que alguns, que se dizem católicos, negam o visível?”

Certamente que as opiniões de nada valem se não tiverem um apoio mais firme, e ainda mais o testemunho de um herege não prova nada se for tomado sozinho. Muitas oportunidades o prof. Orlando ofereceu aos neo-conservadores para deturparem seu pensamento quando ele insistia nos tais “torpedos” de Bento XVI contra o Vaticano II. E, nesta oportunidade do comentário de Küng, também houve quem deturpasse grosseiramente o pensamento do professor por não estar ele completamente explícito no seu artigo. Já o título demonstra a deturpação: “Quando os hereges são seguidos” (http://www.veritatis.com.br/article/5300), como se o professor Orlando estive seguindo Hans Küng.

É óbvio que os católicos tradicionais não seguem o pensamento dos hereges inimigos da Igreja. A única afirmação que fazemos em comum, e que qualquer pessoa que estude o assunto sem preconceitos a favor do Vaticano II consegue enxergar, é que ele rompeu com a Tradição.

Sabendo que toda doutrina que rompe com aquilo que a Igreja sempre ensinou é falsa e contrária ao depósito da Fé que Deus se dignou nos revelar, e que todo aquele que ensinar uma doutrina diferente desta revelada deve ser excomungado (Gal 1,8), então tudo o que rompe com a Tradição é errado e somente poder causar o mal à Igreja.

Com relação ao herege, então, podemos raciocinar:

O concílio Vaticano II rompeu com a Tradição

O herege quer o mal da Igreja tradicional, em proveito de suas próprias idéias erradas

Logo, o herege  reconhece a ruptura do Vaticano II, alegra-se com ela e dela faz uso em seu proveito e contra a Igreja

Já para o católico que se dedica ao estudo do situação atual, temos:

O concílio Vaticano II rompeu com a Tradição

O católico ama a Igreja, por isso combate tudo o que seja nocivo a Ela

Logo, o católico combate todas as rupturas provocadas pelo Vaticano II, que causaram e causam tanto mal à Igreja

Podemos perceber que, ao contrário da falsa acusação neo-conservadora, os católicos tradicionais não seguem os hereges. Fazemos exatamente o contrário dos hereges, combatendo-os da única forma eficaz: cortando o mal pela raiz. Portanto, o artigo que acusava o professor Orlando de retórica, ele sim é retórico.

Analisando o pensamento neo-conservador, entendemos porque, neste ponto, eles discordam tanto dos hereges quanto dos católicos:

O concílio Vaticano II é bom, perfeito, isento de erros, idêntico aos demais concílios

O que rompe com a Tradição é mau para a Igreja

Logo, o concílio Vaticano II não rompeu com a Tradição

A segunda afirmação é verdadeira, como já dissemos acima. A primeira, no entanto, é falsa e fruto da idéia pré-concebida a respeito do Vaticano II. Toma-se por verdade absoluta aquilo que não tem este valor, e que poderia com facilidade ser entendido corretamente se houvesse um cuidado  em se comparar os textos do Vaticano II com o conjunto dos ensinamentos da Igreja ao longo de todos seus séculos de existência.

A partir desta premissa errada, a conclusão igualmente errada a que chegam os neo-conservadores é negada tanto pelos hereges quanto pelos católicos. A partir desta conclusão falsa os neo-conservadores tentam se colocar como defensores da Igreja, ao mesmo tempo em que tentam fazer os católicos se assemelharem aos hereges.

Do que ficou exposto, é fácil perceber que, apesar de enxergarmos o mal do Vaticano II da mesma forma que os hereges, agimos de maneira totalmente contrária a eles. E somente quem enxerga o mal pode combatê-lo. Já os neo-conservadores, devido a sua cegueira voluntária, eles sim colaboram enormemente para que os hereges possam fazer uso das más doutrinas defendidas pelo Vaticano II.

Além de ser falsa a acusação de seguirmos os hereges, também é falsa outra acusação contra o professor Orlando Fedeli. Podemos ler e reler o artigo do professor que não vamos encontrar em nenhum lugar a afirmação de que a opinião de Küng é prova irrefutável de que o Vaticano II contém erros. Esta distorção grosseira é apenas mais uma tentativa neo-conservadora de criar uma imagem ridícula dos católicos tradicionais. O que os neo-conservadores fazem é criar um espantalho e depois combatê-lo. Eles refutam a caricatura que fazem de nós, e saem cantando vitória como se fosse a nós que tivessem refutado, quando não passaram nem perto dos nosso argumentos.

A forma correta como devemos raciocinar é a seguinte: se um efeito somente pode ser produzido por uma única causa, então, quando estamos diante do efeito, podemos ter certeza de que a causa também está presente. A sabedoria popular expressou este silogismo através do provérbio “onde há fumaça, há fogo”.

Quais foram os efeitos produzidos? Os inimigos da Igreja se alegram com o Vaticano II, reconhecem que ele modificou profundamente o modelo da Igreja, depositam suas esperanças nas mudanças provocadas pelo concílio, e se utilizam muito de seus textos para defender seus erros (como veremos adiante). Poderíamos elencar outros efeitos não relacionados diretamente com os inimigos da Igreja (tema do presente artigo), como a confusão em que os católicos caíram depois do concílio, a usurpação do poder pela colegialidade, o ecumenismo desenfreado, a apostasia, o abandono do hábito, da disciplina religiosa, etc. Ora tais efeitos jamais poderiam ser produzidos por um concílio perfeitamente ortodoxo. Logo, se estes efeitos foram produzidos pelo Vaticano II, certamente ele possui algo de muito errado. “Onde há fumaça, há fogo”. O prof. Orlando certamente  não deixou explícito este raciocínio  por ser ele óbvio demais. Não houve, portanto, nenhuma retórica da parte tradicionalista. O que houve foi distorção da parte neo-conservadora, fazendo afirmações a partir de palavras que o professor não escreveu, e que não poderiam de forma alguma ser deduzidas de seu texto.

Já provamos que os neo-conservadores, mais uma vez, tentaram criar uma caricatura dos católicos tradicionais. Mas, afinal de contas, que valor tem a argumentação do prof. Orlando? Que importa que os hereges reconheçam que o Vaticano II rompeu com a Tradição?

Em primeiro lugar, todo herege é um acérrimo inimigo da Igreja. Se o Vaticano II não tivesse realmente introduzido um modelo liberal na Igreja, um herege como Küng jamais se alegraria com ele e jamais o citaria. Votaria contra ele o mesmo ódio que tem contra Trento ou o Vaticano I. Inclusive, neste mesmo caso citado, Küng não somente reconhece que  o Vaticano II introduziu um modelo protestante na Igreja, mas também coloca suas esperanças neste modelo a fim de conter o “retorno à Idade Média” do qual ele acusa Bento XVI. Por que jamais houve um herege que pusesse suas esperanças em algum outro concílio da Igreja?

Não se trata aqui, portanto, de simples opinião de um herege. Trata-se de seu interesse perverso contra a Igreja apoiado no Vaticano II, o que faz qualquer pessoa inocente, que jamais tenha estudado a questão, parar um pouco para refletir sobre a ortodoxia deste concílio. Mesmo que a palavra de Küng não seja prova irrefutável dos erros do Vaticano II, o que aliás é muito óbvio, elas não deixam de clamar por um aprofundamento por parte de quem esteja alheio à questão do Vaticano II.

Além desta inquitante situação de um herege colocar suas esperanças em um concílio, temos também o fato de que pessoas totalmente discordantes sobre a Igreja, uns amando-a como os católicos tradicionais, outras odiando-a como os hereges, enxergam o quanto o Vaticano II modificou a Igreja. Tendo o testemunho de mais de uma fonte, já não podemos imaginar que a ruptura do Vaticano II seja uma invenção tradicionalista. Somos mais uma vez obrigados a entrar no mérito da questão, estudando com mais cuidado os textos do Vaticano II.

Em um inquérito policial, por exemplo, é importante que as testemunhas sejam independentes. Quando os depoimentos de várias delas, sem interesse no caso, convergem, há bons motivos para acreditarmos que estão dizendo a verdade. São, no mínimo, motivo para aprofundarmos a investigação. E, se as partes que estão em litígio estão de acordo em seus depoimentos,  serão, em princípio, ainda maiores os motivos para acreditarmos neles, porque qualquer mentira de um estaria no sentido de prejudicar o outro, o que provocaria discordância dos depoimentos.

Ainda estudando o tema dos testemunhos insuspeitos, façamos uma analogia com o futebol. Vejamos que testemunho tem mais eloquência: depois de uma partida, à qual não assistimos, ficaríamos mais convencidos de que um time jogou bem se ouvíssimos os elogios partindo de um fanático torcedor deste time ou de um igualmente fanático torcedor do time adversário? Claro, se o torcedor de um time rival se vê constrangido a admitir a boa partida de seu adversário, isto é um forte testemunho de que ele realmente jogou bem. Para este torcedor fanático, segundo suas más paixões, seria de seu gosto denegrir o adversário. Somente uma partida brilhante do adversário o forçaria a admitir que ele jogou bem, porque as evidências seriam fortes demais.

Vejamos alguns exemplos mais eruditos do que o do futebol. Depois da Segunda Guerra Mundial, Pio XII recebeu os agradecimentos de judeus salvos do genocídio nazista. Tão evidente foi a ajuda deste papa às vítimas da perseguição que os judeus, mesmo com sua inimizade para com a Igreja Católica, foram obrigados a reconhecer o apoio de Pio XII.

Outro exemplo que li há pouco em meus estudos. Os enciclopedistas estavam imersos em uma filosofia naturalista e anti-católica.  A eles interessaria, em princípio, negar os milagres da Igreja. Uma maneira seria negar a existência de todos os fatos  sobrenaturais. No entanto, como destaca o Cardeal Gousset em sua obra “Theologie Dogmatique”, décima quarta edição, tomo I, páginas 84 a 87, os enciclopedistas reconhecem a existência destes fatos sobrenaturais.

Enfim, sempre que alguém a quem não interessaria admitir uma verdade, acaba por admiti-la, temos um importante testemunho a favor desta verdade.

No nosso caso, aos hereges não convém auxiliar os católicos tradicionais em seu combate contra o Vaticano II. São uma fonte completamente independente, até mesmo contrária a nós, e que também reconhecem a ruptura do Vaticano II. A diferença, como já dissemos, é que eles apóiam esta ruptura, enquanto que nós a combatemos.

Os inimigos da Igreja e os maus clérigos fazem uso do Vaticano II para defender seus erros

O assunto de nosso último artigo demonstra bem o quanto o Vaticano II é utilizado pelo clero moderno para defender suas aberrações. Pois foram exatamente os textos horríveis do Vaticano II que Dom Aldo Pagotto invocou para explicar sua atitudade de prefaciar um livro espírita. E qualquer católico liberal que queira defender o ecumenismo faz largo uso dos textos do Vaticano II. Qual outro concílio poderia ser invocado para defender o irenismo, o indiferentismo religioso? Qual? Simplesmente não há como tirar dos outros concílios nenhum texto para defender os erros que são defendidos com o auxílio dos textos do Vaticano II.

E os encontros ecumênicos e as orações em comum com os hereges, tão condenados pelo magistério pré-conciliar? O Vaticano II declarou desejável aquilo que era completamento proibido anteriormente:

Em algumas circunstâncias peculiares, como por ocasião das orações prescritas «pro unitate» em reuniões ecuménicas, é lícito e até desejável que os católicos se associem aos irmãos separados na oração. (UR 8)

E os sacramentos? Nem eles escaparam da fúria destruidora do concílio, pois ele deixou consignado em sua letra aquilo que era também completamente proibido anteriormente: a communicatio in sacris, isto é, a recepção de sacramentos conjunta entre católicos e hereges ou cismáticos:

De harmonia com estes princípios, podem ser conferidos aos Orientais que de boa fé se acham separados da Igreja católica, quando espontâneamente pedem a estão bem dispostos, os sacramentos da Penitência, Eucaristia e Unção dos enfermos. Também aos católicos é permitido pedir os mesmos sacramentos aos ministros acatólicos em cuja Igreja haja sacramentos válidos, sempre que a necessidade ou a verdadeira utilidade espiritual o aconselhar e o acesso ao sacerdote católico se torne física ou moralmente impossível.
Supostos estes mesmos princípios, permite-se, igualmente por justa causa, a communicatio nas funções sagradas, coisas e lugares entre católicos e irmãos separados orientais. (OE 27,28)

Como alguém poderia se opor aos abusos irenistas da era pós-conciliar se, por absurdo, quisesse negar a evidentíssima ruptura do concílio com todo o magistério anterior e com toda a Tradição da Igreja?

Não é sem motivos que os todos inimigos da Igreja, especialmente os clérigos de mentalidade liberal, fazem grande uso do Vaticano II. Pois é exatamente nas suas letras que se encontra toda “justificativa” para o procedimento irenista que corrói a Igreja tradicional. Seja a intenção deles destruir a Igreja, seja a de transformá-la em algo ao seu gosto, o mal que eles fazem com o apoio do Vaticano II é enorme.

Mas o mal do concílio não para no ecumenismo. O que dizer, por exemplo, daquela malfadada expressão “opção preferencial pelos pobres” que a teologia da libertação (leia-se, escravidão) utiliza como slogan? Ao contrário da Igreja Católica, que busca a evangelização e a salvação de todos, a teologia da libertação, como mascaramento da sua ideologia marxista, busca a “evangelização” dos pobres. Evangelização entre aspas, porque o que eles querem é apenas doutrinação comunista dos pobres para utilizá-los como inocentes úteis. Mas, esta expressão “evangelização dos pobres”, poderia ser encontrada no magistério legítimo da Igreja? Se, por um absurdo, por um enorme absurdo, considerássemos o Vaticano II como magistério legítimo da Igreja, idêntico aos demais concílios, a resposta seria afirmativa. Pois lemos, no final do número 5 do decreto Ad Gentes:

Continuando esta missão e explicitando através da história a missão do próprio Cristo, que foi enviado a evangelizar os pobres, a Igreja, movida pelo Espírito Santo, deve seguir o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação própria até à morte, morte de que Ele saiu vencedor pela sua ressurreição. (Ad Gentes, 5).

Se a teologia da libertação fizer uso desta passagem para defender suas idéias, ela estaria abusando do que está escrito? Não. No texto do Vaticano II ficou escrito exatamente um dos lemas destes marxistas.

Pesquisando na internet, não é nada difícil encontrar o termo “evangelizar os pobres” em sites da teologia da libertação, como este, por exemplo: http://teologiaelibertacao.blogspot.com/2010/01/evangelizar-os-pobres.html. Já que chegamos a este site, é interessante notar a lista de livros indicados pelo mesmo:

Os imorais “O Príncipe”, de Maquiavel, e “Assim falou Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche; “A ética protestante e o espírito do capitalismo” de Max Weber; “Ensaio sobre a cegueira” do ateu José Saramago; “Experimentar Deus”, do inimigo da Igreja Leonardo Boff; para provar a “ortodoxia” da TL, “Teologia do pluralismo religioso, para uma leitura pluralista do cristianismo” (José Maria Vigil); e, como o diabo não consegue mesmo esconder os chifres, há até livros fundamentais do comunismo: Manifesto do Partido Comunista (Marx & Engels) e O Estado e a Revolução (V.I. Lenin).

No meio de um coquetel tão indigesto como este, haveria espaço para algum documento realmente católico? Poderia haver a indicação de um concílio da Igreja? Só se for o Vaticano II que, de fato, está lá indicado, em sua edição pela Paulus, “Documentos do Concílio Vaticano II”. Por que será que a leitura do Vaticano II pode ser indicada pelos inimigos da Igreja? Por que nenhum outro concílio recebe esta “honra”?

Qualquer pessoa de boa vontade entende isso. O Vaticano II é “remédio” para doente que não quer sarar. O magistério legítimo da Igreja jamais seria recomendado pelos seus inimigos. Já o Vaticano II o é. Prestem bastante atenção: o Vaticano II não somente é citado como até mesmo recomendado pelos inimigos infiltrados na Igreja, junto com Lenin, Marx, Nietzsche, Saramago et caterva…

Que outro concílio da Igreja é tão largamente utilizado para defender idéias anti-católicas? Quando é que um concílio como o de Trento ou do Vaticano (Primeiro) seria recomendado pelos inimigos da Igreja?

Conclusão

Como pode alguém não perceber que “onde há fumaça, há fogo”? Tudo o que citamos não são provas cabais, mas são evidências claríssimas de que algo de muitíssimo errado há sim com o Vaticano II. Diante de tantas evidências, ninguém tem o direito de repetir cegamente que o Vaticano II é um concílio idêntico aos demais. Todos temos a obrigação moral de estudarmos mais a fundo a questão antes de de nos pronunciarmos. É isto o que temos feito neste blog (muitas vezes aprofundando o raciocínio já iniciado por outros numerosos trabalhos, que não faltam àqueles que tem boa vontade de estudar o assunto), comparando os textos do Vaticano II com o magistério anterior a ele, os escritos dos santos, a doutrina católica, as Sagradas Escrituras. E o que encontramos é uma infinidade de contradições. Estas contradições sim, são provas irrefutáveis de que o concílio rompeu com a Tradição da Igreja. Uma ruptura enorme, inegável e que explica todo o caos em que vivemos nesta “doce primavera” pós-conciliar.

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PS: os comentários permanecem fechados até que terminemos a série sobre a credibilidade do Vaticano II.

É necessário haver liberdade de discussão em um concílio ecumênico?

É necessário haver liberdade de discussão em um concílio ecumênico? Quero com isso dizer: seria legítimo um concílio que negasse a um determinado grupo de bispos legítimos tomar parte nas discussões deste concílio?

Se um determinado grupo de bispos fosse proibido de participar de um concílio, certamente ele não seria ecumênico. E se em algum concílio, para o qual tenham sido convocados todos os bispos do mundo, passasse a ocorrer o silenciamento de um grupo de bispos, que não sejam hereges, continuaria ele sendo legítimo?

Já tivemos a oportunidade de levantar o tema do silêncio a que foram reduzidos os bispos que defendiam a doutrina tradicional da Igreja durante o Vaticano II, e o fizemos em comparação com as extensas discussões do Vaticano I. E, na oportunidade, chamamos a atenção para o fato de que o concílio que propôs com tanta veemência o diálogo, foi exatamente o mesmo que se mostrou autoritário ao extremo, silenciando os bons bispos católicos que se viam, pelas absurdas regras do concílio, impedidos de fazer a refutação aos textos apresentados pelos modernistas, que detinham a presidência do concílio.

Concluímos, então, que não é possível comparar o Vaticano Segundo ao Vaticano Primeiro quanto à liberdade de discussão. A que se pareceria melhor, então, o Vaticano II?

Estudando a história da Igreja, sabemos que o papa São Leão Magno, escreveu uma epístola dogmática onde condenava a heresia do monofisitismo. A reação dos hereges foi convencer o imperador a convocar um concílio, que se pretendia ecumênico, a ser celebrado na cidade de Éfeso, no ano de 449. O papa enviou seus legados. Tínhamos tudo para ser mais um concílio ecumênico. No entanto, leiamos de duas fontes distintas o que se passou naquela ocasião:

496. a. No entanto, a pedido de Êutiques e seus sectários, Teodósio II convocou um sínodo para Éfeso (449), confiando a presidência a Dióscoro, desde muito sectário do monofisitismo e rival de Flaviano. Leão I, só de mau grado, enviou os seus legados para presidirem o sínodo. Dióscoro, não querendo entregar-lhes a presidência, desde o princípio violou todas as formalidades e, apoiado por seus 200 monges que consigo trouxera, fez sentir bruscamente a Flaviano a sua vingança.
b. As cartas do papa nem sequer foram lidas. Concedeu-se a palavra a Êutiques, mas não a seus adversários. Êutiques foi, como era de prever-se, declarado ortodoxo, porque afirmava admitir as definições do niceno e do efesino. Flaviano e Eusébio foram depostos. A mesma sorte coube a outros bispos que tinham pronunciado contra Êutiques, ou passavam por nestorianos, como Teodoreto de Ciro, Ibas de Edessa e Domno de Antioquia. Dos 135 conciliares que se achavam presentes, muitos assinaram a sentença, outros foram maltratados, outros se esconderam. Flaviano, em breve, veio a falecer em conseqüência das violências que sofreu. Os legados pontifícios levantaram em protesto a sua voz; mas em vão. Só pela fuga escaparam dos tormentos. Teodósio confirmou as atas do sínodo. Mas o papa condenou a assembléia, chamando-a de “latrocínio” (Ep. 95,2). Dióscoro, por sua vez, excluiu o papa da comunhão eclesiástica.

(Frei Dagoberto Romag, OFM; Compêndio de História da Igreja; Volume I; 2a. Edição; Petrópolis; 1948; pg 214-215)

O que se passou neste sínodo foi uma contínua violência do começo ao fim. A presidência foi tomada por Dióscoro por imposição do imperador. Ao seu lado estava o fanático abade Bársumas, acompanhado de grande número de monges, que mais pareciam forças de assalto. Os delegados do imperador colocaram-se desde o princípio às ordens do presidente. Em troca, o lado oposto, que era o do Papa, chefe da Cristandade, e seus legados, não podia dizer nem uma palavra. A Teodoreto de Crito e Eusébio de Doriléia nem sequer se lhes permitiu assistir. A Flaviano se lhe tratou desde o princípio como vítima de suas iras.

Estes fatos constituem o primeiro ato do sínodo. Foi uma rebelião manifesta; mas, como não permitiram oposição nenhuma, não houve altercados nem violências. Mas então se passou para o segundo, que terminou com uma verdadeira tragédia e com sangue de matírio.

(Llorca, García, Montalban; Historia de la Iglesia Católica; Madrid; 1955; Tomo I; pg 576)

No “latrocínio” de Éfeso, como o chamara o papa Leão I, não houve oportunidade para que os legados pontifícios falassem. Foram silenciados do começo ao fim. Na segunda fase do sínodo, foi utilizada inclusive a força para impedir-lhes de defender a doutrina católica. No concílio Vaticano II os métodos foram mais sutis, mas nem por isso deixaram os hereges de alcançar seus objetivos, pois os bons bispos católicos não tinham liberdade para impugnar o que aqueles propunham para a assembléia conciliar.

Mas as coincidências entre os dois sínodos não terminam aqui. A outra, tão escandalosa como a primeira, é que a presidência de ambos concílios foi entregue aos hereges. Paulo VI, por seu liberalismo, não interveio no concílio como deveria, permitindo que os hereges modernistas o dominassem, como extensamente descreve o Pe. Ralph Wiltgen, repórter no concílio e testemunha dos fatos, em seu livro “O Reno se lança no Tibre”.

Outro ponto a destacar em nossa comparação é que, em Éfeso, as cartas do papa São Leão Magno não foram nem lidas. E, no Vaticano II, todos os esquemas preparatórios, que defendiam perfeitamente a doutrina católica, foram completamente desprezados. Anos de trabalho da cúria romana foram jogados no lixo pelos hereges que presidiam o concílio. Ambos sínodos afastaram de si previamente o que havia de católico sobre os assuntos que seriam discutidos. Ou melhor, que seriam expostos pelos hereges sem oportunidade de uma válida oposição da parte dos que guardavam a ortodoxia.

Finalmente, é notório que ambos sínodos viram o triunfo de doutrinas já condenadas pela Igreja, respectivamente, o monofisitismo e o modernismo. A diferença é que São Leão Magno logo anulou o conciliábulo de Éfeso, enquanto que Paulo VI, de formação liberal, nada condenou dos absurdos do Vaticano II. Se Paulo VI fizesse uso de sua autoridade papal como fez Leão I, jamais teríamos visto escândalos como a liberdade religiosa, o ecumenismo e a colegialidade – doutrinas já condenadas pela Igreja – nos textos do Vaticano II.

Para reforçar o que temos dito, vejamos o que escreveu um cardeal, cerca de oitenta anos antes do Vaticano II, em um livro de teologia dogmática, sobre um concílio onde não houvesse liberdade para os padres conciliares:

1020. Em terceiro lugar, é necessário, para a ecumenicidade de um concílio, que todas as deliberações sejam livres. Uma assembléia onde tudo se faça  sob a impressão do medo, onde os sufrágios são arrancados pela violência ou pela ameaça, não pode mais ser vista como uma assembléia deliberante: deixando de ser livre, um concílio deixa de existir, ou não existe mais que de nome.

(Cardeal Gousset, Théologie Dogmatique, Tomo I, Paris, 1884, pág 620)

O Cardeal trata da situação em que as votações não seriam livres por conta do uso da força e da ameaça. No Vaticano II, ao contrário do latrocínio de Éfeso, não houve violência física. Mas nem por isso houve a liberdade que se necessita em concílio ecumênico, pois as votações versavam sobre temas que os presidentes do concílios, que eram modernistas, apresentavam para a assembléia sem que os padres conciliares que defendiam a ortodoxia católica pudessem impugná-los. A forma como os “piratas do Reno”, os modernistas, conduziram as discussões e as votações do Vaticano foram mais sutis do que a força bruta de Éfeso, mas não deixaram de ter influência profunda no resultado do concílio, cuja assembléia não pode deliberar livremente.

Estes fatos não poderão ser desconsiderados quando o concílio Vaticano II, sob um papa que não seja influenciado pelo liberalismo, venha a ser julgado. A ausência de liberdade deliberativa é um fator que pode, segundo nosso entendimento, pesar muito em uma declaração de ilegitimidade do Concílio Vaticano II. Ou, no mínimo, em um séria revisão de todos seus textos.

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PS: Este artigo faz parte da série sobre a credibilidade do Concílio Vaticano II. Os comentários serão abertos quando a série estiver encerrada.

Encontramos, em nossas pesquisas, um artigo de neo-conservadores que tentam disfarçar as semelhanças entre o CV II e o latrocínio de Éfeso. Refutá-lo-emos em um próximo artigo nos pontos em que não foram tocados no presente.

Um concílio ecumênico não pode ter erros, logo…

Um concílio ecumênico pode ter erros? Não, não pode. “Então o concílio Vaticano II não tem erros”! Esta é a “brilhante” conclusão a que chegam alguns aguerridos defensores do concílio.

Na realidade, o que eles se utilizam largamente é de uma petição de princípio. Eles tomam como verdade a seguinte afirmação: “o CV II é um concílio idêntico aos demais,  gozando da mesma autoridade que todos os outros”. A partir de então, eles desenvolvem o seguinte raciocínio:

Um concílio ecumênico não pode conter erros graves contra a Fé

o concílio Vaticano II é um concílio idêntico aos demais

Logo, o concílio Vaticano II não pode conter erros contra a Fé

A forma do raciocínio está correta. A premissa maior é verdadeira. Para a conclusão ser verdadeira, basta que a premissa menor também o seja. Mas será que isto se verifica?

À primeira vista, poderia alguém ingenuamente imaginar que sim. Mas, depois de algum estudo sério, já é impossível continuar sustentando esta afirmação. A ninguém é lícito negar as evidências. Pois bem, se encontramos erros graves contra a Fé nos textos do concílio Vaticano II, podemos ter a certeza de que, no mínimo, ele tem algo de diferente dos demais. Conhecendo seus erros, já não temos mais o direito de fingir que não há nada de mal com o concílio. Constatando que os textos do concílio contradizem os ensinamentos anteriores, já não podemos colocar a culpa em um posterior abuso de interpretação. E, que o concílio possui erros em seus textos, isto já ficou provado por diversos trabalhos como, por exemplo, a sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II.

A partir desta constatação, somos obrigados a raciocinar de outra forma:

Um concílio ecumênico não pode conter erros graves contra a Fé

O concílio Vaticano II contém erros graves contra a Fé

Logo, o concílio Vaticano II não pode ser um concílio ecumênico idêntico aos demais

A fim de não alongar demais e perder o foco, não vou entrar, neste artigo, na discussão sobre a validade do Vaticano II, nem sobre a utilidade de ser ele completamente anulado. Deixemos estes pontos para futura discussão. Vamos nos limitar, por enquanto, apenas ao que há de mais evidente: por conter erros graves contra a Fé, o concílio Vaticano II não pode, de forma alguma, ser considerado igual aos demais, nem tem a mesma autoridade que eles. Esta é a conclusão a que ninguém, depois de ter lido os textos do Vaticano II e os comparado com a doutrina católica, pode se furtar.

Estudemos uma situação do mundo natural para com ela fazermos uma comparação. Sabemos que o isopor flutua na água. Se lançamos algo que parece um pedaço de isopor na água e ele afunda, podemos ter certeza absoluta de que não se trata apenas de isopor. Algum material de elevada densidade, com certeza, está presente dentro daquilo que lançamos na água e que, visualmente, aparentava ser apenas isopor. Ninguém, em sã consciência, continuaria a afirmar que se trata apenas de isopor o material que não flutuou.

De forma análoga, o Vaticano II tem todas as aparências de um concílio ecumênico como os demais. Mas, desde que constatamos que muitos de seus textos estão em frontal discordância com o ensinamento anterior da Igreja, já não nos é lícito querer impor ao católico a mesma obediência ao Vaticano II que se deve aos demais concílios ecumênicos. Do mesmo modo que um objeto que afunda na água não pode ser feito de puro isopor, um concílio que contém erros em seus textos não pode ser igual aos demais, não pode gozar da mesma autoridade que os outros. Ele é, na melhor das hipóteses, um concílio com autoridade menor que a dos demais.

O grande problema é que, ao contrário da experiência do material que afundava na água, aqui as paixões se levantam contra a razão. Todos os que, de uma forma ou de outra, se beneficiaram (aparentemente) com o concílio, hão de fazer a sua defesa apaixonada. Ou mesmo aqueles que nunca leram o concílio, mas se acham no direito de discutir o assunto como sábios, não fazem outra coisa senão sustentar um raciocínio falso, baseado em uma petição de princípio.

No caso do fiel que nunca leu as críticas ao concílio, é muito natural que o aceite, pois a boa índole do católico lhe conduz sempre à obediência sadia àquilo que a Santa Madre Igreja lhe apresenta. Pode estar no erro ao seguir as determinações do Vaticano II, mas estará de boa fé, sem malícia nem culpa própria, porque ainda não lhe foi dada a oportunidade de conhecer os seus erros.

Muito diferente é o caso daquele que já leu as críticas ao concílio e ainda assim age como se não houvesse erros no mesmo. Tão frontais são as contradições entre o concílio e o Magistério anterior, que não se pode conceber alguém que não compreenda a sua mútua incompatibilidade. Tanto que não se atrevem a entrar no mérito da questão e argumentar contra as críticas ao concílio. Com um mínimo de boa vontade em se comparar o que ficou escrito no concílio e o que a Igreja sempre ensinou, é impossível manter-se no erro de boa fé, ou seja, sem negar a verdade conhecida. Vejamos alguns exemplos.

Se a Unitatis Redintegratio diz que devemos orar com os hereges e cismáticos, e as Sagradas Escrituras, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino dizem que não devemos nos associar em oração com aqueles que estão fora da Igreja, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Orientalium Ecclesiarum permite até que católicos compartilhem sacramentos com hereges e cismáticos, enquanto que o Código de Direito Canônico e o Santo Ofício o proíbem, exceto em casos graves e urgentes, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Sacrossanctum Concilium diz que devemos fazer “experiências” com a liturgia, enquanto que os papas anteriores impediam qualquer mudança sem sua prévia autorização, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Gaudium et Spes ensina que se deve trabalhar para alcançar uma fraternidade universal, algo completamente liberal, utópico, equanto que a Igreja sempre ensinou que existem dois campos inimigos, tão bem explicado por Santo Agostinho em suas duas cidades, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se vários documentos do concílio ensinam a salvação universal do gênero humano, enquanto que toda a doutrina católica sempre ensinou que existem homens que se salvam e homens que se perdem eternamente, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Todos estes exemplos, e muitíssimos outros, são evidentes demais para que alguém, de boa fé, possa negar a ruptura com tudo o que a Igreja sempre ensinou até então.

Assim, o combate em defesa do concílio Vaticano II se torna muito mais objeto de paixão do que de razão. Os seus fanáticos defensores não entram no mérito da questão.  E nunca vão fazer isto, pois é derrota certa. Não dão resposta alguma às críticas católicas contra os erros do concílio. O mais comum é que chamem para seu lado a “autoridade”. Somente não diferenciam os altos cargos no Vaticano daqueles que defendem o concílio e a Autoridade divina da Igreja, que o papa e os bispos podem exercer (podem exercer, mas não necessariamente exercem a todo momento). Qualquer opinião de qualquer prelado da Igreja passa a ser “autoridade” à qual se deve obedecer cegamente, por mais absurda que seja.

Outra evidência clara de que os defensores do concílio se apóiam muito mais em suas paixões do que na razão são as suas constantes ofensas contra os católicos tradicionais. Na incapacidade de argumentar contra as  evidentes contradições entre o concílio e a doutrina de sempre da Igreja, o caminho que os conciliares seguem é o de acusar os católicos tradicionais de desobediência, insubordinação ou até mesmo cisma. Em alguns casos o nível dos defensores do concílio, até dos mais “moderados”, ditos neo-conservadores, chegam às ofensas pessoais e às palavras nada edificantes. Alguns ultrapassam o nível da animalidade em sua furiosa guerra contra os católicos tradicionais, utilizando-se do mais baixo nível moral, dando demonstração, assim, do quanto o concílio é “eficaz” na santificação de suas almas. Todos estes argumentos ad hominem somente mostram a incapacidade de argumentar contra as evidentes rupturas do concílio com a Tradição. Tudo o que eles podem fazer é repetir, ad nauseam, a petição de princípio de que o Vaticano II é um concílio com a mesma autoridade dos demais.

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PS: este é apenas o primeiro artigo da série sobre a credibilidade do concílio Vaticano II. Com este artigo isolado não temos nenhuma pretensão de responder a todas as objeções que se possam fazer em defesa do concílio.  Muitas outras argumentações ainda serão apresentadas. Pedimos a paciência dos opositores até que cheguemos ao final da série.

A inculturação da liturgia promovida pelo Vaticano II

Mesmo com a toda a opressão modernista, com todo o silêncio a que a parte podre do clero reduziu a Tradição, grande parte dos católicos inocentes que estão nas mãos dos conciliares repudia as inovações litúrgicas mais abusivas. Muitas vezes, como já aconteceu mesmo comigo, os católicos buscam uma missa onde não haja barulho, músicas impróprias, danças, teatros e encenações. Quantos católicos, com um mínimo de noção de nossa santa religião, aprovam as missas inculturadas, isto é, aquelas profundamente modificadas para “refletir a cultura local”? Missas adaptadas às diversas culturas e regiões dividem a Igreja, abrem brechas para profanações, tiram o sentido do sagrado, pois demonstram que a sua preocupação é o homem, e não Deus.

Vejamos o que nos diz São Pio V:

(…) é soberanamente oportuno que, na Igreja de Deus, haja uma só maneira de salmodiar e um só rito para celebrar a Missa. (Quo Primum Tempore, 3)

O Concílio Vaticano II, conforme dizem seus aguerridos defensores, não teria rompido com a Tradição. Será que isto corresponde à realidade? Já tivemos a oportunidade de demonstrar, em diversas ocasiões, que a resposta é negativa. Lendo a afirmação de São Pio V, destacada acima, e comparando-a ao texto do concílio, podemos constatar mais uma oposição:

Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na Liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida, mas respeitar e procurar desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos. A Igreja considera com benevolência tudo o que nos seus costumes não está indissolùvelmente ligado a superstições e erros, e, quando é possível, mantem-no inalterável, por vezes chega a aceitá-lo na Liturgia, se se harmoniza com o verdadeiro e autêntico espírito litúrgico. (Sacrossanctum Concilium, 37)

Para São Pio V, é útil que haja um só rito para a Santa Missa na Igreja de Deus. Para o concílio Vaticano II, não há desejo de impor “uma forma única e rígida nem mesmo em liturgia”. Ó cegos defensores do concílio, respondei-me: São Pio V estava errado ao impor uma forma única e rígida para a Santa Missa?

Mais uma contradição entre o “sacrossanto” concílio e a Tradição. E o Vaticano II não queria apenas algumas adaptações, mas sim “desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos“.

Quando vemos, portanto, uma missa “crioula”, ou uma missa “afro” (esta outra em plena Basílica de Nossa Senhora Aparecida – imaginem se alguém pedisse para celebrar a Missa Tridentina!) , ou uma missa “cowboy”, ou qualquer outro desvio da missa para se adaptar às culturas, podemos perguntar se não tem grande culpa o concílio por ter aberto a brecha para a inculturação.

O concílio reconhece que a Sé Apostólica deve dar seu consentimento para a introdução das adaptações litúrgicas (SC 40.1). Mas, será que isto isentaria a culpa do concílio pelos abusos que vemos por toda parte? Cremos que não, e apresentaremos nossos motivos para assim pensar.

Primeiro, o concílio não deveria jamais propor algo que é contrário ao bem da Igreja e que abre a porta para muitos abusos, como é o caso das adaptações regionais. Pois, como disse São Pio V, é necessário que haja, na Igreja Romana, um só rito para celebrar a Missa. O concílio deveria ter reforçado a necessidade da unidade de rito da Igreja, e não ter proposto a inculturação.

Depois, Paulo VI era um liberal, o que implica que ele não tinha pulso firme para conter os bispos rebeldes. Veja-se o caso exemplar, relatado pelo Pe Ralph Wiltgen em “O Reno se lança no Tibre”, que o papa chorou quando percebeu que fora enganado pelos bispos modernistas, mas não tomou nenhuma atitude contra eles. De acordo com o mesmo texto do concílio, a Sé Apostólica deveria apenas autorizar ou não as modificações, cuja competência para elaboração pertencia às Conferências espiscopais (SC 22.2, 39, 40.1, 40.2)! Ora, conferências episcopais dominadas por bispos modernistas, fazendo pressão sobre um papa fraco (na melhor das hipóteses), poderia acabar em que, senão nas mais variadas formas de inculturação?

Por conta deste liberalismo, depois de ter aberto a brecha para as modificações regionalizadas da liturgia, a reserva da Sé Apostólica acabava sendo letra morta frente à agitação dos espíritos pseudo-reformadores. Somente uma ação enérgica da Santa Sé poderia conter o estrago provocado pelo estímulo de liberdade concedido pelo concílio. Mas o liberalismo dos papas pós-conciliares os impediu de qualquer atitude. O resultado todos nós conhecemos.

Vamos ler alguns trechos da Sacrossanctum Concilium para reforçar o que dissemos nos parágrafos anteriores:

Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o art. 22 § 2, determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição. (SC 39)

1) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2, considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspecto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia. Proponham-se à Sé Apostólica as adaptações julgadas úteis ou necessárias, para serem introduzidas com o seu consentimento. (SC 40)

2) Para se fazer a adaptação com a devida cautela, a Sé Apostólica poderá dar, se for necessário, à mesma autoridade eclesiástica territorial a faculdade de permitir e dirigir as experiências [sic] prévias que forem precisas, em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado. (SC 40)

Segundo o concílio, portanto, a iniciativa para propor as adaptações caberia às Conferências Episcopais – dominadas pelos modernistas, nunca é demais lembrar-, e à Santa Sé caberia dar ou não seu consentimento. Pior do que isso, o concílio abriu a possibilidade de se transformar a Liturgia da Igreja em “laboratório” onde se realizam experiências para poder determinar melhor como se deveria fazer a adaptação desta liturgia às tradições e gênio de cada povo… Tudo sem romper com Tradição bi-milenar da Igreja, claro! Ou você iria cometer o sacrilégio de supor que o imaculado super-concílio poderia romper com a Tradição?

Devemos considerar, também, a razão pela qual o concílio se propunha a fazer tais adaptações. E não é difícil entender que a causa final de tal reforma era servir ao homem, em pleno acordo com a blasfema e odiosa declaração da Gaudium et spes:

Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes. (Gaudium et spes, n. 12)

Se tudo deve ser ordenado em função do homem, e não mais de Deus, nada mais lógico do que adaptar a liturgia à situação de cada cultura e região, para melhor servir ao homem.

Não nos custa nada encontrar ensinamentos papais contrários ao Vaticano II. De fato, S.S. Gregório XVI, em sua bula Inter Gravissimas, de 3 de fevereiro de 1832, dirigida aos católicos armênios, já dizia que qualquer inovação a ser introduzida no rito armênio necessitava de autorização prévia da Santa Sé:

Occorre pertanto attenersi scrupolosamente alla prassi che vieta di introdurre qualsiasi innovazione nei riti della sacra liturgia senza avere interpellato la Sede Apostolica. Anche quando si trattasse di dar vita a cerimonie che sembrano meglio rispondere alle direttive liturgiche approvate dalla stessa Sede, è permesso solo per gravissimi motivi e dopo avere ottenuto la doverosa autorizzazione della Sede Apostolica. Vi è inoltre un motivo specifico per attenersi coscienziosamente, presso gli Armeni cattolici, a questa prassi, poiché nell’antica normativa Armena relativa al culto era permessa la celebrazione della Messa solenne soltanto secondo le prescritte cerimonie.

[É necessário, portanto, ater-se escrupulosamente à praxe que proíbe introduzir qualquer inovação nos ritos da sagrada liturgia sem ter interpelado a Sé Apostólica. Também quando se tratasse de dar vida a cerimônias que parecem melhor responder às diretivas litúrgicas aprovadas pela mesma Sé, é permitido apenas por gravíssimos motivos e depois de ter obtido a necessária autorização da Sé Apostólica. Além de que, a Vós, há um motivo específico para ater-se conscenciosamente, junto aos católicos armênios, a esta praxe, uma vez que na antiga normativa Armênia relativa ao culto era permitida a celebração da Missa solene apenas segundo as cerimônias prescritas.]

http://www.totustuustools.net/magistero/g16integ.htm

Vamos recapitular: antes do Concílio Vaticano II era necessária uma autorização prévia da Santa Sé para introduzir qualquer inovação nos ritos. A partir do concílio, fica aberta até mesmo a possibilidade de se conceder às Conferências Espiscopais a faculdade de realizar “experiências” no campo litúrgico. Tudo sem ruptura com a Tradição, claro. Acredite piamente nisso ou se prepare para ser chamado de rad trad, cismático, sede-vacantista prático, etc.

Vários outros trechos do mesmo documento conciliar repetem a autorização para introduzir adaptações regionais em diversos pontos da liturgia:

Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas. (SC 38)

Seja lícito admitir nas terras de Missão, ao lado dos elementos próprios da tradição cristã, os elementos de iniciação usados por cada um desses povos, na medida em que puderem integrar-se no rito cristão, segundo os art.s 37-40 desta Constituição. (SC 65)

Concede-se à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2 desta Constituição, a faculdade de preparar um rito próprio de acordo com o uso dos vários lugares e povos, devendo, porém, o sacerdote que assiste pedir e receber o consentimento dos nubentes. (SC 77)

As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã. Adapte-se mais o rito às condições e tradições das várias regiões,  mesmo na cor litúrgica. (SC 81)

Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas acções sagradas. (SC 119)

Assim, com bastante insistência, o concílio concedeu um grande estímulo para a inculturação do rito católico.

Todo o potencial destrutivo destas concessões conciliares fica mais evidente quando confrontados com a heresia do modernismo. De fato, S.S. São Pio X em sua memorável encíclica Pascendi, ao nos descrever o modernismo como o entende o crente, escrevia:

Esta comunicação da experiência às vezes lança raízes e vive; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles é a mesma coisa. E daqui, mais uma vez, se infere que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam. (Pascendi, 2)

Para os modernistas, portanto, vida e verdade se confundem. O que existe é verdadeiro, morre aquilo que é falso. Uma vez que as formas adaptadas dos ritos já estivessem em pleno uso, ainda que “experimental”, já se poderiam considerar bons e legítimos, segundo o modernismo. A mesma justificativa dos modernistas para afirmar que todas as religiões existentes são boas, pode ser aplicada também para afirmar que todas as formas litúrgicas existentes são boas.

Assim, não importava para a estratégia modernista que alguns trechos do concílio,  contendo reservas sobre a necessidade de estarem os ritos reformados de acordo com a regras da liturgia, pudessem ser lidos de forma ortodoxa. O que importava é que, na prática, após as formas adaptadas do novo rito estarem sendo celebradas, estarem “vivas”,  a leitura modernista destes fatos já seria suficiente para qualificá-las como legítimas. E que papa liberal teria força para fazer valer a autoridade de Roma? A triste história pós-conciliar nos confirma que nenhum deles agiu com firmeza contra estes abusos.

Depois de todas estas considerações, resta-nos apenas rebater um argumento muito repetido pelos neo-conservadores: o de que já havia abusos litúrgicos antes do Concílio Vaticano II e que, portanto, os atuais abusos não são culpa deste concílio. A primeira coisa a observar é que os abusos litúrgicos eram cometidos contra a autoridade da Igreja, cujos documentos eram firmes em ensinar a dignidade dos ritos. Com o concílio, em vez de se reforçar a rigidez dos ritos, abriu-se um enorme campo para inovações e adaptações às diversas culturas e povos, com direito até a executar experiências prévias – um convite irrecusável para deformar o rito romano. Ora, o concílio deixou por escrito aquilo que os modernistas queriam, e que souberam aproveitar muito bem. Além disso, a natureza e gravidade dos abusos litúrgicos depois do concílio não se comparam de forma alguma aos anteriores. O que se vê na igreja pós-conciliar são sacrilégios horríveis, cometidos até pela alta hierarquia da Igreja. Atitude enérgica de Roma? Não. Excomunhão mesmo, só para quem queria a Santa Missa de sempre e fez o que foi necessário para conservá-la.

A reforma litúrgica imposta pelo Concílio Vaticano II

Começamos, com este artigo, a análise e a crítica da constituição Sacrossanctum Concilium, que dispôs sobre a Sagrada Liturgia, no Vaticano II. Concentraremos, no presente, as atenções apenas sobre a reforma litúrgica imposta pelo concílio, deixando outros aspectos para serem tratados posteriormente. Como veremos, já é assunto para um artigo longo, e para muito mal-estar provocado pela forma como a letra do concílio se dirigiu à Igreja e sua liturgia.

Em 1570, Sua Santidade o Papa Pio V, de venerabilíssima memória, escreveu a bula “Quo Primum Tempore“, na qual, de maneira clara, objetiva e inquestionável, definiu a forma do rito romano como ela deveria permanecer para sempre, sem jamais ser alterada (os destaques, nestas e em outras citações, são nossos):

6 – E a fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por Nós, em todas as Igrejas. (…)

7 – Quanto a todas as outras sobreditas Igrejas, por Nossa presente Constituição, que será válida para sempre, Nós decretamos e ordenamos, sob pena de nossa indignação, que o uso de seus missais próprios seja supresso e sejam eles radical e totalmente rejeitados; e, quanto ao Nosso presente Missal recentemente publicado, nada jamais lhe deverá ser acrescentado, nem supresso, nem modificado. (…)

(…)

Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bemaventurados Apóstolos Pedro e Paulo.

As palavras de SS São Pio V não deixam a menor margem para dúvidas: o missal por ele aprovado terá validade para sempre, e jamais poderá ser modificado. Ninguém, que deseje permanecer fiel à Tradição e ao Magistério infalível da Igreja, pode, portanto, afirmar que haja qualquer brecha para se alterar a liturgia romana.

O cardeal Pacelli, futuro papa Pio XII, comentou sobre a mensagem de Fátima, onde Nossa Senhora advertia sobre o risco de uma mudança na liturgia:

Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora diante do perigo que ameaça a Igreja, é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, em sua liturgia, sua teologia e sua alma”.(…)

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=pacelli_3segredo

Apesar de tão claras palavras de São Pio V, e da admoestação de Nossa Senhora em Fátima, comentada pelo então cardeal Pacelli, o concílio Vaticano II propôs um ampla reforma litúrgica:

A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia.

Nesta reforma, proceda-se quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam com mais clareza as coisas santas que significam, e, quanto possível, o povo cristão possa mais fàcilmente apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária. (Sacrossanctum Concilium, 21)

Em outro artigo, já tivemos a oportunidade de apresentar os argumentos de que, se a Missa Tritendina não contém erros, como de fato não contém, não haveria motivos para ser modificada. Afinal, que motivo poderia ser alegado para se fazer uma reforma geral na liturgia sem admitir, implicitamente, que a atual continha muitos defeitos? O texto que destacamos acima traz implícitas estas acusações. De fato, ao afirmar que a reforma litúrgica haveria de “permitir ao povo cristão um ascesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém” e que “os textos e ritos reformados deveriam exprimir com maior clareza as coisas santas que significam”, a letra do concílio está implicitamente negando estas qualidades a Liturgia pré-conciliar.

O Concílio de Trento, dogmático e infalível, ensinou que a Missa não contém erros:

“Cân. 6. Se alguém disser que o cânon da Missa contém erros e, portanto, deve ser ab-rogado: seja anátema”.

“Cân. 7. Se alguém disser que as cerimônias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade: seja excomungado”.

Podemos, então, perguntar aos defensores da missa nova: se a Missa Tridentina não contém erros, por que haveria de ser reformada? E, aliás, amplamente reformada, como desejava o Concílio Vaticano II? Como responder a esta pergunta sem cair no anátema de Trento?

O concílio admite abertamente a introdução de inovações na liturgia:

Finalmente, não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes. (SC 23)

A ressalva de que as novas formas devessem surgir das já existentes não justifica as inovações, para sempre interditadas por São Pio V. Pelo contrário, somente causa estranheza como se poderia conciliar uma inovação com um simples desenvolvimento de formas já existentes. O resultado final, a missa nova, conteve muitas inovações a ponto de se poder dizer que foi “fabricada”, e não foi, de forma alguma, um desenvolvimento da Missa Tridentina.

Não menos estranha é a pressa do concílio em se fazer a revisão dos livros litúrgicos:

Faça-se o mais depressa possível a revisão dos livros litúrgicos, utilizando o trabalho de pessoas competentes e consultando Bispos de diversos países do mundo. (SC 25)

Somente se age com toda pressa possível quando se está em uma situação crítica, desesperadora. Será que o concílio assim considerava a liturgia da Igreja naquele momento? Estava tão errada ou tão inadequada que necessitava de ser revisada com toda a pressa possível?

Mas o trecho mais terrível deste documento conciliar é o seguinte:

O interesse pelo incremento e renovação da Liturgia é justamente considerado como um sinal dos desígnios providenciais de Deus sobre o nosso tempo, como uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja, e imprime uma nota distintiva à própria vida da Igreja, a todo o modo religioso de sentir e de agir do nosso tempo. (SC 43)

Muito pior que o aggiornamento, o concílio afirma que naquele momento estava havendo “uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja”… E eu que pensava que o Espírito Santo sempre e em todo o momento conduzia a Igreja, agora, por meio do “sacrossanto”, “imaculado” e “intocável” super-concílio, fiquei sabendo que a terceira pessoa da Santíssima Trindade estava fazendo apenas uma passagem pela Igreja naquela década de 1960… O texto conciliar é uma blasfêmia contra a ininterrupta assitência do Espírito Santo à sua Igreja. Se, por absurdo, admitíssemos qualquer grau de autoridade no Vaticano II, como poderíamos censurar os “movimentos” pós-conciliares que afirmam algo como um “renovamento” do Espírito a partir do concílio?

Respiremos fundo a fim de superar a nossa indignação contra o “sacrossanto” concílio e prossigamos a análise, pois ainda há muitos absurdos neste mesmo documento conciliar.

Afrontando desavergonhadamente a ordem de São Pio V de jamais se alterar o Missal, o concílio deu ordem de revisar o Ordinário:

50. O Ordinário da missa deve ser revisto, de modo que se manifeste mais claramente a estrutura de cada uma das suas partes bem como a sua mútua conexão, para facilitar uma participação piedosa e activa dos fiéis. Que os ritos se simplifiquem, bem respeitados na sua estrutura essencial; sejam omitidos todos os que, com o andar do tempo, se duplicaram ou menos ùtilmente se acrescentaram; restaurem-se, porém, se parecer oportuno ou necessário e segundo a antiga tradição dos Santos Padres, alguns que desapareceram com o tempo.

Como se colocou em destaque, o concílio não somente ordenou a revisão do Ordinário da Missa, como declarou a finalidade: “manifestar mais claramente a estrutura de cada uma de suas partes bem como sua mútua conexão”. Somos, então, obrigados a fazer a pergunta: o Ordinário antigo não possuía a clareza necessária? Era obscuro a tal ponto de exigir o pronunciamento de um concílio ecumênico para declarar a necessidade de tal revisão?

Os rituais dos sacramentos e sacramentais, à época do concílio, também não seriam suficientemente claros quanto à natureza e fim… Por isso, seria necessário aggiornarli:

Tendo-se introduzido, com o decorrer do tempo, no ritual dos sacramentos e sacramentais, elementos que tornam hoje menos claros a sua natureza e fim, e devendo por isso fazer-se algumas adaptações às necessidades do nosso tempo, o sagrado Concílio decretou o seguinte em ordem à sua revisão. (SC 62)

Em que as necessidades do nosso tempo diferiam dos tempos passados, isto o concílio não esclareceu. E nem poderia fazê-lo, pois as necessidades espirituais do homem, que são aquelas às quais os sacramentos e sacramentais atendem, são sempre as mesmas em todas as épocas, independentes das necessidades materiais. Mas a ânsia devoradora do aggiornamento, imbuída de filosofia evolucionista, não pode fazer estas considerações da filosofia perene, tão católicas.

O rito do batismo, seja o dos adultos como o das crianças, também deveria ser revisto:

Revejam-se tanto o rito simples do Baptismo de adultos, como o mais solene, tendo em conta a restauração do catecumenado, e insira-se no Missal romano a missa própria «para a administração do Baptismo». (SC 66)

Reveja-se o rito do Baptismo de crianças e adapte-se à sua real condição. Dê-se maior realce, no rito, à parte e aos deveres dos pais e padrinhos. (SC 67)

O rito da Confirmção também precisava ser revisto porque “a íntima união deste sacramento com toda a iniciação cristã” não estava bastante ressaltada:

Para fazer ressaltar a íntima união do sacramento da Confirmação com toda a iniciação cristã, reveja-se o rito deste sacramento; pela mesma razão, é muito conveniente, antes de o receber, fazer a renovação das promessas do Baptismo. (SC 71)

E o rito da Penitência? Segundo o concílio, também ele precisa ser revisto para ter mais clareza:

Revejam-se o rito e as fórmulas da Penitência de modo que exprimam com mais clareza a natureza e o efeito do sacramento. (SC 72)

A Unção dos Enfermos escaparia das reformas? Claro que não:

O número das unções deve regular-se segundo a oportunidade. Revejam-se as orações do rito da Unção dos enfermos, de modo que correspondam às diversas condições dos que recebem este sacramento. (SC 75)

O rito da Ordenações também não poderia escapar da fúria reformadora:

Faça-se a revisão do texto e das cerimónias do rito das Ordenações. As alocuções do Bispo, no início da ordenação ou sagração, podem ser em vernáculo. (SC 76)

Para não deixar de fora nenhum sacramento, reforme-se finalmente o rito do matrimônio, mas não sem perder a oportunidade de clamar por mais “clareza”:

A fim de indicar mais claramente a graça do sacramento e inculcar os deveres dos cônjuges, reveja-se e enriqueça-se o rito do Matrimónio que vem no Ritual romano. (SC 77)

As exéquias também precisam de reforma, pois as atuais não exprimem de maneira suficiente o sentido de passagem da morte cristã:

As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã.(SC 81)

Faça-se a revisão do rito de sepultura das crianças e dê-se-lhe missa própria. (SC 82)

O leitor já está cansado e indignado? Eu também estou. Mas vamos respirar fundo para suportar mais esta aberração do concílio:

Restaurem-se os hinos, segundo convenha, na sua forma original, tirando ou mudando tudo o que tenha ressaibos mitológicos ou for menos conforme com a piedade cristã. Se convier, admitam-se também outros que se encontram nas colecções hinológicas. (SC 93)

A Igreja, antes do concílio, estava permitido hinos com “rassaibos mitológicos e com elementos menos conformes com a piedade cristã”, julgando-se o concílio no dever de corrigir este grave desvio… Não vou nem comentar.

Para encerrar as citações:

Revejam-se o mais depressa possível, juntamente com os livros litúrgicos, conforme dispõe o art. 25, os cânones e determinações eclesiásticas atinentes ao conjunto das coisas externas que se referem ao culto, sobretudo quanto a uma construção funcional e digna dos edifícios sagrados, erecção e forma dos altares, nobreza, disposição e segurança dos sacrários, dignidade e funcionalidade do baptistério, conveniente disposição das imagens, decoração e ornamentos. Corrijam-se ou desapareçam as normas que parecem menos de acordo com a reforma da liturgia; mantenham-se e introduzam-se as que forem julgadas aptas a promovê-la. (SC 128)

Mais uma vez nos deparamos com a inexplicável pressa do concílio em reformar, como se estivesse a liturgia pré-conciliar da Igreja em uma situação de calamidade. Afinal de contas, que necessidade havia de se rever a construção dos edifícios sagrados, a forma dos altares, a disposição dos sacrários, etc? Se observarmos bem o que o concílio mandou rever, perceberemos que a pseudo-reforma do pós-concílio somente destruiu tudo o que havia de belo, de santo, de profundamente católico na liturgia da Igreja e em tudo o que se relaciona a ela.

As reformas continuam: o rito da consagração das Virgens (80), o Ofício divino (87-89), o ano litúrgico (107)… Tudo, tudo precisa ser mudado! Tudo precisa de mais clareza, precisa se expressar melhor, precisa corresponder melhor ao mundo de hoje… Não sobra pedra sobre pedra! Tudo está errado ou, na melhor da hipósteses, inadequado!

Seria ingenuidade demais não enxergar a mão dos hereges modernistas escrevendo a letra do concílio, desprovida de respeito por tudo aquilo que a piedade católica conservava na liturgia. Muito mais do que a crítica implícita nos textos que pedem a reforma geral – pois não se ordena a mudança daquilo que está perfeito-, a Sacrossanctum Concilium abriu aos modernistas a brecha para destruir a liturgia da Igreja. E, a história pós-conciliar prova, de maneira irrefutável, que os modernistas souberam aproveitar a oportunidade que eles mesmos criaram.

Ao ler a Sacrossanctum Concilium, com as imposições de alterações em todas as áreas da liturgia da Igreja, não é possível ficar com outra impressão senão a de que se insinua que tudo estaria errado, ou ao menos ultrapassado nesta matéria. A Igreja estaria dormindo, permitindo que toda sua liturgia se tornasse, em todos as áreas, inadequada para os tempos modernos. É a fúria do aggiornamento, esta nota tão característica do “espírito” do concílio, já condenado por Bento XVI, que ataca com toda sua violência. E a ferocidade desta revolução que tudo pretende renovar, como se caduco estivesse, ficou consignada na letra do concílio para perpétua – e infeliz – memória.

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PS: – todos os textos citados da Sacrossanctum Concilium foram retirados do site do Vaticano;

– há muitos outros aspectos a serem analisados na SC, trabalho que será feito em outros artigos.

Todo poder aos sovietes… quer dizer, às Conferências Episcopais!

Os fatos recentes sobre a política brasileira trouxeram à vista, de maneira irrefutável, o quanto a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil pode atrapalhar o legítimo pastoreio dos bons bispos que ainda temos. Para os que ainda se enganavam, ficou evidente o abismo que existe entre o que faz a CNBB e o que deveria fazer uma entidade que se auto-denomina católica.

Como se poderia dar uma coisa dessas? Como poderia acontecer que uma conferência episcopal tentasse desautorizar um bispo quando este defende a moral católica? Como poderia acontecer que vários bispos e padres apoiassem um partido comunista e esta mesma conferência não os condenasse publicamente? Como poderia acontecer que uma conferência episcopal promovesse campanhas da “fraternidade” laicistas, ecumênicas, naturalistas, desviando totalmente o sentido da Quaresma? Como poderia uma conferência episcopal promover o indiferentismo religioso? Como?

Todas estas perguntas demostrariam apenas a ingenuidade de quem não conhece a história do golpe de estado que sofreu a Igreja e que se chamou Concílio Vaticano II. Em seu livro “Acuso o concílio”, Dom Marcel Lefebvre cita as intervenções assinadas pelos bispos tradicionais, ele mesmo e dom Carli incluídos, sobre a colegialidade. Estas intervenções já colocavam em evidência a ameaça que a colegialidade representava tanto para a autoridade dos bispos isolados como a do próprio Papa. Eis o trecho de uma das intervenções:

Esse texto [do esquema proposto], de fato, pretende que os membros do Colégio dos bispos possuam direito de governo, seja com o Sumo Pontífice sobre a Igreja universal, seja com os outros bispos sobre as diversas dioceses.

Praticamente, a colegialidade existiria, por um Senado internacional residente em Roma e governando com o Sumo Pontífice a Igreja universal e pelas Assembléias nacionais de
bispos com verdadeiros direitos e deveres em todas as dioceses de uma mesma nação.

Por aí, pouco a pouco, se substituiria na igreja o governo pessoal de um só pastor por Colégios, sejam internacionais, sejam nacionais. Muitos Padres falaram do perigo de uma diminuição do poder do Sumo Pontífice e estamos plenamente de acordo com eles. Mas entrevemos outro perigo ainda mais grave: a desaparição progressiva e ameaçadora do caráter essencial dos bispos, que é o de ser “verdadeiros pastores, que apascentam e governam cada um seu próprio rebanho, confiado a ele, com um poder próprio e imediato e pleno em sua ordem”. Logo e insensivelmente, as assembléias nacionais, com suas comissões, apascentariam e governariam todos os rebanhos, de tal forma que os sacerdotes mesmos e os fiéis encontrar-se-iam colocados entre estes pastores: o bispo, cuja autoridade seria teórica, e a assembléia com suas comissões, que deteriam, de fato, o exercício da autoridade. Poderíamos aportar vários exemplos de dificuldades nas quais se debatem sacerdotes, fiéis e até bispos.

Nosso Senhor quis, certamente, fundar as igrejas particulares sobre a pessoa de seu pastor, e com quanta eloquência falou desta! Também a tradição universal da Igreja nos ensina, como nos mostra com tanta beleza a liturgia da consagração episcopal.

Por isso as assembleias episcopais fundadas sobre uma colegialidade moral, sobre a caridade fraterna, sobre a ajuda mútua podem procurar um grande proveito ao apostolado. Se elas, ao contrário, tomam pouco a pouco o lugar dos bispos, fundadas sobre uma colegialidade jurídica, podem causar-lhe um grave prejuízo.

Portanto, a fim de evitar o dano de que sejam transmitidas a colégios as funções do Sumo Pontífice e dos bispos, propomos outro texto em lugar dos números 16 e 17 e o submetemos à Comissão conciliar.

Dom Marcel Lefebvre, Acuso o concílio, 1976, pg 20-21

Esta intervenção, assinada por dezoito padres conciliares, parece até mesmo uma profecia. De fato, o que testemunhamos hoje em dia, de forma irrefutável, não é exatamente o que previam estes santos padres conciliares? A CNBB desmentindo o que disseram os bispos contra o aborto não é exatamente a situação descrita nesta intervenção? E todas as outras situações que conhecemos, onde os bons bispos e sacerdotes são silenciados por conferências episcopais modernistas não são nada senão a conseqüência lógica da colegialidade defendida pelo Vaticano II. Conseqüência esta denunciada com toda clareza por Dom Marcel Lefebvre e demais bispos fiéis à Igreja Católica antes mesmo do fim do concílio.

É impossível negar que os males atuais da Igreja têm as suas raízes no Concílio Vaticano II. Muitos querem resolver os problemas que afligem a Igreja hoje em dia, mas não querem admitir de forma alguma os erros evidentes do Vaticano II. Reclamam, com justiça, que os bispos não obedecem o Papa, que as conferências episcopais silenciam os bons bispos. Mas se recusam a admitir o óbvio: que foi a maldita colegialidade, defendida pelo malfadado Concílio Vaticano II, a responsável pela anarquia que se vê hoje por toda parte na Igreja. Para salvar o concílio, esforçam-se para jogar toda a sujeira debaixo do tapete. Com isso, acabam varrendo as folhas mortas que caem ao chão, mas arrancar pela raiz a árvore má, a isto eles se recusam com obstinação nada cristã.

Outra intervenção, de 6 de novembro de 1963 e citada no mesmo livro do Dom Lefebvre, coloca em evidência o absurdo da colegialidade. Citamos um trecho:

Se neste Concílio [a colegialidade] se descobre como que por milagre e se afirma solenemente,  é necessário afirmar logicamente como quase o tem feito um dos Padres: “a Igreja romana equivocou-se ao ignorar o princípio fundamental de sua divina constituição, o princípio de colegialidade jurídica. E isto, durante longos séculos”.

É necessário também afirmar, logicamente, que os Romanos Pontífices abusaram de seu poder até hoje, negando aos bispos direitos que lhes correspondem por direito divino. Não poderíamos, então, dizer ao Sumo Pontífice o que alguns lhe disseram em termos equivalentes: “devolve o que deves”?

Em verdade, isto é grotesco e sem o menor fundamento.

Em suma: se falamos de colegialidade moral quem a nega? Todo o mundo a admite. Se falamos de colegialidade jurídica, então, como o disse muito bem Dom Carli, “não se pode provar nem pela Sagrada Escritura nem pela teologia nem pela história”.

É mais prudente, pois, não recorrer a esse princípio, já que não é de nenhuma forma correto.

Dom Marcel Lefebvre, Acuso o concílio, 1976, pg 24

Todas estas intervenções conseguiram amenizar um pouco a situação, mas não foram suficientes para livrar o concílio de defender o erro grotesco da colegialidade. Chegou-se à bizarra situação de uma nota explicativa prévia colocada ao final do texto de um documento conciliar, mas os erros permaneceram. E a história pós-conciliar demonstra de forma irrefutável o quanto estavam corretos em suas previsões Dom Marcel Lefebvre e demais padres conciliares tradicionais. Toda a anarquia e o igualitarismo que vemos hoje é a árvore nascida da semente da colegialidade plantada pelo Vaticano II.

Na seqüência, citaremos uma série de textos extraídos do Concílio Vaticano II a respeito das conferências episcopais, ressaltando os poderes que estes verdadeiros órgãos revolucionários receberam e que, como todos sabemos, empregaram muito mal. Todos os eventuais destaques nos textos são nossos:

Onde parecer oportuno às Conferências Episcopais, restaure-se a ordem do diaconato como estado permanente de vida, a teor da Constituição de Ecclesia. (Ad Gentes, 16)

As conferências receberam o direito de organizar cursos de renovação (sic) em diversas matérias para o clero:

As Conferências episcopais procurem organizar, em tempos determinados,cursos de renovação bíblica, teológica, espiritual e pastoral, para que, na variedade e mudança de situações, o clero adquira um conhecimento mais pleno da ciência teológica e dos métodos pastorais. (Ad Gentes, 20)

Receberam também o direito de elaborar planos para o diálogo ecumênico:

Uma vez que os homens se reúnem cada vez mais em grupos, convém absolutamente que as Conferências episcopais tenham planos comuns sobre o diálogo a instituir com esses grupos. (Ad Gentes, 20)

Na atividade missinonária, devem tomar parte ativa na Congregação de “Propaganda Fide” os bispos de todo o mundo… depois de ouvidas as conferências episcopais:

Para todas as missões e para toda a actividade missionária, haja um só dicastério competente, a saber, a Congregação de «Propaganda Fide», que orientará e coordenará, em todo o mundo, tanto a actividade como a cooperação missionária, ressalvando-se, contudo, o direito das Igrejas orientais. (…) Na direcção deste dicastério, tenham parte muito activa, com voto deliberativo, representantes escolhidos de todos aqueles que trabalham na obra missionária: os Bispos de todo o mundo, depois de ouvidas as Conferências episcopais, e os Superiores dos Institutos e das Obras pontifícias, segundo as normas e proporções que o Romano Pontífice estabelecer. Todos estes, que hão-de ser convocados em datas fixas, exerçam, sob a autoridade do Sumo Pontífice, a suprema orientação de toda a obra missionária. (Ad Gentes, 29)

A atividade missionária deveria estar sob a direção das Conferências episcopais:

Mas, para que a actividade missionária dos Bispos a bem de toda a Igreja se possa exercer mais eficazmente, convém que as Conferências episcopais tomem a direcção de todos os assuntos que dizem respeito a uma ordenada cooperação da própria região.

Nas suas Conferências tratem os Bispos dos sacerdotes do clero diocesano que devem dedicar à evangelização dos gentios; da contribuição fixa que cada diocese, em proporção com os seus recursos, deve oferecer todos os anos para a obra das missões; da direcção e organização das formas e dos meios de ajudar directamente as missões; do auxílio e, se for preciso, até da fundação de Institutos missionários e seminários do clero diocesano para as missões; do estreitamento dos laços entre estes Institutos e as dioceses.

Às Conferências episcopais pertence também fundar e promover instituições que fraternalmente recebam e ajudem, com o devido interesse pastoral, os que, por razões de estudo ou de trabalho, emigram das terras de missão. (Ad Gentes, 38)

A formação dos sacerdotes deveria ser elaborada pelas conferências episcopais:

Uma vez que não podem dar-se senão leis gerais para tão grande variedade de povos e regiões, estabeleça-se em cada nação ou rito um peculiar «Plano de formação sacerdotal que há-de ser promulgado pela Conferência episcopal, revisto periodicamente e aprovado pela Santa Sé. (Optatam Totius, 1)

Mesmo depois de terminado o seminário, a formação sacerdotal ainda estará nas mãos das ditas conferências:

Devendo a formação sacerdotal ser continuada e completada, mesmo depois de terminado o curso do Seminário, por causa das condições do mundo moderno, pertence às Conferências episcopais estabelecer em cada nação os meios mais aptos, como sejam Institutos pastorais em colaboração com paróquias bem escolhidas, assembleias em tempos estabelecidos e exercícios apropriados. (Optatam Totius, 22)

As mudanças ou inovações nas dioceses também estariam sob a tutela das conferências:

Antes de, segundo os números 22 e 23, se proceder a mudanças ou inovações nas dioceses, é recomendável que, salvaguardada a disciplina das Igrejas orientais, estes assuntos sejam examinados pelas Conferências episcopais competentes, cada uma em seu território; e recorra-se mesmo, se parecer conveniente, a uma Comissão especial constituída pelos Bispos das províncias ou das regiões interessadas no caso. Em seguida, comuniquem os pareceres e votos à Sé Apostólica. (Christus Dominus, 24)

Para não deixar dúvida da autoridade outorgada às Conferências episcopais, o concílio deixou claro que os religiosos devem se curvar diante delas:

4)(…) Do mesmo modo, estão os religiosos obrigados a observar todas as disposições que os Concílios ou as Conferências episcopais legitimamente estabelecerem para todos. (Christus Dominus, 35)

Com relação à pseudo-reforma da liturgia, que não passou de uma enorme e gravíssima deforma, haveria de se escrever um artigo exclusivo para tratar deste assunto. Aqui, citaremos apenas os trechos que fazem referência às conferências episcopais, dando-lhes o poder de modificar a liturgia.

Receberam, as ditas conferências o direito de regular, dentro de alguns limites, a liturgia, inclusive em relação ao uso do vernáculo. No caso de aprovado o uso do vernárculo pela Santa Sé, a tradução ficaria a cargo das mesmas conferências:

§ 2. Em virtude do poder concedido pelo direito, pertence também às competentes assembleias episcopais territoriais de vário género legitimamente constituídas regular, dentro dos limites estabelecidos, a Liturgia. (Sacrossantum Concilium, 22)

§ 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica.  (Sacrossantum Concilium, 36)

§ 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.  (Sacrossantum Concilium, 36)

Os poderes das Conferências delegados pelo concílio vão mais longe:

Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o art. 22 § 2, determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição. (Sacrossantum Concilium, 39)

A tarefa da inculturação, essencial para descaracterizar a unidade do rito tradicional, também será proposta pelas ditas conferências:

1) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2, considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspecto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia. Proponham-se à Sé Apostólica as adaptações julgadas úteis ou necessárias, para serem introduzidas com o seu consentimento. (Sacrossantum Concilium, 40)

Poderão também constituir uma comissão litúrgica:

Convém que a autoridade eclesiástica territorial competente, a que se refere o art. 22 § 2, crie uma Comissão litúrgica, que deve servir-se da ajuda de especialistas em liturgia, música, arte sacra e pastoral.  (Sacrossantum Concilium, 44)

As conferências episcopais receberam também o poder de reformar o rito do matrimônio de acordo com os usos locais:

Concede-se à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2 desta Constituição, a faculdade de preparar um rito próprio de acordo com o uso dos vários lugares e povos, devendo, porém, o sacerdote que assiste pedir e receber o consentimento dos nubentes. (Sacrossantum Concilium, 77)

E, quando reclamamos, com toda razão, das campanhas da fraternidade laicistas da CNBB, devemos nos lembrar que o concílio recomendou às conferências episcopais a reforma da penitência quaresmal, tornando-a mais “externa e social” (sic):

A penitência quaresmal deve ser também externa e social, que não só interna e individual. Estimule-se a prática da penitência, adaptada ao nosso tempo, às possibilidades das diversas regiões e à condição de cada um dos fiéis. Recomendem-na as autoridades a que se refere o art. 22. (Sacrossantum Concilium, 110)

Podem introduzir no culto divino outros instrumentos musicais além do órgão, fazendo ressalvas que puderam ser facilmente atropeladas na prática:

Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos [além do orgão], segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido nos art. 22 § 2, 37 e 40, contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis. (Sacrossantum Concilium, 120)

Com relação à arte sacra, as instruções do próprio concílio já são uma aberração, uma vez que dá ordem explícita para corrigir ou fazer desaparecer aquilo que não esteja de acordo com a reforma da liturgia! Ou seja, o “sacrossanto” concílio abriu o caminho para a destruição da arte sacra tradicional. Não contente com isso, ainda concedeu liberdade às Conferências episcopais para fazer adaptações às necessidades e costumes locais:

Revejam-se o mais depressa possível, juntamente com os livros litúrgicos, conforme dispõe o art. 25, os cânones e determinações eclesiásticas atinentes ao conjunto das coisas externas que se referem ao culto, sobretudo quanto a uma construção funcional e digna dos edifícios sagrados, erecção e forma dos altares, nobreza, disposição e segurança dos sacrários, dignidade e funcionalidade do baptistério, conveniente disposição das imagens, decoração e ornamentos. Corrijam-se ou desapareçam as normas que parecem menos de acordo com a reforma da Liturgia; mantenham-se e introduzam-se as que forem julgadas aptas a promovê-la.

Neste particular e especialmente quanto à matéria e forma dos objectos e das vestes sagradas, o sagrado [sic] Concílio concede às Conferências episcopais das várias regiões a faculdade de fazer a adaptação às necessidades e costumes dos lugares, segundo o art. 22 desta Constituição. (Sacrossantum Concilium, 128)

Para encerrar as citações deste artigo, a aplicação da educação cristã também estará nas mãos das Conferências episcopais:

Por isso, o sagrado Concílio enuncia alguns princípios fundamentais sobre a educação cristã, mormente nas escolas, princípios que serão depois desenvolvidos por uma Comissão especial e aplicada nos diversos lugares pelas Conferências episcopais. (Gravissimum Educationis, proêmio)

Estas foram algumas sementes da colegialidade plantadas pelo concílio.

Acrescente-se a todos estes poderes dados às Conferências Episcopais o abandono do exercício da autoridade dos Papas, devido à contaminação pelas idéias liberais, e teremos verdadeiros sovietes instalados em cada nação e agindo livremente para impelir a Igreja na direção do progressismo. Colocaram os lobos para tomar conta do rebanho e depois se assustaram quando encontraram as ovelhas mortas…

Não podemos ignorar o fato de que todos estes poderes foram entregues pelo Concílio Vaticano II. Assim, quando a autoridade do papa é desafiada, ou quando os bons bispos e padres foram, ou ainda são, silenciados pelas conferências episcopais dominadas por modernistas, não podemos reclamar da situação se defendemos o concílio que plantou as sementes do igualitarismo. Não temos o direito de esconder as culpas do concílio, que abriu todas as brechas possíveis para a revolta do clero modernista contra o Papa e contra os bons bispos e sacerdotes. Estamos apenas pagando o preço da traição à Igreja que foi a introdução da colegialidade, apesar de todas as advertências dos bons padres conciliares.

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Nota: todos os textos do concílio citados foram extraídos do site do Vaticano