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A continuación sigue una lista de sítios donde hay buenos libros y audios católicos que se pueden descargar o leer/escuchar on-line.

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Stat Veritas – libros y artículos en  PDF y conferencias en MP3 para descarga – en español.

Bibliotèque Saint Libère – descarga de libros católicos en francés, español, inglés, italiano, portugués y otras lenguas. Biblioteca diversificada, grande y bien seleccionada de libros, artículos y documentos católicos.

Grupo São Tomás de Aquino – descarga de libros católicos en portugués, español y inglés. Contiene el Denziger, en español.

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O caminho da paz não passa por Assis, passa por Fátima

Infelizmente, Assis III teve início e está se desenrolando como já temíamos que fosse, um desastre ecumênico. Provalmente não ocorrerão as aberrações e profanações que se deram sob a complacência do “beato” João Paulo II. Mas o clima de indiferentismo não deixa de estar presente.

Este encontro é um enorme equívoco. De onde o Vaticano tirou a absurda idéia de que a reunião das religiões seria o caminho para a paz? Por acaso alguém se lembra qual foi a promessa de paz feita por Deus através da Santíssima Virgem Maria em Fátima?

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Bem que eu poderia repetir o título do último artigo

Não bastasse a decepção que tivemos com Dom Bergonzini, tema de nosso último artigo, tomamos conhecimento hoje de outro prelado, que temos em boa estima, promovendo o indiferentismo religioso. Dom Aldo Pagotto, outro bispo que, a exemplo do primeiro, levantou corajosamente sua voz em defesa dos inocentes assassinados por meio do crime hediondo do aborto, simplesmente escreveu o prefácio de um livro espírita.

O erro de Dom Bergonzini foi grave, pois ele, com suas palavras, deu a entender o contrário do que nos ensina a Santa Madre Igreja, através do dogma de que “fora da Igreja não há salvação”, além de defender o Estado laico. Mas, Dom Aldo também deu péssimo exemplo, induzindo os fiéis ao indiferentismo religioso. Como haveríamos de explicar a um fiel que é pecado mortal participar de uma sessão espírita se nos calássemos diante do próprio bispo que escreve um prefácio para um livro espírita? Se a doutrina católica e a espírita são incompatíveis, por que então utilizar o peso de seu cargo de arcebispo para dar credibilidade a um livro de alguém que professa uma crença incompatível com a Fé da Igreja? Logo para os espíritas, que gostam de seduzir os católicos dizendo que não há incompatibilidade entre as duas doutrinas, para depois, pouco a pouco afastar o católico da doutrina da Igreja e fazê-lo crer apenas na do espiritismo. Imaginem que bela oportunidade de propaganda o arcebispo deu para os espíritas, pois eles poderão dizer a um católico incauto: “se até o seu bispo prefacia os nossos livros, por que você não pode assistir às nossas reuniões? Deixe de preconceito!”

De fato, existem ainda alguns poucos prelados que têm a coragem de levantar a voz para defender temas morais da maior importância em nossos dias. Constatamos, porém, para nossa decepção, que mesmo estes prelados cometem erros graves contra a Fé, induzindo os fiéis ao indiferentismo religioso.

Infelizmente, o único “dogma” que existe para os clérigos modernos é o intocável Vaticano II. Aliás, não poderia faltar, como de fato não faltou, um apelo ao Vaticano II na carta que o arcebispo escreveu para se justificar de sua atitude. O bispo cita, para tanto, aquela obra asquerosa, um dos mais mentirosos documentos do Vaticano II, que é a Unitatis Redintegratio. Por que os prelados modernos não se lembram também da Mortalium Animos? Simplesmente porque não é possível encontrar nenhuma conciliação entre estes dois documentos. O documento tracional exige que qualquer trabalho para a unidade esteja centrado na conversão à única Fé verdadeira. O documento revolucionário fala muito de unidade, mas não menciona uma vez sequer a necessidade de conversão à Fé verdadeira. Por isso é que é necessário escolher entre a pureza da Tradição ou a feijoada do Vaticano II, com seu caldo azedado de irenismo.

Mas o Vaticano II não é a única justificativa do arcebispo. Os maus exemplos de indiferentismo religioso dados pelos papas pós-conciliares também mereceu ser citado por Dom Aldo. Como se a moralidade de nossos atos se baseasse na cega imitação dos atos, ainda que escorados na dignidade dos altos cargos que ocupam. Ora, imaginem se alguém quisesse tomar o papa Alexandre VI por exemplo a ser seguido…

Muito oportuno é lembrar que até São Paulo teve de se opor a São Pedro. “Resisti-lhe em face”, disse o grande apóstolo dos gentios (Gal 2,11). São Paulo não seguiria jamais a atual onda de indiferentismo com a desculpa de que o “papa também faz”. Pois foi ele próprio quem escreveu que “ainda que nós mesmos, ou um anjo do Céu, vos ensine doutrina diferente desta que vos temos pregado, seja excomungado” (Gal 1,8). Dado que o indiferentismo conciliar e pós-conciliar contraria tudo o que foi ensinado ao longo de toda a história da Igreja, qualquer católico tem a mais grave obrigação de rejeitá-lo, não importando quão grandes sejam aqueles se desviem do caminho correto. Obediência, neste caso, não passa de eufemismo para covardia.

É muito fácil entender que existem bons e maus pastores. E nós temos toda a doutrina e a moral católicas anteriores ao Vaticano II para nos ensinar, sem erros nem ambigüidades, o que devemos crer e como devemos agir. Enveredar pelas águas podres do concílio só pode induzir ao indiferentismo, mesmo aqueles que se destacam, em temas morais, da massa de covardes traidores.

Senhores bispos e padres que venham a ler este artigo, por caridade, parem de induzir os fiéis ao indiferentismo religioso. Se alguns deles não quiserem ouvir as palavras do bom pastor e seguirem as falsas religiões, a culpa será somente deles. Mas não maculem suas consciências, não sejam cúmplices na perdição de tantas almas. O ecumenismo conciliar é a via errada, é o caminho de saída da Igreja. Cinqüenta anos de prática ecumênica provam-no até à exaustão. Sejam tão firmes na defesa da doutrina quanto o são na defesa da moral (que alguns dentre os senhores fazem tão bem, devemos reconhecer), porque ambas são imprescindíveis. E, quanto aos que estão fora da Igreja, trabalhem apenas para convertê-los e não para agradá-los, pois é somente a Deus devemos procurar agradar.

É impossível não se decepcionar com os elementos da “plena comunhão”

Os seguidores do Vaticano II não cansam mesmo de nos decepcionar. Até mesmo os que defendem a lei natural, destacando-se assim da multidão de covardes traidores, não conseguem fugir da correnteza irenista desencadeada pelo desastroso concílio.

Dom Bergonsini, em recente conferência sobre o aborto, expõe de maneira muito falha a possibilidade de salvação fora da Igreja. Primeiro, afirma que existem sementes de Verdade nas falsas religiões, para as quais, aliás, ele não utiliza este termo que é o que melhor adverte os católicos sobre o perigo de apostatar da Fé verdadeira. O bispo menciona as “pessoas que vivem corretamente, pessoas que praticam a caridade, pessoas que são justas” e chama a isto Sementes do Evangelho, que existiriam em todas as religiões. Na realidade, todos os seres humanos possuem a razão e a voz da consciência que os fazem conhecer o caminho correto a seguir. São Paulo trata deste tema em sua carta aos Romanos, e explica assim como aqueles a quem o Evangelho não foi pregado poderiam, pelo que a Igreja chamou posteriormente de batismo de desejo, chegar a salvação eterna.

Estas tais “sementes do Verbo” que poderiam ser encontradas em todas as religiões não passam de mais uma aberração inventada pelo Vaticano II, em seu decreto Ad Gentes. Bento XVI já se pronunciou contra este erro, esclarecendo que tais sementes do Verbo, segundo os apologistas católicos dos primeiros séculos, encontram-se na filosofia, e jamais nas falsas religiões. Os bispos que se julgam “em plena comunhão”, por que será que não ensinam o mesmo que Sua Santidade?

A sã filosofia sistematiza e expõe mais claramente em sua moral a lei natural, da qual falava São Paulo, além de oferecer provas irrefutáveis da existência de Deus, sua unicidade, sua onipotência, esmagando as loucuras do paganismo que deformava os conceitos religiosos.  As verdades filosóficas não se comparam de forma alguma à religião revelada, mas contra a insanidade e desvarios das falsas religiões, não deixam de ser valioso corretivo. Assim é que se pode entender o que diziam os apologetas, o que, aliás,  depõe contra o que disse o Vaticano II sobre as sementes do Verbo. Para os que militam fora da Igreja Católica, sem culpa própria, a lei natural é o peso com que serão medidos, e a sã filosofia que reforça as verdades fundamentais lhes será sempre um auxílio. Já uma falsa religião será sempre um caminho de perdição, porque junto a algumas verdades, ensinam uma multidão de erros graves, e a salvação de alguma alma que tenha vivido nesta crença somente se dá por ignorância invencível, e a pessoa se salva apesar da falsa religião que professava e não por causa dela. Não existe, portanto, motivo nenhum para confundir as coisas. Apresentar a questão da salvação fora da Igreja sem mencionar a necessidade de ignorância invencível para que tal ocorra, é induzir os fiéis ao erro. No mínimo é uma falha grave na exposição de verdade tão crucial. Isto se não for pior, havendo negação do dogma. Se não se explicar claramente que a possibilidade de salvação dos não católicos se dá por ignorância invencível, é melhor nem tocar no assunto, para não gerar confusão e não se levantar a mínima sombra de dúvida sobre o dogma de que fora da Igreja não há salvação.

Continuando a confusão, o bispo fala de não católicos que são “exemplos na moral, no comportamento” (16’40”). Faltou acrescentar que de nada adianta um comportamento exemplar do ponto de vista natural se não se possui a caridade. “Se não possuir a caridade, nada sou”, dizia o grande apóstolo São Paulo em uma das mais belas passagens de suas cartas. E a caridade, virtude sobrenatural, somente pode existir nas almas que se encontram em estado de graça. Todo o bem natural feito pelo homem em estado de pecado mortal não passa de mera filantropia, e não lhe traz mérito nenhum para a vida eterna. Assim, o bem feito pelos não católicos pode apenas nos envergonhar do bem que nós, dentro da Igreja, não fazemos. Mas jamais pode a simples filantropia servir de modelo, pois jamais poderá ela ser comparada à caridade.

Faltou também ao bispo citar a absoluta necessidade de guardarmos a integridade da Fé Católica. “Pois, se alguém não a professar, integral e inviolavelmente, é certo que se perderá por toda a eternidade”, como nos diz o símbolo atanasiano. Se alguém, como disse o bispo, é exemplo “na moral, no comportamento” mas, conhecendo a Fé católica, a rejeita, isto de nada lhe vale, pois filantropia não salva o homem da condenação eterna.

Mas os erros do bispo não param por aqui. Segue-se uma seqüência horrível de erros sobre as relações entre a Igreja e o Estado, que eu até parei de assistir ao vídeo em determinado momento. O cúmulo dos absurdos foi quando o bispo se mostrou feliz com o fato de o Estado brasileiro não honrar ao único e verdadeiro Deus: “O Brasil, graças a Deus, é um estado laico” (16’52”). Santo Deus! Será que não há bispo “em plena comunhão” que reconhece os direitos do Deus Altíssimo de receber a submissão de toda sua criação, inclusive dos Estados? Será que não há, dentro os prelados atuais, quem defenda a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Antes disto já pudemos ouvir uma confusão do bispo sobre a verdadeira doutrina da Igreja a respeito das relações entre Igreja e Estado. O bispo opõe laicismo, que ele chama de “nada de religião, nenhuma religião”, a um simples estado laico, que “significa que a pessoa tem direito de escolher a sua fé”. Laicista seria um Estado que persegue a religião, enquanto que laico seria aquele que permite todas igualmente. E o bispo, que corretamente condena o primeiro, erroneamente elogia o segundo.

Para esclarecer a confusão do prelado, devemos primeiro corrigir a definição que ele deu de Estado laico. A possibilidade (e não o direito) de cada pessoa escolher sua fé, pode existir mesmo em um Estado confessional. Definir Estado laico como “aquele em que a pessoa tem direito de escolher a sua fé”, induziria a pensar erroneamente que em um Estado confessional isto não ocorreria. Na época do Império do Brasil, que era confessional católico, havia a possibilidade, garantida pela constituição, de a pessoa ter qualquer religião, desde que respeitasse a religião católica e não ofendesse a moral pública. Isto está de acordo com a doutrina católica e se chama tolerância religiosa.

A liberdade religiosa pregada pelo liberalismo, em oposição à tolerância religiosa, seria não somente a possibilidade (como erroneamente expôs o bispo), mas sim o direito reconhecido como tal, de o indivíduo professar qualquer crença que quisesse e a impossibilidade do Estado de se declarar confessional. Isto é contrário à doutrina católica, pois ninguém tem verdadeiro direito de professar o erro. O Estado pode apenas tolerar o erro, mas não o reconhecer com os mesmos direitos da verdade.

Assim, tanto está errada a concepção que o bispo faz do Estado laico, enxergando-o como algo positivo por permitir a liberdade religiosa, que leva ao indiferentismo, como está errada sua concepção sobre o Estado confessional, pois este não implica falta de tolerância religiosa, com conseqüentes conversões forçadas ao catolicismo, como daria a entender erroneamente a fala do bispo. E principalmente, o Estado confessional, ao contrário do Estado laico que o prelado desgraçadamente defende, é aquele que reconhece a realeza social de Nosso Senhor Jesus Cristo, preta-lhe o devido culto, e não induz a população a um nefasto indiferentismo religioso.

Talvez o prelado, lutando contra o aborto, quisesse não se indispor com outras pessoas que se dizem religiosas e que também são contra o aborto. Mas, devemos antes de tudo nos esforçarmos por não nos indispormos contra Deus. E, defender, ainda que praticamente, um relativismo dos dogmas certamente não é a solução para crise nenhuma, senão, muito pelo contrário, um agravamento da mesma e um escândalo nefasto.

Não nos basta seguir a lei natural. Todos nós que tivemos a dádiva de sermos instruídos na revelação divina temos a obrigação de professar inviolavelmente todas as verdades pelas quais nossos antepassados derramaram seu suor e seu sangue para as defender e para no-las transmitir. Infelizmente o indiferentismo é a regra dos que seguem o Vaticano II. É nesta “comunhão” de indiferentistas que querem nos ver metidos? Eu estou, sempre estive e sempre estarei em perfeita comunhão com a Igreja Católica, na integridade de seus dogmas e de sua doutrina. Estou em comunhão com aqueles que querem não que Cristo seja mais um no meio de um panteão enorme de “deuses”, mas sim que Ele seja, com justiça, reconhecido como único Senhor, diante do qual todo joelho se há de dobrar nos Céus, na Terra e nos infernos. Os que não O reconhecem assim, sejam tolerados porque a Fé não pode ser imposta, mas sejam também advertidos, através do nosso testemunho, do mal que fazem e do perigo de condenação que correm, e diante deles professemos a Fé integral e os convidemos a se converter, sem jamais qualquer sombra de indiferentismo.

Um concílio ecumênico não pode ter erros, logo…

Um concílio ecumênico pode ter erros? Não, não pode. “Então o concílio Vaticano II não tem erros”! Esta é a “brilhante” conclusão a que chegam alguns aguerridos defensores do concílio.

Na realidade, o que eles se utilizam largamente é de uma petição de princípio. Eles tomam como verdade a seguinte afirmação: “o CV II é um concílio idêntico aos demais,  gozando da mesma autoridade que todos os outros”. A partir de então, eles desenvolvem o seguinte raciocínio:

Um concílio ecumênico não pode conter erros graves contra a Fé

o concílio Vaticano II é um concílio idêntico aos demais

Logo, o concílio Vaticano II não pode conter erros contra a Fé

A forma do raciocínio está correta. A premissa maior é verdadeira. Para a conclusão ser verdadeira, basta que a premissa menor também o seja. Mas será que isto se verifica?

À primeira vista, poderia alguém ingenuamente imaginar que sim. Mas, depois de algum estudo sério, já é impossível continuar sustentando esta afirmação. A ninguém é lícito negar as evidências. Pois bem, se encontramos erros graves contra a Fé nos textos do concílio Vaticano II, podemos ter a certeza de que, no mínimo, ele tem algo de diferente dos demais. Conhecendo seus erros, já não temos mais o direito de fingir que não há nada de mal com o concílio. Constatando que os textos do concílio contradizem os ensinamentos anteriores, já não podemos colocar a culpa em um posterior abuso de interpretação. E, que o concílio possui erros em seus textos, isto já ficou provado por diversos trabalhos como, por exemplo, a sinopse dos erros imputados ao Concílio Vaticano II.

A partir desta constatação, somos obrigados a raciocinar de outra forma:

Um concílio ecumênico não pode conter erros graves contra a Fé

O concílio Vaticano II contém erros graves contra a Fé

Logo, o concílio Vaticano II não pode ser um concílio ecumênico idêntico aos demais

A fim de não alongar demais e perder o foco, não vou entrar, neste artigo, na discussão sobre a validade do Vaticano II, nem sobre a utilidade de ser ele completamente anulado. Deixemos estes pontos para futura discussão. Vamos nos limitar, por enquanto, apenas ao que há de mais evidente: por conter erros graves contra a Fé, o concílio Vaticano II não pode, de forma alguma, ser considerado igual aos demais, nem tem a mesma autoridade que eles. Esta é a conclusão a que ninguém, depois de ter lido os textos do Vaticano II e os comparado com a doutrina católica, pode se furtar.

Estudemos uma situação do mundo natural para com ela fazermos uma comparação. Sabemos que o isopor flutua na água. Se lançamos algo que parece um pedaço de isopor na água e ele afunda, podemos ter certeza absoluta de que não se trata apenas de isopor. Algum material de elevada densidade, com certeza, está presente dentro daquilo que lançamos na água e que, visualmente, aparentava ser apenas isopor. Ninguém, em sã consciência, continuaria a afirmar que se trata apenas de isopor o material que não flutuou.

De forma análoga, o Vaticano II tem todas as aparências de um concílio ecumênico como os demais. Mas, desde que constatamos que muitos de seus textos estão em frontal discordância com o ensinamento anterior da Igreja, já não nos é lícito querer impor ao católico a mesma obediência ao Vaticano II que se deve aos demais concílios ecumênicos. Do mesmo modo que um objeto que afunda na água não pode ser feito de puro isopor, um concílio que contém erros em seus textos não pode ser igual aos demais, não pode gozar da mesma autoridade que os outros. Ele é, na melhor das hipóteses, um concílio com autoridade menor que a dos demais.

O grande problema é que, ao contrário da experiência do material que afundava na água, aqui as paixões se levantam contra a razão. Todos os que, de uma forma ou de outra, se beneficiaram (aparentemente) com o concílio, hão de fazer a sua defesa apaixonada. Ou mesmo aqueles que nunca leram o concílio, mas se acham no direito de discutir o assunto como sábios, não fazem outra coisa senão sustentar um raciocínio falso, baseado em uma petição de princípio.

No caso do fiel que nunca leu as críticas ao concílio, é muito natural que o aceite, pois a boa índole do católico lhe conduz sempre à obediência sadia àquilo que a Santa Madre Igreja lhe apresenta. Pode estar no erro ao seguir as determinações do Vaticano II, mas estará de boa fé, sem malícia nem culpa própria, porque ainda não lhe foi dada a oportunidade de conhecer os seus erros.

Muito diferente é o caso daquele que já leu as críticas ao concílio e ainda assim age como se não houvesse erros no mesmo. Tão frontais são as contradições entre o concílio e o Magistério anterior, que não se pode conceber alguém que não compreenda a sua mútua incompatibilidade. Tanto que não se atrevem a entrar no mérito da questão e argumentar contra as críticas ao concílio. Com um mínimo de boa vontade em se comparar o que ficou escrito no concílio e o que a Igreja sempre ensinou, é impossível manter-se no erro de boa fé, ou seja, sem negar a verdade conhecida. Vejamos alguns exemplos.

Se a Unitatis Redintegratio diz que devemos orar com os hereges e cismáticos, e as Sagradas Escrituras, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino dizem que não devemos nos associar em oração com aqueles que estão fora da Igreja, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Orientalium Ecclesiarum permite até que católicos compartilhem sacramentos com hereges e cismáticos, enquanto que o Código de Direito Canônico e o Santo Ofício o proíbem, exceto em casos graves e urgentes, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Sacrossanctum Concilium diz que devemos fazer “experiências” com a liturgia, enquanto que os papas anteriores impediam qualquer mudança sem sua prévia autorização, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se a Gaudium et Spes ensina que se deve trabalhar para alcançar uma fraternidade universal, algo completamente liberal, utópico, equanto que a Igreja sempre ensinou que existem dois campos inimigos, tão bem explicado por Santo Agostinho em suas duas cidades, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Se vários documentos do concílio ensinam a salvação universal do gênero humano, enquanto que toda a doutrina católica sempre ensinou que existem homens que se salvam e homens que se perdem eternamente, é absolutamente impossível negar que houve ruptura no concílio.

Todos estes exemplos, e muitíssimos outros, são evidentes demais para que alguém, de boa fé, possa negar a ruptura com tudo o que a Igreja sempre ensinou até então.

Assim, o combate em defesa do concílio Vaticano II se torna muito mais objeto de paixão do que de razão. Os seus fanáticos defensores não entram no mérito da questão.  E nunca vão fazer isto, pois é derrota certa. Não dão resposta alguma às críticas católicas contra os erros do concílio. O mais comum é que chamem para seu lado a “autoridade”. Somente não diferenciam os altos cargos no Vaticano daqueles que defendem o concílio e a Autoridade divina da Igreja, que o papa e os bispos podem exercer (podem exercer, mas não necessariamente exercem a todo momento). Qualquer opinião de qualquer prelado da Igreja passa a ser “autoridade” à qual se deve obedecer cegamente, por mais absurda que seja.

Outra evidência clara de que os defensores do concílio se apóiam muito mais em suas paixões do que na razão são as suas constantes ofensas contra os católicos tradicionais. Na incapacidade de argumentar contra as  evidentes contradições entre o concílio e a doutrina de sempre da Igreja, o caminho que os conciliares seguem é o de acusar os católicos tradicionais de desobediência, insubordinação ou até mesmo cisma. Em alguns casos o nível dos defensores do concílio, até dos mais “moderados”, ditos neo-conservadores, chegam às ofensas pessoais e às palavras nada edificantes. Alguns ultrapassam o nível da animalidade em sua furiosa guerra contra os católicos tradicionais, utilizando-se do mais baixo nível moral, dando demonstração, assim, do quanto o concílio é “eficaz” na santificação de suas almas. Todos estes argumentos ad hominem somente mostram a incapacidade de argumentar contra as evidentes rupturas do concílio com a Tradição. Tudo o que eles podem fazer é repetir, ad nauseam, a petição de princípio de que o Vaticano II é um concílio com a mesma autoridade dos demais.

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PS: este é apenas o primeiro artigo da série sobre a credibilidade do concílio Vaticano II. Com este artigo isolado não temos nenhuma pretensão de responder a todas as objeções que se possam fazer em defesa do concílio.  Muitas outras argumentações ainda serão apresentadas. Pedimos a paciência dos opositores até que cheguemos ao final da série.

A inculturação da liturgia promovida pelo Vaticano II

Mesmo com a toda a opressão modernista, com todo o silêncio a que a parte podre do clero reduziu a Tradição, grande parte dos católicos inocentes que estão nas mãos dos conciliares repudia as inovações litúrgicas mais abusivas. Muitas vezes, como já aconteceu mesmo comigo, os católicos buscam uma missa onde não haja barulho, músicas impróprias, danças, teatros e encenações. Quantos católicos, com um mínimo de noção de nossa santa religião, aprovam as missas inculturadas, isto é, aquelas profundamente modificadas para “refletir a cultura local”? Missas adaptadas às diversas culturas e regiões dividem a Igreja, abrem brechas para profanações, tiram o sentido do sagrado, pois demonstram que a sua preocupação é o homem, e não Deus.

Vejamos o que nos diz São Pio V:

(…) é soberanamente oportuno que, na Igreja de Deus, haja uma só maneira de salmodiar e um só rito para celebrar a Missa. (Quo Primum Tempore, 3)

O Concílio Vaticano II, conforme dizem seus aguerridos defensores, não teria rompido com a Tradição. Será que isto corresponde à realidade? Já tivemos a oportunidade de demonstrar, em diversas ocasiões, que a resposta é negativa. Lendo a afirmação de São Pio V, destacada acima, e comparando-a ao texto do concílio, podemos constatar mais uma oposição:

Não é desejo da Igreja impor, nem mesmo na Liturgia, a não ser quando está em causa a fé e o bem de toda a comunidade, uma forma única e rígida, mas respeitar e procurar desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos. A Igreja considera com benevolência tudo o que nos seus costumes não está indissolùvelmente ligado a superstições e erros, e, quando é possível, mantem-no inalterável, por vezes chega a aceitá-lo na Liturgia, se se harmoniza com o verdadeiro e autêntico espírito litúrgico. (Sacrossanctum Concilium, 37)

Para São Pio V, é útil que haja um só rito para a Santa Missa na Igreja de Deus. Para o concílio Vaticano II, não há desejo de impor “uma forma única e rígida nem mesmo em liturgia”. Ó cegos defensores do concílio, respondei-me: São Pio V estava errado ao impor uma forma única e rígida para a Santa Missa?

Mais uma contradição entre o “sacrossanto” concílio e a Tradição. E o Vaticano II não queria apenas algumas adaptações, mas sim “desenvolver as qualidades e dotes de espírito das várias raças e povos“.

Quando vemos, portanto, uma missa “crioula”, ou uma missa “afro” (esta outra em plena Basílica de Nossa Senhora Aparecida – imaginem se alguém pedisse para celebrar a Missa Tridentina!) , ou uma missa “cowboy”, ou qualquer outro desvio da missa para se adaptar às culturas, podemos perguntar se não tem grande culpa o concílio por ter aberto a brecha para a inculturação.

O concílio reconhece que a Sé Apostólica deve dar seu consentimento para a introdução das adaptações litúrgicas (SC 40.1). Mas, será que isto isentaria a culpa do concílio pelos abusos que vemos por toda parte? Cremos que não, e apresentaremos nossos motivos para assim pensar.

Primeiro, o concílio não deveria jamais propor algo que é contrário ao bem da Igreja e que abre a porta para muitos abusos, como é o caso das adaptações regionais. Pois, como disse São Pio V, é necessário que haja, na Igreja Romana, um só rito para celebrar a Missa. O concílio deveria ter reforçado a necessidade da unidade de rito da Igreja, e não ter proposto a inculturação.

Depois, Paulo VI era um liberal, o que implica que ele não tinha pulso firme para conter os bispos rebeldes. Veja-se o caso exemplar, relatado pelo Pe Ralph Wiltgen em “O Reno se lança no Tibre”, que o papa chorou quando percebeu que fora enganado pelos bispos modernistas, mas não tomou nenhuma atitude contra eles. De acordo com o mesmo texto do concílio, a Sé Apostólica deveria apenas autorizar ou não as modificações, cuja competência para elaboração pertencia às Conferências espiscopais (SC 22.2, 39, 40.1, 40.2)! Ora, conferências episcopais dominadas por bispos modernistas, fazendo pressão sobre um papa fraco (na melhor das hipóteses), poderia acabar em que, senão nas mais variadas formas de inculturação?

Por conta deste liberalismo, depois de ter aberto a brecha para as modificações regionalizadas da liturgia, a reserva da Sé Apostólica acabava sendo letra morta frente à agitação dos espíritos pseudo-reformadores. Somente uma ação enérgica da Santa Sé poderia conter o estrago provocado pelo estímulo de liberdade concedido pelo concílio. Mas o liberalismo dos papas pós-conciliares os impediu de qualquer atitude. O resultado todos nós conhecemos.

Vamos ler alguns trechos da Sacrossanctum Concilium para reforçar o que dissemos nos parágrafos anteriores:

Será da atribuição da competente autoridade eclesiástica territorial, de que fala o art. 22 § 2, determinar as várias adaptações a fazer, especialmente no que se refere à administração dos sacramentos, aos sacramentais, às procissões, à língua litúrgica, à música sacra e às artes, dentro dos limites estabelecidos nas edições típicas dos livros litúrgicos e sempre segundo as normas fundamentais desta Constituição. (SC 39)

1) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2, considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspecto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia. Proponham-se à Sé Apostólica as adaptações julgadas úteis ou necessárias, para serem introduzidas com o seu consentimento. (SC 40)

2) Para se fazer a adaptação com a devida cautela, a Sé Apostólica poderá dar, se for necessário, à mesma autoridade eclesiástica territorial a faculdade de permitir e dirigir as experiências [sic] prévias que forem precisas, em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado. (SC 40)

Segundo o concílio, portanto, a iniciativa para propor as adaptações caberia às Conferências Episcopais – dominadas pelos modernistas, nunca é demais lembrar-, e à Santa Sé caberia dar ou não seu consentimento. Pior do que isso, o concílio abriu a possibilidade de se transformar a Liturgia da Igreja em “laboratório” onde se realizam experiências para poder determinar melhor como se deveria fazer a adaptação desta liturgia às tradições e gênio de cada povo… Tudo sem romper com Tradição bi-milenar da Igreja, claro! Ou você iria cometer o sacrilégio de supor que o imaculado super-concílio poderia romper com a Tradição?

Devemos considerar, também, a razão pela qual o concílio se propunha a fazer tais adaptações. E não é difícil entender que a causa final de tal reforma era servir ao homem, em pleno acordo com a blasfema e odiosa declaração da Gaudium et spes:

Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes. (Gaudium et spes, n. 12)

Se tudo deve ser ordenado em função do homem, e não mais de Deus, nada mais lógico do que adaptar a liturgia à situação de cada cultura e região, para melhor servir ao homem.

Não nos custa nada encontrar ensinamentos papais contrários ao Vaticano II. De fato, S.S. Gregório XVI, em sua bula Inter Gravissimas, de 3 de fevereiro de 1832, dirigida aos católicos armênios, já dizia que qualquer inovação a ser introduzida no rito armênio necessitava de autorização prévia da Santa Sé:

Occorre pertanto attenersi scrupolosamente alla prassi che vieta di introdurre qualsiasi innovazione nei riti della sacra liturgia senza avere interpellato la Sede Apostolica. Anche quando si trattasse di dar vita a cerimonie che sembrano meglio rispondere alle direttive liturgiche approvate dalla stessa Sede, è permesso solo per gravissimi motivi e dopo avere ottenuto la doverosa autorizzazione della Sede Apostolica. Vi è inoltre un motivo specifico per attenersi coscienziosamente, presso gli Armeni cattolici, a questa prassi, poiché nell’antica normativa Armena relativa al culto era permessa la celebrazione della Messa solenne soltanto secondo le prescritte cerimonie.

[É necessário, portanto, ater-se escrupulosamente à praxe que proíbe introduzir qualquer inovação nos ritos da sagrada liturgia sem ter interpelado a Sé Apostólica. Também quando se tratasse de dar vida a cerimônias que parecem melhor responder às diretivas litúrgicas aprovadas pela mesma Sé, é permitido apenas por gravíssimos motivos e depois de ter obtido a necessária autorização da Sé Apostólica. Além de que, a Vós, há um motivo específico para ater-se conscenciosamente, junto aos católicos armênios, a esta praxe, uma vez que na antiga normativa Armênia relativa ao culto era permitida a celebração da Missa solene apenas segundo as cerimônias prescritas.]

http://www.totustuustools.net/magistero/g16integ.htm

Vamos recapitular: antes do Concílio Vaticano II era necessária uma autorização prévia da Santa Sé para introduzir qualquer inovação nos ritos. A partir do concílio, fica aberta até mesmo a possibilidade de se conceder às Conferências Espiscopais a faculdade de realizar “experiências” no campo litúrgico. Tudo sem ruptura com a Tradição, claro. Acredite piamente nisso ou se prepare para ser chamado de rad trad, cismático, sede-vacantista prático, etc.

Vários outros trechos do mesmo documento conciliar repetem a autorização para introduzir adaptações regionais em diversos pontos da liturgia:

Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas. (SC 38)

Seja lícito admitir nas terras de Missão, ao lado dos elementos próprios da tradição cristã, os elementos de iniciação usados por cada um desses povos, na medida em que puderem integrar-se no rito cristão, segundo os art.s 37-40 desta Constituição. (SC 65)

Concede-se à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o art. 22 § 2 desta Constituição, a faculdade de preparar um rito próprio de acordo com o uso dos vários lugares e povos, devendo, porém, o sacerdote que assiste pedir e receber o consentimento dos nubentes. (SC 77)

As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã. Adapte-se mais o rito às condições e tradições das várias regiões,  mesmo na cor litúrgica. (SC 81)

Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas acções sagradas. (SC 119)

Assim, com bastante insistência, o concílio concedeu um grande estímulo para a inculturação do rito católico.

Todo o potencial destrutivo destas concessões conciliares fica mais evidente quando confrontados com a heresia do modernismo. De fato, S.S. São Pio X em sua memorável encíclica Pascendi, ao nos descrever o modernismo como o entende o crente, escrevia:

Esta comunicação da experiência às vezes lança raízes e vive; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles é a mesma coisa. E daqui, mais uma vez, se infere que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam. (Pascendi, 2)

Para os modernistas, portanto, vida e verdade se confundem. O que existe é verdadeiro, morre aquilo que é falso. Uma vez que as formas adaptadas dos ritos já estivessem em pleno uso, ainda que “experimental”, já se poderiam considerar bons e legítimos, segundo o modernismo. A mesma justificativa dos modernistas para afirmar que todas as religiões existentes são boas, pode ser aplicada também para afirmar que todas as formas litúrgicas existentes são boas.

Assim, não importava para a estratégia modernista que alguns trechos do concílio,  contendo reservas sobre a necessidade de estarem os ritos reformados de acordo com a regras da liturgia, pudessem ser lidos de forma ortodoxa. O que importava é que, na prática, após as formas adaptadas do novo rito estarem sendo celebradas, estarem “vivas”,  a leitura modernista destes fatos já seria suficiente para qualificá-las como legítimas. E que papa liberal teria força para fazer valer a autoridade de Roma? A triste história pós-conciliar nos confirma que nenhum deles agiu com firmeza contra estes abusos.

Depois de todas estas considerações, resta-nos apenas rebater um argumento muito repetido pelos neo-conservadores: o de que já havia abusos litúrgicos antes do Concílio Vaticano II e que, portanto, os atuais abusos não são culpa deste concílio. A primeira coisa a observar é que os abusos litúrgicos eram cometidos contra a autoridade da Igreja, cujos documentos eram firmes em ensinar a dignidade dos ritos. Com o concílio, em vez de se reforçar a rigidez dos ritos, abriu-se um enorme campo para inovações e adaptações às diversas culturas e povos, com direito até a executar experiências prévias – um convite irrecusável para deformar o rito romano. Ora, o concílio deixou por escrito aquilo que os modernistas queriam, e que souberam aproveitar muito bem. Além disso, a natureza e gravidade dos abusos litúrgicos depois do concílio não se comparam de forma alguma aos anteriores. O que se vê na igreja pós-conciliar são sacrilégios horríveis, cometidos até pela alta hierarquia da Igreja. Atitude enérgica de Roma? Não. Excomunhão mesmo, só para quem queria a Santa Missa de sempre e fez o que foi necessário para conservá-la.

A reforma litúrgica imposta pelo Concílio Vaticano II

Começamos, com este artigo, a análise e a crítica da constituição Sacrossanctum Concilium, que dispôs sobre a Sagrada Liturgia, no Vaticano II. Concentraremos, no presente, as atenções apenas sobre a reforma litúrgica imposta pelo concílio, deixando outros aspectos para serem tratados posteriormente. Como veremos, já é assunto para um artigo longo, e para muito mal-estar provocado pela forma como a letra do concílio se dirigiu à Igreja e sua liturgia.

Em 1570, Sua Santidade o Papa Pio V, de venerabilíssima memória, escreveu a bula “Quo Primum Tempore“, na qual, de maneira clara, objetiva e inquestionável, definiu a forma do rito romano como ela deveria permanecer para sempre, sem jamais ser alterada (os destaques, nestas e em outras citações, são nossos):

6 – E a fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por Nós, em todas as Igrejas. (…)

7 – Quanto a todas as outras sobreditas Igrejas, por Nossa presente Constituição, que será válida para sempre, Nós decretamos e ordenamos, sob pena de nossa indignação, que o uso de seus missais próprios seja supresso e sejam eles radical e totalmente rejeitados; e, quanto ao Nosso presente Missal recentemente publicado, nada jamais lhe deverá ser acrescentado, nem supresso, nem modificado. (…)

(…)

Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bemaventurados Apóstolos Pedro e Paulo.

As palavras de SS São Pio V não deixam a menor margem para dúvidas: o missal por ele aprovado terá validade para sempre, e jamais poderá ser modificado. Ninguém, que deseje permanecer fiel à Tradição e ao Magistério infalível da Igreja, pode, portanto, afirmar que haja qualquer brecha para se alterar a liturgia romana.

O cardeal Pacelli, futuro papa Pio XII, comentou sobre a mensagem de Fátima, onde Nossa Senhora advertia sobre o risco de uma mudança na liturgia:

Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora diante do perigo que ameaça a Igreja, é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, em sua liturgia, sua teologia e sua alma”.(…)

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=pacelli_3segredo

Apesar de tão claras palavras de São Pio V, e da admoestação de Nossa Senhora em Fátima, comentada pelo então cardeal Pacelli, o concílio Vaticano II propôs um ampla reforma litúrgica:

A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia.

Nesta reforma, proceda-se quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam com mais clareza as coisas santas que significam, e, quanto possível, o povo cristão possa mais fàcilmente apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária. (Sacrossanctum Concilium, 21)

Em outro artigo, já tivemos a oportunidade de apresentar os argumentos de que, se a Missa Tritendina não contém erros, como de fato não contém, não haveria motivos para ser modificada. Afinal, que motivo poderia ser alegado para se fazer uma reforma geral na liturgia sem admitir, implicitamente, que a atual continha muitos defeitos? O texto que destacamos acima traz implícitas estas acusações. De fato, ao afirmar que a reforma litúrgica haveria de “permitir ao povo cristão um ascesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém” e que “os textos e ritos reformados deveriam exprimir com maior clareza as coisas santas que significam”, a letra do concílio está implicitamente negando estas qualidades a Liturgia pré-conciliar.

O Concílio de Trento, dogmático e infalível, ensinou que a Missa não contém erros:

“Cân. 6. Se alguém disser que o cânon da Missa contém erros e, portanto, deve ser ab-rogado: seja anátema”.

“Cân. 7. Se alguém disser que as cerimônias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade: seja excomungado”.

Podemos, então, perguntar aos defensores da missa nova: se a Missa Tridentina não contém erros, por que haveria de ser reformada? E, aliás, amplamente reformada, como desejava o Concílio Vaticano II? Como responder a esta pergunta sem cair no anátema de Trento?

O concílio admite abertamente a introdução de inovações na liturgia:

Finalmente, não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes. (SC 23)

A ressalva de que as novas formas devessem surgir das já existentes não justifica as inovações, para sempre interditadas por São Pio V. Pelo contrário, somente causa estranheza como se poderia conciliar uma inovação com um simples desenvolvimento de formas já existentes. O resultado final, a missa nova, conteve muitas inovações a ponto de se poder dizer que foi “fabricada”, e não foi, de forma alguma, um desenvolvimento da Missa Tridentina.

Não menos estranha é a pressa do concílio em se fazer a revisão dos livros litúrgicos:

Faça-se o mais depressa possível a revisão dos livros litúrgicos, utilizando o trabalho de pessoas competentes e consultando Bispos de diversos países do mundo. (SC 25)

Somente se age com toda pressa possível quando se está em uma situação crítica, desesperadora. Será que o concílio assim considerava a liturgia da Igreja naquele momento? Estava tão errada ou tão inadequada que necessitava de ser revisada com toda a pressa possível?

Mas o trecho mais terrível deste documento conciliar é o seguinte:

O interesse pelo incremento e renovação da Liturgia é justamente considerado como um sinal dos desígnios providenciais de Deus sobre o nosso tempo, como uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja, e imprime uma nota distintiva à própria vida da Igreja, a todo o modo religioso de sentir e de agir do nosso tempo. (SC 43)

Muito pior que o aggiornamento, o concílio afirma que naquele momento estava havendo “uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja”… E eu que pensava que o Espírito Santo sempre e em todo o momento conduzia a Igreja, agora, por meio do “sacrossanto”, “imaculado” e “intocável” super-concílio, fiquei sabendo que a terceira pessoa da Santíssima Trindade estava fazendo apenas uma passagem pela Igreja naquela década de 1960… O texto conciliar é uma blasfêmia contra a ininterrupta assitência do Espírito Santo à sua Igreja. Se, por absurdo, admitíssemos qualquer grau de autoridade no Vaticano II, como poderíamos censurar os “movimentos” pós-conciliares que afirmam algo como um “renovamento” do Espírito a partir do concílio?

Respiremos fundo a fim de superar a nossa indignação contra o “sacrossanto” concílio e prossigamos a análise, pois ainda há muitos absurdos neste mesmo documento conciliar.

Afrontando desavergonhadamente a ordem de São Pio V de jamais se alterar o Missal, o concílio deu ordem de revisar o Ordinário:

50. O Ordinário da missa deve ser revisto, de modo que se manifeste mais claramente a estrutura de cada uma das suas partes bem como a sua mútua conexão, para facilitar uma participação piedosa e activa dos fiéis. Que os ritos se simplifiquem, bem respeitados na sua estrutura essencial; sejam omitidos todos os que, com o andar do tempo, se duplicaram ou menos ùtilmente se acrescentaram; restaurem-se, porém, se parecer oportuno ou necessário e segundo a antiga tradição dos Santos Padres, alguns que desapareceram com o tempo.

Como se colocou em destaque, o concílio não somente ordenou a revisão do Ordinário da Missa, como declarou a finalidade: “manifestar mais claramente a estrutura de cada uma de suas partes bem como sua mútua conexão”. Somos, então, obrigados a fazer a pergunta: o Ordinário antigo não possuía a clareza necessária? Era obscuro a tal ponto de exigir o pronunciamento de um concílio ecumênico para declarar a necessidade de tal revisão?

Os rituais dos sacramentos e sacramentais, à época do concílio, também não seriam suficientemente claros quanto à natureza e fim… Por isso, seria necessário aggiornarli:

Tendo-se introduzido, com o decorrer do tempo, no ritual dos sacramentos e sacramentais, elementos que tornam hoje menos claros a sua natureza e fim, e devendo por isso fazer-se algumas adaptações às necessidades do nosso tempo, o sagrado Concílio decretou o seguinte em ordem à sua revisão. (SC 62)

Em que as necessidades do nosso tempo diferiam dos tempos passados, isto o concílio não esclareceu. E nem poderia fazê-lo, pois as necessidades espirituais do homem, que são aquelas às quais os sacramentos e sacramentais atendem, são sempre as mesmas em todas as épocas, independentes das necessidades materiais. Mas a ânsia devoradora do aggiornamento, imbuída de filosofia evolucionista, não pode fazer estas considerações da filosofia perene, tão católicas.

O rito do batismo, seja o dos adultos como o das crianças, também deveria ser revisto:

Revejam-se tanto o rito simples do Baptismo de adultos, como o mais solene, tendo em conta a restauração do catecumenado, e insira-se no Missal romano a missa própria «para a administração do Baptismo». (SC 66)

Reveja-se o rito do Baptismo de crianças e adapte-se à sua real condição. Dê-se maior realce, no rito, à parte e aos deveres dos pais e padrinhos. (SC 67)

O rito da Confirmção também precisava ser revisto porque “a íntima união deste sacramento com toda a iniciação cristã” não estava bastante ressaltada:

Para fazer ressaltar a íntima união do sacramento da Confirmação com toda a iniciação cristã, reveja-se o rito deste sacramento; pela mesma razão, é muito conveniente, antes de o receber, fazer a renovação das promessas do Baptismo. (SC 71)

E o rito da Penitência? Segundo o concílio, também ele precisa ser revisto para ter mais clareza:

Revejam-se o rito e as fórmulas da Penitência de modo que exprimam com mais clareza a natureza e o efeito do sacramento. (SC 72)

A Unção dos Enfermos escaparia das reformas? Claro que não:

O número das unções deve regular-se segundo a oportunidade. Revejam-se as orações do rito da Unção dos enfermos, de modo que correspondam às diversas condições dos que recebem este sacramento. (SC 75)

O rito da Ordenações também não poderia escapar da fúria reformadora:

Faça-se a revisão do texto e das cerimónias do rito das Ordenações. As alocuções do Bispo, no início da ordenação ou sagração, podem ser em vernáculo. (SC 76)

Para não deixar de fora nenhum sacramento, reforme-se finalmente o rito do matrimônio, mas não sem perder a oportunidade de clamar por mais “clareza”:

A fim de indicar mais claramente a graça do sacramento e inculcar os deveres dos cônjuges, reveja-se e enriqueça-se o rito do Matrimónio que vem no Ritual romano. (SC 77)

As exéquias também precisam de reforma, pois as atuais não exprimem de maneira suficiente o sentido de passagem da morte cristã:

As exéquias devem exprimir melhor o sentido pascal da morte cristã.(SC 81)

Faça-se a revisão do rito de sepultura das crianças e dê-se-lhe missa própria. (SC 82)

O leitor já está cansado e indignado? Eu também estou. Mas vamos respirar fundo para suportar mais esta aberração do concílio:

Restaurem-se os hinos, segundo convenha, na sua forma original, tirando ou mudando tudo o que tenha ressaibos mitológicos ou for menos conforme com a piedade cristã. Se convier, admitam-se também outros que se encontram nas colecções hinológicas. (SC 93)

A Igreja, antes do concílio, estava permitido hinos com “rassaibos mitológicos e com elementos menos conformes com a piedade cristã”, julgando-se o concílio no dever de corrigir este grave desvio… Não vou nem comentar.

Para encerrar as citações:

Revejam-se o mais depressa possível, juntamente com os livros litúrgicos, conforme dispõe o art. 25, os cânones e determinações eclesiásticas atinentes ao conjunto das coisas externas que se referem ao culto, sobretudo quanto a uma construção funcional e digna dos edifícios sagrados, erecção e forma dos altares, nobreza, disposição e segurança dos sacrários, dignidade e funcionalidade do baptistério, conveniente disposição das imagens, decoração e ornamentos. Corrijam-se ou desapareçam as normas que parecem menos de acordo com a reforma da liturgia; mantenham-se e introduzam-se as que forem julgadas aptas a promovê-la. (SC 128)

Mais uma vez nos deparamos com a inexplicável pressa do concílio em reformar, como se estivesse a liturgia pré-conciliar da Igreja em uma situação de calamidade. Afinal de contas, que necessidade havia de se rever a construção dos edifícios sagrados, a forma dos altares, a disposição dos sacrários, etc? Se observarmos bem o que o concílio mandou rever, perceberemos que a pseudo-reforma do pós-concílio somente destruiu tudo o que havia de belo, de santo, de profundamente católico na liturgia da Igreja e em tudo o que se relaciona a ela.

As reformas continuam: o rito da consagração das Virgens (80), o Ofício divino (87-89), o ano litúrgico (107)… Tudo, tudo precisa ser mudado! Tudo precisa de mais clareza, precisa se expressar melhor, precisa corresponder melhor ao mundo de hoje… Não sobra pedra sobre pedra! Tudo está errado ou, na melhor da hipósteses, inadequado!

Seria ingenuidade demais não enxergar a mão dos hereges modernistas escrevendo a letra do concílio, desprovida de respeito por tudo aquilo que a piedade católica conservava na liturgia. Muito mais do que a crítica implícita nos textos que pedem a reforma geral – pois não se ordena a mudança daquilo que está perfeito-, a Sacrossanctum Concilium abriu aos modernistas a brecha para destruir a liturgia da Igreja. E, a história pós-conciliar prova, de maneira irrefutável, que os modernistas souberam aproveitar a oportunidade que eles mesmos criaram.

Ao ler a Sacrossanctum Concilium, com as imposições de alterações em todas as áreas da liturgia da Igreja, não é possível ficar com outra impressão senão a de que se insinua que tudo estaria errado, ou ao menos ultrapassado nesta matéria. A Igreja estaria dormindo, permitindo que toda sua liturgia se tornasse, em todos as áreas, inadequada para os tempos modernos. É a fúria do aggiornamento, esta nota tão característica do “espírito” do concílio, já condenado por Bento XVI, que ataca com toda sua violência. E a ferocidade desta revolução que tudo pretende renovar, como se caduco estivesse, ficou consignada na letra do concílio para perpétua – e infeliz – memória.

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PS: – todos os textos citados da Sacrossanctum Concilium foram retirados do site do Vaticano;

– há muitos outros aspectos a serem analisados na SC, trabalho que será feito em outros artigos.